2010-12-17

Luzes de Natal e as câmeras que não as entendem

 


Há algumas semanas escrevi este artigo para a Digital Photographer Brasil. Na mesma edição impressa da DPBR também existe uma versão ampliada deste artigo de Clicio Barroso. Somente depois de vê-los publicados juntos no papel é que percebi que eles têm um tema em comum. Reclamam da indústria de equipamento fotográfico, que oferece o que os seus diretores de marketing julgam interessante e não o que os seus consumidores necessitam.

O meu artigo diz que os smartphones poderão matar as câmeras compactas de bolso, porque possuem uma funcionalidade irresistível: enviar as fotos aos seus amigos sem antes precisar descarregá-las e processá-las num PC. Os fabricantes de câmeras não se interessaram em adicionar funções de conectividade, deixando os telefones roubarem a cena.

O artigo de Clicio acusa a indústria de estar presa à massificação comercial, não contemplando as necessidades dos fotógrafos profissionais. Adiciona perfumarias desnecessárias, faz ciclos anuais com obsolescência programada, não resolve problemas reais de quem usa os produtos. E a onda fetichista das câmeras retrôs parece tentar recuperar pela sua casca externa a "alma" perdida na transição do filme para o sensor digital.

Eu vejo mais sintomas de que algo está esquisito. As câmeras compactas de massa, modelos de bolso que todo mundo possui, ficaram assustadoramente parecidas umas com as outras. Olhe a vitrine de uma loja de eletrônicos de consumo: se você arrancasse o logotipo da frente de cada câmera, seria totalmente incapaz de distinguir uma marca da outra. É uma banalidade uniforme. A originalidade acabou. Todos se copiam nos menores detalhes.

Basicamente, existem câmeras bem fininhas com portinholas que você desliza com a mão para expor uma lente bem pequena; existem câmeras um pouco maiores, com a frente lisa e lentes zoom rodeadas por grandes círculos decorativos cromados ou em metal anodizado escovado; existem câmeras que imitam a forma das DSLRs e vêm com lentes zoom absurdamente grandes. Supostamente a fim de agradar o público feminino, quase todas vêm nas cores prata, preta, rosa, vermelha e azul. Pronto, descrevi 99 por cento do mercado de câmeras amadoras.

Nada contra a renovação anual - testar produtos novos é sempre um prazer, além de ganha-pão para mim -, mas por que não se cria mais nada original e diferenciado no mercado de massa? E até quando as câmeras nos obrigarão a baixar as fotos para PCs antes de compartilhá-las? O ritual de processar as fotos vem do tempo do filme, é mero costume. Os usuários dos smartphones perceberam que na maioria das situações isso simplesmente não é necessário.

Na verdade, essas câmeras estão erradas também no seu design fundamental. Eis outra prova.



Nesta época do ano, os centros das cidades são decorados com iluminação de Natal. A cidade de São Paulo caprichou além do habitual, envolvendo com luzes azuis e amarelas um grande número de troncos de árvores do Parque Trianon, bem no meio da Avenida Paulista. Milhares de pessoas vão lá a cada noite para contemplar as luzes e passear entre as árvores. Para um fotógrafo, a cena é mais impressionante ainda: todo mundo por lá tira fotos. Câmeras de todos os tipos, por todos os lados. Não se sente qualquer inibição em abrir um tripé ou tirar da bolsa uma DSLR para participar da festa fotográfica no meio da multidão.













O mais precioso desse ambiente é a oportunidade de ver como as pessoas realmente usam as câmeras num ambiente urbano noturno. Elas pegam as câmeras, ligam e clicam imediatamente, acionando o flash compulsório e, com isso, obtendo uma foto inapelavelmente medíocre. Mas o que elas desejariam ao clicar as árvores iluminadas do parque é exatamente o contrário: o flash embutido não deveria interferir na cena!

Acontece que há muitos anos, quando só havia câmeras populares de filme carregadas com filmes negativos lentos, como ISO 100, o flash era essencial para garantir que alguma coisa saísse registrada. Mas já não é mais assim. Muitas câmeras de bolso atuais podem fotografar com luz ambiente à noite, na mão. (E poderiam fazê-lo melhor se não fosse pelo excesso de megapixels no sensor, outra mania da indústria que só serve como argumento de ponto de venda, não beneficiando em nada o usuário.) Só que o consumidor leigo segue esperando que a máquina dispare o flash em situações nas quais não deveria, por pura força do costume. Não se dá à tarefa de escolher o modo de cena noturno que todas essas camerinhas possuem. Não tem consciência de que a câmera poderia fazer melhor. E não porque seja burro, mas porque as câmeras não oferecem o recurso da melhor maneira: automaticamente.

Em lugar de fazer o que precisa, a automação entra no caminho entre o usuário e uma foto decente. Eu possuo uma câmera compacta moderna e cheia de frufrus, mas é de dar raiva: toda vez que é desligada e religada, ela reativa o flash. E depois de eu desativar o flash no menu, ela insiste em fazer exposições com ISO baixo demais e tempos de obturador longos demais, perdendo fotos. Por qual caminho o fabricante chegou à conclusão de que aquilo seria o melhor para mim?

Não temos que tentar ensinar os leigos a deixarem o flash desligado quando não precisam dele: as próprias câmeras é que deveriam fazê-lo. O leigo tem o direito à automação total na captura. Mas a questão do mau uso do flash por design parece ser um caso perdido: basta participar de qualquer plateia de show num estádio para constatar.

É mais do que hora de algum dos fabricantes estudar como as pessoas realmente fotografam, e então programarem a "inteligência automática" de suas câmeras de acordo com a experiência real. Quem sabe a concorrência copia a seguir, daí tudo mundo se beneficia...

4 comentários:

  1. O problema é o sensor. Fotos à noite, sem flash invariavelmente sairiam borradas porque o usuário comum não teria um tripé ou a mão firme para segurar a câmera sem mexer a mão por conta do tempo exposição maior.

    []s

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  2. Tripé de bolso xing-ling custa 15 reais. Neste ponto não temos um problema de acessibilidade, e sim um problema de informação.
    Uma câmera que realmente quisesse ajudar o usuário não faria a foto da maneira idiiota que faz. Ela mostraria na tela uma versão simplificada desta mensagem:
    "Cena noturna com assunto fotográfico distante demais para o flash. Favor colocar tripé (ou encostar a câmera na superfície firme mais próxima, como uma mesa ou parede) para fazer a foto em longa exposição".
    E a máquina, em vez de gerar uma imagem lixo, desfocada e subexposta, faria a imagem a 1/4 de segundo, estabilização ativada, abertura aumentada para f/2.8 e ISO aumentado para ISO 800.
    A maioria das compactas já entra nessa especificação, portanto não tem desculpa mesmo.

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  3. “Eu possuo uma câmera compacta moderna e cheia de frufrus, mas é de dar raiva: toda vez que é desligada e religada, ela reativa o flash.”

    Engraçado, meu Mavicão véio de guerra não tem disso não. Se eu seto o flash dele para não funcionar no modo automático (a “camerazinha verde”), posso desligar e religar que o flash vai conmtinuar destaivado.

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  4. A Panasonic que usei durante anos também retém a configuração, e alguns modelos da Casio até recolocam a lente zoom na distância focal que estava sendo usada da última vez. A camerinha que mencionei pode ser interpretada como um exemplo de fabricante subestimando a capacidade de o público aprender a usar os controles, ou do fabricante observando que o público não tem a mínima intenção de aprender os controles e adotando uma configuração rígida para o "pior cenário". Isso tudo não altera minha conclusão de que o problema começa e termina no fabricante, não no público. É uma questão de design.

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