2011-04-03

O perfume



Estávamos passeando pela calçada do lado ímpar da Avenida Paulista, saindo da Casa das Rosas em direção à Joaquim Eugênio de Lima. À tarde teríamos de tomar caminhos separados, o tempo disponível era curto. Nos conhecíamos pessoalmente havia apenas duas horas, e antes disso, somente meia dúzia de tweets e uma horinha de chat. O dia começou com um café da manhã no Pão de Ló, com um Estadão por ela deixado estrategicamente sobre a mesa, para o caso de o papo gorar por chatice minha. O papo foi bizarro, mas de alguma maneira não foi preciso apelar para o jornal. Entre o café e a Casa das Rosas, tentamos achar uma vista panorâmica em dois prédios na Paulista, sem sucesso. Eu fui com o que hoje consideraria um autêntico "kit espanta-mulher": um chapéu ridículo, a mochila, minha camiseta "se tudo der errado viro jornalista" e um par de óculos gasto e riscado. E cheguei atrasado. Ela estava elegante com seu vestido liso cinzento, cinto claro, sapatos baixos e óculos escuros de alguma grife francesa. Os cabelos finos e dourados esvoaçariam delicadamente ao vento - caso naquela manhã de calor brutal sem nuvens houvesse vento.
Não havia vento, mas o ar moveu-se o suficiente para eu captar um fiapo de um aroma que me saudou de longe, como um velho confidente.
- Hum, senti agora um Chanel Nº 5 no ar. Quem terá passado por nós...?
- Eu estou usando o Chanel Nº 5!
- Não só percebi, como é meu perfume favorito...

Em 1999, comprei um frasco da Eau de Toilette somente para mim. Não para presentear a alguém, nem para eu mesmo usar, que não teria cabimento. Só para, vez ou outra, abrir e sentir o aroma novamente, estudar sua composição, mergulhar em seu mistério. Esse frasco ainda está bem cheio. E hoje pertence a ela, juntamente com um Eau de Parfum e outro vidro mais novo da Eau de Toilette, com a receita atualizada. São, portanto, três formulações diferentes do Nº5. Ao redor deles estão várias outras fragrâncias de primeira linha, alguns dos frascos também com uma década de vida: Angel de Thierry Mugler, Amarige de Givenchy, Aromatics Elixir de Clinique, Tommy Girl, Lolita Lempicka e Le Baiser de Lalique. Na média de todos, são florais doces, intensos e atrevidos, mas com um lado inocente.

Agora juntou-se ao acervo um remix do Nº5 lançado no ano passado e chamado Eau Première. Em vez daquele tom dourado da versão tradicional, é quase transparente. A composição puxa muito mais para o floral. É mais leve, alegre e descompromissado, sem aquele peso magnificente do original. Mas ainda é um Nº5, impossível de confundir com os outros florais doces. Altamente recomendado.



Nota

Estou lendo o fenomenal Perfumes: The A-Z Guide, uma espécie de "Guia Parker de Vinhos", só que sobre perfumes, com mais de 1200 resenhas. Fiquei espantado ao saber que nunca tinha sido feito antes um livro tão essencial como este. O autor é o cientista especializado em aromas Luca Turin e sua mulher. Os dois deram uma interessante entrevista sobre o trabalho aqui.

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