Autorretrato da D5000 em espelho de maquiagem. 34mm, f/11, 1/6s na mão com VR, ISO 1000.Um review mais formal da minha nova câmera vai sair na revista Mac+ em breve e também via outro veículo, mas vale a pena colocar aqui algumas impressões com enfoque mais pessoal.
Um pouco de reminiscências. Minha SLR anterior era uma Canon EOS 300, comprada no ano 2000. Também chamada Rebel 2000, ela foi a base para a Digital Rebel, que inaugurou o mercado das DSLRs amadoras em 2003. Vivi anos felizes com essa EOS de filme, simples e leve e que nunca errava exposição nem foco.
Então, esqueci que era feliz e mergulhei voluntariamente no mundo das compactas digitais, testando dezenas de modelos e marcas diferentes e nunca fazendo com elas o que realmente pretendia em termos de imagem. Olhando em retrospecto, a maioria delas – Pentax Optio, Casio Exilim, Sony Cyber-shot T e várias outras – produzia pinturas miúdas plastificadas e lamacentas, meras caricaturas do que a fotografia digital deveria ser, distantes ainda da qualidade do negativo colorido. A rara exceção era a brilhante Canon PowerShot série S (já comentada aqui, em outro artigo), mas na época ela estava fora do alcance do meu bolso. Tirando breves períodos com três DSLRs da Sony e uma da Canon, só fiz fotos com compactas, culminando na Lumix FX100, uma câmera de bolso bela e robusta, porém com sérias limitações relacionadas ao ruído do sensor – ela só podia ser usada a sério em ISO 200. Testei também a revolucionária Lumix G1, mas não me convenci totalmente.
Como nos últimos quatro anos sempre dispus de câmeras de teste ou emprestadas para filar, adiei a compra da minha própria DSLR o quanto pude, até que a coisa começou a ficar ridícula. Então, resolvi que devia parar tudo e começar um sistema do zero a partir de uma DSLR moderna, que não fosse muito cara nem desprovida dos recursos que necessito.
Ao escolher Nikon, não pensei nos fatores óbvios que estão na mente de todo canonzeiro na hora de defender sua marca favorita:
preço, preço e preço... O preço da D5000 é, de fato, ligeiramente superior ao da Canon mais similar (Rebel T1i), mas esse não foi um fator importante. O fator fundamental foi a
óptica.
Explico.
Uma câmera barata com lente cara faz imagens melhores que uma câmera cara com lente barata. Repita e assimile esta grande verdade.
A qualidade óptica é mais decisiva que os megapixels para a qualidade do resultado. Infelizmente, não é o que o público mal informado acha. A geração atual, contaminada pela maneira de pensar do mundo informático – gigahertz, terabytes, tudo inexoravelmente aumentando –, tem feito a opção em massa pelos megapixels, para só depois se perguntar o que há de errado ou faltando em suas imagens; ou pior que isso, achar que é "desse jeito mesmo" e nem questionar nada.
Dez a doze megapixels é bem mais do que as pessoas normais precisam; isso enche um pôster de tamanho A3 com nitidez de gráfica offset. Mas a nitidez na saída só acontece se houver uma lente capaz de entregar toda essa nitidez para o sensor. Aí é que a coisa pega.
Conforme as pessoas se informam mais sobre equipamento fotográfico, prevejo que voltem a ter a preocupação com as lentes que os aficionados e profissionais munidos de SLRs tinham até o começo dos anos 1980, quando a pirotecnia eletrônica começou a virar o centro de todas as atenções.
Cansei de ouvir meus amigos que, ao me pedir dicas para comprar novas câmeras, deixavam claro pela explanação de suas necessidades que eles seriam perfeitamente atendidos por uma DSLR, mas não contemplavam essa possibilidade por conta de preconceitos acerca de essas câmeras serem "caras" e "complicadas". O paradoxo é que as mesmas pessoas estavam dispostas a ter uma câmera amadora "bridge" ou "superzoom" – com aparência de DSLR, grande como uma DSLR, cara como uma DSLR, mas com uma lente embutida, um minúsculo e ineficiente sensor típico das compactas, e nem um pouco menos complicada.
A razão principal de você querer ter uma SLR é controle. É a possibilidade de transformar completamente a personalidade da imagem através de uma simples e rápida troca de lentes.As câmeras da categoria da Nikon D5000 e Canon Rebel T1i são voltadas ao público amador lá fora, mas a qualidade de imagem e os recursos oferecidos são tão bons que o fotógrafo aspirante, antes de pensar em entrar nesse mundo com um corpo mais "pro" como a Nikon D90 ou a Canon EOS 50D, deve adquirir uma dessas máquinas mais leves e simples, andar com ela grudada ao corpo durante alguns meses, conhecê-la do avesso, explorar ao máximo as opções de objetivas para a marca que escolheu, juntar algumas lentes bacanas e só então desembolsar o Big Money por um corpo "pro".
Qual escolher, pois? Com Canon ou Nikon não dá para se dar mal. Cada uma delas detém 38% do mercado de SLRs do mundo, alternando-se na liderança. Sony, Pentax, Olympus e Panasonic acompanham o duopólio de longe. As duas marcas líderes têm acessórios e suporte à vontade. Durante a maior parte desta década, a Nikon cochilou nas SLRs e permitiu que a Canon ficasse na frente, mas atualmente a marca da alça de listra amarela retornou ao empate técnico com produtos de sucesso como a D40 e a D3. E, no cerne de tudo, graças também às poderosas lentes Nikkor, que funcionam em todas as suas câmeras, da mais barata à mais cara, sem discriminação.
Sem a competição entre as duas marcas, nosso equipamento não seria nem de longe tão sofisticado como é hoje, abarrotado de truques e recursos que você pode nem saber que existem, nem precisa saber, mas que fazem uma diferença na qualidade das suas fotos e até anteontem era domínio exclusivo dos profissionais.
Uma das coisas mais espetaculares destas câmeras novas é
o desempenho em ISO alto, que não só deixa as máquinas de filme muito distantes no passado como possibilita exercitar estilos de captura novos. Além disso, as SLRs começaram também a gravar vídeo. Sistemas concorrentes da Panasonic, Olympus e Samsung até começaram a abandonar o pentaprisma em prol do visor eletrônico. Tudo isso reaproximará as disciplinas da imagem parada e da imagem em movimento.
Mas, repetindo, o fator decisivo é a óptica. Com a Nikon, posso usar praticamente qualquer lente da marca fabricada desde 1959. A variedade disponível para Canon é boa, mas não tão ridiculamente extensa. E há a questão da lente do kit. A lente 18-55mm que vem com a Nikon é de nível óptico surpreendente, apesar da construção baratinha. A da Canon, com exatamente a mesma gama de distâncias focais, é decente mas não empolga; está lá para preencher um espaço temporário até o consumidor começar a gastar, em lentes adicionais, muito mais do que seu investimento inicial na câmera.
Escolher a D5000 também depende do uso pretendido.
As novidades são importantes? O LCD articulado, por enquanto inédito em DSLRs da Nikon, é um complemento bem-vindo para a função Live View; mas a articulação na base cria um ponto de atrito e desgaste na pintura, e a articulação pode atrapalhar quando a máquina é montada em tripé. Por sua vez, o Live View tem um sistema de foco desesperadoramente lento (e, assim como o da Canon, inferior ao Live View com sensor dedicado das Sony Alphas), restringindo-o a aplicações de estúdio ou outras que não exijam muita agilidade. A função de vídeo grava um tosco áudio mono, sem entrada de microfone externo e sem autofoco; também fica devendo. Assim,
os verdadeiros pontos fortes da máquina não são os recursos mais novos que a propagada apregoa. O crucial na D5000 é que o sensor e a qualidade de imagem resultante são exatamente os mesmos da D90, que é muito mais cara. Fora isso, a velocidade de operação da D5000 é fantástica, trazendo de volta boa parte daquela sensação perdida de instantaneidade das antigas câmeras de filme. O obturador é bem silencioso, comparado por um crítico gringo ao de uma Leica. E tem um modo especial que espera um instante entre a subida do espelho e o clique, tornando a operação ainda mais discreta. Por fim, ela consegue capturar quatro fotos por segundo, marca que até o ano passado era coisa exclusiva de DSLR profissional.
Aliado ao novo poderoso algoritmo de redução de ruído do Adobe Lightroom 3 Beta (que acho preferível ao software original da Nikon), a captura em RAW com ISO alto é algo sem comparação no mundo das compactas. Toda pessoa que luta com uma câmera de bolso sob baixa luz precisa experimentar uma DSLR atual por dez minutos para sentir o que está perdendo. Para aprender até onde dá para ir, basta acionar a opção de ISO automático, na qual você especifica o ISO limite e a velocidade mais lenta aceitável. Acostumado a anos intermináveis de sofrimento com câmeras pouco sensíveis e a fazer tudo em modo manual nas SLRs, demorei algumas semanas a me acostumar à ideia de que ISOs de quatro dígitos podem ser usados sem medo nenhum. Imagine fotografar com a clássica lente 50mm f/1.4 em ISO 3200. Dá para fazer um retrato à luz de uma única vela, sem nenhuma luz adicional, com a máquina na mão, sem borrar nada e com um lindo fundo desfocado de brinde. É um sonho realizado.
A D5000, assim como sua ancestral D60, não faz autofoco com lentes que não sejam AF-S, isto é, com motor interno. (Todas as lentes Canon EOS são motorizadas.) Mas fiquei bem satisfeito usando em foco manual a Nikkor 28-105mm f/3.5-5.6 macro (que foi feita para câmeras de filme há uma década). O pulo do gato é função Rangefinder – que, estranhamente, não vem ativada nas preferências –; ela mostra dentro do visor óptico se o ponto de foco está mesmo em foco. Outra coisa deliciosa é a opção de foco 3D Tracking, na qual o ponto de foco ativo muda de forma a seguir o objeto caso ele se mova. A medição de luz tende a subexpor, mas se você trabalha em RAW, pode ficar sossegado.
Recursos de retoque de imagem na câmera, controle de alcance dinâmico para JPEG e modos de cena criativos abundam, mas a minha interação com a câmera resulta bem simples, pois simplesmente não uso nenhum desses truques; não adianta, tenho sempre o preconceito de que eles foram feitos só para impressionar amadores. Em caso de dúvida, porém, eles estão lá. E em caso de mais dúvida, a câmera tem uma função de Help que explica literalmente todas as opções do menu por escrito, um verdadeiro manual embutido.
Imagens tiradas com a Nikon D5000 você tem na coluna do Flickr, à sua esquerda.
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