Devo muito à Apple, como todo mundo que começou a usar Macintosh quando ele ainda era um caixote bege. O Mac já era minha ferramenta de design numa precoce época em que ainda estava tudo por fazer no mundo digital. Abriu-me portas para a criação artística de imagens fotográficas, numa era em que a fotografia ainda era totalmente analógica e os retoques enganadores em capas de revistas nem eram sonhados. Usando Macs, participei - literalmente - da implantação da Web no Brasil. Integrei-me à então vibrante cultura cyberpunk. Passei meus melhores anos da vida profissional na redação da anticonformista revista Macmania, que era decididamente pró-Mac num período em que usar produtos Apple no Brasil era um ato de fé.
No computador, fiz exatamente e nada mais do que aquilo que escolhi fazer. Em torno de Macs fiz amizades, participei de festas e movimentos culturais, obtive sustento, discuti os assuntos da vida, critiquei, ouvi críticas, briguei, me reconciliei, viajei, bati papo, ignorei, paguei impostos, fiz experimentos, provoquei, flertei, ensinei gente, desenvolvi tipografia, risquei páginas, desenhei e pintei, baixei conteúdo permitido e conteúdo proibido, escrevi, produzi, editei, traduzi, publiquei e aprendi muito. Recentemente, fui até tradutor de
um livro sobre a origem da Apple. É como se fechasse um ciclo antes de mergulhar no meu atual projeto, a revista de fotografia.
Conforme passaram os anos, criei cada vez menos coisas consideradas exclusivas ou diferenciadas pelo uso de Macs, já que o resto do mundo também tornou-se digital e conectado como a minha turma. A Internet massificou-se até o atual estado, em que reduziu-se a uma espécie de televisão acrescida de caixas de comentários. O Mac e o PC nunca foram tão parecidos um com o outro. Todavia, as novidades continuaram. Quem diria que o primeiro produto capaz de tornar tanto Mac quanto PC obsoletos seria também da Apple: o iPad. Quem diria que a Apple viria a dominar com mão de ferro não apenas um mercado, mas vários ao mesmo tempo.
Conheço veteranos radicais da maçã que nunca se permitiram trabalhar em PCs com Windows e sentem-se deslocados na presença da - na opinião, deles, não minha - plataforma banal e incompetente que a parcela não-iluminada da humanidade escolheu seguir por ignorância e comportamento de rebanho. Esses caras esbravejam agora porque têm a sensação de que o Mac OS X perdeu relevância para as novas invenções da Apple que não usam mouse nem rodam Flash.
Este blog é minha mais antiga atividade regular na Internet e ainda é mantido usando produtos Apple, embora eu use PCs também - por sinal, usava PCs anos antes de tocar no meu primeiro Mac. O blog contém muitos comentários críticos sobre o que vi no mundo da maçã ao longo desta década que vai acabar. Entre 2001 e 2003, os textos eram quase diários e eu os escrevia como voluntário, a troco de nada. Não publico mais aqui artigos sérios sobre a marca; prefiro que saiam na revista Mac+. Mas permaneço com minha coleção privada de Macs antigos e a
coluna Museu.
Por que contar agora tudo isso? Porque, ao longo de duas décadas, sempre tive interesse na história dramática do Fascinante Império de Jobs. (Para manter um museu de Macs em casa, né...) Mas alguma coisa muito séria está começando a ocorrer, e parece que acontece coletivamente, com muita gente:
a gente não acha mais a Apple legal...
Francamente, a Apple nunca foi legal de verdade. Isso faz parte da mística que ela vende com acabamento de vidro preto e alumínio anodizado, a preço de materiais bem mais nobres que vidro e alumínio. A Apple não surgiu como uma dádiva dos céus para salvar a civilização, mas como uma empresa comercial devotada a estabelecer e explorar mercados buscando ganhar dinheiro, e de preferência guiando outras empresas em torno das tecnologias desenvolvidas por ela. E isso em si não tem nada de errado. Se eu ou você tivesse inventado o computador pessoal, teria feito mais ou menos o mesmo.
Mas há uma diferença deste século para o século passado. Steve Jobs não tenta mais disfarçar seu lado malvado. Deve ter concluído que já sofreu pessoalmente o suficiente e não lhe resta mais muito tempo de vida para concluir o grande projeto que o colocará nos livros de história junto com Alexandre, Bismarck, Thomas Edison e Henry Ford.
Senão, analisemos: quando um funcionário de uma fábrica chinesa suicidou-se por causa da pressão sofrida por um protótipo perdido de produto da Apple, era ali a deixa para todo mundo - a companhia, a mídia sensacionalista e os próprios consumidores - parar para pensar nos perigos da cultura de exagero e espetáculo fútil criada em torno desses produtos. O outro aspecto sombrio que a Apple cultiva com carinho é o metódico boicote contra tudo o que Jobs pessoalmente não gosta, de aplicativos de iPhone supostamente controversos até o jornalista da Newsweek que escreve uma
paródia de Jobs, passando por medidas de censura contra livros não-autorizados sobre a Apple. Imagine a gritaria se a Microsoft tentasse censurar livros sobre ela! No caso da Apple, a reação é um silêncio amedrontado.
Não estou falando da maneira como a Apple esmaga como uma bituca de cigarro quem tenta instalar o Mac OS X comercialmente em PCs. Eles têm o direito legal, pois Hacintoshes são fora da lei. Eu preferiria que não, você também, mas é o que está nos contratos. O que cheira meio esquisito é fazer de tudo para expulsar de seu hardware tecnologias de software com potencial de concorrer com as suas próprias.
Vejamos o que ocorre agora: um protótipo de iPhone supostamente perdido desencadeia um circo de mídia, seguido de investigação policial irregular. Jobs busca destruir, via comunicado público, uma empresa que ajudou a construir o império da maçã e ainda se considerava sua parceira, não inimiga. Comediante tem que pedir desculpas oficiais porque fez uma piada com o iPad.
A Apple sob o controle de Jobs sempre teve ares nitidamente fascistas. Sem novidade quanto a isso. O Macintosh já nasceu num berço de fanatismo messiânico. Nós sempre fizemos piada sobre a obsessão com os detalhes do design de cada produto (por vezes deixando passar falhas escancaradas, mas sempre com competência bastante para admiti-las e remediá-las na versão seguinte - isso se a falha não existe de propósito para manter o interesse nas versões futuras). Também rimos das medidas extremas para manter segredo sobre os novos projetos (harmoniosamente combinadas a suspeitíssimos vazamentos de informações no momento mais adequado antes do lançamento). Só que todos os fatos perturbadores mencionados no parágrafo anterior aconteceram no período de uns poucos dias. Ao mesmo tempo, todas as vendas da companhia batem recordes históricos, encorajando-a a prosseguir dando uma de valentona em múltiplas frentes simultâneas.
A ganância e a prepotência, aparentemente inescapáveis como modus operandi de líderes de mercados tecnológicos, não têm mais na Apple o escudo de elegância e virtude que transformou tantos consumidores em proselitistas.
A Apple virou nos anos 00 o que a Microsoft era nos anos 90. Agora o governo dos EUA começou a
querer controlar a Apple dos anos 10. Coisa que não soube fazer com a Microsoft dos anos 90. A Microsoft dos anos 00 desmoronou sob o próprio peso. A Apple dos anos 10 ainda está só começando a ficar pesada.
Essa não é a empresa sobre a qual eu gostaria de escrever artigos que a coloquem numa luz automaticamente positiva, nem é a empresa cujos produtos eu queira admirar cegamente. Evidentemente, nada posso fazer individualmente para mudar o rumo descendente dos acontecimentos. Mas ainda posso dizer que não concordo.