Antes de começar, um esclarecimento de máxima importância: Pinhole significa "buraco de alfinete" em inglês, e como tal, NÃO se pronuncia pinhóli e sim pin-hôul, com o i soando como ê.
Conheço um cara muito gente boa que comprou uma câmera pinhole artesanal linda, de madeira e bronze. Ele é um fotógrafo profissional que andava em busca de refrescar o olhar. Fez fotos com a pinhole e filme colorido. São obras de arte.
Isso me trouxe reminiscências. Quando era adolescente, sensibilizei um pedaço de papel com uma solução de sal de prata obtido de um kit de ciências Funbec, focalizei uma lupa na frente do papel e fiz algumas "fotos" da luz passando pelo vitrô da cozinha e da luz do céu através das árvores do quintal dos fundos da casa. As imagens não resistiram ao tempo, porque eu não tinha fixador nem scanner. Mas também não existia Flickr para ter interesse de mostrá-las ao mundo. Eram apenas umas miseráveis silhuetas monocromáticas gravadas em negativo num recorte de papel sulfite. Eram um experimento. Não eram arte.
Um quarto de século depois, recebi de outro amigo, por email, um link sobre um kit de câmera pinhole - ironicamente chamado de Rebel, em alusão óbvia à série popular de DSLRs da Canon - que você pode baixar em PDF, imprimir, recortar e montar em casa.
Eu recomendo muito brincar com uma pinhole, a título de arte e aprendizado. O próprio Ansel Adams o faz em um de seus livros, como alguém poderia contradizer tal mestre? Excetuando as lentes, que na pinhole não existem, o funcionamento da câmera se desvela intuitivamente. É muito educativo.
Porém… pinhole virou mais uma modinha descolex-urbanoide-classe-média. Igual a Lomo. Igual a Polaroid vencida. Igual a clicar com Yashicas manuais e escanear as fotos orgulhosamente sujas de poeira e com as bordas pretas visíveis, sem correção alguma, como se o ato em si encerrasse uma tácita superioridade. Não sou contra nenhuma dessas coisas - existem fotos de filme no meu Flickr, feitas em 2008 com uma Pentax de 1980 -, mas o pessoal corre alucinado atrás de qualquer "nova" estética ou técnica sem nem ter ideia do que se trata, sem intenção genuína de compreendê-la, apenas de obter seus resultados na base da tentativa-e-erro burra. Este é o ponto central de toda a minha crítica. Já vieram me perguntar, mais de uma vez: "Para que serve foto em HDR? Fiz algumas e não notei diferença." Gosto de ver o interesse das pessoas em entender como as coisas funcionavam antes de se tornarem essas caixinhas mágicas, digitais e automáticas. Não gosto quando a curiosidade saudável é queimada na fogueira voraz do status social momentâneo. Como ocorre com tudo mais que pode ser consumido nesta nossa sociedade doente. O consumismo de ideias também existe, e cansa.
Quando o entusiasta diz que a pinhole é "econômica", já que pode ser construída em casa, engana-se. Pinhole é para hobby faça-você-mesmo, exploração e aprendizado. Ponto. Vai fazer suas fotos de pinhole com filme? Isso hoje é uma brincadeira cara. Se você usar filme de cromo, de cartucho ou em outro formato clássico, boa sorte. Ou não, se a premissa inicial era a de que "coolness" é fácil de atingir.
E foto de pinhole não tem qualidade comercial, somente artística, por conta de suas características: nitidez constante e limitada, devido à difração da luz na abertura; assuntos restritos, devido às exposições tipicamente longas; e vinhetagem forte, devido à distribuição de luz que varia do centro para fora do quadro.
Para efeito retórico, resolvi inverter o jogo. Como se faz fotos estilo pinhole com uma sofisticada câmera digital atual, com sensibilidade elevada, qualidade óptica excepcional e complexidade interna apavorante - e sem modificar mecanicamente a própria câmera?
1) Monte a sua Nikon D90 ou Canon EOS 7D num tripé.
2) Coloque na frente da objetiva dois ou três filtros de densidade neutra (ND) para atenuar bem a luz que entra e, de quebra, criar vinhetas. Serve também colocar dois polarizadores circulares, com a vantagem de poder regular o bloqueio da luz girando um em relação ao outro. Dica para os muito abastados: uma câmera digital full-frame equipada com lente para câmera de sensor APS-C produz vinheta instantânea no comprimento focal mais curto. Se a lente for estabilizada, desligue o recurso.
3) Em modo manual, ponha a objetiva na abertura mais fechada permitida (nas lentes zoom modernas, algo como f/32 ou f/38) e o ISO no mínimo, tipicamente 100 ou Lo-1.
4) Meça a luz normalmente, programando uma velocidade de obturador condizente, que pode ser extremamente longa. Veja só a ironia: na pinhole de verdade não tem essa mamata; você precisa fazer umas contas e o resultado só será conhecido na saída do laboratório, como é o caso em qualquer tipo de fotografia com película fotoquímica.
5) Ponha a câmera em temporizador de dois segundos, para não precisar ficar com o dedo no botão, e dispare.
6) No Photoshop ou Lightroom, brinque com os efeitos de saturação, correção de perspectiva, grão e desvio do balanço de branco, a fim de criar aquele look "filme desbotado" ou "processamento cruzado". Complete o "look" da obra colocando, como layer em modo Multiply, uma falsa moldura de filme.
Pronto!
Pinhole digital.
Fácil, não?
Só para irritar mais um pouco, simulei uma foto pinhole com uma imagem digital perfeitamente saudável que estava dando sopa no meu Lightroom.

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Pode me xingar nos comentários.















