2010-12-24

300 dias com a Nikon D5000

Este artigo contém algumas informações importantes que não constam do artigo anterior; resolvi escrevê-lo devido à quantidade crescente de consultas que me chegam sobre esta câmera e outras da mesma faixa de entrada, de várias marcas, usualmente vindas de gente disposta a encontrar uma câmera DSLR "faz tudo" que não custe a mesma coisa que as profissionais.

A Nikon D5000 e a mais recente D3100 têm muita coisa em comum, por isso são mencionadas juntas várias vezes. A D3100 acaba de chegar ao nosso mercado, enquanto a D5000 está saindo de linha.

Como este é um review abertamente crítico, você pode até achar que as câmeras não são tão boas, mas as deficiências são todas contornáveis e os resultados são excepcionais quando as máquinas são usadas com consciência.

- Em relação à D90, a D5000 usa o mesmo sensor de imagem CMOS de 12MP, mesmo sistema de autofoco de 11 pontos e as mesmas opções de processamento de imagem, incluindo retoque e conversão RAW/JPEG na câmera e ajustes para o Active D-Lighting (controle de contraste por zona). Isso significa que a D5000 produz os mesmos resultados que a D90 quando usada da mesma maneira, por metade do preço. A D3100 não tem ajustes para o Active D-Lighting, mas tem um modo Guia para ajudar os iniciantes.

- A D3100 usa um novo sensor CMOS de 14MP que permite Live View e gravação de vídeo, dois recursos ausentes na antecessora D3000.

- A D5000 é a única DSLR Nikon com tela LCD articulada. A junta fica na parte de baixo, como nas Sony Alpha novas, e não na lateral como na Canon 60D. Essa escolha fornece enorme mobilidade para a tela, mas ao fotografar stills com tripé, é preciso sempre escolher a posição da tela antes de encaixar a câmera no tripé.

- A D3100 e a D5000 somente suportam autofoco com lentes AF-S, isto é, aquelas que contêm o motor de foco, como nas lentes Canon EOS. Pode-se usar as lentes AF-D, mas somente com o foco manual, assistido por um telêmetro eletrônico presente somente no visor óptico, que estranhamente precisa ser ativado nas preferências da câmera. Em Live View, o autofoco é frustrantemente lento, "caçando" foco em toda a gama focal da lente antes de se decidir (ou não). É possível ampliar uma área da imagem do Live View para fazer o foco manual, mas a imagem ampliada é granulada e difícil de avaliar. Este problema é aliviado se você usar o Live View com a maior abertura possível da lente para estabelecer o foco, e a seguir reajustar a abertura para o valor com a qual fará a foto.

- Em ambas as câmeras, o autofoco pode ser do tipo 3D tracking (que segue o objeto em foco caso ele se mova), ou o ponto de foco pode ser selecionado à mão no excelente seletor multidirecional, que funciona como um joystick, com movimento em oito direções.

- Nem a D5000 nem a D3100 possuem histograma em tempo real no LCD; você precisa tirar uma foto de teste e conferir se a exposição está certa. Isso é um sério demérito para fotografia still.

- Dois toques elegantes na ergonomia são a posição do botão para compensação de exposição e o botão de lixeira, que apaga uma foto com dois toques consecutivos. Também gosto mais do anel liga/desliga da Nikon que da chave de alavanca das Canons. A D5000, quando deixada com autofoco desligado, sem flash e com uso mínimo do LCD, consegue fazer mais de 600 fotos por carga da bateria. Usando todos os recursos, rende pouco mais de 300 fotos por carga. Bem menos se baseada em Live View ou gravando vídeo.

- A D5000 vem configurada por padrão para zerar a numeração das fotos a cada descarga do cartão. Não é exatamente um bug, mas é um equívoco. Mude essa preferência antes de qualquer outra coisa.

- Na D5000, se você deixar ativado o review automático da foto e usar a roda de controle do polegar para navegar nas fotos durante o review automático, a câmera pensará que você quer alterar o parâmetro controlado (abertura, velocidade), como se estivesse em modo de captura. É um bug sério, ridículo e feio, mas a Nikon nunca postou uma correção do firmware para ele. Solução: jamais use o review automático. Quando quiser ver a foto que acabou de fazer, aperte o botão Play.

- Ao contrário da tendência seguida pelos outros fabricantes, a Nikon ainda não colocou um controle de ISO acessível em suas câmeras básicas. Tanto na D5000 quanto na D3100, simplesmente não existe botão de ISO. O que dá para fazer é assinalar o controle de ISO ao botão Fn, que pode ser reconfigurado, dentro de certos limites. A D3100 possui um seletor físico para Drive Mode (foto simples, contínua, temporizada e silenciada). Na D5000, a tecla Fn se presta por padrão a essa função. Tal incômodo causado pela falta de apenas um botão depõe seriamente contra as duas câmeras, mas tem cara de ser uma manobra para tornar mais atraentes os modelos imediatamente superiores (D90, D7000), que oferecem mais controles externos.

- Se você resolver contornar essa dor de cabeça ativando o ISO automático, note que ele não funciona da mesma maneira que na sua câmera compacta - que eleva o ISO em situações de maior perigo de a foto sair tremida, como quando o zoom está estendido. O ISO automático da Nikon baseia-se numa velocidade de exposição máxima preferida, que é predeterminada pelo usuário, e na faixa de ISO permitida. Quando a câmera percebe que não vai conseguir fazer a foto dentro da faixa de ISO permitida com a velocidade preferida, ela apela para exposições mais longas sem vacilar. No uso prático casual, o melhor valor para o tempo preferido é de 1/60 segundo, podendo ser maior, como 1/100 ou 1/250, em externas ensolaradas - mas lembre-se de mudar o tempo de volta para uso em fotos internas e noturnas, senão...

- As duas Nikons nunca mostram o valor de ISO durante a fotografia com ISO automático. Você só pode ver o ISO na foto já feita.

- O sensor, fabricado pela Sony, é de desempenho excelente em baixa luz. A imagem é perfeitamente utilizável até ISO 1600 na maioria das situações. ISO 3200 e Hi1 (6400) só em casos realmente difíceis.

- Com a lente Nikkor AF-S 18-55mm f/3.5-5.6 estabilizada que faz parte do kit, obtive resultados consistentemente subexpostos. Resolvi usar essa lente sempre com compensação de exposição, 1/2 ponto para cima. Mesmo problema ocorreu com a 28-105mm macro f/3.5-4.5 D. Somente com a 50mm f/1.8 a exposição sai perfeita em todas as fotos. Isso significa que a medição da luz na câmera é enganada pela característica de transmissão de cada lente - um problema conhecido em cinematografia, mas que no ramo fotográfico os fabricantes parecem fazer questão de fingir que não existe.

- A lente do kit é mais nítida perto do comprimento focal máximo e entre f/8 e f/11 na maioria das situações. O meu exemplar há alguns meses passou a apresentar dificuldades para focar no infinito entre 18 e 22mm. Compre quando puder uma lente zoom mais parruda para sua Nikon, e mais uma fixa bem luminosa, se quiser que a câmera realmente mostre o que pode fazer.

- Na D5000, o clique é tão silencioso que dá para distinguir perfeitamente os diafragmas das diversas lentes. Por exemplo, o da 50mm f/1.8 faz um som metálico mais alto que o do conjunto espelho/obturador. As duas Nikons também oferecem o disparo silenciado, pelo qual o obturador somente abre meio segundo após o espelho erguido; não é realmente mais silencioso, apenas distribui mais o barulho.

- Não existe trava de espelho manual nessas câmeras, mas o modo Live View cumpre exatamente essa função, caso precise dela.

- O vídeo é gravado em formato AVI, a 720p na D5000 e 1080p na D3100. Em ambas, o framerate máximo é 24p, não 30p. E ambas as câmeras não contam com entrada de microfone. A D3100 é a primeira DSLR com autofoco em vídeo, mas ainda é um sistema muito mais lento que o de uma filmadora. A conclusão sincera é que, de modo geral, as Nikons ainda não prestam para muita coisa nas mãos de um cinegrafista. A Canon, com as DSLRs Rebel T2i, EOS 5D MkII e EOS 7D, continua bem à frente da concorrência nas opções de vídeo.

- Nem a D3100 nem a D5000 possuem pré-visualização da profundidade de campo no visor óptico. Em Live View isso é possível. Mas você não pode mudar a abertura e enxergar o resultado em tempo real. Você tem que sair do Live View, reajustar a abertura e entrar no Live View de volta. É melhor do que nada, mas não é realmente algo que se possa elogiar.

- Como acontece em todas as Nikons e em várias câmeras concorrentes, o balanço de branco é perfeito na maioria das situações de luz, exceto sob luz incandescente. A câmera não neutraliza o branco, produzindo sempre resultados amarelados. Isso pode ser evitado usando-se balanço de branco manual ajustado na hora, ou então, corrigido depois na pós-produção. Sendo assim, por que não se regula melhor a câmera na fábrica? Será uma opção "estética" do fabricante manter as cores quentes?

- O acabamento externo da minha D5000, que originalmente é uma pintura fosca martelada, está ficando completamente liso e brilhante, e um botão está ficando apagado - a lupa de ampliar. Mas a câmera levou várias pancadas e nem sequer ficou com marcas. Também é elogiável a capacidade do sensor de permanecer limpo; é realmente muito difícil entrar sujeira nele.

- O tamanho menor da D5000 e D3100 as torna menos intimidadoras em ambientes públicos, especialmente sem flash externo, com uma lente curta como uma 50mm ou 35mm, e com a tela articulada da D5000 em posição de "Rolleiflex" para fotografar do nível da cintura sem que ninguém perceba. É uma pena, porém, que a velocidade horrível do autofoco em Live View o inutilize nessa função; para essa brincadeira é melhor ficar no foco manual.

2010-12-17

Luzes de Natal e as câmeras que não as entendem

 


Há algumas semanas escrevi este artigo para a Digital Photographer Brasil. Na mesma edição impressa da DPBR também existe uma versão ampliada deste artigo de Clicio Barroso. Somente depois de vê-los publicados juntos no papel é que percebi que eles têm um tema em comum. Reclamam da indústria de equipamento fotográfico, que oferece o que os seus diretores de marketing julgam interessante e não o que os seus consumidores necessitam.

O meu artigo diz que os smartphones poderão matar as câmeras compactas de bolso, porque possuem uma funcionalidade irresistível: enviar as fotos aos seus amigos sem antes precisar descarregá-las e processá-las num PC. Os fabricantes de câmeras não se interessaram em adicionar funções de conectividade, deixando os telefones roubarem a cena.

O artigo de Clicio acusa a indústria de estar presa à massificação comercial, não contemplando as necessidades dos fotógrafos profissionais. Adiciona perfumarias desnecessárias, faz ciclos anuais com obsolescência programada, não resolve problemas reais de quem usa os produtos. E a onda fetichista das câmeras retrôs parece tentar recuperar pela sua casca externa a "alma" perdida na transição do filme para o sensor digital.

Eu vejo mais sintomas de que algo está esquisito. As câmeras compactas de massa, modelos de bolso que todo mundo possui, ficaram assustadoramente parecidas umas com as outras. Olhe a vitrine de uma loja de eletrônicos de consumo: se você arrancasse o logotipo da frente de cada câmera, seria totalmente incapaz de distinguir uma marca da outra. É uma banalidade uniforme. A originalidade acabou. Todos se copiam nos menores detalhes.

Basicamente, existem câmeras bem fininhas com portinholas que você desliza com a mão para expor uma lente bem pequena; existem câmeras um pouco maiores, com a frente lisa e lentes zoom rodeadas por grandes círculos decorativos cromados ou em metal anodizado escovado; existem câmeras que imitam a forma das DSLRs e vêm com lentes zoom absurdamente grandes. Supostamente a fim de agradar o público feminino, quase todas vêm nas cores prata, preta, rosa, vermelha e azul. Pronto, descrevi 99 por cento do mercado de câmeras amadoras.

Nada contra a renovação anual - testar produtos novos é sempre um prazer, além de ganha-pão para mim -, mas por que não se cria mais nada original e diferenciado no mercado de massa? E até quando as câmeras nos obrigarão a baixar as fotos para PCs antes de compartilhá-las? O ritual de processar as fotos vem do tempo do filme, é mero costume. Os usuários dos smartphones perceberam que na maioria das situações isso simplesmente não é necessário.

Na verdade, essas câmeras estão erradas também no seu design fundamental. Eis outra prova.



Nesta época do ano, os centros das cidades são decorados com iluminação de Natal. A cidade de São Paulo caprichou além do habitual, envolvendo com luzes azuis e amarelas um grande número de troncos de árvores do Parque Trianon, bem no meio da Avenida Paulista. Milhares de pessoas vão lá a cada noite para contemplar as luzes e passear entre as árvores. Para um fotógrafo, a cena é mais impressionante ainda: todo mundo por lá tira fotos. Câmeras de todos os tipos, por todos os lados. Não se sente qualquer inibição em abrir um tripé ou tirar da bolsa uma DSLR para participar da festa fotográfica no meio da multidão.













O mais precioso desse ambiente é a oportunidade de ver como as pessoas realmente usam as câmeras num ambiente urbano noturno. Elas pegam as câmeras, ligam e clicam imediatamente, acionando o flash compulsório e, com isso, obtendo uma foto inapelavelmente medíocre. Mas o que elas desejariam ao clicar as árvores iluminadas do parque é exatamente o contrário: o flash embutido não deveria interferir na cena!

Acontece que há muitos anos, quando só havia câmeras populares de filme carregadas com filmes negativos lentos, como ISO 100, o flash era essencial para garantir que alguma coisa saísse registrada. Mas já não é mais assim. Muitas câmeras de bolso atuais podem fotografar com luz ambiente à noite, na mão. (E poderiam fazê-lo melhor se não fosse pelo excesso de megapixels no sensor, outra mania da indústria que só serve como argumento de ponto de venda, não beneficiando em nada o usuário.) Só que o consumidor leigo segue esperando que a máquina dispare o flash em situações nas quais não deveria, por pura força do costume. Não se dá à tarefa de escolher o modo de cena noturno que todas essas camerinhas possuem. Não tem consciência de que a câmera poderia fazer melhor. E não porque seja burro, mas porque as câmeras não oferecem o recurso da melhor maneira: automaticamente.

Em lugar de fazer o que precisa, a automação entra no caminho entre o usuário e uma foto decente. Eu possuo uma câmera compacta moderna e cheia de frufrus, mas é de dar raiva: toda vez que é desligada e religada, ela reativa o flash. E depois de eu desativar o flash no menu, ela insiste em fazer exposições com ISO baixo demais e tempos de obturador longos demais, perdendo fotos. Por qual caminho o fabricante chegou à conclusão de que aquilo seria o melhor para mim?

Não temos que tentar ensinar os leigos a deixarem o flash desligado quando não precisam dele: as próprias câmeras é que deveriam fazê-lo. O leigo tem o direito à automação total na captura. Mas a questão do mau uso do flash por design parece ser um caso perdido: basta participar de qualquer plateia de show num estádio para constatar.

É mais do que hora de algum dos fabricantes estudar como as pessoas realmente fotografam, e então programarem a "inteligência automática" de suas câmeras de acordo com a experiência real. Quem sabe a concorrência copia a seguir, daí tudo mundo se beneficia...

2010-12-14

DPBR 5 nas bancas

 

A quinta edição da Digital Photographer Brasil chega com uma espetacular capa do mestre Clicio Barroso e a participação dele numa matéria interna analisando o mercado fotográfico. A revista segue na rota bem-sucedida de investir naquilo que ninguém mais oferece numa publicação para entusiastas da fotografia no Brasil.



Tem portfólio de fotógrafo? Tem, e desta vez nosso convidado é Ivan Padovani, que aproveita para contar seus macetes para fotografia de esportes e fotografia documental.



Tem galeria do leitor? Também tem, e o destaque desta vez é Jarbas Mattos, prolífico fotógrafo de aves brasileiras.



Tem matéria sobre técnica fotográfica? Sim; começamos um novo ciclo de três artigos explicando o uso do flash. Não esqueça que, além dos tutoriais de Photoshop, temos tutoriais de Lightroom também. E uma deslumbrante coleção de 20 dicas para fotografia em baixa luz - modalidade extremamente atraente, porém frequentemente frustrante, devido aos desafios técnicos que propõe.



Mas é claro que não poderiam faltar as surpresas exclusivas. De cara, a revista falou com um dos mais renomados fotógrafos de alta velocidade do mundo, e ele explica sem qualquer pudor como funciona o equipamento dele para obter exposições de um milionésimo de segundo, capazes de parar completamente o movimento de uma bala de revólver!



A seção de testes vem com duas câmeras que estão alvoroçando os fotógrafos amadores e entusiastas: a Nikon D3100, modelo de entrada com grandes aperfeiçoamentos, que está destinado a repetir o sucesso da D3000; e a Sony Alpha SLT-A33, câmera que é construída como uma DSLR (reflex), mas possui espelho fixo, o que proporciona uma série de vantagens em captura sequencial e vídeo, além de autofoco veloz em Live View. Vale a pena conhecer!



Ainda por cima, fazemos uma comparação direta entre a Samsung NX10 e a Sony NEX-5, a fim de esclarecer você sobre o que essas câmeras trazem de novo e porque elas estão sendo tão faladas e vendidas no Primeiro Mundo.



O assunto da seção Como Funciona é a explicação da tecnologia dessas mesmas câmeras sem espelho, que por enquanto estão invadindo o terreno das câmeras compactas amadoras, mas mais cedo do que parece poderão também tomar território das DSLRs. Logo a seguir, a seção Fique por Dentro relata as experiências de cinegrafistas que adotaram câmeras fotográficas, como as famosas Canon EOS 5D MkII e Canon EOS 7D, para produzir vídeo para televisão e cinema. A qualidade é boa? Quais as vantagens? Quais as deficiências? Como contorná-las? Os profissionais contam tudo.



Outra coisa que só a DPBR faz é analisar as tendências fotográficas que transcendem o mundo fotográfico profissional e afetam o mercado de consumo. Surpreendentemente ou não, fotógrafos profissionais estão abandonando de vez as câmeras compactas e se divertindo muito mais com os seus smartphones, já que eles podem fotografar e enviar as fotos imediatamente para seus amigos via Internet. Esta edição abre com uma análise da febre em torno da fotografia social com iPhones.



Nossa matéria especial de 11 páginas dá as dicas profissionais para fotografar paisagens em condições de baixa luz, como alvorecer e pôr do sol. Leia e deleite-se!

Deu tesão? Aqui estão os links para adquirir todas as edições da revista, diretamente do website da editora.









2010-12-03

Of the advantages of being foolish

By Clarice Lispector

The fool, not pursuing ambitions, has time to see, hear and touch the world.
The fool can sit nearly motionless for two hours. If asked why he doesn't do anything, he answers: "I'm doing something; I'm thinking."
Being a fool sometimes offers a world for a start, as the clever remembers only his own smart methods, while the fool has originality. Ideas come to him spontaneously.
The fool has the chance to see things that the clever does not see.
The clever ones are always so attentive to each other's cleverness that they disarm themselves before a fool, and then the fool sees them as ordinary human beings.
The fool attains freedom and wisdom to live.
The fool appears to never having had his break. However, oftentimes the fool is a Dostoyevsky.
There are disadvantages, of course. A foolish woman, for instance, once trusted a stranger's word when buying a second hand air conditioner. He said the device was brand new, since he moved to Gávea, a cooler neighborhood. The woman bought the air conditioner without bothering to see it beforehand. Result: it didn't work. The technician said it was so badly damaged that repairing it would cost more than buying a new one.
On the other hand, a fool has the benefit of his good faith, not worrying too much, while the clever cannot sleep at night out of his fear of being deceived.
The clever wins with an ulcer in his stomach. The fool isn't even aware that he has won.
Warning: don't mistake a fool for a dumbass.
Disadvantage: the fool can be stabbed in the back by whom he least suspects. It's one of the misfortunes that the fool never sees coming. Julius Caesar ended up uttering the famous words: "Even you, Brutus?"
The fool doesn't complain. But how he exclaims!
Fools, with all their antics, must be all together in heaven. If Christ were not a fool, he would not have died on the cross.
The fool is always so nice that the clever tries to make himself pass for a fool. But being a fool is creative and, as happens with all creative affairs, it's difficult. That's why the clever cannot pass for a fool.
The clever gains out of others; the fool gains life.
Blessed be the fools, since they know without anyone noticing it. Furthermore, they don't care that others know that they know.
There are places that make it easier to be a fool (don't mistake a fool for a silly, dumb or futile person). For example, Minas Gerais. Ah, how many people lose by not being born in Minas!
Fool is Marc Chagall, who paints cows flying over houses.
It is almost impossible to avoid the excess of love that a fool elicits. It is so because only the fool is capable of an excess of love. And only love makes a fool.

English translation by me.

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