2011-10-06

Homenagem a Steve Jobs e à Apple

Para não ficar somente na mesmice de fazer mais uma elegia a Steve Jobs, quero agora abrir uma porta para um outro tipo de nostalgia aos meus amigos veteranos que acompanham desde sempre a história da maçã. Ofereço a galeria de imagens abaixo, que contém um pouco de minha contribuição à imprensa especialista no mundo Apple.

É uma seleção de 50 capas favoritas da revista Macmania, a maioria com minha direção de arte a partir da edição 26, de 1995. A seguir, há algumas que produzi para a Macmais, revista para a qual colaboro desde sua fundação, após voltar de um hiato correspondente aos dois anos finais da Macmania. Entre capas toscas e refinadas, entre sinceras e sacanas, entre fotografadas e ilustradas, há de tudo.

Divirta-se observando os temas recorrentes e citações explícitas entre capas de épocas diferentes, bem como abordagens temáticas e visuais que certamente você nunca mais verá na forma como foram feitas em sua época original – pois simplesmente não existe mais revista no mundo tecnológico com o mesmo ecletismo visual imprevisível e ousadia perigosamente inconsequente das capas mostradas a seguir.


1994













1995













1996











1997











1998













1999









2000

















2001















2002













2006



2008



2009









Eu e a Apple... em forma resumida

O Apple II era apenas uma lenda distante quando eu estava na escola. Ouvi falar pela primeira vez do Macintosh em 1988 ou 89. Em 1992, por um golpe de sorte, eu já estava usando uma dessas cobiçadas máquinas, tendo me iniciado primeiro no mundo do IBM-PC - que não abandonei ao adotar o Mac, mantendo sempre uma “vida dupla” que era muito rara entre os aficionados da maçã, já que estes simplesmente não suportavam usar qualquer outro computador.

Em 1996 eu abandonei um excelente emprego no jornal Folha de S. Paulo para trabalhar em duas frentes: no estabelecimento da Web brasileira, no portal BOL da Abril – usando Macs em webdesign –, e na direção de arte e edição da revista Macmania. Surgida de um fanzine de humor dirigido estritamente aos adeptos da Apple, a revista era rebelde, militante, contestadora, alternativa, cool e hermética – à maneira do próprio computador que promovia com paixão. Sua aparência radical ocultava, todavia, reportagens de utilidade preciosa para os aventureiros que insistiam em remar contra a corrente nos revolucionários anos 1990.

Muita gente não “pegava” o conceito desafiador da publicação – incluindo, ironicamente, a própria Apple daquela época, com a qual a editora conduzia uma relação montanha-russa. Cultuada entre artistas, maldita entre engravatados, a Macmania levava seus temas muito a sério, mas não levava a si mesma a sério. Era transbordante de criatividade e vanguardismo, criando condições para projetos “spin-off” igualmente visionários como CyberComix, Magnet e Tupigrafia. Grandes sacrifícios pessoais foram empenhados pela sua enxuta equipe de produção. Foram oito anos de diversão alucinante e perrengues exasperadores ao lado dos fundadores Heinar Maracy e Tony de Marco.

Hoje sou colaborador peramanente da Macmais, uma revista muito mais tranquila, nesta época atual em que a Apple não tem mais que lutar desesperadamente pela sobrevivência, nem necessita provar coisa alguma a ninguém, como ocorria nos tempos da Macmania. A Macmais é comandada por Sérgio Miranda, que teve envolvimento na última fase da Macmania. Para constar, em determinados cantinhos das páginas da minha atual Digital Photographer Brasil você encontra um vestígio daquele espírito original de irreverência, criatividade e humor que os fãs da maçã sempre buscaram atribuir a si mesmos, à sombra intelectual do seu visionário máximo, Steve Jobs.

Minhas primeiras imagens digitais surgiram num IBM-PC e a minha primeira conexão à Internet aconteceu usando Windows na redação da Folha. Mas a minha vida online e meu portfólio profissional desenvolveram-se quase inteiramente em Macs. Quando já não trabalhava com design em tempo integral, fui o autor do logo do clube de usuários BR-MUG. Mais recentemente, me desfiz de uma coleção de Macs e outros produtos Apple fabricados entre 1983 e 2003, que coletei especificamente para estudar seu design industrial e escrever a coluna “Museu” na Macmais.

Não sou como o fã da Apple que corre para comprar seu mais recente gadget: não possuo iPhone até hoje, aguardo pacientemente a hora de ter um iPad, e o meu Mac atual é um mini de três anos de idade com um monitor Dell. Todavia, sou extremamente grato, no mínimo, por a Apple ter influenciado positivamente até os gadgets que ela não criou. E os que ela criou... bem, por toda parte neles se lê a assinatura de Steve Jobs, com seu inalcançável senso de experiência de uso elegante.

Quando eu trabalhava na Macmania, aturava muita hostilidade gratuita de não-usuários de Macs, só por não pensar igualzinho ao rebanho. Agora, ironicamente, a Apple é a marca mais “mainstream” do mundo eletrônico, tendo transcendido há muito o mundo bitolado da informática. O rebanho agora se exalta a cada novo lançamento de iGadget. A postura militante do fanboy é um anacronismo desnecessário. Em vez de nos focarmos tanto em produtos, deveríamos nos esforçar em interpretar e aplicar os valores envolvidos em sua concepção. Em lugar de lastimar a partida de Jobs, deveríamos buscar e reconhecer mais líderes capazes de inspirar pessoas criativas.

Reflita. Sem ser programador, Jobs foi responsável por alguns dos softwares mais brilhantes da história. Sem ser designer, ele foi responsável por alguns dos eletrônicos mais influentes. Seu método foi o de conceber uma visão e fazer seus associados trabalharem diligentemente para materializá-la, não importando o quanto demorasse e custasse para chegar lá. A história da Pixar, aliás, também é assim. Idem a da NeXT, que em seu tempo parecia um desperdício de esforço, mas da qual veio o software fundamental que usamos hoje em Macs, iPhones, iPads e iPods.

O recado de Jobs parece se resumir assim: o mundo dá voltas, mas somos nós que o fazemos rodar!