2009-07-31

Há 20 anos


Nem parece que já passou tanto tempo assim e a gente continua aqui, igualzinho, discutindo qual computador é o melhor.

2009-07-28

O iPod das câmeras digitais



O iPod não foi o primeiro tocador de áudio digital pessoal portátil. Quando ele apareceu, havia vários outros modelos, estabelecidos após a explosão do MP3 com a ajuda do Napster. Meu primeiro tocador de MP3, depois de várias encarnações do Walkman e do Discman, foi o Creative Nomad Jukebox. Você pode ler sobre ele aqui – num site que fala de tudo menos iPod, numa forma irônica de resistir à hegemonia da Apple no ramo.

O Nomad Jukebox tinha HD de 6 gigabytes e muitas funções avançadas. Mas navegar no conteúdo era tedioso. A carga da música via USB era lenta demais. Com algum tempo de uso, o meu exemplar recusou-se a funcionar com pilhas. Grande como um Discman 5 anos anterior e com o triplo do peso, ele fazia o tipo do filho feio que só o engenheiro nerd que o projetou poderia sinceramente amar. No entanto, vendeu bem, auxiliado pela ausência de alternativas igualmente sofisticadas que fossem baseadas num hardware menos manhoso.

Então, veio o iPod. Muitos audiófilos torceram o nariz, exatamente da maneira como ainda fazem os autores do site linkado acima. Mas o sucesso do produto não só alavancou a estratégia comercial da Apple para o resto da década (iTunes, iPhone), como influenciou todos os outros tocadores de mídia portáteis.

A história acima serve como uma analogia. Se você trocar alguns nomes, quase tem a história das câmeras digitais compactas, com a diferença de que quem sacudiu esse mercado foi a Canon com as suas PowerShots S, criadas a partir da série IXUS/ELPH de câmeras de filme APS.

No começo do ano 2000, as câmeras digitais não tinham muita credibilidade técnica e eram bem diferentes uma da outra. Algumas pareciam filmadoras, outras pareciam Frankensteins com articulações bizarras e lentes em lugares esquisitos. Algumas não tinham visor LCD. A maioria era horrivelmente lenta para tudo. A imagem tinha ruído de cor, sujeira de compressão, halos nas zonas de contraste, brancos violentamente estourados e uma tendência a esverdear. A resolução típica era de 1,3 megapixels – inferior a um bom monitor de vídeo. E a bateria acabava em meia hora.

Então, veio a Canon Digital IXUS – também chamada Digital ELPH e PowerShot S – e cristalizou a nossa expectativa do que deveria ser uma câmera digital de bolso. Por esse motivo, aparece frequentemente nas listas de gadgets mais marcantes da década. Ela já surgiu com lente zoom de 3x e uma bateria decente. O sensor era de 2 megapixels.

Seu lançamento em junho de 2000 foi uma sensação. Quase todo geek da época adquiriu uma, comprada a peso de ouro (seu preço oficial era de R$ 2500). As PowerShots tornaram-se onipresentes nas reuniões, festas, baladas e viagens. O fotógrafo e patrono da revista Macmania, David Drew Zingg, viveu o suficiente para brincar com uma dessas Canonzinhas. Ela encaixava-se na sua concepção de foto urbana e de viagem, que pedia apenas uma máquina simples para registrar flagrantes com grande valor humano e pequeno investimento técnico. A Macmania deu um review escrito por mim na edição 79, em dezembro de 2000, onde dizia, entre outras coisas, o seguinte:

A máquina vem com um cartão de memória CompactFlash de 8 MB. Cabem umas 8 a 10 fotos em qualidade alta, ou 15 a 20 em baixa (o número exato varia). Se você tiver (bastante) grana a mais, pode comprar vários cartões e intercambiá-los como se fossem filmes.

Tirar do bolso e disparar não é tão instantâneo quanto com filme. Gasta-se dois segundos para o equipamento ficar pronto, e até aí você já pode ter perdido aquele momento único. A velocidade de disparo é passável: uma exposição a cada 1,7 segundos.

A bateria de íon de lítio recarrega em duas horas, mas dura apenas umas três sessões de fotos. É recomendável andar com uma segunda bateria para não ser pego de surpresa.

...se você não quiser usar flash no modo automático, terá que desligá-lo a cada nova foto.

Para ver as fotos, é só mudar a qualquer momento para o modo Play. É nesse modo que você apaga as imagens ruins, abrindo espaço para as boas. Isso compensa a pequenez da memória.

O custo inicial da PowerShot é bem maior que o de uma boa máquina convencional, mas pense na fortuna que você vai deixar de gastar com revelação e compra de filmes. Com o tempo, a máquina digital se amortiza e até ultrapassa a de filme em economia. É um ponto importante, especialmente para aqueles que queimam rolos e mais rolos de filme em viagens turísticas, reuniões de família etc.

Agora que as câmeras digitais são uma realidade tanto no campo profissional quanto no amador, sempre há os deslumbrados que correm a anunciar “a morte do filme”. Só que isso não vai ocorrer. Falaram antes que o CD acabaria totalmente com o vinil, a TV com o rádio, a Internet com as publicações de papel... e o PC Wintel com o Macintosh. O que ocorre na vida real é que as tecnologias pioneiras não somem, viram nichos; e é exatamente esse fenômeno que está para acontecer entre as câmeras de filme e as digitais.

Curiosidade: as fotos que abrem este artigo, as mesmas que foram usadas naquela edição da Macmania, são scans de alta resolução e não fotos de verdade. Não tínhamos equipamento de macrofotografia decente, muito menos digital. O scan resolvia nossa necessidade para retratar objetos com superfícies relativamente planas, como as câmeras digitais tijoludas da época.

Não tive minha própria Digital IXUS, nem qualquer das variações do famoso tijolinho de metal. Em compensação, as revistas me davam para testar todo tipo de compacta que saía no mercado, como ainda hoje acontece (acabei de concluir o review de seis novas câmeras para as revistas Windows e Mac+). Pois as compactas atuais de todas as marcas seguem fielmente o gabarito estabelecido pela Canon há 9 anos, com novidades incrementais: tela maior, eliminação do visor óptico, controle por toque, cartão SD em vez de CF e modo automático com detecção de cena. A coisa mais diferente na S100 é a ausência do conjunto de botões em cruz, que surgiu na geração seguinte (não sei quem introduziu primeiro esse conceito, mas estou pesquisando).

De forma nada menos do que incrível, ao visitar Santa Efigênia no último sábado encontrei à venda, numa vitrine de um box no fundo de um dos minishoppings de eletrônicos, o que me pareceu ser uma PowerShot S400. O vendedor a desprezava, dizendo que com apenas um pouco a mais de dinheiro eu poderia levar um modelo mais moderno e mais capaz. E de fato, seu formato de caixa de Marlboro e a tela minúscula são os dois detalhes que saltam à vista e reduzem seu atrativo aos olhos de hoje. Tal é a sina de todos os eletrônicos de consumo: nascerem sexies e morrerem repelentes, sem terem mudado eles mesmos em nada, mas sim o mundo ao seu redor. Em sua época (fevereiro de 2003), a S400 era a top de linha de toda a categoria; foi a primeira subcompacta do planeta a combinar um sensor de 4 megapixels com uma objetiva de 3x.

Perto de completar a sua primeira década, o iPod está começando a ser substituído pelo iPhone e outros aparelhos que fazem muito mais do que tocar áudio e filminhos. As câmeras digitais compactas mostram cansaço análogo frente à competição dos celulares com câmera. Tendem a se reinventar como ultracompactas (acaba de sair uma Lumix similar às Sony da série T), como quase-filmadoras (vídeo HD passou a ser requisito básico) ou, no limite das possibilidades físicas, com lentes zoom absurdamente longas. A indústria está percebendo que megapixels já não são argumento irresistível de venda.

Por que alguém compraria em 2009 uma câmera digital de seis anos de idade? Talvez, quem sabe, para instalar este software, que estende os recursos da máquina e implementa coisas como captura em RAW, intervalador, exposição longa, bracketing de foco, detecção de movimento, prioridade de abertura, controle remoto via USB e scripts. O programa não faz mudanças no firmware da câmera, é carregado do cartão de memória. Muito tentador.

Como fecho, eis uma versão atual da Canon PowerShot série SD, que acabei de testar (foto minha):

2009-07-26

Foto microstock: do mal ou do bem?

Esta história começou em 25 de julho (sábado) e ainda está em andamento, no fórum norte-americano Model Mayhem. Vale traduzir um pouco do início da discussão:

R Studios - Uma foto que botei no iStock...



...está na capa da revista Time:



Antonio Marcus - Sensacional. Pagaram ou pegaram? Ha ha!

R Studios - Apenas US$ 30,00 pela iStock.

Pypi Fashion - Você se fodeu.

MinisterC - Uau! Parabéns! É chato que eles não pagaram melhor, mas assim é a vida da fotografia stock. Muito legal. Milhares ou até milhões de pessoas verão o seu trabalho!

Lee K - Isso é incrivelmente deprimente.

Pypi Fashion - A culpa é dos fotógrafos. Você vai ficar realmente deprimido ao saber o valor de uma capa da Time.

R Studios - Conte-me.

Pypi Fashion - Quando é uma foto editorial na capa da Time e não uma stock photo, o valor alcança os US$ 10 mil fácil. Pode ser diferente agora que a economia está na sarjeta, mas a circulação da Time é de 3,4 milhões. Pô, me pagaram US$ 500 mais 10% por um thumbnail minúsculo na Web de uma tiragem única de um veículo local com distribuição de 70 mil exemplares. A taxa do meu thumbnail na Web valeu mais do que a tiragem inteira de 3.400.000 capas suas, o que não inclui as edições estrangeiras, reimpressões, cartões de assinatura e reproduções futuras. Alguma coisa nesse quadro não está certa.

R Studios - Obrigado, é bom saber.

Lee K - A culpa é dos fotógrafos, e é essa a parte deprimente.

Dark Life - Eu vi as opções de extensão da licença no seu arquivo e elas valem bem mais do que 30 dólares. Não muito, mas eu acho que o uso da imagem na capa da revista Time deveria requerer mais do que a licença "standard" da iStock, que qualquer um pode pagar para fazer um banner tosco.

-The Dave- - Se o trabalho será visto por milhões, como vão saber quem foi o autor da foto? Só os poucos que clicaram neste thread?

SusiB - Não sei se eu ficaria incrivelmente feliz ou incrivelmente puto.

Pypi Fashion - A licança standard para publicidade não requer pagamento adicional para mais de 500 mil cópias em revistas. Para uso editorial, é necessária uma licença ilimitada para 500 mil ou mais impressões. Pode vir mais dinheiro para você.

-The Dave- - A edição não dá crédito para o fotógrafo? Que lixo!

Living Canvas - A pergunta é: se eles tivessem que desembolsar os US$ 10 mil, teriam usado essa foto? Ou eles a usaram porque ela custava US$ 30 e era exatamente o que queriam?

Pypi Fashion - Como eu já disse, os fotógrafos são os culpados por haver a opção de US$ 30.

-The Dave- - Por coisas assim eu disse não à Getty!

Pypi Fashion - Talvez alguém que tenha experiência com fotografia microstock possa nos explicar onde foi a falha. Eu acho que foi na opção de licenciamento.

Dark Life - Você precisa baixar e estudar as várias licenças do iStock e ver se a Time abusou do uso previsto pela licença padrão pela qual pagaram os 30 dólares. Se tiver acontecido isso, no que acredito, espero que a iStock cobre deles a quantia correta sem você precisar mobilizar um advogado.

Pypi Fashion - Bem, a licença de impressão ilimitada vale US$ 125. Uau, hoje vai ter filé em vez de hambúrguer!

DA PHOTO - Fotos editoriais pagam nada ou quase nada mesmo. Trabalhe para publicidade, que é onde o dinheiro está. Use o crédito adquirido para se vender de acordo... Às vezes é preciso dar antes para depois receber.

Cherrystone - Estou feliz por você, de verdade. Se fosse uma foto minha na capa da Time, comprada por US$ 30... Eu não contaria a ninguém, porque alguém tentaria me internar num hospício.

Pypi Fashion - Eu tiraria convenientemente o ponto decimal do valor.

Cherrystone - Eu mentiria escancaradamente sobre isso e só contaria a verdade a um dos meus filhos, no meu leito de morte.

Greg Christensen - Se liguem, caiam na real. Acham mesmo que a Time gastaria 10 mil por semana em fotos de capa? Foto para uso editorial não faz dinheiro para fotógrafos de stock. Se um veículo de 70 mil exemplares pagou US$ 500 para usar uma só imagem, apenas uma vez, existe motivo para as revistas e jornais estarem falindo.

Pypi Fashion - Sério que você acha que eles estão falindo por pagarem demais aos fotógrafos? Além disso, US$ 500 nem era metade do valor padrão de mercado, mas aceitei o negócio porque era uma imagem de 1 ano de idade que não teria sido comprada por mais ninguém. Se me oferecessem US$ 30, eu bateria o telefone na cara deles. Faturei acima de US$ 30 vendendo ampliações de fotos de formatura para uma vovó.

Bodyshots Photography - Ei, talvez não seja tanta grana, mas é uma bela conquista!

Dan Hood - Não, a verdadeira conquista é que uma corporação gigantesca com fins lucrativos pagou em amendoins uma imagem que vale milhares de dólares, e o fotógrafo está contente com isso. Quanto à Time gastar 10 mil numa capa, eles tinham esse costume, e com frequência. Já viu quanto custa uma página de anúncio lá? Se você compreendesse como funciona a publicidade e o valor de uma capa para vender uma revista, perceberia que 10 mil dólares são trocado para eles. Tá bom, venda mais 60 capas para revistas de circulação nacional e vai poder comprar uma Nikon D300 novinha.

Pypi Fashion - Para colocar o caso em perspectiva, a Time pagou mais do que isso para o bike courier levar a prova da capa da redação para a gráfica. Outro jeito de ver a questão: a Time pagou nove milionésimos de dólar para cada uso da imagem.

Ray Marquez - Onde diz que a revista deveria pagar 10 mil pela imagem? A outra opção deles era recriar a imagem, e nesse caso nem estaríamos discutindo aqui. Por que, então, não usar essa foto como ferramenta de marketing?

Antonio Marcus - Não estamos culpando o fotógrafo, mas não gosto dessa apatia de achar que "é assim mesmo". Quando alguns não cobram direito, isso ferra com todos os outros.

Paul Cameron - A fotografia stock é outra diluição do valor percebido na fotografia. As empresas ganham, o fotógrafo não. Eis um ótimo exemplo de por que não usar stock. Se não houvesse stock, as empresas teriam de pagar as taxas justas a alguém, o que manteria essa pessoa no emprego por mais uma semana.

MO Rotica - Esse é o papo que os fotógrafos usam com as modelos há anos... "Não paga nada, mas divulga". (Sou modelo)

Vincent Knaus - Bom trabalho. Mas o crédito da capa vai aparecer como seu ou da iStock? Para ter uma ideia: livro de capa dura com sobrecapa, até 10 mil cópias - US$ 800. Mais $400 para cada 10 mil cópias adicionais. Capa mole, US$ 400 até 10 mil cópias e US$ 400 para quantidades acima disso. Eu sei que uma capa da Time paga bem mais que uma capa de livro!

Pypi Fashion - Uma imagem similar na Getty vendeu-se por US$ 1995. Neste ponto não acho que o thread seja mais sobre o fotógrafo ou a imagem, mas um catalisador para uma discussão ampla do uso de imagens microstock em capas de revistas.

Robert Randall - Meu agente em New York representa alguns caras que fotografam para clientes editoriais, incluindo a Time. A taxa atual para uma capa é de US$ 1800 mais despesas. Não estão mais usando grandes nomes, como Gregory Heisler, porque não têm dinheiro. Já contou quantos anúncios saem na Time hoje em dia? Revistas que não sejam de moda estão morrendo rapidamente, quase não resta dinheiro a se ganhar com elas. Eu fotografava para a Business Week, mas quando as capas caíram abaixo de US$ 1 mil e as páginas internas para US$ 400, decidi que era a hora de parar.

Pypi Fashion - Não me surpreende. Por baixo que seja US$ 1800, ainda é uma taxa sustentável em tempos difíceis. Agora, US$ 30 é um tapa na cara.

Derick Hingle - Não estou bravo com o fotógrafo por conseguir uma capa da Time, mas porque as pessoas valorizam tão pouco as próprias imagens que as colocam em sites de microstock. E ainda por cima, são os sites que ficam com o crédito, não os autores.

Robert Randall - Lise Gagne faz mais de 1 milhão por ano vendendo imagens pela iStock. Tem uma foto de outro cara que foi baixada 13 mil vezes por um mínimo de US$ 2 cada. Quando foi a última vez que uma foto sua faturou US$ 26 mil? Peguei umas fotos velhas minhas e joguei no iStock, só para ver o que acontecia. Faturei mais de US$ 30 mil em dois anos, a partir de duas semanas escaneando fotos velhas. E isso ainda me abriu a porta para a Getty e a nova coleção Vetta, onde faço mais grana. Aposto que daqui a cinco anos você ainda vai estar reclamando de como é tudo injusto.


Quem me chamou a atenção para a controvérsia foi o Ig, do Lost Art.

2009-07-14

Pão de Açúcar: novo logo tem cara de velho

A rede de supermercados Pão de Açúcar está lançando uma revisão do seu logo:



Eu sabia de antemão, mas vi a confirmação oficial hoje no Meio & Mensagem.

Seguindo a tradição de tantas outras grandes empresas brasileiras que gostam de esnobar chamando para seus trabalhos de design equipes estrangeiras em vez de fomentar o talento nacional, o conglomerado franco-brasileiro (um dos poucos empreendimentos locais a registrar lucro crescente no primeiro semestre, na contramão do resto da economia) convocou para seu redesign a Futurebrand, que é um escritório de design sediado em Londres e ligado à agência de propaganda McCann-Erickson. (Sim, a esta altura da história podemos quase declarar que o branding das grandes marcas brasileiras foi loteado entre meia dúzia de multinacionais de publicidade. Isso já foi comentado em "cases" recentes e por si só já valeria um post detalhado. Mas não nos dispersemos agora.)

A marca anterior do Pão de Açúcar já tinha sugestões "Aqua", mas agora decidiu-se por transformar a forma original figurativa em duas bolhas abstratas e substituir a tipografia por outra, fraca e sem graça, similar à que o Grupo já usava.

Pessoalmente, acho significativa a falta de sensibilidade do pessoal de uma rede de supermercados ao se prenderem a uma solução estética pré-recessão. Logos formados de bolhas de geleia transparente são muito claramente datados. A onda desse tipo de criação na Internet, em particular, já dura uma boa década. Uma porção de companhias ligadas à informática e às telecomunicações destaca-se pelo uso desses recursos visuais – formas arredondadas e oblongas, translucidez, tipografia fraca – que são muito mais adequados ao monitor do computador que a catálogos impressos:














Não é difícil elucidar a lógica pela qual os executivos de uma megacompanhia de varejo acharam que abafariam ao aprovar um redesign gráfico que, para além do acabamento banal, destrói o tema visual da montanha carioca que, honestamente, jamais foi realmente bem resolvido em suas várias marcas.

Acompanhe meu breve raciocínio.

Acabou de sair a lista de 2009 da Exame/Maiores & Melhores, que informa dados sobre as maiores companhias brasileiras. Acesse lá, é um site muito instrutivo. Na lista de maiores empresas por vendas, a Companhia Brasileira de Distribuição ocupa a décima-sétima posição. Dê uma folheada na lista e comprove comigo (folheei até a 200ª colocação, a Rio de Janeiro Refrescos). Dentre as primeiras 200 empresas, somente duas, Claro e Vivo, têm logos decididamente "Aqua".

É isso. Comparado aos logos das companheiras da lista, esse novo do Pão de Açúcar simplesmente exala modernidade.
Mas que ficou devendo no panorama geral das marcas, ficou.

Você pode estar pensando: "mas a matéria da M&M fala duas vezes que o redesign do logo partiu de uma escolha popular". Ahã. Escolha que foi feita sobre alguma coisa que não foi necessariamente desenhada pelo povo, mas sugerida por um designer da agência. Que o brasileiro não é necessariamente gênio em gosto visual, basta assistir a alguns minutos de programação e vinhetas do SBT para se convencer. Mas aprovar um redesign tão acanhado e botar a culpa da escolha no consumidor está abaixo do que podemos esperar de uma agência e de um cliente desse nível de influência.

Use os comentários do blog para expressar sua opinião.

2009-07-08

Uma crítica à cibercultura


Every year of her life, Laura thought, the Net had been growing more expansive and seamless. Computers did it. Computers melted other machines, fusing them together. Television-telephone-telex. Tape recorder–VCR–laser disk. Broadcast tower linked to microwave dish linked to satellite. Phone line, cable TV, fiber-optic cords hissing out words and pictures in torrents of pure light. All netted together in a web over the world, a global nervous system, an octopus of data. There'd been plenty of hype about it. It was easy to make it sound transcendently incredible...
The Net was a lot like television, another former wonder of the age. The Net was a vast glass mirror. It reflected what it was shown. Mostly human banality.

Bruce Sterling escreveu o texto acima em 1988, no romance "Islands In The Net", uma história ambientada em 2022. Previsão impecável. Não fosse por incluir "telex" e "tape recorder", seria impossível perceber sua idade. A rede global só existia na cabeça do escritor; a palavra "Web" como metáfora da rede multimídia só seria adotada dali a anos, pois a tecnologia ainda não tinha sido inventada. O mais arrepiante, porém, é a profecia da transformação da rede numa imensa TV, mantendo a banalidade tão criticada e combatida na era anterior às comunicações digitais. A frivolidade que a TV nos servia na infância apenas migrou de meio, com mais eficiência técnica e preservando seu valor de "refletir sem questionar". Videocassetadas e Big Brother em qualidade HD para download na hora que você quiser! Com o recurso extra de poder insultar estranhos nos comentários!

Fracasso dos futurólogos. A rede não aumentou a inteligência geral do mundo. A relação sinal/ruído (informação relevante versus dados incorretos, não verificados ou redundantes) piorou em proporção à quantidade de material disponível.

Não fomos afogados pelo spam comercial, como temíamos há 10 anos. Fomos afogados pelo spam pessoal dos nossos próprios amigos. Updates insistentes das redes sociais, email no celular, pessoas desconhecidas que se aproximam com falso senso de intimidade porque leram demais a nosso respeito nos perfis online que escrevemos de nós mesmos.

A história da cultura pop pode ser condensada nesta frase: o underground virou mainstream e foi consumido, para então ser substituído por um novo underground. A cultura hacker era o underground emergente dos anos 80 e 90. Diluída e consumida, o que surgiu em seu lugar? Após 15 anos de Web comercial e 25 do cyberpunk, o paradoxo é irônico. Metade da população do país está inscrita no Orkut, mas a cibercultura está firmemente presa na estaca zero.

Antes mesmo da exploração espacial ou da medicina estética, um dos temas relevantes pode ser a construção de algum novo alicerce cultural que volte a olhar para a frente, a partir da perspectiva ampla que se obteria dando sentido aos escombros pulverizados pela rede que hoje são o foco da distração das massas conectadas. O que há visível são lampejos tímidos no meio do entulho. O valor de uma rede aumenta na proporção do quadrado do seu número de conexões. É preciso agregar os vislumbres desarticulados.

2009-07-07

Sempre fui cyberpunk


Uso óculos escuros espelhados, até em lugares fechados. Visto um sobretudo Chesterfield de lã. Trabalho numa sala abarrotada de computadores vintage, com iluminação no chão. Não me amoldo aos padrões de consumo e de estilo de vida promovidos pela mídia de massa. Acredito na fantasia utópica de indivíduos digitalmente conectados subvertendo o sistema mediante aplicação criativa da tecnologia. Não adianta. Por datado e ingênuo que isso tudo possa soar... não tem jeito: lá no fundo, ainda sou um cyberpunk: High Tech + Low Life.

A coisa mais cyberpunk que o público leigo conhece é a série de filmes "Matrix". Especialmente o primeiro. Intrigado pela premissa no trailer, repeti-o até furar o HD. Vi a película no cinema, fiz vista grossa às falhas, adorei ilimitadamente o que vi e, mesmo gostando bem menos das continuações, comprei tudo em DVD, mais o Animatrix. Meu screensaver no Mac, o Red Pill, era uma simulação esplendorosa do efeito de caracteres caindo, naquele visual verde-sobre-preto que citava diretamente os monitores de DOS do meu tempo de fuçador.


Por fim, em 2003, escrevi para a revista Herói da Conrad um ensaio onde pescava todos os ganchos filosóficos de "Matrix" que consegui identificar com a filosofia Zen-Budista:


Alguém melhor equipado de audácia fez algo parecido na forma de livro e deve ter ganhado quase tanto dinheiro quanto os múltiplos charlatães que pegaram carona em "O Código Da Vinci", anos depois.

Mas cyberpunk não é "Matrix" especificamente, nem tampouco o magnífico precursor "Blade Runner", nem os outros filmes baseados em livros de Philip K. Dick (como "Minority Report" e "O Homem Duplo"). Este era um escritor à frente do seu tempo, que tocou em vários temas caros aos cyberpunks. Mas não pertencia à mesma turma de Bruce Sterling, William Gibson, Rudy Rucker; uma geração mais jovem, que criou para si mesma o rótulo cyberpunk para indicar que pretendia revolucionar a ficção, e teve a empáfia de declarar-se como Movimento literário, com M maiúsculo, na seminal coletânea de contos "Mirrorshades", compilada por Sterling em 1986-88.

Se o cyberpunk tinha o potencial para ser tão poderoso como literatura, por que ele só rendeu filmes medíocres, enquanto os reais pilares do gênero no cinema ("Blade Runner" e "Matrix") vieram de fora do Movimento?


Quando era garoto, vi "Blade Runner" em VHS, fiquei fascinado e me deprimi ao constatar a ausência de qualquer outra coisa similar no mainstream cultural. Parecia-me que "Blade Runner" era a única obra que tocava de forma até poética em vários assuntos centrais e assustadores da sociedade tecnológica, especialmente a inevitável dificuldade de qualificar existencialmente um ser humano total ou parcialmente artificial. Queria mergulhar no tema, mas não sabia por onde.


"Tron", que é da mesma época de "Blade Runner", poderia ser rotulado como cyberpunk? Lá estavam todos os ingredientes: ciberespaço, corporação do mal, inteligência artificial descontrolada, um hacker humano que salva o dia. A trilha sonora de Wendy Carlos, pioneira dos sintetizadores, era tão inovadora quanto o visual em CG. Mas a linguagem é a de uma "aventura para toda a família"; o filme servia como propaganda para videogames; e foi produzido pela Disney. Na trave!


"Hackers" é um filme cyberpunk? Novamente, todos os temas estão ali; há até mesmo o tal ciberespaço e adolescentes domando corporações do mal com modems e Macintoshes. Mas a única razão para rever esse filme após tanto tempo é conferir a beleza estalando de nova de Angelina, a filha de Marcheline. Todo o resto envelheceu muito mal.


"Matrix" poderia ser o filme cyberpunk perfeito, mas peca pelas concessões vagabundas à linguagem dos roteiros de quadrinhos de super-heróis. De fato, seus autores não eram escritores cyberpunks, mas roteiristas de quadrinhos de super-heróis.

O cyberpunk autêntico é um mundo distópico, onde a tecnologia criou novos problemas sociais em vez de resolvê-los. O herói solitário que se vira por entre as brechas do sistema não é um simples fora-da-lei. Ele tem o espírito dos detetives da ficção noir. Ele se guia pela ética dos hackers – de quando essa palavra, hacker, significava expert na subcultura da informática e não um bandido pirata de dados.

Na literatura cyberpunk, o futuro não é distante, não há aliens invasores, não acontecem guerras entre mundos, inexistem buracos no espaço-tempo nem a matéria-prima da ficção científica mainstream que muita gente mais nova acha circense e caricata, cafona, às vezes inconscientemente retrô, até um pouco repulsiva. A ficção científica tradicional dá espaço (sem trocadilho) à discussão dos problemas humanos usando ambientes alegóricos de civilizações seguramente afastadas e em outras épocas, frequentemente em tons épicos. Para o mesmo fim, a frenética e fragmentada narrativa cyberpunk tem um ponto de vista oposto: é individualista e autorreferente, com personagens inquietos em permanente busca da redefinição da sua identidade pessoal. Traços marcantes também na cultura internética que surgiu no seu rastro.

Em "Snow Crash" de Neal Stephenson, e também nos livros de Gibson e Sterling – dois autores sortudos, que ironicamente nunca entenderam nada sobre computação, mas falam extensamente sobre o assunto, na maior cara de pau – há um conceito de "rede de dados global" fascinante, assim como um "ciberespaço" convincente. Algo como um Second Life que presta. A nossa Internet atual ainda está longe de envolver outros sentidos além da visão e audição e escapar dos limites do monitor do PC para viver em interfaces neuronais e enlouquecer todo mundo. Mas com o pouco que oferece, a rede global de informação já emergiu como a nova droga central do século.

Com a perspectiva de estender o envolvimento da ciberesfera para algo mais integrado à nossa biologia, toca-se em outro tema básico do cyberpunk: as modificações corporais e mentais. O hype do momento é realidade aumentada, certo? Pois se não envolver um implantezinho neurológico que seja, não é emocionante, meu caro. Um dos primeiros contos do gênero, de Tom Maddox, fala de um aviador militar que tem a mente sequestrada pela interface de controle da aeronave, meses depois de dispensado do serviço. Em "Snow Crash", pessoas consomem drogas dentro do ciberespaço e sentem efeitos físicos no mundo real. Aí sim.

Num livro que Gibson e Sterling escreveram juntos, "The Difference Engine", a revolução da informática acontece um século adiantada, em plena Era Vitoriana. Não é apenas cyberpunk: é steampunk. A premissa tem implicações interessantes, mas o romance é contaminado por um estilo narrativo rebuscado e cansativo, praga geral da ficção científica pós-moderna.


Anime, quadrinhos e zines


No Japão as coisas sempre são mais extremas. Katsuhiro Otomo (do monumental "Akira", além de "Metropolis" e "Steamboy") e Masamune Shirow ("Ghost In The Shell" e "Appleseed") são dois desenhistas-roteiristas que exploraram o cyberpunk até a última consequência lógica. Especialmente o segundo, cujos quadrinhos são muito mais bonitos que os filmes animados neles baseados (e influenciaram diretamente "Matrix"). Na melhor tradição nerd otaku, Shirow explica e reexplica incansavelmente as tecnologias que inventa e desenha até o mais insignificante detalhe – sempre que possível, em quase obscena simbiose corpórea e mental com heroínas voluptuosas.

Na verdade, a ficção cyberpunk japonesa, entre mangá, anime e videogames, é tão vibrante e vasta que, se fosse para comentar nomes e obras, eu teria que dobrar o tamanho deste ensaio. Gibson acha que o Japão é o próprio cyberpunk vivendo à luz do dia, na forma de cultura de massa cotidiana, e não há como discordar. Nenhum outro povo adotou a cibernética com tanta naturalidade.

Quando eu ainda era um pirralho sem suficiente noção de que as coisas no mundo da arte são difíceis de realizar, tentei desenhar uma série de quadrinhos. E embora não tivesse ainda ouvido falar em cyberpunk, a minha história encaixava-se solidamente dentro do gênero. O trabalho tinha o nome provisório, mas jamais substituído, de "New Agers" – mesmo sabendo eu que um nome desses evocaria baladas instrumentais da Enya e fabricantes de velas artesanais com suaves propriedades curativas, em vez de um grupo de rebeldes dotados de capacidades especiais via próteses nucleares, mutações provocadas e outras invenções supertecnológicas, lutando contra uma corporação do Mal que tentara criar uma neo-raça humana artificial via manipulação biológica, com efeitos inesperadamente catastróficos sobre si mesma ao perder o controle sobre o experimento eugenético.

Sim, já fizeram dezenas de mangás que exploram essa premissa, a começar pelo grandioso "Akira" de Otomo. Mas perdoe-me por não saber na época que eles já existiam. Descobrir qualquer coisa fora do mainstream era bem mais difícil que hoje. Desenhei character sheets, digitei roteiros, fiz storyboards de páginas; enfim, cheguei muito perto de efetivamente criar o quadrinho. Mas nunca fiquei satisfeito. Não mostrei o resultado a ninguém além dos amigos mais chegados. Tudo isso está guardado até hoje numa pasta de projetos congelados.


Revistas


Alimento para nossas mentes metidas a visionárias era fornecido pela revista Wired, antes de ser comprada pela Condé Nast e ser transformada numa espécie de Bravo gringa. Talvez pareça impossível de crer agora, mas a Wired dos primeiros 7 anos trazia temas revolucionários e contestadores, mês após mês. Antes dela houve a Mondo 2000, uma revista ainda mais assumidamente cyber. Esta falava insistentemente de conceitos que julgava fundamentais para a nova era, mas até hoje não avançaram muito, como tecnomisticismo e wetware.

E antes de ambas, havia a venerável Omni, publicada pela mesma editora da Penthouse e da qual ainda preservo uma coleção. Omni adorava falar de astronáutica e futurismo especulativo em geral, quase não se importava com a informática. Mas foi nela que estreou o conto "Neuromancer" de Gibson. A nacional Galileu, com seu novo enfoque mais próximo da Wired, incidentalmente lembra um pouco a Omni.

Na primeira fase da revista Macmania vinha encartado um suplemento de humor, um zine de quatro páginas chamado Macintóshico. Na verdade, o zine precedera a revista. Ele tinha pauta livre e era coletivo; mas com o tempo cada edição ficou por conta de apenas um artista. (Um dos meus Macintóshicos foi convertido em HTML e publicado aqui.) Olhando em retrospecto, vários Macintóshicos tinham temas assumidamente cyberpunks, especialmente os do Tom B e do MZK. São meus favoritos desde sempre. Naquela altura da informática, no tempo dos BBS, newsgroups e IRCs, dos modems de 14400 baud e dos GIFs animados de 32 cores, mexer com todas essas coisas era inconcebivelmente radical e intelectualmente estimulante. Nada a ver com o oceano de banalidade humana que caracteriza a Web-convertida-em-televisão-interativa dos dias atuais.

Baixe daqui os Macintóshicos com temática cyberpunk e associada em PDF:



14 - O. S. Wars (abril de 1995) - Heinar, MZK, Tony


15 - Zinderkitsch (maio de 1995) - MZK


16 - 2026 (junho de 1995) - Tom B


18 - Exu Tranca Rede (agosto de 1995) - Tom B


20 - Explode Conexão (novembro de 1995) - Heinar, Tony


21 - Uaired (dezembro de 1995) - Heinar, Tony


22 - Mystery Action (janeiro de 1996) - MZK


31 - A Entrevista (novembro de 1996) - Tony



Música

Na música, é lugar-comum chamar de cyberpunk o trabalho de bandas como Kraftwerk e Yellow Magic Orchestra. Também houve o incompreendido disco do Billy Idol. Mas nos anos 90 também ouvi muito protoindustrial e electropop europeus, sons obscuros que me soavam muito mais "corretos". Particularmente impressionante é um álbum do grupo sueco Twice A Man, de 1993, "Fungus and Sponge", onde além do clima pesado, há letras que evocam diretamente o mundo gibsoniano. Era um mundo perturbador, mas eu sonhava com ele.

A estreia de "Matrix", o filme mais cyberpunk de todos, ironicamente marcou o ocaso do gênero cultural que incitou as mentes de tantos pioneiros da grande rede.