2011-08-16

Tem uma ideia? Realize. Depressa!

Um pequeno conto com moral da história no título.

Aqui vão duas fotos minhas de paisagens urbanas de São Paulo, a primeira de 19 de junho de 2008 e outra de 19 de maio de 2008:





Para a olho-de-peixe, usei um adaptador Opteka com aberrações tremendas sobre a lente zoom 18-55mm de uma Sony Alpha 200. Para o panorama, usei uma compacta Lumix FX100, de boas lembranças porém horrivelmente ruidosa. Opticamente, portanto, elas não se sustentam. Os assuntos também não são grande coisa. A olho-de-peixe é da obra da estação Higienópolis-Mackenzie do Metrô, tirada do décimo andar de um prédio do outro lado da rua da Consolação (obra essa que está paralisada desde então e manteve a mesma aparência inacabada, só que sem operários e sem máquinas). O panorama é da região do Rio Pequeno, com os fundos da Cidade Universitária e a favela São Remo conforme vistos da janela do apartamento onde morava então.

As imagens são provas de conceito, com assuntos de pouco interesse. O que elas trazem de interessante é a concepção técnica. Cada imagem é o resultado da fusão com máscara graduada entre duas imagens, tiradas com tripé da mesma posição, mesmo foco e mesma abertura, só que com doze horas de diferença.

As imagens foram postadas no Flickr na época. Havia duas olhos-de-peixe da obra do Metrô, uma com a luz invertida em relação à outra. Como deixei expirar a minha conta Pro no Flickr, as imagens foram "sequestradas" pelo site e sumiram de vista. Na época elas não chamaram a mínima atenção das pessoas que passavam pelo site, e por isso me desinteressei da técnica e não levei os experimentos adiante.

Agora fiquei sabendo que um renomado fotógrafo publicitário americano vem fazendo essencialmente a mesma coisa desde 2009, só que são paisagens bonitas de Nova York construídas a partir de múltiplas imagens de grande formato de 40 MP com a câmera instalada num guindaste. E está ganhando o mundo com exposições dessas fotos. Sem falar que já apareceu na PDN e no PetaPixel.

A minha frustração não é por ele ter "copiado" a ideia, porque não sou idiota de achar que um cara do calibre do Stephen Wilkes, que só faz trabalhos milionários, tenha copiado qualquer ideia do Flickr. Está claro que ele inventou a mesma coisa independentemente, como desenvolvimento natural de um insight técnico.

No segundo semestre de 2008, depois de duas seguidas aventuras profissionais desastradas, eu estava no "fundo do poço". Porém, foi ali que tive um insight sobre um possível futuro. Clicio deve se lembrar daquela noite em que o convidei para um café no Shopping Morumbi, a fim de ouvir seus conselhos e encorajamento; foi nessa conversa que pela primeira vez eu disse a alguém que trabalharia especificamente com fotografia. Ele me olhou com a expressão inalterada; ou achou a minha decisão natural, ou não acreditou de verdade...

Eu necessitava desesperadamente, por questões mais financeiras que existenciais, um "breakthrough" pessoal que na época ainda não veio. Mesmo se eu resolvesse tentar fazer um ensaio para uma exposição temática com aquele tipo de imagem inovador, faltariam-me quase todos os recursos para sua realização. Era o problema do ovo ou da galinha. O Flickr convenientemente escondeu as imagens de teste, que depois de ignoradas acabaram também esquecidas.

É fatal que aconteça algo assim na vida de qualquer artista visual, nesta época em que todos produzem cada vez mais ideias novas, mas o prestígio e o sucesso continuam escassos. Ou você inventa um conceito bacana, não o desenvolve e depois vê outra pessoa investir no mesmo conceito e colher todos os méritos; ou então, tem uma ideia original e, ao pesquisar sobre ela, descobre que já foi feita antes.

Agora estou montando gradualmente dois ensaios fotográficos para - espero! - futuramente expor, sendo que um deles novamente utiliza uma técnica avançada que combina a captura em condições específicas e a correspondente pós-produção. Este eu não estou mostrando por enquanto. Porém, desta vez espero exibir ao público o conceito bem aplicado, antes que novamente outro "gringo" melhor munido de recursos apareça e leve toda a fama pela técnica.

Algum curador lendo isto...?

2011-08-15

Blog para quê?

Achei neste assunto a oportunidade ideal para voltar a escrever descompromissadamente no blog, da mesma forma que fazia há dez anos.
Ontem a Ingrid e eu alugamos na 2001 um filme de Nora Ephron lançado há dois anos, "Julie & Julia" ("Julie & Julia" no IMDB).
É um drama pouco dramático e ligeiramente comédico sobre a blogueira texana que, oprimida por um emprego cansativo em Nova York, desafiou-se a cozinhar no prazo de um ano todos os 524 pratos do clássico primeiro livro de culinária francesa de Julia Child. O blog contando a experiência obteve grande audiência e foi transformado em livro, que por sua vez foi transformado no filme, rendendo muito dindim e entrevistas televisivas para a moça. Enfim, é a história dos sonhos de todo blogueiro do começo da década de 2000.
A fim de estabelecer (ou mais honestamente, forçar) um paralelo entre as vidas das duas mulheres, a história alterna cenas das vidas de ambas durante os anos de 2002-2003 (Julie) e 1949-1961 (Julia).
A julgar pela capa do DVD, você pode pensar que se trata de uma comedinha romântica, o que definitivamente não é, mesmo utilizando-se nessa capa o típico tratamento gráfico de comédia romântica, com o título confinado entre fotos separadas do elenco principal (com destaque para o absurdamente excessivo e desnecessário Photoshop no rosto de Meryl Streep - quando é que alguns caras vão aprender?).
Nem preciso começar a dizer que Meryl Streep está genial e as cenas com ela na França dos anos 1950 são vários níveis de grandeza mais interessantes que as da blogueira em NY, em que pese a atuação correta da doce Amy Adams. Na real, o filme deveria ser somente sobre Julia Child, pois Julie Powell não funciona bem como um vetor de empatia para o público – mais ainda porque a história dela já soa bem datada para quem vive de Internet.
É mais um bem-vindo filme celebratório da magia de cozinhar, bem fotografado e encenado com bom gosto. Harmoniza perfeitamente com muitos outros filmes envolvendo boa comida, qualquer um deles indicável para salvar gloriosamente o final de um domingo tenebroso e triste. Afinal, não existe um filme gastronômico que não seja feito para nos fazer sorrir. Certo?
A história de Julie acontece exatamente durante o auge mundial dos blogs pessoais, na mesma época em que uma horda de gente buscava fórmulas mágicas para "monetizar", isto é, angariar renda com blogs sobre obsessões pessoais específicas - e, quem sabe, ficar rico com o patrocínio de uma grande companhia de mídia do mundo "físico" após virar uma subcelebridade virtual, com milhares de fãs ardentes comentando sem questionar cada vomitada diária de 2 mil caracteres falando fundamentalmente sobre como é legal ser si mesmo.
Eu fui um blogueiro assíduo, mais interessado em comentar os acontecimentos do mundo cultural do que em contar com quem conversei ou o que jantei. Posso atestar que a ideia generalizada entre os blogs dessa segunda geração (2002-2005) era mesmo financiar um hobby sob o disfarce de um trabalho sério. O grosso desses neoblogueiros pertencia a apenas dois gêneros: "tecnologia" (computadores e Internet, não obstante a palavra tecnologia ser muito mais abrangente), e "bizarrices" (curiosidades e piadas, quase totalmente com base em material copiado de blogs gringos).
Nunca levei o povo do "blog comercial" muito em conta. Em retrospecto, tive o instinto correto: as pessoas se cansaram de ler e escrever "meus queridos diários" públicos, ou pelo menos, desistiram de transformá-los em produtos comerciais. Os bons blogs remanescentes são temáticos e indistinguíveis do jornalismo tradicional, tanto no método como na forma.
Não obstante a aparente ingenuidade de Julie Powell no filme, ela criou seu blog já pensando nele como uma carreira em potencial. Tanto que o blog tem o nome de "projeto". O desafio culinário teve meta clara: tornar-se famosa por seu próprio esforço e então converter o blog em produtos – livro, filme, mais um livro... E deu certo.
No entanto, seu blog parou de receber atualizações em 2010, e o de seu marido bom-moço nada apresenta de novo desde 2007. Opa. Que será que deu errado?
O filme busca transmitir a dedicação de uma pessoa a transformar a sua vida positivamente, baseada no bom exemplo de uma figura inspiradora. No filme, a performance simpática de Amy Adams como Julie e as musiquinhas bonitinhas que tocam a quase todo instante não traem a sutil, porém insistente, sensação latente de que a história real não foi tão fofa e bonitinha.
Julia Child ainda era viva quando Julie Powell fez o blog; soube dele quando começou a "bombar" nos jornais e revistas. Mas não quis associar seu nome ilustre ao da blogueira. No filme, essa revelação soa como uma atroz e cruel injustiça. Mas no mundo real ficamos sabendo que Julia não enxergou no blog nada além de um golpe publicitário à sua custa. E ela tinha direito de pensar assim.
A fim de estabelecer meu próprio julgamento, encontrei o blog e dei uma lida básica nele.
O blog é extraordinariamente insípido, com narrativa fragmentada e incompleta, tentando despertar interesse pelo que não é dito. É pontuado por palavrões que não estão ali para dar ênfase, mas somente para ocupar o espaço de outras palavras mais adequadas que evidentemente não constam no vocabulário da autora. Soa até como audácia alguém lançar-se escritor com um texto tão raso.
Julie diz no blog o que cozinhou em cada dia, cita um monte de nomes de amigos sobre os quais nunca somos informados, reclama repetitivamente do metrô de NY. A parte útil é que ela conta as surpresas e dificuldades envolvidas na preparação dos pratos, como a tarefa de, dia após dia, encontrar ingredientes raríssimos nas mercearias de Nova York, além da descrição de dicas essenciais para fazer as receitas funcionarem.
Notei também, todavia, que ela jamais publica uma foto de um prato pronto. Mostrar o resultado é algo que mesmo no remoto ano de 2002 seria perfeitamente natural e esperável. Por que nem ela nem o marido pensaram em fotografar as comidas?
De pronto ou aos poucos, você compreende que o assunto verdadeiro do blog é o ego da autora. Raras vezes vi um blog diário tão autocentrado e autorreferente, e olhe que já aturei nesse ramo muita coisa vinda de teclados brasileiros.
Acerca desse narcisismo todo, no filme existem duas cenas muito reveladoras: uma em que o marido de Julia, o fino e amoroso diplomata Paul Child, a consola por não ter tido seu revolucionário livro de cozinha francesa acolhido pela primeira grande editora que ela buscou para publicá-lo nos EUA. Ele lembra que o livro promove uma causa maior – inspirar sofisticação nas donas-de-casa e nos cozinheiros americanos – e por isso não tem como dar errado. Em flagrante contraste, a cena correspondente na vida de Julie mostra como o marido dela, cansado de ser negligenciado em prol da obsessão masturbatória do blog de Julie, decide deixar a moça por uns dias, depois de uma briga bem horrorosa. Mas como o cara é bonzinho demais (OK, um bananão), ele retorna e ela pode seguir livre na sua egotrip. Foi fácil eu me identificar ali como espectador com o pobre rapaz. A única cena do filme que sugere sexo entre o casal acontece necessariamente depois que ela obtém a atenção da mídia. Até então, a garota vivia em histeria, reclamando de fadiga permanente e caindo para chorar no chão da cozinha por causa de um ingrediente que não combinou. Os últimos meses do blog expressam esse estado de espírito, de forma espalhada por dezenas de posts. A negatividade rampante da blogueira transparece até nos momentos em que pareceria haver celebração.
Exemplo de post do período inicial do blog: "Enquanto eu tomava banho, meu marido fofo descascou as batatas para mim." Exemplo do período final: "A secretária eletrônica tocou e era o sujeito da rádio australiana. Sem atender a ligação, tive um surto: por que vocês da mídia não me deixam em paz por um instante que seja? É ligação o tempo todo! Não aguento mais tanta pressão! Agora me envergonho de ter pensado assim, mas pelo bem da verdade, eis aqui registrado."
Pois bem: eu não quero ler um blog para ser lembrado de que há coisas demais para fazer que não estão sendo feitas, como ela incessantemente faz. É óbvio! Aliás, na condição de veterano autor de blogs, eu acho muito mais interessante, como estratégia para engajar leitores, falar do que vejo no mundo ao meu redor do que falar sobre a minha vida interior – especialmente se não estou me sentindo bem e há uma possibilidade clara de me arrepender depois do que disse. Mais especialmente ainda se esse arrependimento posterior não é sincero.
Confirmando minhas impressões iniciais, fui saber sobre o segundo livro de Powell e ele não pegou bem. Nesta resenha, a crítica não perdoa o solipsismo da autora: o livro aparentemente se propõe a contar os detalhes profissionais do trabalho num açougue, mas acaba se concentrando nos detalhes embaraçosos da relação extramatrimonial da autora. Opa! Ela obteve espaço na Slate, mesmo site onde publicou seu blog original, para escrever uma defesa pessoal desse livro, argumentando nominalmente contra cada um dos críticos que o desaprovaram. Que coisa feia!