2011-04-04

Nosso problema é cultural

A minha recente viagem a Santiago serviu para refletir sobre muitas coisas que é preciso melhorar no ambiente urbano da região central de São Paulo.



O Chile é belo e elegante. E Santiago dá uma surra em São Paulo em matéria de engenharia civil, urbanismo e arquitetura.



Aa arquitetura é mais colorida, mais criativa, mais rica. Tem partes que parecem a Suíça ou a Alemanha, e não simplesmente por serem locais afluentes, mas pela própria concepção. Há muitos prédios modernos com múltiplos terraços abertos, como se chegu a fazer muito no centro velho de São Paulo na década de 1940. Há uma ou outra previsível torre de cristal com uma praça ampla ou esplanada aberta na frente. Só não há nada daquele estilo neoclássico de bloquinhos de Lego, nem do brutalismo estúpido e truculento ou do funcionalismo anódino e sem imaginação que compõem o rosto antipático e primitivo da nossa cidade.



Em São Paulo, na falta de um horizonte real que em Santiago ainda existe - são as montanhas próximas - a floresta de prédios forma um "skyline" bonito. Mas não se atreva a chegar perto dos edifícios, especialmente a pé!

Em Santiago é notável a conservação dos prédios antigos, se bem que quase não existe nada com mais de 250 anos de idade - suponho que a arquitetura colonial foi paulatinamente demolida pelos constantes terremotos. Levando-se em conta a questão sísmica, Santiago não tem o mínimo medo de erigir coisas cada vez mais altas, como o recente Titanium La Portada e o vizinho em construção Costanera Center, que terá mais de 300 metros de altura. É o o dobro do nosso Altino Arantes (Banespa), talvez o único edifício paulistano que aprendi a amar.

A cidade de SP era linda entre o período do auge do café e a época da Segunda Guerra Mundial. Fotos e filmes da época atestam que havia bulevares charmosos e alamedas ajardinadas, no mesmo estilo dos que ainda vemos em Santiago; eram ocorrência comum em São Paulo. A própria Avenida Paulista poderia ter se desenvolvido em outra direção e virado algo como o Passeig de Gràcia (passêtch da grácia) de Barcelona, por exemplo. Mais adiante você vai ver uma ou duas fotos que parecem ser de Paris, mas são de Santiago: São Paulo também já foi assim! O nosso desenvolvimento caótico pôs tudo isso abaixo. A cidade bonita foi demolida; não por terremotos, mas pelo frenesi especulativo, pelo extremismo rodoviarista, pela ausência total de planejamento e controle, e sob os ditames de modismos. Os jardins e sobrados foram substituídos por caixotes de concreto, e os vales aluviais por freeways entupidas de caminhões. A cidade não conseguiu desenvolver uma personalidade humana nos bairros mais novos: neles só se anda de carro, e os bairros mais desenvolvidos são cercados de muralhas. Nada disso vi em Santiago.

O que aconteceu às galerias comerciais do nosso centro histórico, palco dos meus passeios de infância com a mãe? Degradaram-se até ninguém mais querer fazer compras lá. Ensaiam uma recuperação incipiente há duas décadas, mas a sujeira e a decadência dominam. As pessoas em São Paulo desistiram de frequentar as galerias para irem dirigindo seus SUVs até shopping centers - caixas sem janelas encerrando coleções de lojas de luxo e restaurantes rápidos que, dessa forma reunidos, apresentam uma lógica de bunker.




Em Santiago são abundantes as charmosas galerias, com lojas clássicas e elegantes, onde o tempo parece passar mais devagar. Na área central, calçadões interligam tudo. As calçadas normais também são dignas de se ver e percorrer. Sempre largas, limpas, arborizadas e pavimentadas de forma uniforme.

E sem assaltantes armados à espreita.

Não deixa de existir gente pobre, miseráveis ou marginais por lá, mas não vi na minha frente o abismo social monstruoso que vejo todo dia em São Paulo. E olhe que procurei atentamente.





Muitas pessoas andam de bicicleta nessas calçadas; afinal o piso é desimpedido e os pedestres não se estressam com elas...



Vi incontável gente pedalando, e invariavelmente bem vestida: a maioria anda de terno, casaco ou vestido, e na maioria das vezes sem capacete. Ninguém querendo parecer atleta nem ativista urbano. As pessoas pedalam com as mesmas roupas, geralmente de estilo clássico e notável bom gosto, que usariam se estivessem a pé. Bicicleta lá não é, para um lado, ideologia política; nem para o outro, um "fashion statement". É simplesmente uma utilidade cotidiana trivial, assim como em Copenhagen ou Amsterdam.




Todo tipo de gente em Santiago usa a bicicleta, não basicamente trabalhadores pobres e "hipsters" de bairros ricos como acontece por aqui.



Muitas esquinas têm o piso dos carros elevado ao nível das calçadas, com o mesmo calçamento destas; é outro conforto para quem não está dirigindo. Os carros podem fazer conversão praticamente em qualquer esquina, e se há pedestre atravessando, desaceleram cortesmente, havendo sempre espaço reservado após cada esquina para o veículo parar e deixar as pessoas terminarem a travessia sem sustos. Assim, a travessia de pedestres e ciclistas ganha um importante grau de independência em relação aos semáforos dos veículos a motor, e tudo flui de maneira mais gentil. Demorei a me acostumar a não ver o carro como invasor e sim como coadjuvante no espaço público.




Mas sabe porque carros e pedestres convivem bem? Em grande parte - além do desenho inteligente dos cruzamentos, a parte mais perigosa de qualquer rua - porque o pedestre em geral faz sua parte, atravessando rigorosamente na faixa. Ciclistas também acham absolutamente normal parar nas esquinas e esperar o sinal abrir, como gente que também são.

(Não estou edulcorando a realidade, tenho ampla evidência fotográfica disso tudo.)



O Metrô de Santiago é outra coisa que dá especial vergonha na comparação ao nosso incompetente sistema, que é caro, desarticulado, saturado, pretensioso e mal planejado.

Lá, a tarifa é variável conforme o horário do dia, para incentivar o uso em horários mais vazios. Três linhas se intercruzam no centro, por sua vez dando acesso a outras duas, tornando extremamente fáceis e rápidas as viagens através da cidade.



Quando falei aos meus colegas brasileiros que o trem era movido a pneus, eles começaram a rir. Mas ridículos são eles em sua jequice provinciana, ao visitar uma cidade mais civilizada e rir automaticamente do que é diferente, sem raciocinar sobre a validade dessa diferença. O sistema de trens com pneus de Santiago é o mesmo dos metrôs de Montreal, Cidade do México e da Linha 14 de Paris. Ele permite aos trens serem mais ligeiros que as versões tradicionais com rodas de aço.

As estações são bem iluminadas e rigorosamente sinalizadas, com um padrão visual claro, consistente e uniforme - está ouvindo, Metrô de SP?

O que me dói acima de tudo é que o nosso metrô e o metrô de lá têm a mesma idade, mas o nosso ainda forma um rascunho de rede, com obras injustificavelmente atrasadas em mais de 30 anos em relação ao projeto original. Os projetos técnicos mudam ao sabor dos políticos no poder em cada momento. Até os nomes das estações sofrem interferências indevidas. A porção das atuais obras que compete à iniciativa privada está mais lenta e atrasada que a porção tocada pelo governo. Como explicar isso senão por incompetência administrativa das construtoras contratadas, ou pura e simples evasão de recursos em algum ponto do processo? O metrô de São Paulo é um sistema seriamente incompleto, que consegue a proeza contraditória de não interconectar muitos lugares importantes e mesmo assim ser inusável em horas de pico devido à saturação de passageiros. Como o metrô foi criado para ser uma espinha dorsal para todos os demais transportes, não investir suficientemente nele é o mesmo que manter a cidade sufocada. Este é um dos grandes problemas de São Paulo, juntamente com o trânsito caótico, que ao mesmo tempo é sua causa e também consequência.



Enquanto isso, o sistema de ônibus de Santiago foi reformulado há poucos anos e está todo tinindo, com uma maioria de carros duplos articulados. A única falha é que, para não contribuírem para a poluição do ar (Santiago e Sampa têm em comum o fenôneno atmosférico da inversão térmica), esses ônibus todos já deveriam ser movidos a eletricidade em vez de diesel. Espere… os ônibus de lá são de fabricação brasileira. Opa.



Mais coisas que foram feitas direito por lá… A via expressa que atravessa o centro é um túnel construído embaixo do rio, onde não incomoda ninguém. Imagine na Marginal do Tietê em SP um passeio como os do rio Sena em Paris, e a freeway convenientemente escondida. Para os caminhões de passagem para outras localidades, há um moderno rodoanel urbano com o percurso completo em 360 graus. Correção... são dois rodoanéis. Qual foi a opção de São Paulo? Primeiramente, transformar o rio em um imenso esgoto. Depois, retificá-lo e construir em ambas as margens rodovias expressas – atratores de tráfego permanentemente congestionados. Por fim, construir uma infinidade de viadutos e expansões que não resolvem nada. Essa fórmula foi, aliás, seguida à risca em toda a rede hidrográfica. São Paulo tem um talento não visto em qualquer outro lugar no mundo para envenenar, matar e sepultar seus rios sob asfalto.



Em Santiago, não se vê filas infinitas de carros parados no meio-fio, nem terrenos baldios adaptados para serem estacionamentos particulares por hora. Como foi obtida a proeza? Os bairros perto do centro têm estacionamentos construídos embaixo da rua.

Vou encerrar voltando ao tema inicial da arquitetura. O setor da cidade onde estávamos hospedados, o lado oeste de Las Condes, é apelidado de "Sanhattan" por causa dos prédios modernos. Notavelmente, os mais novos deles exibem uma leveza de traços que os monolitos da Berrini evitam. A diferença de estilo é eloquente. Entre nossa elite política e financeira, o que "liga" são coisas com aparência impositiva e brutalizante. Quanto aos prédios neoclássicos, entre nós tão vilanizados pelas pessoas de maior cultura e idolatrados pelos empresários que os mandam erigir... Meu hotel era neoclássico por fora e mais ainda por dentro. Só que era lindo. E então? Nosso vilão não é o neoclássico em si, mas o acabamento falso, rudimentar e apressado. Daria para fazer direito.

Eu acredito que edifícios medonhos e intimidadores têm um impacto psicológico negativo. Ajudam a nos instilar sentimentos de alienação e um mal-estar vago que se manifesta como componente do nosso comportamento geralmente paranoico e agressivo nas ruas. Também dão suporte à famosa síndrome de "espaço público = terra de ninguém onde se pode tudo", que afeta pessoas de todas as castas sociais.



Claramente não falta à cidade de São Paulo a vocação para fazer obras grandiosas e projetos monumentais, tanto quanto não falta a Santiago. Concluo que o problema de a nossa cidade ser desigual, agressiva, neurótica e desorganizada é uma questão de consciência. Como fazer para São Paulo ser menos feia, insensível e inóspita? Olhar o bom exemplo de fora ajuda; as soluções de Santiago que descrevi aqui são todas imitáveis por nós. Não nos faltam capacidade técnica nem recursos materiais; talvez apenas falte talento a alguns de nossos arquitetos, bom gosto aos empresários e incorporadores e iniciativa aos governantes...

O que faz uma cidade viver, para além das construções, é a maneira como ela engendra relações entre as pessoas que nela convivem sem se conhecer. São Paulo é uma cidade que alimenta terríveis relações negativas entre as pessoas, e tragicamente isso ocorre em grande escala. Para resgatar as relações positivas, a transformação precisa surgir de dentro de nós coletivamente. Em primeiro lugar, deve surgir uma nova atitude dos que estão em posições de poder e com capacidade de realização. O cidadão comum precisa também aprender a exigir mais e melhor, em vez de seguir premiando com seu voto fácil o novo viaduto inútil que ele ficará admirando toda manhã de dentro do congestionamento. Por fim, as duas castas de pessoas - a gente portadora da caneta decisória e a gente comum que está à merce de suas decisões - devem se aproximar nesse processo de refinamento. Tudo, enfim, acaba se resumindo à cultura.



Tenho que confessar que voltei do Chile para SP com uma vontadezinha passageira, porém real e perturbadora, de exílio. Afinal, o processo de refinamento da cultura cidadã é lento e, se alguém vai se beneficiar dele em minha cidade, serão nossos netos, pois nossa geração não está fazendo o que é preciso no ritmo necessário. Mas não custa apontar problemas e soluções. Quem sabe uma quantidade suficiente de gente o faz e inspira uma nova corrente de progresso? A esperança fica...

21 comentários:

  1. Mano,
    pois é, sempre vou para Buenos Aires, Lima e Santiago, são muito organizadas enquanto que aqui em sampa eu sou obrigado a acotovelar onibus e caminhão estando em cima da minha bike... triste para a cidade mais rica da america latina, q na opulencia do se ganhar dinheiro desmediu as relações humanas e suas reais necessidades na cidade...

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  2. Mario, uma curiosidade: O que você acha que falta para o Metrô de SP?
    Porque acho que com a primeira fase da Linha 4 completa e quando a Linha 5 deixando de ser um "ramalzinho", o nosso Metrô não deveria nada ao de Santiago...

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  3. A Linha 4 está demorando tanto que não a tenho mais no meu quadro mental, ao menos da forma que tinha quando era mais um entusiasta de ferrovias trouxa. E a 5 vai demorar mais ainda. Tanto que poderei ter saído da cidade ou até do país quando as linhas básicas estiverem funcionando. Pode perder a esperança de vê-las prontas para os Jogos Olímpicos. Presentemente, a saturação nas linhas 2 e 3 é tão grande que creio que o problema já não poderá ser amenizado pela inclusão da linha 4 como tronco estruturador. A estúpida ideia de fazer monotrilhos vem para terminar de arruinar o sistema.

    O que me dá mais perspectiva é que tenho os livros com o projeto original do Metrô de 1968, além de um filme sobre São Paulo em 1943, ambos inspiradores de depressão cívica.

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  4. Agora sim fiquei com vontade de conhecer o Chile.

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  5. Eu votaria em você para ministro dos transportes fácil fácil. Texto muito bem escrito.

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  6. Mario,

    fala o Thiago (@aldurin), do Twitter, outro dia. ;)

    gostaria de usar o seu texto em sala de aula. com indicação de fonte e, inclusive, ênfase na visita pra que os alunos vejam as belas fotos da cidade.

    espero que tudo bem quanto a isso. qualquer coisa, me avise e eu aborto (aldurin at gmail . com).

    abraço e parabéns pelo post.

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  7. Falaí, Xará.

    Excelente texto. Deu ainda mais vontade de conhecer o Chile.

    Você já leu o livro The Timeless Way of Building de Christopher Alexander? É um excelente trabalho sobre como construir prédios e cidades vivos e harmonizados. Se você nunca leu, acho que vai gostar muito.

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  8. Valeu pela sugestão, vou conferir!

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  9. Show. Quando ler contaí o que achou.

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  10. "Aa arquitetura é mais colorida..." Typo?

    Sobre o lento processo de refinamento da cultura cidadã, é também o que me faz pensar em sair do Brasil. Já que não chegaremos lá no meu tempo de vida, é muito mais fácil aprender holandês.

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  11. O que acontece é que na cidade de São Paulo, basicamente e principalmente durante a ditadura militar, se fizeram obras que seguiam a ideologia presente nas cidades americanas entre o fim da 2ª Guerra Mundial até o fim dos anos 60 e início dos anos 70 (os protestos populares, as reformas eleitorais que permitiram aos sem-carro votar mais facilmente e a crise do petróleo pós-guerra do Yom Kippur contribuíram para que essa ideologia mudasse por lá).

    Só que o problema no Brasil em geral e em São Paulo em particular, essa ideologia perdurou até o século 21. O Ademarismo, o Janismo e o Malufismo (não em termos de transparência ou não na condução das finanças públicas, mas em termos de forma de se pensar a cidade urbanisticamente) contaminou todas as tendências políticas da cidade, do PT ao DEM.

    Ainda hoje a figura do “tecnocrata tocador de obras” tem um grande atrativo político-econômico-cultural por aqui. Preservação da memória e do verde são considerados coisas de maluquinhos abraçadores de árvore ou de “losers” que não muita coisa a oferecer…

    São poucos os casos aqui na cidade de calçadas largas, lisas e arborizadas, como a gente vê nessas fotos de Santiago. Na verdade até haviam algumas assim aqui, mas elas foram estreitadas em alargamentos e/ou tiveram suas árvores arrancadas para facilitar o acesso a estacionamento, ou então podadas até a morte para dar lugar aos fios dos postes aéreos. Calçadas decentes a gente até encontra nos Jardins e em Higienópolis, mas fora desses bolsões de luxo é complicado o lance.

    Aqui em Sampa o que se vê comumente são calçadas estreitas, sujas, sem árvores e o que é pior, com o calçamento de cimento/concreto completamente detonado e irregular, o que gera poças nojentas na chuva e tombos vários e acúmulo de sujeira nos dias secos. Sem contar que muitas vezes cobrem as calçadas com um concretão cru e enrugado que no menor tombo pode provocar ferimentos sérios. Sem contar aquelas horrorosas coluninhas de ferro preenchidas com cimento para impedir que carros subam em cima das calçadas.

    Quanto ao metrô, bem… as linhas originais até tinham uma coerência de nomes e de estética, mas aí a coisa complicou quando se começou a nomear estações para homenagear grupos específicos, como torcedores de futebol…

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  12. Ah, sim: a Av. Paulista é cheia de espaços subterrâneos ocos que poderiam ser aproveitados de repente. Mas e aí, quem está a fim de fazer alguma coisa?

    Ah, é preferível fazer aqueles estacionamentos-prédio horrorosos que a gente vê principalmente no centro.

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  13. Putz! Belo texto!
    Pena que as autoridades responsáveis pelo urbanismo de São Paulo (e o que disseste vale para outras capitais brasileiras, mas São Paulo de fato é "hiper" em tudo) provavelmente não vão te ler. E ainda que leiam, provavelmente não aproveitaram nenhuma das tuas argutas observações.

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  14. Ótimo texto mesmo! Aproveitando o gancho quanto as calçadas, uma informação: quando eu fui prá lá, me informaram que as calçadas devem ser largas pelo fato de ser uma área de escape, fazendo com que se diminui o risco de pessoas serem atingidas por desabamento em caso de terremoto. ;)

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  15. O que seu texto me passou é que os chilenos são conscientes. Não só os usuários dos serviços mas também os empresários e o governo.

    É óbvio que não é um lugar perfeito, mas quando se compara com São Paulo os defeitos passam a ser ridiculamente pequenos.

    Belo post e muito bem ilustrado. Parabéns.

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  16. sempre que viajo, volto com essa sensação de vontade de exílio. não é uma sensação confortável; longe disso. mas são paulo me sufoca e, pior, me prende. me sinto prisioneira, meio viciada nos hábitos daqui.

    já gostava das suas fotos. acho justo dizer que agora gosto também do que você escreve.

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  17. Obrigado pelo elogio! Se me senti assim em Santiago, nem quero saber o que vai acontecer quando conhecer Londres, Paris, Milão, Amsterdam e Berlim. NY não vale comparar porque sei que muitas das nossas tosquices são patéticas tentativas de copiar mal o que existe em NY. Buenos Aires nem tem graça comentar, foi invadida e transformada num Mini-Brasil. Você faz força para ignorar os brazucas falando alto em português para que eles não puxem conversa. De resto, conheci Barcelona e partes da Suíça, mas Santiago me impactou em particular por ser relativamente perto daqui.

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  18. Conheço Santiago. A cidade é limpa, interessante e, acima de tudo, civilizada. Buenos Aires é mais bonita, e me corta o coração passear por aquelas praças lindas e bem conservadas e pensar no que se faz aqui no Rio com parques como o Campo de Santana.

    Conheço a península escandinava, incontáveis cidades européias e muitas cidades norte-americanas bonitas e competentes, como Boston, Baltimore, Portland, São Francisco. Chicago é linda, Nova York, apesar dos exageros, também. Na maioria desses cantos sinto uma raiva surda e profunda da mesquinharia dos nossos políticos e administradores, da sua falta de cultura e de visão.

    Mas -- essas coisas sempre vêm com conjunção adversativa -- em nenhum lugar fora daqui me sinto de fato em casa. Fico fascinada pelas cidades alguns dias, sinto a mesma vaga vontade de cair fora que você sentiu mas, no fim, o conforto de estar e se sentir em casa supera a sede de civilização, ou que nome se dê àquela vaga vontade.

    O único canto do mundo que conseguiu me conquistar foi, paradoxalmente, a India. Nova Delhi deixa São Paulo e Rio no chinelo em termos de caos urbanos, desordem, sujeira, falta de lógica e de transporte coletivo -- mas é genial como cebola histórica, cheia de camadas, e como ponto de convivência de toda sorte de bípedes e quadrúpedes.

    Devo sofrer algum tipo de desvio emocional complicado, mas acho lindo topar com vacas, cabras, camelos, cachorros e macacos por toda a parte.

    A sensação se repete nas cidades do interior. A Índia é over, muito over, mas não me canso daquela quantidade de informação nova (ainda que milenar), diferente, humana.

    Passei dois meses zanzando por lá há dois anos. Volto novamente no fim deste ano. Se eu tivesse condições, dividiria a minha vida entre o Rio e Nova Delhi.

    Não tenho nenhuma explicação lógica para isso. O pior é que não tenho nem ao menos uma explicação ilógica; não acredito em nada, muito menos em ashrams e em gurus indianos. Go figure.

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  19. Cora, você fala em políticos e administradores e eu penso, muitos antes deles, em nossa classe média-alta, alta e nouveau-riche urbana, que repetidamente deixa meu cabelo em pé de tanta obtusidade. Colocar a culpa da feiura da nossa cidade nos administradores é muito fácil. Alguém os elegeu. Não quem votou neles. Quem botou a grana de campanha neles. Eis a raiz da falta de gosto e critério para tudo. Esse assunto, aliás, está em debate aberto lá no Facebook.

    Estive na Suíça e morro de saudades, sete anos depois. Outras pessoas acham "boring" que eu adore a Suíça, um lugar "certinho demais". Mas quer saber? Estou atrás de ordem e sossego, mesmo. Pena que esses são valores tão fora de moda.

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