2010-10-08

O meu tempo e Lennon


Em 9 de outubro de 2010, John faria 70 anos. Ele foi assassinado ao voltar do estúdio de gravação para sua casa em Manhattan, em 8 de dezembro de 1980, quando tinha 40 anos. Essa é a mesma idade que tenho hoje. 40 anos desde nascido, mais quase 30 até agora, o que põe o período de nove anos de existência dos Beatles bem no meio de uma cronologia que vai desde a formação da personalidade do músico, no devastado pós-guerra, afastado da mãe, sem conhecer o pai, até seu esquecimento pelas atuais gerações de cultura alienada movida a falsos escândalos de celebridades de falso talento.

Quando os Beatles se separaram, astronautas caminhavam sobre a Lua - admirável!-, soldados se despedaçavam no Vietnã - execrável! - e eu era puxado para fora da barriga da minha mãe. Vim ao mundo seguindo o caminho aberto pelo bisturi de um certo Dr. Abdalla na Maternidade São Paulo, situada bem perto da Avenida Paulista, a uns 300 metros de onde hoje trabalho, em 4 de dezembro de 1969; por ser um dia atrasado em relação ao programado, meu pai passou toda a vida pensando que meu aniversário era no dia 3, e a cada ano eu precisei corrigi-lo.

No dia 12 de setembro de 1969, John disse a Paul que não queria mais trabalhar com a banda, mas a decisão deveria ser mantida em segredo para não perturbar os negócios já confusos da gravadora Apple. No dia seguinte, John tocava no Canadá com uma banda formada junto com Yoko. Ao mesmo tempo saía o disco "Abbey Road", por muitos considerado o melhor de todos dos Fab Four (se bem que eu prefiro "Rubber Soul", que na minha cabeça faz par perfeito com "Pet Sounds", daquela outra banda começada com B). Foi o último LP criado coletivamente pelos Beatles, de maneira tão consciente que até termina com uma faixa chamada "The End". Em 25 de setembro de 1969, John devolveu a sua medalha de Cavaleiro do Império Britânico à Rainha Elizabeth II, e logo a seguir fez uma lua-de-mel pública com Yoko numa cama de hotel, dando livre acesso à imprensa para conversar e gravando uma canção pacifista ali mesmo - mostrando que não era só um cara de palavras, mas também de ações. Ouça essa, Dylan!

A notícia da morte de Lennon chegou quando eu tinha acabado de fazer dez anos de idade, durante uma viagem de férias às casas de parentes no Uruguai. Não entendi a razão de tanta comoção ao meu redor, embora já conhecesse, de ouvir no rádio, muitas das músicas criadas pelos Beatles ou seus membros, mas a grande maioria sem saber que eram criações deles, já que eu não prestava atenção ao que falavam os DJs. Essas músicas eram tocadas normalmente nas programações das rádios daquele tempo.

Ao morrer, John tinha acabado de lançar um novo disco, "Double Fantasy", contendo algumas músicas que as rádios tocariam insistentemente ao longo de todo o ano seguinte. Numa das canções desse disco, ele diz ao seu filho: "Mal posso esperar ver você crescer, mas nós dois teremos que ser pacientes, é um longo caminho a percorrer". Esses versos não foram criados para partir o coração de ninguém, mas com o significado que adquiriram depois… Há uma quantidade excessiva de canções de Lennon que evocam um futuro que tragicamente não chegou a existir para ele. Pelo menos aparentemente, Sean, hoje com 35 anos, está vivendo bem. Já o meio-irmão abandonado, Julian, não deve poder dizer o mesmo, mas persevera: vai lançar seu segundo disco.

Enquanto eu bebia o leite natural de minha mãe, nos dias 3 e 4 de janeiro de 1970, os três Beatles remanescentes gravaram "I Me Mine", composição de George Harrison. Essa música psicodélico-filosófica está no álbum "Let It Be", subproduto do desastroso documentário de mesmo nome e lançado em 8 de maio, quando o mundo inteiro já sabia que os quatro músicos, cansados um do outro e entretidos em seus projetos solo, não queriam mais nem cogitar de criar nada sob o nome Beatles. Um mês antes de sair "Let It Be", em 10 de abril, Paul lançara de surpresa o seu primeiro álbum, gravado na surdina, no qual ele toca todos os instrumentos e é acompanhado somente da mulher (ainda que numa dinâmica oposta à de John com Yoko, fonte de tantos atritos dele com os ex-parceiros). As cópias desse disco distribuídas à imprensa traziam um patético press-release que dizia, de forma implícita, oblíqua e até meio envergonhada, que os Beatles já não mais existiam. John ficou louco com o oportunismo de Paul. Suas reações: "Ele ficou com todo o crédito!" e "Eu devia ter sido esperto como ele, que usou a deixa para vender seu disco".

Em novembro de 1970, George lançou "All Things Must Pass"; em dezembro, foi a vez de John com "John Lennon/Plastic Ono Band", seguido poucos meses depois do retumbante "Imagine". Ringo já tinha lançado seu "Sentimental Journey", em 27 de março; ele vinha sendo gravado desde a deserção de John. Quando Paul entrou com o processo para dissolver legalmente a banda, em dezembro de 1970, todos os quatro tinham carreiras de sucesso bem encaminhadas, com novas ideias e novos temas musicais, e produzindo em maior volume do que quando eram uma banda só. Dessa perspectiva, acho uma desnecessidade ser um saudosista dos Beatles.

Em 1970 e 1971, Paul e John trocaram farpas afiadas através de letras de músicas. Para Paul, John tinha virado um pregador fanático; para John, Paul era um hipócrita ególatra. Em 1974 eles reataram em parte a amizade; não seria absurdo que eles voltassem a criar alguma coisa juntos, caso John não tivesse morrido precocemente. Pouco antes da morte, John disse à "Playboy" que Paul chegava do nada a seu apartamento em Nova York com um violão embaixo do braço, carente de companhia e bate-papo com o ex-companheiro. Até que John, arredio e desinteressado, disse: "Paul, não me leve a mal, mas sabe, a gente não é mais como era no tempo do colégio, por isso avise com antecedência quando vier das próximas vezes." Paul se ofendeu e, embora não tenham brigado por isso, nunca mais se viram pessoalmente. Corria o ano de 1976. Quando John morreu, a imprensa foi correndo atrás de Paul e tudo que ele conseguiu dizer diante das câmeras de TV foi um desolador "Chato, não é?". Na minha opinião, ele estava chocado. Mas o público achou que era pura insensibilidade. Paul nunca parou de trabalhar. John passou cinco anos "Watching the Wheels", afastado da música e de qualquer vida pública; pode ter tomado a decisão de retornar a gravar de tão cansado de assistir ao sucesso contínuo de Paul. Todavia, dizia também que finalmente estava se sentindo feliz, depois de tantos anos de busca louca por uma verdade ilusória.

Nisso, aparece um maníaco e dá quatro tiros no cara.

É irônico, desolador e deprimente pensar que Lennon, que se engajou até a medula dos ossos magrelas na causa sagrada da paz, tem a sua figura indissociavelmente ligada a duas das pessoas mais odiadas no planeta desde Hitler: sua viúva Yoko Ono e seu assassino Mark Chapman. Quanto a Yoko, farei o que fez o autor da biografia de Lennon lançada pela minha editora: não emitirei julgamento. O que deveria mais interessar às pessoas é o sábio conselho, que Lennon não inventou, mas propagou o quanto podia, de que a mudança desejável no mundo deve partir dos próprios indivíduos, através de uma mudança de atitude interior. Não resolve criticar e pressionar os outros sem participar do processo, nem tentar destruir as instituições estabelecidas sem pensar no que será preciso construir depois em seu lugar, nem entregar a sua responsabilidade pessoal nas mãos de qualquer figura de liderança. Concordo com esse pensamento letra por letra.

Outra coisa tristemente irônica é que John expressou desilusão e frustração com o pouco fruto de suas campanhas pacifistas, antes mesmo que elas chegassem ao seu auge. É como se ele tivesse antevisto desde o início o impacto pífio que o trabalho dele e de seus "heróis seguidores" teria sobre os aspectos sombrios da civilização humana. Tudo o que ele combateu em vida continua em amplo progresso hoje: injustiça, mentira, guerra, hipocrisia.

Assim como muita gente, eu nunca tinha dado muita atenção ao trabalho solo de John, por achá-lo no geral chato, mas recentemente dei outra chance e descobri (ou redescobri) algumas joias preciosas. Ao ouvir coisas como "Mother" e "God", entendi de onde Roger Waters tirou o exemplo para criar aquelas músicas raivosas com as quais ele contaminou o Pink Floyd uma década depois. Ao ouvir uma demo de uma bela canção inédita que os Beatles sobreviventes até pensaram em completar e lançar, em quem eu penso? Radiohead. Só que é um Radiohead 15 anos à frente de seu tempo. É irresistível especular no que a mesma canção, "com uma ajudinha dos amigos", poderia ter se tornado.

Imagine.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo texto. Valeu a leitura de cada linha!

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  2. Mario,

    quando eu crescer quero escrever textos bons como esse. ;-)

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