A data passou batida, entre um fechamento de revista e um fechamento de pacote de fotografias. Mas sempre é ocasião para surpreender e quebrar expectativas evitando a tradicional retrospectiva, a velha enumeração via linha do tempo, a costumeira recapitulação e a típica autocongratulação.
Afinal de contas, este blog fez dez anos, a data passou absolutamente batida e isso não tem a menor importância para ninguém além de mim mesmo. Não há aqui fatos e datas de grande importância para evocar. Isso diz algo sobre as mudanças em minha vida pessoal nesse período. As quais tampouco cabe recapitular nem enumerar aqui. Mas posso deixar uma reminiscência da vida digital naqueles bravos tempos, sete meses após a explosão da bolha da Web e quatro anos antes da invenção do Orkut. Eu usava computadores Macintosh com processadores PowerPC, Mac OS 8 e Internet Explorer 3.
O blog refletia um desejo crescente de comunicação humana por um veículo mais sofisticado que a ancestral e tosca sala de bate-papo. Afinal, cada post do blog é um artigo - uma página autossuficiente na Web, com endereço definido e permanência na rede. Sentindo a perda paulatina do contexto dos meus primeiros posts, eu os revisei, anotei, corrigi e expliquei, vários deles acumulando assim notas e extensões umas sobre as outras, formando uma espécie de Talmud digital pessoal. Mas aprendi a preservar a vida íntima e não discutir todos os aspectos da minha vida no blog.
Em novembro de 2000, eu trabalhava na Internet havia quatro anos, admirava a cultura "cyber", mexia com computadores de vanguarda. Mas parecia não ter ainda realmente pego o espírito da rede. Meu site pessoal existia havia apenas um ano e não era mais do que um portfólio de ilustrações, temperado por alguns artigos escritos, que depois seriam transferidos para posts do blog. No fundo eu não sabia bem a que futuro me dirigia; usava o blog para prospectar novos caminhos.
Quando iniciei, existiam apenas uns 200 blogs em língua portuguesa, no total. Havia um senso de comunidade pioneira entre os blogueiros. Algo como 15% deles me liam diariamente, e eu em troca lia diariamente talvez uns 30% deles. Trocávamos emails. Alguns organizaram listas de discussão, outros fizeram convenções e fundaram coletivos. Vários mantinham rixas online, com posts de indiretas, acusações e críticas mútuas. Era normal um post de um blogueiro ser respondido pelo outro e este novamente respondido, formando uma conversa - diferentemente da prática atual, em que muitos simplesmente repetem o conteúdo que gostam nos outros. Hoje, muitos veteranos ainda estão ativos com seus blogs, embora naturalmente tenham se diversificado nas mídias em que atuam.
A construção de um site pessoal era uma obsessão que tomava tempo livre dos pioneiros da Web, pois além de possuir conteúdo, seu autor precisava entender das ferramentas de publicação de conteúdo, o que tornava a tarefa cansativa e frustrante para não-geeks. Sem falar na incrível incidência de falhas tecnológicas: computadores travando, conexões caindo e servidores pifando, todos os dias.
A mania dos blogs agravou-se com a inclusão de sistemas de comentários, porque aí cada post iniciava um debate público extenso e absorvente. Diferentemente de hoje, a grande maioria dos comentadores era gente com algo a acrescentar. Por fim, vieram os blogs patrocinados, que insuflaram uma minibolha tardia. Mas a essa altura já existiam redes sociais. O povo não-geek viu que manter um blog não era algo essencial para a vida social, da mesma maneira que antes percebera que não era essencial saber programar software para usar um computador.
Ferramentas prontas e acessíveis como os atuais Twitter e Facebook esvaziaram a primazia do blog como "diário virtual" ou "repositório de ensaios". O mural pessoal de cada usuário do Facebook nada mais é do que um tipo de blog. E não é coincidência que o criador do Blogger é o mesmo do Twitter, primeiro serviço de blog adequado para celulares (e também apto para pessoas sem nenhum conteúdo original próprio). Em retrospecto, esses foram os dois avanços mais significativos desde aquela época de noites em claro gastas estudando código HTML.
Update
Cinco anos atrás, escrevi um post de cinco anos do blog, e nele coloquei capturas de tela das versões anteriores do site. A quem interessar, eis o link.
Cinco anos atrás, escrevi um post de cinco anos do blog, e nele coloquei capturas de tela das versões anteriores do site. A quem interessar, eis o link.


Oras, interessa a mim que te acompanho!
ResponderExcluirAh, se tiver paciência... http://luzdeluma.blogspot.com/2011/01/deixe-o-mundo-saber-porque-voce-tem.html
ResponderExcluirTenho sim. Seu blog mantém o espírito original daqueles tempos que evoquei. Há um senso de camaradagem e cumplicidade que desapareceu de muitos outros sites. Houve um tempo em que toda a Web era assim.
ResponderExcluirPuxa. te vi lá na Luma Rosa e vim ver um blog de 10 anos. Nunca tinha visto, sério!Parabéns!!! Belo trabalho !abraços,chica
ResponderExcluirParabéns!!! A excelência com que fazemos o nosso "trabalho" é o que nos caracteriza como amantes da palavra e da comunicação social.
ResponderExcluirA Luma me ofereceu uma boa oportunidade de conhecimento de alguns detalhes no mundo bloguístico ao ler o seu Blog. Obrigado.
Abraços fraternais
Olá, também vi você no Luz de luma e vim conhecer. Sua história interessa sim, interessa a muita gente que quer sair desse círculo vicioso que existe na blogosfera. Gente que quer apenas compartilhar pensamentos e sentimentos.
ResponderExcluirA gentileza de vocês é um exemplar contraponto ao que cada vez mais vejo como o comportamento normal das hordas bárbaras que entram na rede todos os dias. Junto a tanto joio também vem algum trigo. Confiram também os seguintes artigos sobre a vida na Web de antigamente:
ResponderExcluirhttp://marioav.blogspot.com/2009/06/fragmentos-do-bol.html
http://marioav.blogspot.com/2008/12/por-onde-andam.html
http://marioav.blogspot.com/2008/12/os-primeiros-emails.html