2010-02-23

A morte das listas de discussão

Hoje resolvi abandonar duas listas de discussão (mailing lists).
Uma das listas é temática, fechada em torno de um assunto profissional técnico.
A outra é do tipo "papo de bar" ou "reunião de comadres permanente", que já fez tanta alegria entre os pioneiros verborrágicos dos tempos dourados da Web 1.0, entre os quais me incluo.
Por que deixar as listas?
No caso da lista de tema aberto, porque já surgiram muitos outros meios de intercâmbio de informação e opinião, desde blogs até agregadores de notícias, do Wave ao Twitter, do Flickr aos fóruns abertos e murais do Facebook. As listas que não têm a ver diretamente com meu dia-a-dia profissional - trabalho editorial em publicações - já estavam em segundo plano.
Nunca foi tão fácil obter informação rápida e opinião embasada sobre qualquer coisa. Especialmente quando se tem um olho aberto para o que está rolando fora do Brasil (sim, vou insistir mais uma vez na essencialidade de dominar o idioma inglês; você não me escapa).
A lista de tema aberto contém vários amigos; mas eu já converso com eles via chat, quase todos os dias, e alguns encontro pessoalmente também. Não preciso da lista para mediar essas relações. Com a lista aberta já tenho uma história pessoal de entrar, sair, voltar, trocar mensagens ríspidas com desconhecidos valentões, sair novamente, voltar, constatar que nada mudou, sair mais uma vez. Entre tantas idas e voltas, a lista perdeu a relevância na minha Inbox.
No caso da lista especializada, é diferente: cansei das pessoas, mesmo. Quase invariavelmente, os experts que reservam tempo para palpitar diariamente sobre assuntos obscuros de evolução lenta não possuem tanto assim a dizer: recaem frequentemente no lugar-comum de sua tese pessoal ou ideologia, estão lá para promover uma doutrina. Ou então, são simples caça-flames. Você diz uma única frase menos elaborada e eles caem matando com enormes emails oportunistas para "provar" que "sabem" mais. Em suma, a lista virou uma concentração de freaks culturais, de gente malcomida em busca de um alvo para sua revolta e de gente inteligente mas desprovida de tato social.
É mais patético quando constato que em algum momento da vida já fui também um expert em irrelevâncias, um freak cultural, um malcomido revoltado, um sem-tato perturbando inocentes em listas de email. Não mais.
A impressão subjetiva que fica é que as pessoas que realmente fazem as coisas acontecer no mundo online já tinham se retirado quando eu não estava vendo e ganharam a dianteira graças ao tempo poupado por não mais lerem discussões em listas.
Um amigo meu fez a coisa certa: criou uma lista temática com tema restrito, regras muito bem definidas, e só convidou amigos e colegas que já conhece há tempos. Quem quer fazer parte dessa "elite" primeiro precisa mostrar a que veio numa outra lista, de inscrição aberta e menos restritiva.
Mesmo assim, persistem as questões de que falei. Hoje há outras vias de informação e discussão. Muitas não irão tomar tanto tempo.
Abri o meu arquivo de mail só para ver qual era o papel das listas na minha correspondência há 5, 10 e 15 anos. O auge foi há 10 anos: uns 80% dos emails eram de listas, e havia uma dúzia de listas de temas variados. O declínio começou após eu inaugurar o blog no fim de 2000.
As listas já eram. E escrevi este artigo porque não tenho visto ninguém fazendo o mesmo. Devem estar ocupados fazendo coisas produtivas.
Que venham agora os flames.

12 comentários:

  1. concordo com você. as listas morreram. lembro quando era interessante, ou relevante participar de listas de discussão. um ex. disso são as de fotografia. em quase todas e só os chatos que acham que sabem tudo participam, e não perdem a chance de chicotear algum(a) novato(a) que peça ajuda. as de design, tipografia e etc seguem a mesma linha.

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  2. Há cerca de 5 anos, saí de 80% das listas que eu participava. Eram muitas... Das ditas "técnicas", fiquei em uma ou duas, por pura preguiça de ir procurar um caminho para unsubscribe... Afinal, já não havia tráfego de conversações que tivesse fluxo para incomodar. Dois anos depois, terminei saindo de vez... Fiquei em apenas duas listas de "comadres". Invariavelmente tem quem sempre quem ache que sabe mais e com a tal necessidade de se auto-afirmar. Não saio, pois ainda dou boas risadas com um ou outro amigo (que tb falo diariamente em pvt) tirando sarro de algo/alguém.

    Há cerca de um ano tenho percebido mais nitidamente a diminuição no fluxo de conversações e o acelerar do Twitter como um suporte para isto. É mais ágil... mas, em contra partida, perdemos a rastreabilidade das conversas. Fica "caótico" demais o papo e difícil de fazer referências à assunto já tratado. É tudo, ao seu modo, muito mais efêmero. Nem sei se eu gosto disso, confesso...

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  3. Existem novatos (e experientes) que pedem para ser chicoteados.
    Mas o debate de ideias em listas morreu mesmo, é fato. Nas listas das quais me desvencilhei, as pessoas não trazem coisas novas; contentam-se em reclamar (porque a imensa maioria dos comentários é queixa) de coisas que já foram divulgadas por meios mais ágeis, como o Twitter.
    Eu adoraria dar exemplos de como se pode tirar o tesão de uma discussão online, de como as listas cada vez mais funcionam como coadores que retêm pessoas intratáveis em busca de cagar regras e alimentar rusgas para sentirem-se alguma coisa.
    Adoraria sacanear a todas usando as técnicas dialéticas do David Thorne (ver post anterior), mas na vida real não dá sempre.
    Sabe de uma coisa? Vou abrir uma lista e ser o administrador. Escolha o tema.

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  4. @Caparica: Eu fico maluco com o fato de meu telefone mostrar os SMS enviados numa lista, os recebidos numa outra, e não saber encadear umas a outras, como os aparelhos mais modernos fazem. O Twitter também dá essa sensação. Os threads são abertos, o que é bom e também é ruim.
    O Google achou que tinha a solução para esse dilema com o Wave, e depois também com o Buzz, e errou a mão nas duas oportunidades.
    O humilde chat continua sendo um meio que não me frustra.

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  5. Lembrei de uma coisa nas listas que nunca teve solução satisfatória. A administração de digests.
    Há anos opteir por recebê-as na forma de resumos (digests) e não tentar responder os threads em tempo real.
    Seria ótimo, se a tecnologia não tivesse deixado as pessoas tão preguiçosas com o ato de escrever emails.
    Limpar as mensagens, deixando no máximo o pedaço do email anterior ao qual se responde para informar o contexto, era etiqueta básica e fundamental quando comecei a participar da Internet e a banda de conexão era muito restrita. Com o advento da banda larga, esse cuidado perdeu-se. Não só por preguiça, pressa crônica e deseducação geral dos usuários, mas devido à adoção geral da convenção de escrever uma nova mensagem antes do texto anterior e não na sequência. Lixo velho vai se acumulando sem a pessoa ver.
    Num digest, o cliente de email não consegue ocultar as partes da mensagem que são meras citações. Você acaba com uma mensagem de duas linhas contendo dezenas de restos de mensagens anteriores, num efeito de bola de neve.

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  6. putz, esse problema dos resumos é uma coisa muito chata. mas isso também bate de frente com a falta de noção de alguns usuário e também com a falta de habilidade em informática de outros.

    hoje sai de mais uma lista. espero até o fim do mês só ficar com as que realmente ainda funcionam. mas pelo visto, matarei praticamente todas! só vou ficar com uma de mtb, para ficar babando das trilhas marcadas e eu a mais de 1000km delas.

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  7. Mario,

    As listas como conhecemos morreram.
    Comecei nas BBs, continuei na Photoforum do Andrew Davidhazy (Rochester-RIT) e criei (como vc sabe) quatro listas diferentes. Participei (e fui expulso) de umas 30, brazucas e gringas.
    Hoje, as uso como rápida ajuda mútua para resolução de problemas imediatos e para comunicar eventos, assuntos ou interesses em outras mídias.
    A lista restrita, com convidados funciona realmente melhor, mas pode ser uma oficina de egos inflados, a começar pelo fato de ser de..."elite".
    Meu maior problema com as listas, hoje, é que sou o listowner e não posso nem devo "matá-las".
    Já uma lista como a da Fototech, fechada e apenas dos associados, faz sentido. As discussões costumam ser pertinentes e restritas aos assuntos da Fototech.
    Abraços,
    Clicio

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  8. Engraçado...

    Depois disto [http://twitter.com/caparica1975/status/10955646917] parei pra reler o post e os comentários.

    Mario... Kd os flames que vc esperava?

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  9. Na minha opinião as listas deixaram de ser interessantes porquê muitas (não todas, não estou generalizando) pessoas se cansaram dessa forma de discussão que deixaram um pouco de ser moda pois muitas outras modas estão surgindo. Cansaram de opinar e ter suas opiniões contestadas. Antigamente os flames não eram flames, eram apenas discussões de idéias. Hoje em dia se alguém dá uma opinião e é contestado fica chateado e saí da lista. Ninguém gosta de ser contestado, todos querem suas opiniões aceitas e agora existem outras formas de opinar sem o perigo da contestação de idéias.
    Outro fator é que muitas pessoas não participam, ou por não ter opinião ou por não querer suas opiniões contestadas. O mundo da internet tem opções que cada vez mais afastam as pessoas que tem opiniões diferentes e só aproxima quem tem as mesmas idéias.
    Frase que gosto muito: "O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio ao ser salvo pela crítica. (Norman vicent)"
    Não sou dono da razão ma apenas procurei expressar minha opinião.

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  10. Este parágrafo: "É mais patético quando constato que em algum momento da vida já fui também um expert em irrelevâncias, um freak cultural, um malcomido revoltado, um sem-tato perturbando inocentes em listas de email. Não mais." é genial.

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  11. Mário,
    Antecipadamente, peço desculpas se eu parecer "... um expert em irrelevâncias, um freak cultural, um malcomido revoltado, um sem-tato perturbando inocentes em listas de email..."
    Recebi a indicação de um amigo, que participa comigo de várias listas e que debatemos, ou não, os assuntos nos quais divergimos. Assuntos que concordamos levamos para outro espaço.
    As listas de discussão ou de trabalho, NÃO MORRERAM.
    O que acontece é que os listeiros, na presunção de que são superiores aos demais, buscaram outras ferramentas.
    Uma das ferramentas que manteve o espírito das listas são os chamados Fóruns que se bem administrados conseguem superar as listas sob todos os aspectos.
    Infelizmente, alguns serviços Web são bloqueados nas empresas (as listas geralmente mantem-se imunes a estes filtros).
    Assim, avalio que as listas ainda podem cumprir muitas funções e que o imediatismo e individualismo que sempre existiu nas listas das antigas BBS's (sim, sou desta época!) teve melhor acolhida em Blogs, Twitter e coisas como Orkut e MSN. Em resumo, a maioria dos Listeiros sem conteúdo, conseguiu os 5 minutos de fama com as novas tecnologias e cansou-se de postar mensagens e ninguém responder (isso mata de raiva muito listeiro). Todos querem que ELE PAUTE os debates e não que outros apareçam com o tema inicial.
    Sou usuário de vários espaços, sou owner/administrador de tantos outros. Aliás, participo de uma lista de trabalho sobre COBOL, que muita gente imagina que acabou. Participo de lista de fotografos que gostam de máquinas analógicas, que muita gente acha que nunca existiu. Será que estas listas acabaram?

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  12. Não há necessidade alguma de fazer uma defesa das listas. Como você mesmo disse, os listeiros dispersaram-se entre muitos outros serviços da Internet que pertencem a esta década. Mantenho minha opinião de que as listas remanescentes viraram uma coleção de freaks culturais, presumivelmente com exceções que desconheço.

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