2010-05-10

A Apple não é mais a mesma, Parte 2

O artigo anterior, dizendo que a Apple não esconde mais sua agressividade e sede de poder total, repercutiu bem em vários meios, pois reflete uma opinião ainda rara por vir de dentro do próprio universo dos Macs e iPads. Não é uma opinião tão rara fora desse universo, no mundo mais amplo dos produtos concorrentes. Mas os fãs da Apple tendem a só ouvir o que soa como sua própria voz, num efeito de reforço autoconvincente.

A discussão foi parar num fórum que, a deduzir pelo que acabei de dizer, não é exatamente o local apropriado para elaborar: a lista de email dos colaboradores da Mac+, que ainda contém muita gente dos tempos guerrilheiros da Macmania. Essa gente é inteligente, mas, por vezes, cheia de devoção religiosa em relação à marca. Falar algo mal da marca instiga-os a refutar as críticas atavicamente, por conexão à fase histórica anterior em que a opção pela Apple era uma atitude diferenciada, anticonformista e desafiadora. Claro que não é mais nada disso, mas há um impulso de manter o seu status, confirmado e reforçado pela mensagem do marketing da empresa. Esqueça-se por um momento que agora ela domina mercados e está presente por toda parte.

No ímpeto de defender a Apple a qualquer custo, o povo do velho círculo sustenta que a empresa está no direito de pisar na cabeça de toda e qualquer voz dissonante porque seus produtos são "melhores". É, maldisfarçado, o velho argumento da procedência moral, sempre aproveitado por reis e ditadores.

O mesmo povo argumenta também que os conflitos recentes de relações públicas não envolvem pessoas, mas sim empresas. Pois é: o caso envolve um coletivo empenhado em expressar numa forma única (mercados fechados e marketing impermeável) as vontades e pensamentos do seu fundador e líder absoluto (Steve Jobs), cujo próprio nome se confunde com o do coletivo.

Mais uma vez: isso me soa muito próximo a fascismo.

Façam com que não soe, se não querem lidar com crítica. Parar de perseguir quem discorda de seus métodos e convicções seria um ótimo ponto de partida, tanto para a empresa Apple quanto para seus consumidores devotados.

Já estava esquecendo o assunto todo, quando deparei no mesmo dia com duas tiras que corroboram de forma bem-humorada as minhas impressões:

Geek and Poke

Joy of Tech

I rest my case.

Update (11 de maio) - O editor da ZDNet Sam Dias também se pronunciou, dizendo basicamente a mesma coisa que meu artigo anterior:

But lately, with the announcement of the iPad and the new iPhone OS, as well as the unintended peek at a next-generation iPhone, I’m just not all that impressed with what Apple has been doing. I have to be honest - it feels stale. And then there’s the other part of the perception - the corporate behavior of the company. We’re talking things like legal battles with HTC and Gizmodo, a bull-headed position on Flash combined with a childish public spat with Adobe over it and the controversy surrounding its app review process, including its self-appointed role as the moral police.
Lately, it doesn’t feel like the same Apple, the cool Apple. It feels like corporate Apple and, if it gets called to Washington to answer allegations of anticompetitive behavior, it could get harder to differentiate Apple from Microsoft.
Ouch.


Update (12 de maio) - Business Insider: versão para iPad da revista Dazed & Confused é censurada pela Apple.

6 comentários:

  1. Mario, no meu ponto de vista a Apple não mudou, o que mudou foi o campo de batalha. O caráter agressivo da Apple continua intacto, exatamente como antes (lembra quando Steve Jobs insistiu em não colocar setas no teclado do Mac?). O que mudou é que antes a Apple tinha um rival com cara de vilão: a Microsoft; e hoje o principal rival da Apple tem cara de cordeiro: o Google.

    Antes qualquer atitude agressiva da Apple contra seu rival era comemorado pelos fãs do Mac, tipo "Dane-se, Microsoft!". Hoje esses mesmos fãs nutrem uma grande simpatia pelo Google (e até pela Adobe), e assim os ataques da Apple soam descabidos; exagerados. Esses surtos, porém, sempre foram a assinatura de Jobs.

    O grande engano disso tudo é exatamente querer estabelecer critérios de moralidade num ambiente de lobos. Nunca ouve mocinhos ou vilões. Cada empresa defende seu pedaço do bolo. Conforme os fãs da Apple se dão conta disso, bate aquele sentimento de "A Apple mudou". Mas na verdade quem mudou foi você.

    Como eu disse no último post, eu não uso ideologia, eu uso aparelhos. Enquanto o iPhone for melhor smartphone do mercado, terei um no bolso.

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  2. Eu refinaria seu argumento dizendo que as *intenções* da Apple sempre foram as mesmas, tanto quanto as da Microsoft, Google e tantas outras. Qualquer uma delas obviamente quer ser líder indiscutível de seu ramo. Mas as práticas externas de cada uma foram, sim mudando, pelo simples fato de que os produtos mudaram e o equilíbrio de poder entre elas no mercado também mudou.
    Pessoalmente, eu usava PCs cinco anos antes de conhecer os Macs, e não abandonei os PCs nem passei a defender os Macs incondicionalmente. A ideia sempre foi não ficar dependente das soluções tecnológicas de um único fornecedor, nem tampouco ficar ignorante em relação ao restante do mercado. Esse foi o erro de alguns colegas meus. Sempre considerei o amor à plataforma de computador uma atitude intelectual estreita e me espanta que ela ela tenha tanta continuidade, mesmo na idade madura.
    Meu artigo, porém, não veio para discutir as motivações internas das empresas nem a mentalidade das pessoas. É sobre a atitude externa: o que antes parecia dissimulado e hoje é escancarado.
    Não acho que a escolha dos vilões seja um fator crucial. A Microsoft já não manda como antes e ainda tem macmaníacos "torcendo" contra ela todo dia. Se apareço e digo que essa atitude é uma bobagem, correm a dizer que estou "defendendo" a Microsoft. Simples natureza humana, a necessidade de definir tudo por uma oposição radical. Francamente, isso me cansou intelectualmente. Será que as pessoas jamais vão deixar de ser tão primárias e burras?

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  3. Vendo de fora, parece que o fato da Apple estar ficando popular (ou "carne de vaca", num linguajar mais informal) irrita os fãs mais puristas. O que chega a ser paradoxal, já que o iPhone é o sucesso que é justamente por ser popular.

    E, não sei como era no passado, mas no último Encontro Locaweb, em Curitiba, das cinco palestras as quais assisti, em apenas uma o palestrante não estava com um MacBook Pro. Ah sim: esse "excluído" era o Rene de Paula, da Microsoft.

    []'s!

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  4. Aí entra o fator status mais uma vez. Até há alguns anos, ter Apple era demonstração quse garantida de ser rico, pois Macs eram muito caros. Grudar a maçãzinha no carro é sintoma da sociedade de ostentação e aparência.

    No entanto, a quantidade de entusiastas que sempre querem ter tudo que é novo primeiro não parece ter aumentado em proporção ao público consumidor total. Infelizmente não tenho números para comprovar essa percepção...

    Geeks de alto calibre compram Macs para rodar Windows e Linux devido à propalada confiabilidade do hardware. Mas PC de excelente qualidade na mesma faixa de preço não falta.

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  5. Caro Mario, como seu do seu interesse por fotografia e photoshop, veja e me diga o que acha desta foto. http://media.egotastic.com/media/pictures/1005/gisele-bundchen-lingerie-part2-05.jpg

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  6. A linha de contorno da barriga é fake; e a câmera estava numa posição alta demais, deixando-a sem coxas. De resto é uma foto bacana.

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