2009-12-31

Feliz 2010

—I feel like this is some dream world we’re in.

—Yeah, it’s so weird. It’s like our time together is just ours. It’s our own creation. It must be like I’m in your dream and you’re in mine.

—And what’s so cool is that this whole evening, all our time together, shouldn’t officially be happening.

—Yeah, I know. Maybe that’s why this feels so otherwordly.

2009-12-29

Há dez anos

Esclarecimento inicial: este post não foi motivado pela "virada da década", porque a década NÃO vira agora e sim daqui a mais um ano, apesar de as revistas semanais estarem forçando a barra para que nos confundamos e compremos logo as suas edições gordas de retrospectiva, já nas bancas.



Se fosse aplicar um clichê da década a estas capas de revistas, seria: "percorremos um longo caminho desde então". A Magnet (predecessora do atual site Geek) anunciava a Internet de banda larga e adivinhava sem querer o nome de um serviço futuro do ramo, "Ajato".
O destaque principal era "modelos virtuais". Apesar da relativa tosquice do acabamento do CG na modelo da capa, batizada inimaginativamente de Webby (e usada numa campanha publicitária da Nokia), havia quem jurasse que o futuro consistiria em renderizar as beldades em vez de fotografá-las. A viagem nerd dos artistas digitais era criar personagens com nomes próprios, vidas inventadas e personalidades idealizadas, e então tentar vender isso ao público como um sucedâneo direto das pessoas reais. Claro que nunca deu certo.
Lembre que vivíamos então os estertores finais da bolha da Web e o ambiente ainda estava lotado de capitalistas de risco e marketeiros em frenética busca por qualquer engana-trouxa que transformasse rapidamente a Internet na nova televisão. Acabou levando mais tempo do que eles desejavam, e muitos faliram no processo. As "modelos virtuais" eram de fato engana-trouxas.
A realidade que prevalece - a reconstrução extrema das modelos no Photoshop - enfrenta hoje uma resistência cultural crescente.


A Macmania da mesma época descrevia o novo iMac com gabinete mais leve e bonito. Mas de longe, já que ele só tinha sido anunciado nos EUA e não tínhamos acesso a ele. A única foto disponível em alta resolução era da lateral do gabinete. Foi uma das capas mais feias que fizemos, mas não havia mesmo escolha.
O destaque "10 respostas para detonar seu amigo pecezista", lindamente ilustrado por Tom B, consistia numa série de argumentos afiados e sarcásticos atacando os aspectos em que o PC com Windows era decisivamente pior que o Mac. Lembre que o que existia então eram o Windows 98 e o recém-lançado Mac OS 9, dois sistemas extremamente capengas e simplórios pelos nossos padrões atuais. Todavia, comparação igual hoje não faria tanto sentido, porque as diferenças entre eles eram muito maiores em 1999.
Essa "pauta negativa", que refletia o espírito rebelde da revista em seu início, teve sugestão inicial e redação final minhas. Em retrospecto, acho que não foi uma boa ideia. Semanas depois, um conhecido troll de newsgroups de Mac, onde passava o seu tempo mandando as pessoas não comprarem Macs porque PCs seriam incomparavelmente melhores, teve a paciência e o distorcido senso de justiça de ir muito além e escrever um website inteiro intitulado "MacOtários".
Nesse site, ele tentava desbancar a nossa matéria ponto a ponto, usando a falácia retórica do "red herring": responder cada argumento com outro fora do contexto. E aproveitou o ensejo para despejar toda a bile de uma só vez, xingando os adeptos da maçã de muitas outras coisas além de "otários". Tanta raiva assim ultrapassava os parâmetros da simples e boa inveja.
Infelizmente as suas críticas, em vez de informar, revelavam espesso preconceito e elementar ignorância acerca do Mac. Mas valeu por ter sido a mais elaborada trollagem dirigida contra a Macmania em todos seus 10 anos de publicação. Não é todo dia que em vez de um "hate mail" você é premiado com um website furibundo de 11 páginas com layout próprio e ilustrações.
Após um brutal flamewar contra o autor (com minha justa participação, incógnito), ele tirou o site do ar. Mas pegou gosto por esse negócio de fazer propaganda religiosa na Web. Hoje ele mantém um site exclusivamente sobre Windows, que tem patrocínio da Microsoft e um fórum dos leitores onde é proibido mencionar o nome de qualquer outra plataforma - mas nos editoriais ainda sobram farpas dirigidas à Apple.
Dessa forma, em alguma pequena medida eu me sinto um pouco responsável pela criação de um monstro. E parece que a velha rixa está voltando à moda, no que depender de conhecidos veteranos da plataforma que insistem em manter a polarização: confira a matéria sobre o tema no Diário do Comércio.
Postei um comentário lá, mas não saiu por algum problema técnico. Disse o seguinte:

A rixa entre os macmaníacos e os supostos (porque de fato são raros) pecezistas era mais intensa nos anos 90, quando o Mac era muito mais uma plataforma de nicho do que hoje. Além de serem relativamente muito mais caros que agora e bem menos numerosos, os Macs eram menos compatíveis com o mainstream PC. Então, cada usuário de Mac precisava se munir de um monte de informações e argumentos somente para justificar sua escolha para a multidão. Uns ou outros davam um passo além e tentavam "converter" as pessoas por conta própria. Vários dos entrevistados para esta matéria são veteranos dessa turma. Em alguma medida, ainda insistem no papel de "guerrilheiros culturais", mesmo que hoje em dia a Apple não seja "talento não reconhecido", e certamente não precisa da ajuda de ninguém.
Síndrome de Estocolmo seria se a Apple tivesse seguidores fanáticos de produtos péssimos, o que muito evidentemente não é o caso. Culturalmente, muitos macmaníacos tentam extrair status social de seu equipamento, de forma similar a fotógrafos com câmeras Nikon, por exemplo. Esse status, porém, deve vir do que a pessoa realiza, não da ferramenta. Quanto ao caráter pessoal, se os macmaníacos buscam passar a sensação de serem maravilhosos, já conheci um número maior de chatos. Perdoem a sinceridade.

2009-12-04

Dicas de cicloturismo

Joint venture com o Blogus, o blog de aventuras do Blagus. Leia e inspire-se a viajar!

2009-12-02

Piada Explicada 1: Amazing Horse

Bem-vindo à série Piada Explicada, no qual sempre algum "meme" estrangeiro corrente na Internet será traduzido, comentado, contextualizado e esmiuçado, até perder totalmente a graça. E mediante sugestões dos amigos e visitantes, memes em português também serão devidamente estragados, em benefício (discutível) da parcela majoritária de usuários da Web que não aprenderam ainda a pesquisar informação nem a interpretar ironias.

AMAZING HORSE



"Amazing Horse" é o nome de uma canção e também de uma animação em Flash, ambas criadas pelo animador profissional inglês Jonti Picking, que assina seus trabalhos como "Weebl".

Um fã criou um site no qual a mesma animação abre em tela cheia, para podermos apreciar a obra de uma maneira mais integral e próxima. Muitos visitantes, porém, deixam a página aberta, com a música tocando em loop infinito, como som de fundo para ajudar na concentração mental durante o trabalho ou videogames.

A estética, tirando as falhas deliberadas no traço, é vagamente reminiscente dos primeiros quadrinhos do animador brasileiro Marco Pavão, co-criador do cartum "Fudêncio e Seus Amigos" (e amigo pessoal do autor deste artigo).

Pelas roupas dos personagens, a cena se passa em algum momento da segunda metade do século 19. Há uma mulher no lado esquerdo e um cavaleiro à direita. São os únicos personagens, além do cavalo, e a música apresenta versos cantados alternadamente pelos dois.



O cavaleiro entra em cena e inicia abruptamente a música, que tem um arranjo eletrônico retrô e vocais em barítono cantados pelo próprio autor.

Look at my horse
my horse is amazing
give it a lick


(Olhe meu cavalo
Meu cavalo é incrível
Dê uma lambida nele)

A mulher lambe o cavalo:



Hmmm, it tastes just like raisins!

(Hmmm, ele tem gosto de uvas passas!)

Aqui se tem uma referência explícita ao consumo de droga psicodélica. Algumas drogas são consumidas na forma de papeizinhos administrados oralmente.

Have a stroke of its mane
it turns into a plane
And then it turns back again
and then you tug on its winky


(Passe a mão na crina dele
ele vira um avião
E então desvira de volta
Aí você puxa o pipi dele)



Esta cena na animação (que originalmente não tem a proteção da tarja preta, adicionada para este site) a desqualifica para ser assistida por crianças.

Ooooh, that's dirty!

(Ooooh, isso é sujo!)

Do you think so?
Well, I better not show you where the lemonade is made
Sweet lemonade, ohh, sweet lemonade
Sweet lemonade, yes, sweet lemonade


(Você acha?
Bem, melhor eu não mostrar onde se faz a limonada
Doce limonada, ohh, doce limonada
Doce limonada, sim, doce limonada)



A referência à limonada (que, na animação, é apresentada como se fosse a urina do cavalo engarrafada) é outra "dica" a respeito da droga, que é o tema verdadeiro da música. Certas drogas injetáveis são diluídas com o auxílio de suco de limão, vinagre ou vitamina C em pó.

Após um breve interlúdio com uma frase de teclado, outro close no cavaleiro apresenta a estrofe seguinte:



Get on my horse
I'll take you round the universe
and all the other places too


(Suba no meu cavalo
Vou conduzir você pelo universo
E todos os outros lugares também)

Este trecho da letra fala, figuradamente, dos efeitos da referida droga. Visualmente, os "outros lugares" além do universo são simbolizados pela substituição de um dos planetas do "universo" por um cachorro-quente.

A moça corrige o cavaleiro, num irritante tom professoral que é característico do estereótipo machista da "mulher chatinha", ainda presente em muitas comédias:



I think you'll find that the universe
pretty much covers everything


(Acho que você vai descobrir que o universo
tipo meio que abrange todas as coisas)

A correção da moça implica o fato de ela não estar sob efeito da droga psicodélica e portanto não captar a irônica metáfora do cavaleiro.

Shut up woman, get on my horse!

(Cale a boca, mulher, suba no meu cavalo!)

A resposta do homem, uma ordem direta e impaciente, denota seu tratamento antiquado da mulher, podendo até ter dado inspiração à ambientação antiga da historinha.

Daqui em diante, o videoclipe repete-se eternamente, ou ao menos, até o espectador fechar a janela do website.



A versão oficialmente lançada no iTunes da canção inclui os versos adicionais reproduzidos abaixo. Devido ao tratamento sonoro diferente no vocal, é seguro afirmar que foram gravados após o sucesso da versão animada.

Look at my horse
my horse is amazing

Where is he now?

He's over there grazing
Have a feel of his hoofs
you'll find they're all bullet proof
And if that's not enough
Then take a look at his ballsack

Why's it purple?

Custom stylings!
A ballsack looks fresh with a two-tone paint job, don't you know?

Now try this lemonade,
Sweet lemonade, sweet lemonade
Sweet lemonade, yeah, sweet lemonade

Sweet lemonaaaaaaaade
Sweet lemonaaaaaaaade
Sweet lemonade, sweet lemonade
Sweet lemonaaaaaaaade
Sweet lemonade, sweet lemonaaaaaaaaaaade


(Olhe meu cavalo
Meu cavalo é incrível

Cadê ele agora?

Está ali pastando
Sinta os cascos dele
Você vai ver que são à prova de balas
E como se não bastasse
Dê uma olhada no saco dele

Por que é roxo?

Estilo personalizado!
Um saco parece novo com pintura bicolor, não sabia?

Agora experimente esta limonada,
Doce limonada, doce limonada
Doce limonada, sim, doce limonada

Doce limonaaaaaaaada
Doce limonaaaaaaaada
Doce limonada, doce limonada
Doce limonaaaaaaaada
Doce limonada, doce limonaaaaaaaaaaada)

Algumas transcrições que circulam pela Internet colocam "robotic proof" e "looks French" no lugar de "bullet proof" e "looks fresh", mas isso se deve a equívocos de interpretação.

A bolsa escrotal do cavalo em coloração dupla é uma nova referência cifrada à droga, já que muitos entorpecentes são encapsulados.