2009-08-07

Apple tablet: como poderia ser


A Mac+ me comissionou um trabalho muito interessante: desenhar mockups do próximo novo produto da Apple, que dizem os rumores que será lançado já em setembro. Ao mesmo tempo, o desenvolvedor teuto-mineiro Rainer Brockerhoff estudou a maneira mais lógica de combinar exigências técnicas, possibilidades industriais e listas de especificações, para chegar num produto plausível que carregue a tradicional bandeira da Apple de sempre estar alguns passos à frente de todo mundo, seja na implementação ou na promessa. O tema de todos os rumores é um computador portátil miniatura em formato tablet.

Meu primeiro mockup, não usado na revista, era um tablet Mac, muito similar a um tablet PC anunciado em 2008: o Amtek Touch, apelidado "Netslate". Até hoje ele é vaporware... O meu "iSlate" teria um pé basculante tipo porta-retratos, para poder ser apoiado num ângulo confortável sobre uma mesa, mais ou menos como o Cintiq da Wacom e o próprio Amtek. Rainer achou essa proposta "muito pouco e muito tarde". Concepções similares criadas por geeks já habitam o Google Imagens há tempo demais. A própria Apple assumiu que está desenvolvendo algo "diferente" há anos. Após tanto esforço, Steve Jobs não apostaria em nada que não lhe garantisse mais um grande triunfo. Afinal - sejamos francos - esse poderá ser o seu último invento. Evidentemente, um iPhone maior não é algo suficientemente inovador.

Mas a resposta para o dilema estava ao alcance da nossa imaginação! Para descobrir um diferencial inédito a ser explorado pela Apple, bastou olhar para o Nintendo DS, o game portátil de maior sucesso desde 2004. Existem várias vantagens num aparelho dobrável ao meio, com duas telas, sendo pelo menos uma delas sensível ao toque.


Fechado, ele seria um intermediário entre iPhone e MacBook Air, com as mesmas dimensões de um livro comum, em torno de 14 x 21 cm. O formato dobrado aproveitaria melhor o espaço que um tablet de tela única e eliminaria o inconveniente da tela ficar exposta a riscos e sujeiras quando fora de uso. As duas partes seriam ligadas por uma dobradiça flexível semirrígida, com muito mais liberdade de movimento que num laptop (a razão disso está explicada no fim do artigo). Poderia haver um clique na dobradiça na posição aberta com as telas no mesmo plano.


O sistema operacional seria basicamente o do iPhone, acrescido de algumas características do Mac OS X tradicional para prover novas funções. Por exemplo, na orientação vertical ele poderia ser lido como um livro ou revista. (Nesta simulação, ele exibe scans da Bíblia de Gutenberg.) Bastaria um toque com o dedo para ver uma camada de informação extra, contendo a tradução e anotação do texto, um gesto de "pinch" para ampliar uma área, ou um gesto de arrastar para "virar" a página. Em resumo, funcionaria como um Kindle "melhor": colorido e em página dupla.


Na posição de laptop, a tela de baixo traria o teclado, controle de mídia ou qualquer outro dispositivo tátil virtual. Ou, quando esses controles não fossem necessários, simplesmente continuaria verticalmente a imagem começada na tela de cima. Um arranjo excelente para ler sites de notícias, que normalmente exigem muita rolagem de tela.


Os controles seriam predominantemente escuros para economizar energia das telas de AMOLED, finíssimas e mais eficientes que as de LCD. Se o custo não fosse impedimento, poderia também haver feedback tátil (háptica) para simular os cliques das teclas. Outras formas de economizar energia: em vez de disco rígido, SSD, e em vez de conector USB ou FireWire, somente Wi-Fi e Bluetooth. Um toque elegante e com cara de Apple seria fazer a recarga da bateria por um dock sem fios, usando indução eletromagnética, como no Palm Pre.


Dobrado ao avesso, ele viraria um excelente console de games com input tátil na tela, como o Nintendo DS e o iPhone. A grande sacada é que a tela tátil do lado oposto, invisível durante o jogo, ainda serviria como sensor tátil, permitindo executar comandos usando todos os dedos das duas mãos. Poderia até mesmo representar visualmente na tela de cima o movimento dos dedos do lado oposto, gerando uma sensação de transparência.


Será que agora vai?

A imprensa de informática especializada na Apple vive uma época lamentável. A quase totalidade do noticiário resume-se a especulações sobre produtos futuros, os "rumores", realimentadas de um site para outro. A indústria da pseudoimprensa de rumores é alimentada por três fatores: a capacidade da Apple de chamar a atenção da mídia e do público; o desenvolvimento dos produtos em segredo, criando expectativa; e o "vazamento estratégico" de informações, mantendo o interesse aceso na entressafra das novidades.

Assim, podemos começar a entender porque, ao longo de meia década, já se publicaram milhares de notas na imprensa sobre um suposto "MacTablet", "iSlate", "iBook touch" ou seja lá qual nome ele tiver. Desejado, imaginado, mas até agora, rigorosamente fictício. Também há incontáveis simulações artísticas desse gadget de sonhos. A nossa é apenas mais uma delas.

Um tablet PC da Apple é uma fascinante concepção que se equilibra perigosamente entre uma oportunidade de sucesso tão decisiva quanto a do iPhone e uma chance de fracasso no mesmo nível do G4 Cube. Há um equilíbrio necessário entre preço e funcionalidade, mais delicado em tempos de grana curta, e sempre há a chance de errar. O Newton queimou-se por falta de maturidade na ocasião do lançamento, e nunca se recuperou. O G4 Cube fracassou porque fazia sacrifícios demais para apenas ser bonito. O iPod nano de segunda geração quase se deu mal. O Apple TV ainda não empolgou.

O formato tablet é uma evolução natural do laptop, mas impõe sérios desafios aos engenheiros de projeto. A indústria de PC já tentou a mão e não acertou, criando aparelhos pesados, complicados e caros. Steve Jobs chegou a revelar que um tablet Mac chegou a ser projetado e, quando já estava quase pronto para a fabricação, abandonado. Provável motivo: receio de repetir o episódio do Newton com tecnologia ainda crua e cara.

Só que vários registros recentes de patentes da Apple descrevem tecnologias que seriam perfeitamente aplicadas num aparelho capaz de fundir o iPhone com o MacBook para criar um grande diferencial e obliterar os Archos e Kindles que insistem em resistir ao Apple Way of Life. Essas tecnologias não são exercícios de ficção científica: são plausíveis aqui e agora. Elas foram consideradas na criação do nosso mockup. Por isso também a sua aparência não destoa do que a Apple já produz.

Vamos ver agora quantas dessas ideias o futuro produto - que se de fato existir, já deve estar terminado e em pré-fabricação - incorporará, para o nosso deleite, e quantas terão ficado de lado até versões futuras.

Leia também:
  • Nota do Rainer Brockerhoff, em inglês, com ideias adicionais.
  • Artigo da Mac+ com texto de Heinar Maracy.
  • Artigo similar na Geek.
  • Nota no site TidBITS de Adam Engst - Thanks for calling the illustrations "gorgeous" :)
  • 2009-08-06

    A China tem outras ideias

    Nas listas e fóruns nerds, o povo adora discutir assuntos como as brigas em torno das recentes práticas da Apple para defender seus interesses, que nada devem à Microsoft dos anos 90; gadgets caros e hypados; rumores de produtos futuros, discutidos como se fossem escalações de times de futebol. Tudo homogeneamente tedioso.

    Entro num site de comércio de eletrônicos chamado CompreDaChina. O que tem para vender lá é surpreendente, porque a maioria dos produtos não é de marca "famosa". Provavelmente, o berço dos produtos mais criativos deve ser um pesadelo para a propriedade intelectual - conceito desprezado abertamente por muitos chineses, entre empreendedores e governo. O negócio deles é produzir coisas, não interessa quem seja o pai da ideia. Logo na home page do site, você encontra dois tipos diferentes de imitações de iPhone e também um aparelho com a evocativa marca VAIC.

    Mas correndo totalmente por fora dos cânones do mercado estão as geringonças que eles chamam de MP10 e MP11. Sim, a absurda contagem após a sigla "MP" continua evoluindo no submundo inventivo da tecnologia pessoal. MP3 e MPEG-4 não são nada mais do que nomes para especificações técnicas de áudio e vídeo digital. MP3 quer dizer "MPEG-1 Audio Layer 3". Por sua vez, MPEG quer dizer "Moving Picture Experts Group". Mas em algum crucial momento da história, alguém encasquetou que "MP" era o nome do tocador de mídia, o hardware, e não da mídia, o software. Afinal de contas, MP poderia também ser "Music Player" ou "Media Player". Partindo dessa semântica torta, o número após "MP" aumentou conforme foram entrando funções novas - rádio FM, telefone celular, tocador de vídeo, camcorder, game, pen drive, agenda, calculadora...

    O resultado: monstrinhos anônimos que concentram muito mais funções do que os "grandes" do mercado teriam coragem de reunir. Por exemplo, o EYO T800. A marca não tem nem website, mas olhe só o produto, com toda a pinta de high-tech. Telefonia nem parece ser sua principal vocação: múltiplas funções lutam desesperadamente pela supremacia sobre o design geral do aparelho.



    Ele traz tudo o que está listado acima, mais o seguinte: duas câmeras digitais de 5 Mpx (não me pergunte), uma delas com objetiva zoom e flash; slots para dois chips de celular (SIM cards) simultâneos; videogame emulador de NES; áudio 3D (novamente, não me pergunte); gravador de voz; Internet com navegação WAP e conexão GPRS; touchscreen (mesmo já sendo lotado de botões); receptor de TV digital. Tudo isso encapsulado num gadget que lembra mais ou menos um produto da Panasonic depois de fumar uma pedra. A face anterior com cara de telefone tem mais botões que uma cabine de avião. A face traseira com cara de câmera é quase atraente, apesar da aparência aleatória dos detalhes.

    Preço: apenas R$ 299,90. Alguém vai comprar. Muita gente, de fato. Mas você não vai ver um review dele na revista Stuff. Afinal, ele não tem o logo da Samsung, Sony ou Panasonic. E quem lê a Stuff não compra o EYO T800. Existe uma divisão de classes real dentro do mundo digital.

    O mundo está destinado ser a cada vez mais populado por aparelhos Frankesteins, em detrimento dos gadgets luxuosos e clean de grifes famosas, apoiados por campanhas de marketing pervasivas, feitos mais para ostentação do que para uso e que parecem comprados em joalherias. Nada contra tanta beleza, mas de vez em quando um dos Frankensteins humilhará, com sua funcionalidade algo inocente em sua vibrante esquizofrenia, as listas de recursos propositalmente restritas dos aparelhos de "primeira linha" com seus ciclos de obsolescência planejados. Está aí de exemplo o iPhone: levou três anos para suportar o simplório padrão de mensagens MMS.

    Pode ser até que os atrevidos chineses obriguem os caras convencidos do "big business" a colocar um gás extra em seus produtos.

    2009-08-05

    Different Thinkers, Parte 6: Yoshihisa Maitani

    Yoshihisa Maitani, designer e inventor que criou as câmeras fotográficas mais famosas da Olympus, faleceu em 30 de julho, aos 76 anos de idade. Designer da empresa entre 1956 e 1996, ele criou em 1959 a clássica Olympus Pen, o sistema OM de câmeras reflex e a compacta modular XA. Todas revolucionárias.

    Eu mesmo possuí duas câmeras da série Stylus, que incorporavam alguns dos conceitos de Maitani para compactas que influenciaram todas as demais marcas.

    Há quase exatamente um ano, escrevi um artigo que comentava Maitani e sua filosofia de design:

    Yoshihisa Maitani, ídolo do mundo fotográfico, sempre falou de suas criações em termos filosoficamente destacados do seu tempo e local. Seus pensamentos eram surpreendentemente pouco ligados às questões concretas da mecânica e da eletrônica.
    Ele sempre concebeu a câmera como um "aparelho de memória", o que é uma definição muito flexível. Um aparelho de memória, em vez de ser um conjunto de lente e sensor, pode ser um implante cerebral que grave as imagens exatas que o olho enxerga. Talvez o futuro nos reserve algum produto assim. Entre as digitais dos dias de hoje, temos uma combinação cada vez mais integrada entre still e vídeo, e os modos automáticos são desenvolvidos para deixar o usuário desincumbido de ajustar quaisquer parâmetros de captura.
    O que o sensor gera é apenas uma informação numérica da cena, um banco de dados sem substância própria. Esses dados podem ser recalculados, reformatados, massageados e maquiados de muitas maneiras... Dentro da câmera, através dos ajustes e modos criativos, ou na pós-produção, em softwares como o Photoshop. Aí se concentram hoje os maiores avanços no campo da imagem. Objetivas ou sensores inovadores só aparecem de tantos em tantos anos. Inovações no software são constantes.
    A meta definitiva dos projetistas japoneses é uma câmera que faça tudo sozinha... A crença sincera dos fabricantes, concordemos ou não, é de que a câmera chegará a pensar pelo fotógrafo em todas as situações. Ao ser humano restará compor a cena e apertar o disparador.
    É como se fosse uma caneta esferográfica: a gente aperta um botão para expor a ponta, apoia a caneta sobre o papel e escreve, e só.
    Essa filosofia tipicamente nipônica de "complexidade interna = simplicidade externa" é tão aparente que a primeira grande criação de Maitani chamava-se, apropriadamente, Olympus Pen. Referindo-se à caneta, mesmo. Há 50 anos ele já tinha na cabeça o conceito de uma câmera tão simples de usar assim.
    E o contexto de "aparelho de memória" também reaparece por trás desse nome.

    Há apenas umas poucas semanas, a Olympus fez a comemoração dos 50 anos da Pen e pôs à venda a muito hypada e esperada E-P1, sua primeira câmera digital com o nome Pen. Também é a primeira do sistema Micro Four Thirds de lentes intercambiáveis. (Para um review detalhado da E-P1, leia aqui.)
    O acabamento estético da máquina é claramente derivado da Pen F, de 1963. Compare:



    Assombrosamente, a E-P1 combina com meu estilo mais pessoal de fotografia em várias coisas, particularmente na curiosa ausência de flash integrado. Eu adoraria se na PhotoImageBrazil, que rola daqui a duas semanas, o pessoal da Olympus tivesse uma delas e algumas lentes para fazer um test drive.

    Para encerrar, o espetacular e digno comercial da Olympus Pen de 2009:



    Lindo, não? Só que o vídeo foi denunciado como plágio pelos frequentadores do YouTube. Se foi isso mesmo que houve talvez nunca saibamos, mas o crédito foi dado pela agência - depois das reclamações. Eis a animação original que inspirou o comercial:



    Fotos: Olympus

    2009-08-01

    Novo site: Photoshop Creative!

    Está no ar o website da edição brasileira da revista Photoshop Creative!


    Para quem ainda não conhece, a PSC funde conteúdo criado localmente com material licenciado de duas revistas britânicas: Photoshop Creative e Advanced Photoshop, da editora Imagine Publishing. Há tutoriais, making ofs e portfólios profissionais de todos os níveis.

    O novo website é criação interna da editora Digerati, do mesmo núcleo de jornalismo que já nos trouxe Geek, Mac+ e Windows Vista – A Revista Oficial. A revista de papel é editada pelo inventor Luciano Hagge Dias e pelo mestre do Mac Sérgio Miranda. O website tem direção do Fabio Teodoro, design da Natalí Garcia e edição de conteúdo minha. Todo mundo sob a batuta do übergeek Heinar Maracy.

    Parte do conteúdo é idêntica ao que é vai para a revista de papel. Outra parte é exclusiva para a Web. E a seção Galeria é aberta para receber trabalhos de Photoshop dos visitantes. É só criar um login e subir a sua imagem, com direito a ficha pessoal. A Galeria conta com uma ferramenta de ranking baseada em votação pelos demais visitantes; as imagens favoritas do público vão para a home page.

    Além de fazer a edição online, estou postando notas exclusivas com notícias e comentários sobre artes visuais, fotografia e equipamentos.