2011-01-18

Logos, Parte 2



Landor, 1987



Landor, 1997

Logos, Parte 1



Lippincott, 2008



Len Comunicação e Branding, 2010

2011-01-03

Rio 2016: Mais um triunfo da banalidade

Assunto da semana nos círculos de design: a agência carioca Tátil entregou na virada do ano - camuflada entre os festejos sazonais e a mudança de presidente - a marca oficial da Olimpíada do Rio de Janeiro de 2016. No primeiro artigo que li sobre o assunto, cujo endereço não fiz questão de guardar, os comentários traziam elogios rasgados a ponto de serem suspeitos. Era um post totalmente chapa-branca. Vi o logo e mal acreditei.



Logo a seguir, vários sites acusaram o logo de ser uma cópia da pintura "A Dança", de Matisse. Também chovem alusões ao escandaloso plágio do simbolo do Carnaval de Salvador de 2004 sobre o símbolo da entidade norte-americana Telluride Foundation - este sim, conscientemente assemelhado ao quadro de Matisse. Esta busca do Google pelo logo da Telluride Foundation mostra como a marca nova e as suas supostas "inspirações" já estão indissociavelmente ligadas. Você pede Telluride e vêm dezenas de Rio 2016, junto com alguns Matisses e o logo queima-filme do Carnaval de Salvador de 2004.

Em resumo, nos dois primeiros dias já há um questionamento maciço e risadaria pública em relação a mais um logo para evento nacional de nível mundial. Isso nos leva a questionar, justificadamente, a competência de nossos designers de marcas de maneira geral - já que afirmam que o processo de criação envolveu 139 empresas e seis meses de trabalho - quanto a lisura do próprio processo de seleção e criação.

O fiasco imediatamente anterior foi o logo da Copa FIFA 2014, apelidado "Chico Xavier" - produto de um processo viciado envolvendo a CBF e a agência de propaganda Africa - que rendeu polêmica mundial nos meios do design e foi devidamente brutalizado por críticos e parodiadores Web afora. Aquele foi um trabalho tão deprimente em concepção e execução que eu não me animei a escrever uma crítica, não querendo levantar a bola dos envolvidos, mesmo que negativamente.

Agora é diferente. Sendo este símbolo das Olimpíadas ainda mais importante que o da FIFA e o correspondente evento situado dos anos além no futuro, seria razoável esperar que o vexame não se repetisse.

Agora, vamos ao ataque à marca (já que ela traz a reboque um documento oficial chamado de defesa de marca).

Este não é um artigo escrito simplesmente para aumentar o coro dos críticos e gozadores. A minha crítica ao logo Rio-2016 sai da linha de discussão que está rolando nos outros sites, que é baseada na fraca acusação de plágio de Matisse ou da Telluride. Como designer ou artista visual, eu não acho problema algum citar numa marca comercial uma imagem icônica de Matisse ou outro pintor famoso (e, no caso, devidamente falecido).

O meu problema mesmo é com essas PESSOINHAS FEITAS DE FITINHAS.

As PESSOINHAS FEITAS DE FITINHAS podem ser consideradas como uma ubíqua, porém peculiar, degenerescência do design gráfico do final do século 20. Provavelmente tiveram origem esportiva; acredito que tenham começado sua gestação monstruosa a partir da brilhante simbologia das modalidades esportivas criada por Otl Aicher para a Olimpíada de Munique de 1972.



Esses pictogramas - descritos somente por formas semiabstratas monocromáticas, compostas de retas e arcos de círculo em ângulos retos e de 45 graus, e inscritas em quadrados - são conceitualmente consistentes com o então emergente padrão pictográfico internacional, o qual culminou na norma ISO 7001 de sinalização pública.



Assim como os pictogramas de sinalização viraram coisa séria, os pictogramas esportivos viraram uma instituição permanente. Todas as Olímpiadas desde 1972, tanto as de inverno quanto as de verão, utilizam reestilizações com "sabor local", porém respeitosamente similares ao design original de 1972 (aqui você pode ver amostras do conjunto original e da versão que será usada em Londres em 2012).

Para além do esporte, as PESSOINHAS FEITAS DE FITINHAS apresentam conotações de bem-estar e vida saudável e logo passaram a adornar praticamente todo e qualquer produto dietético, assim como logos de academias de ginástica. O cacoete vazou também para o contexto dos administradores de recursos humanos, saúde pública...

Clique em cada um dos links acima para ver uma busca do Google por imagens de logos em cada categoria. Fique pasmo com a quantidade de designs inócuos, anódinos, fracos, ruins, medíocres, baseados em PESSOINHAS FEITAS DE FITINHAS.

Entramos no novo milênio com uma epidemia de logos de empresas, entidades, iniciativas, projetos, tudo sempre baseado em PESSOINHAS FEITAS DE FITINHAS, seja alçando voo num salto vigoroso, dando um chute adiante, abrindo os braços exultantes, ou dando-se as mãos de forma segura e conformista.

A Gestalt das PESSOINHAS FEITAS DE FITINHAS possui unicamente dois elementos, sendo portanto traçável por qualquer nível de energúmeno ou néscio em arte e design. Eis a receita: um círculo representa a cabeça, combinado ou não a um ou mais traços em fitas, que representam os membros do corpo - ou apenas um ou dois braços mais uma alusão ao tronco. Isso é algo mais primitivo ainda do que o "homem de palitinhos" que obrigam as criancinhas a desenhar no jardim da infância. Como o atual processo de criação gráfica é digital, raramente exigindo o gestual humano para produzir formas visuais, os modernos recursos de ilustração digital proveem o designer de curvas Bézier suavizadas, que emprestam um aspecto de precisão geométrica ao mais chutado e rudimentar dos pictogramas humanos.

O resultado é um cataclisma de mediocridade criativa em logos de todo tipo nos quais o tema por acaso inclua representações genéricas de seres humanos. Mesmo que as PESSOINHAS FEITAS DE FITINHAS tenham origem na própria Olimpíada, seu uso indiscriminado e maciço as torna, no mínimo, desaconselháveis. Muito mais ainda com um acabamento tão raso.

No logo Rio-2016, as PESSOINHAS FEITAS DE FITINHAS apresentam um detalhe peculiar, a única parte de sua concepção que apresenta uma fímbria de originalidade. Cada uma das três figuras humanas, além de ser decisivamente feita de uma FITINHA com a frente e o verso visíveis (Möbius teria gostado disso?), é ligada à outra pelo tronco e pelos braços. Esse arranjo evoca este vídeo recente da banda Klaxons:



(ADVERTÊNCIA: O conteúdo visual deste vídeo pode ofender sensibilidades mais tênues.)

Cabe uma observação rápida sobre as cores. Logos oficiais que pretendem representar o Brasil vivem presos, já desde o briefing inicial, a utilizar forçosamente as cores dos símbolos nacionais. Isso deveria darr uma liberdade para o designer, já que é possível nesse contexto usar todos os matizes do espectro, tirando-se laranja, vermelho e magenta. Sobra ainda muita cor para usar. Esta nova marca, porém, utiliza um laranja pesado, praticamente um vermelho mesmo, nos sombreados das partes amarelas para conseguir contraste entre a ingrata cor oficial e os fundos brancos onde o logo será majoritariamente aplicado. Esse avermelhamento, diriam os teoristas da conspiração, fazem parte de uma sutil tendência a incorporar o vermelho petista ao pendão nacional. Creia nisso ou não, como quiser; eu pessoalmente não duvido de mais nada.

Ah, a parte de cima do símbolo da Olimpíada é para lembrar a silhueta do Pão de Açúcar? Juro que não notei, precisou alguém vir me apontar isso. A cabecinha bem no meio e a falta de uma sugestão de horizonte destroem a possibilidade de associação imediata entre a montanha e o pictograma. Seja como for, a prática de inserir o Pão de Açúcar em toda e qualquer concorrência de marca que envolve a cidade do Rio de Janeiro é MAIS UM clichê preguiçoso que, por mera piedade à tão enxovalhada criatividade, deveria ser completamente evitado, ao menos pelas pessoas de bem.

Vamos lá, designers. Vocês conseguem fazer ou não melhor da próxima vez? Era o que pensava depois do logo da Copa. Quebrei a cara.

Update - O verdadeiro plágio poderia ser deste logo criado por um grupo de trabalho de estudantes em Singapura:



Update - 3 de janeiro
O Jornal Nacional, da TV Globo, exibiu matéria extremamente laudatória promovendo a nova "logomarca", como dizem. O símbolo foi chamado de encantador e de obra de arte.

Update - 4 de janeiro
Meu comentário que ficou faltando sobre o lettering do logo Rio-2016 pode resumir-se a uma imagem:

Dez anos

Este blog completou exatamente dez anos de existência no dia 6 de novembro.

A data passou batida, entre um fechamento de revista e um fechamento de pacote de fotografias. Mas sempre é ocasião para surpreender e quebrar expectativas evitando a tradicional retrospectiva, a velha enumeração via linha do tempo, a costumeira recapitulação e a típica autocongratulação.

Afinal de contas, este blog fez dez anos, a data passou absolutamente batida e isso não tem a menor importância para ninguém além de mim mesmo. Não há aqui fatos e datas de grande importância para evocar. Isso diz algo sobre as mudanças em minha vida pessoal nesse período. As quais tampouco cabe recapitular nem enumerar aqui. Mas posso deixar uma reminiscência da vida digital naqueles bravos tempos, sete meses após a explosão da bolha da Web e quatro anos antes da invenção do Orkut. Eu usava computadores Macintosh com processadores PowerPC, Mac OS 8 e Internet Explorer 3.

O blog refletia um desejo crescente de comunicação humana por um veículo mais sofisticado que a ancestral e tosca sala de bate-papo. Afinal, cada post do blog é um artigo - uma página autossuficiente na Web, com endereço definido e permanência na rede. Sentindo a perda paulatina do contexto dos meus primeiros posts, eu os revisei, anotei, corrigi e expliquei, vários deles acumulando assim notas e extensões umas sobre as outras, formando uma espécie de Talmud digital pessoal. Mas aprendi a preservar a vida íntima e não discutir todos os aspectos da minha vida no blog.

Em novembro de 2000, eu trabalhava na Internet havia quatro anos, admirava a cultura "cyber", mexia com computadores de vanguarda. Mas parecia não ter ainda realmente pego o espírito da rede. Meu site pessoal existia havia apenas um ano e não era mais do que um portfólio de ilustrações, temperado por alguns artigos escritos, que depois seriam transferidos para posts do blog. No fundo eu não sabia bem a que futuro me dirigia; usava o blog para prospectar novos caminhos.

Quando iniciei, existiam apenas uns 200 blogs em língua portuguesa, no total. Havia um senso de comunidade pioneira entre os blogueiros. Algo como 15% deles me liam diariamente, e eu em troca lia diariamente talvez uns 30% deles. Trocávamos emails. Alguns organizaram listas de discussão, outros fizeram convenções e fundaram coletivos. Vários mantinham rixas online, com posts de indiretas, acusações e críticas mútuas. Era normal um post de um blogueiro ser respondido pelo outro e este novamente respondido, formando uma conversa - diferentemente da prática atual, em que muitos simplesmente repetem o conteúdo que gostam nos outros. Hoje, muitos veteranos ainda estão ativos com seus blogs, embora naturalmente tenham se diversificado nas mídias em que atuam.

A construção de um site pessoal era uma obsessão que tomava tempo livre dos pioneiros da Web, pois além de possuir conteúdo, seu autor precisava entender das ferramentas de publicação de conteúdo, o que tornava a tarefa cansativa e frustrante para não-geeks. Sem falar na incrível incidência de falhas tecnológicas: computadores travando, conexões caindo e servidores pifando, todos os dias.

A mania dos blogs agravou-se com a inclusão de sistemas de comentários, porque aí cada post iniciava um debate público extenso e absorvente. Diferentemente de hoje, a grande maioria dos comentadores era gente com algo a acrescentar. Por fim, vieram os blogs patrocinados, que insuflaram uma minibolha tardia. Mas a essa altura já existiam redes sociais. O povo não-geek viu que manter um blog não era algo essencial para a vida social, da mesma maneira que antes percebera que não era essencial saber programar software para usar um computador.

Ferramentas prontas e acessíveis como os atuais Twitter e Facebook esvaziaram a primazia do blog como "diário virtual" ou "repositório de ensaios". O mural pessoal de cada usuário do Facebook nada mais é do que um tipo de blog. E não é coincidência que o criador do Blogger é o mesmo do Twitter, primeiro serviço de blog adequado para celulares (e também apto para pessoas sem nenhum conteúdo original próprio). Em retrospecto, esses foram os dois avanços mais significativos desde aquela época de noites em claro gastas estudando código HTML.

Update
Cinco anos atrás, escrevi um post de cinco anos do blog, e nele coloquei capturas de tela das versões anteriores do site. A quem interessar, eis o link.