2011-09-11

Meu Onze de Setembro


Imagem: Tony de Marco

Em setembro de 2001, eu trabalhava como diretor de arte, webdesigner e coeditor de texto na editora Bookmakers, que fazia as revistas Macmania e Tupigrafia e o site Magnet. A editora ficava na rua Topázio, na Aclimação, e eu morava então na rua Humberto I, quase esquina com a Pelotas, na Vila Mariana. Eu ia trabalhar a pé ou de bicicleta.

Na manhã de terça-feira, onze de setembro, o plano era dormir até tarde. Normalmente ia para a redação perto da hora do almoço, trabalhava lá noite adentro com frequência, e estava viciado em passar o começo da madrugada promovendo debates nos comentários do meu blog, que então tinha uma visitação considerável – a configuração e os padrões de tráfego da Web em 2001 ainda eram muito diferentes de hoje, e eu tratava o meu blog como uma espécie de revista virtual de ensaios rápidos. O site recebia muitos posts curtos todos os dias, meio que antecipando o ritmo de comunicação coletiva característico dos atuais Facebook e Twitter.

Acordei com um telefonema de meu pai. Naquele tempo, dormia provisoriamente num tatami em vez de uma cama; dali a exatamente dois anos, o tatami foi doado para a Comunidade Zen Budista e ainda hoje presta serviço no templo Taikozan Tenzuizenji. Diante do meu leito havia uma TV de 14 polegadas e uma caixinha de TV a cabo que recebia vários canais de notícias estrangeiros, incluindo CNN e BBC.

Meu pai nunca me ligava para me acordar, daquela forma. Jamais. Atendi já sobressaltado, mas ainda entorpecido pelo sono. Ele berrou na minha orelha: LIGUE A TEVÊ NESTE MESMO INSTANTE E VEJA. Eu: Mas o que foi? Sempre conversador e bem-humorado, desta vez ele não tinha paciência nem para me dar uma descrição. SIMPLESMENTE ASSISTA! É INACREDITÁVEL.

Quase todos os canais de TV estampavam ao vivo as absurdas imagens dos dois edifícios fumegando pelo topo, lembrando um par de charutos acesos numa escala muito errada. E num milissegundo entendi uma coisa fundamental: se os dois edifícios ardiam ao mesmo tempo, isso só podia significar ataque terrorista. Uma bomba em cada um. Óbvio.

Não eram bombas. Apenas alguns segundos a seguir, vi o replay do segundo avião penetrando na segunda torre, à maneira de um mergulhador olímpico na água tranquila da piscina – seguido de uma bola incandescente evidentemente contendo milhares de fragmentos humanos inocentes em desintegração, em tempo real à vista de todo o planeta. Jamais vira um crime cometido com tão vasta amplitude e instantaneidade, e certamente esse seria o maior de que tive conhecimento desde as bombas atômicas no Japão em 1945.

Não lembro se dali em diante continuei a conversa com meu pai ou se desligara o telefone. Lembro que o tempo já fluía num ritmo diferente. A própria luz do dia era outra quando saí de casa. O tempo estava bonito, até melhor do que hoje, dez anos depois. Mas o mundo acabara de saltar para outro nível de energia emocional, e aquela sensação me atingia mesmo ao estar sozinho e sem TV ou Internet por perto.

Fui a pé para o trabalho, provavelmente acompanhando o drama com um rádio de bolso e fones de ouvido. Parei na padaria Jennifer, na esquina da Rua Apeninos com a Arujá, onde às vezes eu comprava um excelente sonho recheado e pãezinhos quentes para fazer o café da manhã na redação. Reunido a um grupo de outros fregueses, vi em outra televisão pequenina, suspensa do teto, o desabamento da primeira das duas torres, acompanhado da narração original: IT HAS COLLAPSED. THE SOUTH TOWER HAS COLLAPSED.

Então, houve outro salto na energia do ambiente. Mais uma vez o ar do dia e o correr do tempo mudaram. Uma vibração decididamente sinistra. Um crepúsculo da razão.

Uma coisa que vocês outros podem não lembrar, especialmente os muito jovens que já nasceram no mundo conectado, é que o desastre do WTC foi, ao longo do primeiro dia, tema de um amplo espectro de piadas cruéis, análises cínicas, justificações para o terrorismo e críticas violentas aos EUA. Aposto que muitos dos autores dessas tiradas perversas não assumiriam hoje o que disseram então.

Não se justifica, mas se explica. Nos meses que precederam o ataque, o clima era muito menos favorável para o Império Americano do que hoje, apesar de todos os erros que seguiram sendo cometidos pelos políticos e empresários do país, em particular a farsa chamada "Guerra ao Terror" – que serviu de pretexto para a imposição de interesses localizados das indústrias de petróleo e armamentos dos EUA, além de dar fôlego para a ultradireita radical intolerante, intelectualmente desonesta e po princípio violenta em sua defesa de causa. Além disso, causou um medo irracional coletivo que praticamente fechou as fronteiras do país e botou em suspeita redobrada todo "terceiromundista".

Ouvi "Bem Feito" muitas e muitas vezes, naquele dia e nos seguintes.

As postagens dessa época em meu blog foram removids em 2003 e nunca foram repostas. Estranhamente, até os emails trocados esse dia, que deveriam estar arquivados, também não existem mais. Minha única entrada no blog do dia do atentado que era digna de nota fora postada ainda antes de eu sair de casa, antes portanto da implosão dos prédios do WTC, e dizia assim:


NÃO!
 

Outras postagens, bem mais recentes, foram recuperadas. Aqui vão algumas, que dão uma boa medida dos sentimentos de loucura e paranoia que dominavam o mundo virtual: o crepúsculo da razão abatia-se também sobre os brazucas opinionados.

Sexta-feira, Setembro 14, 2001

06:01 Passaram três dias e quando lembro do horror ainda me dá a sensação de que foi só um devaneio bobo ou um filme em que dormi no meio. Tem uma parte de mim que não registra o acontecimento e acabou-se. Que nem esse pessoal que ainda fala do WTC no tempo presente.

06:05 E cansei de escutar que, à parte o prejuízo humano, o WTC não foi uma grande perda para a arquitetura mundial, porque era "feio". Coerência zero - como, a rigor, todo juízo estético pessoal.

Sábado, Setembro 15, 2001

14:25 Recomendo a atual edição de papel da CartaCapital. Na página 5 da revista lemos: "Esta guerra é o fruto envenenado da globalização."

14:36 Com tantos sites alterados para lembrar o desastre do WTC, eu estranhei o aparente descaso da Apple. Bom, finalmente mudaram a home page. Não é nem realmente uma questão humanitária: é que até pega mal se as empresas não se manifestarem.

14:38 O Jornal do Brasil fez uma matéria revelando que uma parcela importante da atual juventude acha que o que aconteceu foi "bem feito" para os EUA. O problema é que essa opinião isoladamente não equivale diretamente a antiamericanismo. Da mesma forma que muitos dos manifestantes anarquistas contra o G8 não eram contra a globalização em si, mas foram rotulados pela mídia de "antiglobalização" e dane-se se a verdade é mais complexa. Em um momento de crise, as pessoas só enxergam os extremos. A tolerância a opiniões diversas e a sutileza de conceito vão pro inferno. Na maniqueização das desigualdades, nossa cultura dá um enorme passo para trás. Todos ficamos um pouco mais idiotas.

15:13 Pelo que leio em sites pessoais e listas por aí, parece que agora ser racista contra árabes em geral é permitido e até de bom tom. De novo: todo mundo é idiota.

15:52 Você já recebeu o horrendo spam com o GIF animado da águia chorando?

15:54 Você já experimentou escrever "NY" (ou, ainda pior, "Q33 NYC") na fonte Wingdings?



15:58 Frases que captei de orelhada na CNN, hoje:
– Eles estão em guerra contra o American Way of Life.
– Partem para isso em vez de usar meios democráticos.
– Nós temos a responsabilidade de livrar o mundo do mal.
Muita gente simplesmente não entende o que está acontecendo, não reconhece a culpa dos EUA na hostilidade, não compreende os motivos do inimigo, mas posa de "consultor" e fala essas merdas na TV em cadeia mundial. Saco!
Já dizia Sun Tzu que um pré-requisito para vencer o inimigo é conhecê-lo. Se alguns americanos em posições de destaque se despissem da arrogância e o fizessem, não teria havido atentado às torres, não haveria guerra. Mas não. Tomam porrada e se fazem de vítimas para justificar a sanha vingativa. E os civis inocentes que se ferrem - de ambos os lados.

Segunda-feira, Setembro 17, 2001

02:37 De uma testemunha ocular do desastre em NY, no site da Lili (liliwhatever.blogspot.com):
"Quando cheguei mais perto o cheiro da morte estava animal. Quem já foi em matadouro ou curtume sabe qual é o cheiro. Insuportável."

02:44 1984: A página da GloboNews.com que dava como notícia real a piada de que "a Microsoft lançou um Flight Simulator sem o WTC" foi modificada. Simplesmente arrancaram o texto e deixaram todo o resto no ar. É esse o jeito Globo de consertar as "barrigas"...
[O que de fato ocorreu: o Flight Simulator foi adiado e lançado somente no ano seguinte, sem as torres.]

13:01 "A retaliação é uma armadilha. Em um mundo que deveria ter aprendido a seguir as regras da lei e não as da vingança, o presidente Bush parece estar se encaminhando diretamente para o desastre que Osama bin Laden lhe preparou. Não há dúvida sobre o que aconteceu na semana passada. Foi um crime contra a humanidade. Não podemos entender a necessidade que os EUA têm de retaliação, a não ser que aceitemos esse fato sinistro e terrível. Mas o crime foi cometido justamente para provocar esse golpe cego e arrogante que as forças armadas norte-americanas estão planejando."
- Robert Fisk

15:00 "Ignorance can be taught away, but stupidity must be slapped out."

17:40 Dois momentos de David Bowie:

I'm afraid of Americans
I'm afraid of the world
I'm afraid I can't help it
I'm afraid I can't

A little piece of you
The little peace in me
Will die [This is not a miracle]
For this is not America


19:47
U2 - New York

Voices on a cell phone
Voices from home
Voices through the hard sell
Voices down a stairwell
In New York
Just got a place in New York

New York, New York
New York

Irish, Italians, Jews and Hispanics
Religious nuts, political fanatics in the stew
Happily not like me and you
That's where I lost you

New York
New York

You better put the women and children first
But you've got an unquenchable thirst for New York

New York
New York
New York, New York


Quarta-feira, Setembro 19, 2001

03:14 Claro que num momento de verdadeira tensão mundial tinha que chegar um spam da TFP.

5 comentários:

  1. Belo post Mário, num outro blog alguém comentou que Hiroshima, e não 9/11 foi o maior ato terrorista da história. Protestei na hora, não se deve misturar as coisas, mesmo se for para criticar um desafeto. Um ataque durante uma guerra, onde ou se vence ou se é subjugado é diferente de um grupo com uma agenda política ou religiosa querer impor suas ideias através da violência. Não são a mesma coisa.

    Mas concordo plenamente contigo, ambos foram atos criminosos, porque qualquer guerra é um ato criminoso.

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  2. Cansei de ler sobre os bombardeios atômicos e concluir reiteradamente que ali o povo japonês foi punido covardemente, gratuitamente, e ainda mais gratuitamente porque a verdadeira intenção dos EUA era assustar a União Soviética. Em vez de ficarem assustados, toparam a competição e aí tivemos a Guerra da Coreia, Tsar Bomba, os mísseis de Cuba, Vietnam, Berlim... blah. Os americanos semppre argumentaram que uma invasão convencional do Japão custaria 3 milhões de vidas em 2 anos, mas um militar japonês da época aceitaria tranquilamente tal preço, o que só nos retorna à conclusão de que a guerra é sempre um crime.

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  3. Nunca ouvi falar de uma guerra onde um povo não tenha sido punido covardemente, e na maioria das vezes, gratuitamente tanto pelos inimigos quanto pelo próprio governo. A sua conclusão está alinhada com o que conhecemos sobre a história da humanidade.

    Uma invasão por terra ao Japão sem dúvida alguma traria um número ainda mais absurdo de mortes, enfraqueceria os americanos com o consumo enorme de recursos e deixaria uma Europa sem um plano Marshal à mercê da União Soviética e do comunismo.

    Talvez seja por isso que a guerra seja um crime tão grande, no final o título de "vencedor" é ambíguo, para dizer o mínimo. É um crime que tantos morram, que tantos outros sujem suas mãos de sangue, por tão poucos resultados.

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  4. A sua reconstituição da história nesse post é genial, Mario. Tua memória e teus documentos recuperados trazem a dimensão de quem pensa criticamente. Naquele momento, eu tinha 11 anos e pensei que eu viveria uma guerra mundial. Ano passado, porém, numa conferência sobre Guerra e História soube (porque não pude acompanhar) que um dos palestrantes disse que não há mais possibilidade de uma guerra mundial nos moldes daquela que o mundo viveu na década de 1940. As guerras são cruéis e mecânicas hoje em dia, mas extremamente localizadas. Os interesses que movem os homens em campos de batalha não sumiram, mas mudaram de estratégia. Acredito que a Segunda Guerra trouxe um modelo, sim, de ataque à população civil. E esse ataque à população civil está presente no se lançar de aviões a prédios e nas invasões do Iraque e do Afeganistão. Lembro que em 2003 fiquei congelada em frente à tevê, esperando para ver se o presidente americano decretaria guerra contra o Iraque. Chorei com a confirmação. Ainda acho que aquilo me tirou um tanto da crença que eu ainda infantilmente tinha na humanidade (pelo menos através de seus líderes). A única esperança possível em mim mora não no desejo de Paz Mundial que as Miss Universo continuam propagando, mas sim no conhecimento do indivíduo, que criticamente compreende que não é a invenção das alteridades simplistas (árabes em oposição a judeus, árabes em oposição a americanos, negros em oposição a brancos, ad infinitum) que justifica o mundo e suas relações.

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  5. Mesmo num ambiente intelectualmente sofisticado como o nosso, ainda se visa muito a criação de rótulos e categorias como maneira de organizar a nossa representação interna da realidade, o que é uma função fundamental do cérebro humano, mas não é a forma como a natureza factual se organiza. Nessa supersimplificação, sempre alguém sai perdendo.

    Pessoas em geral parecem vir de um molde pelo qual a sua identidade individual faz mais sentido a partir das coisas que rejeita e despreza do que a partir de suas afinidades.

    Eu fiquei um tanto horrorizado quando vi muitas mentes sofisticadas naquela época, em que a principal mídia social era o blog ensaístico, mergulharem com gosto nessa espiral infernal criada na era Bush pós-9/11. De sangue nos olhos, abriram campo para agressões ideológicas, desonestidades intelectuais e antagonismos cínicos, cultivados no contexto de forças políticas obscurantistas das quais nem tiravam nada para si, pelo que o esporte de escrever barbaridades pró-guerra e reacionárias parecia um hobby perverso.

    Alguns mudaram de tom, mas não pediram desculpas pelo que disseram. Quando se entediaram de acompanhar tantas guerras inconclusivas, começaram a se interessar por política nacional, e aí encontraram mais campo fértil para barbarizar. A cada campanha eleitoral o Twitter fica um nojo.

    Sempre achei que um blog de ensaioimplícitas, mesmo o mais obscuro, necessariamente tem uma responsabilidade básica com valores humanos comuns. Deve ser ligado a isso o motivo de haver muito menos sites hoje dedicados a discutir essas questões da forma que havia em 2001. Dá trabalho!

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