2010-03-22

Glauco

Trabalhei na Folha de S. Paulo entre 1994 e 1997. Portanto, tive o privilégio de conhecer o Glauco. Sujeito amável e simpático, mas com um ar de mistério que me intimidava um pouco. Ele parecia viver num mundo à parte, sobreposto ao mundo "real". E, sim, convidou-me para provar a droga sagrada durante um encontro em balcão de bar, convite aliás que ele parecia fazer a todas as pessoas de quem tinha alguma proximidade no jornal; mas eu não fui atrás...

A minha maneira de homenagear o cartunista é publicar os originais de desenhos dele que ganhei (ou ficaram comigo por esquecimento).



O que você vê acima, uma charge para a página 2, tem um tema atual até hoje e por isso é meu favorito. É esse que será enquadrado e irá para a parede de casa...

As demais charges referem-se aos governos Itamar Franco e FHC. Note que a de Itamar é uma peça nunca publicada, na qual não se chegou a um texto definitivo.













Os scans incluem algumas marcações feitas na redação sobre o original - posteriormente, cópia xerox ou fax - para determinar a dimensão final impressa da tira. Nenhuma destas é colorida, porque a cor ainda não era usada nas páginas internas da Folha. Mas numa delas você vê o Glauco pedir ao Paulão (chefe da arte na época) que aplicasse uma retícula cinza.

Fui responsável pela colorização da primeira charge em cores da página 2 do Glauco, quando o jornal implantou a cor total em 1995. A ideia era que todos os ilustradores se virassem para entregar as artes já coloridas, mas alguns deles ainda não tinham computador ou scanner próprio. Era o caso de Glauco, que pediu para que eu colorisse o seu material na redação até ele aprender como fazer, e também de Fernando Gonsales, do qual colorizei uma semana inteira de "Niquel Náusea" (e só depois descobri que a paleta de cores preferida dele era totalmente diferente da que usei). Glauco estava do lado para assinalar as cores na charge e ver como eu fazia a colorização. Infelizmente não guardei cópia do resultado, mas lembro que era uma peça na qual ele satirizava as viagens internacionais de avião do presidente FHC. A técnica foi criar uma camada de shapes vetoriais de FreeHand sob o scan da arte original. Ficou bom e contornava o fato de o desenho do Glauco ter áreas abertas por todo lado, impedindo o uso do baldinho de tinta do Photoshop. Mas o processo era muito trabalhoso. Sugeri então que em desenhos futuros ele fechasse as formas para poder preencher as áreas de cor com o baldinho, apagando depois as linhas adicionais traçadas para fechar as áreas. Quando Glauco viu que essa seria a única maneira de manter a produtividade, sem hesitar ele aproveitou e também mudou o estilo do seu desenho para algo mais "clean" e formal.

Abaixo, duas colaborações do Glauco, uma com Angeli e Laerte - Los Tres Amigos - e outra com o veterano ilustrador Emilio Damiani.





Tiras do Geraldão de 1993:





Tiras do Casal Neuras:





9 comentários:

  1. Maravilhoso, Mario. Belíssimo presente. Bjs

    Mari-Jô Zilveti

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  2. Mario, dessa vocês você ganhou vários Achievements de respeito comigo! Sou teu fã duplamente agora...
    Abração,
    Ricardo Farah

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  3. Que demais isso! preciosidade mesmo!

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  4. Engraçado dizer isso, mas bateu uma saudade agora, do Glauco, claro, mas também da época em que para dar um charme a mais aos desenhos nos virávamos com as famosas Letraset e retículas adesiva, e de todo o processo de arte como era feito nas redações naquele tempo. Nostalgia...

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  5. Realmente. Belo presente para os leitores.

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  6. Muito bom, inclusive pelo depoimento pessoal, pra ilustrar (sic).

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  7. Ei Mario AV! Só hoje li esse post!

    Quando entrei na Folha eu era Aux. de Redação. C lembra? Muitas vezes eu ia de kombi no estúdio do Angeli para buscar a charge do Los 3 Amigos. Dai voltava correndo pra redação e passava a charge pro Paulão, pra Didiana, pro Jair. Era massa. Eu adorava ficar do lado do Alex, da Joana, da Renata, da arte, para aprender. Saudade. Beijos

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