2009-06-27

Tipógrafo, ilustre desconhecido

O comunicólogo Marshall McLuhan, em seu livro “A Galáxia de Gutenberg”, de 1962, afirmou que a invenção da tipografia foi a grande precursora da industrialização. A gráfica baseada em tipos móveis teria sido, segundo ele, a primeira linha de montagem. De fato, a impressão de livros representava a aplicação prática de uma nova atitude em relação ao conhecimento técnico, que seria uma característica fundamental da civilização ocidental a partir do Renascimento. E o próprio Renascimento foi insuflado pela impressão de livros: a explosão de cultura decorrente varreu a Europa e alterou o mundo inteiro para sempre.
Ainda dá para enunciar a mesma coisa de mais uma maneira: a invenção do tipo móvel foi a primeira etapa da conversão do artesanato em automação, a marca da Era Industrial.
Hoje, na era Pós-Industrial, a tipografia está aos poucos abandonando o suporte de papel para firmar-se em manifestações efêmeras de letrinhas pixeladas em telas eletrônicas de computadores. Vem aí o papel eletrônico: a própria tinta muda de forma magicamente para gerar páginas inéditas.
Ao longo de todo esse panorama histórico, chega a ser curioso como a figura do tipógrafo, o designer responsável por inventar os tipos com os quais nós escrevemos de tudo e sobre tudo, continua sendo uma figura obscura. Isso já valia para o próprio Gutenberg, de quem só sabemos com certeza o nome e onde ficava a sua oficina tipográfica. Faltam partes extensas de sua biografia; não se sabe muito bem o que ele imprimiu, além das famosas Bíblias; até os seus retratos foram inventados muito após sua morte.
Por outros motivos, o tipógrafo moderno também é uma espécie de artesão obscuro e relativamente anônimo. As criações de mestres como Garamond, Caslon, Baskerville, Didot, Gill, Benton, Zapf, Frutiger, Slimbach e de Marco cercam-nos por toda parte. É impossível viver um dia sem passar os olhos por letras concebidas por essa pouco numerosa e bastante restrita elite de artistas-técnicos com nomes esquisitos. Em páginas de revistas, em cartazes, em logotipos, em sinalização pública, em embalagens de alimentos, em produtos de limpeza, as suas criações alfabéticas simplesmente tomam parte em tudo.


Adrian Frutiger em seu estúdio caseiro em 2003.


Diferentemente de designers mais novos, ele insiste em criar os tipos à mão...


...mas as aparências enganam: ele é mestre em todas as técnicas tipográficas, do metal ao digital.

A razão dessa presença silenciosamente insidiosa é que os tipos mais populares são tão eficientes e definitivos que tornaram-se “transparentes”: nós não os percebemos conscientemente. Apenas um designer treinado olha para uma embalagem e identifica os tipos usados. E o que ele pode fazer com essa informação? É algo mais útil como referência para o próprio trabalho dele do que para o consumidor, cuja única real preocupação é ler e entender a mensagem rapidamente.

Cada estilo tipográfico funciona como um sotaque visual do texto. É por isso que faz bem dispor de um vasto repertório de tipos. Há estilos que pelas formas de suas letras sugerem alegria, tristeza, seriedade, precisão, sarcasmo, juventude, paixão, singeleza, arrogância e uma infinidade de outros contextos emocionais. As pessoas captam esse caráter nas letras de um texto naturalmente, sem necessitar nenhum conhecimento formal de design. É como ouvir música pelos olhos.


A caligrafia é o ponto de partida fundamental para a tipografia.


Tipos de metal dominaram o primeiro meio milênio de impressão.


Xilogavuras reproduzindo estilos históricos desde o tempo romano.

Ao mesmo tempo que o tipógrafo não é uma estrela no mundo cultural, o mundo da tipografia passa por uma revolução técnica atrás da outra. Desde o princípio da prensa com tipos móveis, a tecnologia que produz textos em massa mudou repetidamente. E embora a criação artística e cultural migre sempre da técnica de cada época para a seguinte, as mudanças estão se acelerando.
Há 120 anos, cada texto ainda precisava ser composto letra por letra, à mão. Então surgiu o linotipo, uma máquina milagrosa que fundia linhas completas de texto a partir da simples digitação em um teclado. Isso permitiu aos jornais incharem o volume de seus textos sem tanto esforço. Mais adiante vieram as modernas técnicas litográficas, que hoje são usadas para imprimir de tudo. Na metade do século passado, os tipos já não dependiam necessariamente de um molde de metal: passaram a ser reproduzidos fotograficamente. Na década de 60, começaram a surgir formas de produzir as letras usando equipamentos de vídeo.
Finalmente, no começo dos anos 80, chegou a revolução que domina o cenário até hoje: a tecnologia digital. Tão flexível e maleável que só a imaginação limita os resultados possíveis. E ainda assim, fantasticamente trabalhosa, como pode atestar qualquer tipógrafo atual. É, talvez os tipógrafos não sejam muito populares porque o trabalho os prende demais e limita sua vida social.


Depois de revolucionar a tipografia europeia, Frutiger ajudou a modernizar outros alfabetos (aqui, o Devanagari indiano).


Frutiger estudando a escrita cuneiforme, usada entre 2 e 6 mil anos atrás.


Folha de teste para checar o espaçamento de caracteres de uma fonte nova.

Até a era digital, todas as tecnologias gráficas sempre demandaram equipamentos incrivelmente caros e complexos, operados por técnicos especialistas com muitos anos de estudo. Não mais. A atual geração de tipógrafos, usando computadores iguais ao que você tem em casa, está produzindo tipos tão refinados e variados que rivalizam com o que já se produziu de mais sofisticado no setor desde o pioneiro ano de 1450.


Univers (1957) foi a primeira família de fontes com preciso interrelacionamento geométrico.


Frutiger também criou sistemas de sinalização pública (aqui, o Metrô de Paris).


Adrian Frutiger, nascido perto de Interlaken há 81 anos, mora e trabalha nas vizinhanças de Berna, e também faz escultura e gravura.

Os primeiros anos da tecnologia digital foram dominados pela recriação, no novo suporte computadorizado, dos tipos mais marcantes do passado. Essa fase está encerrada. Os tipógrafos estão livres para vislumbrar o futuro e criar algo completamente inédito e inesperado. E quem sabe dessa forma eles ainda virem astros da cultura popular. Já fizeram bastante para merecer isso.

Artigo ilustrado com imagens do documentário Adrian Frutiger: The Man of Black and White, de Christine Kopp e Christoph Frutiger, 2004.
Cortesia Claudio Rocha e Linotype.
 

2009-06-26

Fragmentos do BOL




Logo do BOL por Tony de Marco, 1996


Em outros artigos, contei um pouco da aventura do BOL - Brasil Online, o ambicioso portal e provedor de Internet que o Grupo Abril inaugurou em abril de 1996 e, após apenas cinco meses no ar, foi fundido ao UOL, do Grupo Folha.

Para sermos brutalmente honestos, o UOL fagocitou o BOL. Absorveu a infraestrutura tecnológica do rival, tomou conta dos sites de revistas da Abril, converteu a página de notícias do BOL na versão online de fato da Folha de S. Paulo e por fim relançou a marca BOL como um serviço de webmail gratuito, quatro anos depois.

Leia a história oficial da Abril. O BOL por pouco não virou nota de rodapé. Diziam em 1996 que o BOL teria sido "sacrificado" ao UOL porque era um "projeto skunkworks" do núcleo Exame, não uma ideia da direção da Abril. Talvez estes pensassem que a Internet nunca chegaria a ser um meio crucial para a sobrevivência das empresas jornalísticas tradicionais, fosse como extensão a elas ou como ameaça contra elas. Algum tempo depois do fiasco do BOL, a Abril recomeçou sua participação na Internet quase do zero, criando um provedor de banda larga (Ajato) e, bem depois disso, trazendo de volta para casa os sites das suas revistas.

Pelo lado do UOL, BOL é um serviço de webmail gratuito, lançado em janeiro de 2001. O Brasil Online (que a Abril prefere chamar de Brasil On-Line) aparece nomeado por extenso para diferenciá-lo do BOL atual.

Um pouco do clima do BOL de 1996 transparece em emails internos das equipes de redação e tecnologia, que postei aqui.

Há algumas semanas, dez ex-membros do BOL original (relacionados na lista de biografias que publiquei aqui) reuniram-se para comemorar o 13º aniversário no Frangó, bar de São Paulo que é próximo ao edificio da Abril onde ficavam as redações. Lá acontecera a reunião de despedida da equipe antes da fusão com o UOL e também o reencontro dos 10 anos.

Para este encontro, levei na mochila um Apple PowerBook de 1996, da minha coleção de Macs antigos. Em perfeito estado, exceto pela falta da bateria. Dentro dele, um Netscape da época e arquivos internos de desenvolvimento do design do BOL, entre home pages publicadas e protótipos. Pretendia mostrar o material aos companheiros, numa experiência sensorial tecno-retrô autêntica. No velho notebook, os GIFs das páginas aparecem lentamente, abrindo-se como cortininhas, mesmo estando gravados no HD e não sendo recebidos via modem. Era assim que a gente via a Web em 1996, via linha discada e em computadores fracos: desenhada na tela aos pedacinhos.

Infelizmente, não havia tomada de energia à mão para alimentar o laptop (já que a bateria naturalmente já expirou há uma década). Então, prometi aos ex-colegas que iria publicar a galeria de antiguidades do webdesign aqui. Delicie-se agora com alguns pedacinhos da história da Web brasileira que certamente você nunca viu.

Todas as home pages a seguir são protótipos e propostas não usadas, com exceção da primeira e da última – o que explica a feiura de umas e os textos e imagens "falsos" (placeholders) em outras. Os designs passavam de mão em mão, numa equipe circular de cinco pessoas, a fim de acumularem ideias novas. Não havia distinção entre designer de usabilidade, designer de layout, designer de acabamento, diretor de arte.

Minhas contribuições principais foram os ícones das seções, exatamente no mesmo estilo dos que desenhara na mesma época para a revista Macmania, e a divisão retangular da chamada "barratopo" com o nome do site, nas duas últimas versões. As imagens centrais com os destaques só eram trocadas semanalmente. O equivalente de um portal atual, com notícias atualizadas em tempo real, era uma página interna, chamada Linha Direta; talvez fosse a melhor coisa que o BOL tinha e o UOL não. O período aqui representado vai de junho a agosto de 1996.































Num post futuro, publicarei partes das páginas internas, incluindo alguns banners curiosos e seções internas, incluindo a afamada Linha Direta.



Releitura minha do logo do BOL, 2009
(criado durante a reunião do 13ª aniversário)


Também estive no UOL

O que aconteceu comigo depois da fusão BOL-UOL contém uma boa dose de ironia. Inicialmente, a equipe do BOL seria inteiramente assimilada pelo UOL na fusão. A maioria do pessoal, porém, pulou fora antes, jamais chegando a botar o pé na nova redação. Havia ressentimento pelo desmonte súbito de nosso sonho coletivo. Vários dos melhores talentos foram fazer carreira na concorrência. Os sites da Bookmakers (a editora da Macmania) ficavam todos no Terra (então chamado ZAZ). Definitivamente, nada de UOL para muitos dos ex-BOL.

Mas eu e o Douglas Okasaki permanecemos na arte do UOL. Era conveniente, mas parecia-me ridículo ter me demitido da Folha de S. Paulo para trabalhar na Macmania e na Abril, e dali a seis meses retornar ao mesmo prédio da Alameda Barão de Limeira (a redação original do UOL ficava no terceiro andar, um abaixo da Folha). Revia os ex-colegas de jornal na entrada, na saída e no lanche da tarde.

Eu e o Douglas fomos encarregados de contribuir com sugestões para uma nova página de entrada do portal, que incorporasse os novos links e ao mesmo tempo ocupasse menos espaço na tela (algo que não conseguimos no BOL, mesmo após muitas tentativas). A nova página principal deveria ter destaque para a Linha Direta, a página de notícias do BOL, renomeada simplesmente para BOL.

Esbocei com lápis e papel um conceito "planetário": colocar o símbolo circular do UOL no centro da página e distribuir as seções do site por uma órbita elíptica em torno do símbolo, como se fossem planetas. Douglas encarregou-se de executar na tela esse conceito, enquanto eu desenvolvia páginas de gastronomia e turismo (e fazia um bico numa capa da Folhateen). Fazíamos piadas sobre o que aconteceria se o usuário clicasse no símbolo do UOL, já que sua função não fora definida.

Não cheguei a ver a nova home page funcionando de dentro da redação do UOL. O então diretor Caio Túlio Costa demitiu-me alguns dias antes disso, por "excesso de contingente". Douglas permaneceu lá e virou diretor de arte. Nunca cobrei o dinheiro do mês que passei trabalhando na redação do UOL.

A home page "planetária" foi imortalizada na seção de história interna do UOL:



Quatro anos depois, fiz dois trabalhos para o novo BOL: uma extensa série de ícones para um sistema de publicação interno e vários cartões virtuais ilustrados e animados, na boa companhia de artistas como Laerte, Tom B e Orlando. Os meus cartões saíram do ar, mas o site ainda existe: virou o Cartões UOL.

Michael Jackson






Acima, uma rápida e rasteira restauração de scans de capas da Rolling Stone dos tempos áureos do músico.

2009-06-22

Lidando com Flames e Trolls

Leia este artigo no site do jornal britânico Guardian, na verdade uma carta de leitor. Em tradução rápida e rasteira:

Se o anonimato for concedido aos blogueiros e a quem posta nos fóruns, eles precisam baixar a bola. Eu raramente os leio devido à linguagem desagradável, agressiva e rude. Nenhum artigo é discutido em boa fé. Além dos inevitáveis "Este comentário foi removido pelo moderador", leio coisas do tipo "como você fala merda", "você é um idiota completo" etc.
Temos de reconhecer: a anonimidade traz à tona o pior das pessoas. Supõe-se que alguém com algo a dizer deve ter o preparo para fazê-lo de forma polida, assumir a autoria do que disse e providenciar um endereço para resposta. Isso ainda é um requisito da seção de cartas.
É triste ver que cada avanço na informática parece nos reduzir ao mínimo denominador comum. Quando surgiram os computadores, eles prometiam enormes avanços na educação. Em vez disso, vieram os videogames violentos. Então surgiu a Internet, que nos encheu de pornografia. Agora temos os fóruns online, que tinham o potencial de revolucionar o debate público e quem sabe também a tomada de decisões, mas estão tomados de ciberpixações.
Talvez a solução seja criar dois fóruns paralelos: um bem-educado com os nomes e endereços das pessoas, e um de vale-tudo para os demais.


(Não me incomodo com os jogos violentos nem com a pornografia. Podem ser livres, bastando que as pessoas que não curtem essas coisas não sejam expostas a elas :-)

A carta do leitor acusa a anonimidade como fonte do mal, mas o buraco é mais embaixo. A falta de responsabilidade pessoal pelo que se diz na Internet é a verdadeira raiz do problema. O clima de guerra e a desonestidade intelectual permeiam também muitos websites onde todo mundo está devida e perfeitamente identificado.

A cultura fracassou. Facetas desse fracasso são a incapacidade de comunicar-se civilizadamente, porque o próprio conceito de um comportamento civilizado desmoronou. Também caracterizam nossa época a vontade exacerbada de falar e nenhuma de ouvir. A intimidação como ferramenta de prestígio social. O recurso fácil ao rótulo para classificar tudo sem precisar explicar. O desinteresse por ideias que não sejam as suas próprias. Falta de compreensão das motivações pessoais alheias. Tendência a desconsiderar a possibilidade de uma declaração conter senso de humor e ironia. Ausência de empatia com os sentimentos de quem não se conhece em pessoa. A opção primária pela ameaça para "marcar território". A crítica que não visa comentar visando o melhoramento de algo, somente destruí-lo.

Chegamos ao ponto lamentável em que crítica e ataque, comentário e provocação, sempre são tomados como uma e mesma coisa. E a única defesa conhecida por quem assim pensa é outro ataque pior. Em apenas duas ou três respostas, já temos um flamewar.

A questão de os websites serem campos de batalha virtuais me ocupa desde o tempo em que os comentários neste blog eram novidade, por volta de 2002-2003. Havia quantidades muito grandes de comentários em qualquer assunto. Hoje há mais visitantes, mas a multiplicação dos sites pulverizou as atenções; no geral, a informação postada perdeu a relevância relativa. As práticas dos visitantes mudaram de acordo. Além de escreverem muito menos, é raro que alguma participação seja maldosa, porque o clima tácito aqui é de "pode brincar mas seja sério". Que outros autores de sites também conseguem manter com sucesso. Mas nós somos uma minoria remanescente de tempos mais civilizados na rede.

Antes de ter blog, administrei um fórum. Sem a moderação, a cacofonia domina tudo. Vi que a brutalidade tende a explodir se o administrador afrouxar apenas um pouquinho a tolerância à animosidade alheia. Sem supervisão, o abuso da ferramenta de comunicação por seus usuários é certo, garantido e inevitável.

Dizia-se nos anos 90 que "por trás do modem todo mundo é valentão". Só mudaram as moscas. O ambiente ruim de muitos newsgroups e fóruns – especialmente os de assuntos polêmicos e fanatizantes, como futebol, política e sistemas operacionais – transferiu-se para os sites sociais. Notavelmente no orkut, com suas comunidades de ódio; também no YouTube, onde todo e qualquer vídeo é acompanhado de um flamewar irrefreado; mas agora também no Twitter, onde existe gente interessada em parasitar a audiência de outras pessoas gritando com elas. Até entendo a sua lógica. É mais fácil fazer isso do que escrever ensaios. Os insultos cabem em frases curtas. Dão menos trabalho.

A trollagem sempre existiu, mas está mudando para um perfil mais generalizado e mais instantâneo. O cara que perturba no Twitter é uma otimização eficiente daquele chato clássico de lista de discussão, que responde a toda questão com uma tese pedante de milhares de caracteres e faz questão de responder aos outros frase por frase, até matar o thread por exaustão.


A voz do povo não é a voz de Deus

Este blog está no ar há oito anos e meio. A população online no Brasil multiplicou-se várias vezes desde então. Subjetivamente, acho que os abusos verbais públicos aumentaram numa proporção maior. Você pode montar a sua roda de discussão para encontrar os culpados pela nossa péssima "netiqueta". Algumas explicações que vejo por aí frequentemente:

  • O problema é de educação e cultura familiar. A nova geração de usuários da rede é definitivamente mais prepotente e truculenta. (A geração anterior não tinha testado tanto os limites.)

  • A inclusão digital facilitou o vandalismo pelas pessoas sem compromisso moral com o que foi culturalmente construído antes de elas participarem. (Presumindo que pobre = deseducado, o que acho uma generalização questionável.)

  • Com ou sem identificação, as pessoas ainda se imaginam como entidades à parte, invulneráveis e inimputáveis. (Válido em todas as épocas e em todos os meios.)

    Eu não acho que nenhum desses fatores responda à questão sozinho. Mas o terceiro é o meu favorito. É óbvio que a rede propicia um clima de liberdade artificial, facilitando a escalada da violência verbal de um jeito que a vida real não permite. É o sonho realizado de todo agressor covarde.

    Isso é especialmente preocupante ao sabermos que a sociedade brasileira em geral, ao contrário da de outros países, enxerga o espaço público como local de confronto e disputa, não como local de convivência. Para comprovar, basta sair à rua e olhar ao redor. É um ambiente falsamente civilizado, governado por uma hierarquia de forças, onde cada um só busca levar vantagem sobre o próximo. Vale isso também para websites dinâmicos como o Twitter, fóruns, blogs etc. Some-se a isso a identidade camuflada ou anonimidade e temos uma alarmante concentração de sociopatas azedando o clima.

    A maneira clássica de lidar com um troll é ignorando-o. Nada o frustra mais que o desprezo de quem ele considera digno de briga. Porém, em alguns casos, é preciso ir além e retaliar exemplarmente. Na rua, a forma definitiva de coerção para inibir impulsos antissociais é autuação. Institua-se uma multa, organize-se os meios de fiscalização e cobrança e todo mundo passa a obedecer a lei como por mágica. Na Internet, por não existir esse instrumento – o banimento de um usuário é apenas um quebra-galho pontual, não uma solução geral –, o recurso que resta é causar a humilhação do troll frente aos seus pares. Não vencer com argumentos, mas vencer pela desqualificação do oponente. Retribuir sua desonestidade em apenas um golpe. Você gosta de fazer isso? Eu também não.

    Você não deve dedicar tempo demais a capinar trolls. Na maioria dos casos, basta avisar que a conversação está encerrada e bloqueá-lo. Vale para email, blog, fórum, chat, rede social e Twitter. Gente mal informada reclama do bloqueio chamando-o de "antidemocrático", "fascista" e outros termos cujo significado desconhecem. Vi isso no Twitter ao anunciar que estava bloqueando um mala persistente. Só que:

  • Como foi dito acima, sem moderação na comunicação o abuso por alguém é garantido.

  • Filtrar conversações é algo que fazemos todos os dias na vida não-conectada, de forma tão natural que mal percebemos. Maridos filtram a conversa de esposas e vice-versa. Políticos filtram os discursos uns dos outros.

  • Todo mundo tem direito a julgar se a opinião alheia lhe serve e, a partir daí, evitar ler o que considera idiota e usar o seu tempo para ler o que considera útil. Mesma coisa em sentido oposto: só entramos nos threads de discussão em que temos algo para contribuir.

    O desarmamento mental requer necessariamente a filtragem e alguma dose de bloqueio.


    Trolling leva a cyberbullying

    A definição de troll pede por uma revisão. Na primeira geração da Web e antes dela, um troll era alguém que postava um comentário provocativo, inadequado ou capcioso para causar respostas inflamadas de outros participantes da conversa.

    A palavra troll vem de "trolling", que significa "pescaria de currico" – modalidade de mar aberto na qual uma isca artificial é arrastada na água, parecendo uma isca viva. O contexto inicial pré-Web era de "pescar" a gente mais novata e ingênua; fazer uma pegadinha.

    Na era da Web, o significado ficou mais carregado. Atualmente, vejo o trolling degenerando em flamewar tão prontamente que os dois fazem parte de um contexto único de confronto agressivo. E ele pode continuar degenerando até virar cyberbullying – cuja versão menos maligna é a humilhação pública de que já falei, mas pode facilmente virar uma rixa real entre pessoas reais, com ameaças de ações judiciais, patrulhas e perseguições, tentativas de retribuição física no mundo real, e outras consequências que não me enchem exatamente de orgulho pela humanidade.
  • Soletrando "estupidez" com imagens

    Fotos do Luddista. Que é também fonte dos dois textos destacados abaixo.







    A série completa com 37 fotos está aqui. Deixe lá seus comentários.

    O mesmo local (junto à ponte Cruzeiro do Sul), registrado em vídeo pelo Ciclo BR:



    A "Freeway do Serra" é uma catástrofe urbanística. Será seguramente exibida ao redor do mundo como exemplo eloquente de uma concepção urbana equivocada, obsoleta, oportunista e desumanizante.

    Conduzida às pressas e disfarçada por lonas, a derrubada das árvores denuncia-se em sua própria atitude sorrateira como uma ação criminosa.

    Há uma promessa escrita de plantar outras árvores em outro lugar, no já bem arborizado Parque Ecológico do Tietê. Não é uma compensação adequada, pois nada resolve localmente o problema da destruição da vegetação na margem urbana do rio. Nem deveria ser considerada proposta séria o condicionamento do plantio de umas árvores à derrubada de outras.

    Se você ficou indignado ao comparar essa rapidez toda com o tempo que leva para pintarem uma faixa de pedestres naquela esquina difícil de atravessar, para concluir qualquer iniciativa cicloviária ou para transformar as linhas pontilhadas em linhas contínuas no mapa do metrô, pergunte ao calendário eleitoral. Tente também uma busca por “construtora” e “doação” no google. Some a isso o gigantesco lobby do automóvel, acrescente 15% de comissão e quem sabe encontrará uma resposta.


    O projeto também inclui novas pontes arruinando a visão da Ponte das Bandeiras, a única considerada de valor arquitetônico.

    A derrubada expressa de toda a vegetação remanescente, seguida de asfaltamento completo e total das margens do rio, terminará de destruir o ambiente já degradado e artificial das margens do Tietê para atrair mais tráfego desnecessário, exportar o problema do congestionamento para as vias vizinhas, gerar mais poluição do ar e potencializar a volta das enchentes do rio.

    Eu não vou votar em José Serra nem em Gilberto Kassab nem em pessoas por eles indicadas, para cargo eletivo nenhum, por causa de qualquer estúpida obra viária.

    Quanto a você, cidadão paulistano, não continue sendo um idiota passivo. Não fique parado asstindo a tudo anestesiado. Discorda do sepultamento da cidade sob uma camada de asfalto, coberto de veículos paralisados pelos engarrafamentos constantes? Manifeste-se. Tem gente querendo acampar em cima das árvores. Alguma mobilização grande vai acontecer antes do próximo fim de semana. A coisa é séria. Informe-se e faça qualquer coisa.

    Outra sugestão de mobilização, ainda mais importante, pois envolve a cidade inteira e os interesses dos especuladores imobiliários:

    Nesta segunda-feira (22), a partir das 15h, na Câmara Municipal, acontece (talvez) a úlitma audiência pública sobre o projeto de lei 671/2007, que praticamente formulou por decreto um novo Plano Diretor Estratégico para a cidade, desconsiderando garantias fundamentais e uma série de procedimentos que deveriam ter sido colocados em prática depois da aprovação do PDE em 2002.

    Aqui, o abaixo-assinado contra a revisão no PDE.

    Uma inspiração: nas décadas de 1940 a 60, a população de San Francisco resistiu e conseguiu impedir que a cidade fosse completamente varada por freeways.

    2009-06-15

    Designer é maneiro, mas vacila

    Mais atual do que nunca:

    Mais uma vez nos deparamos com aquela máxima: o cliente é burro.
    OK, pode até ser. Inclusive, em boa parte dos casos, é.
    Isso você já entendeu há muito tempo, não? Claro, pois entender isso é fácil e cômodo.
    Difícil mesmo são vocês designers entenderem que, se o cliente é burro – e, muito por acaso, nossa fonte máxima de renda – cabe a nós nos tornarmos o mais exímio dos pedagogos e ensinarmos o que é certo (ou não).
    É muito, mas muito fácil você justificar jogar a culpa de sua incompetência no cliente.
    Estamos cansados de escutar aquelas ladainhas babacas de sempre: "Não ficou bom porque o cliente é 'careta' ". Ou "O trabalho é pra um engenheiro, por isso ficou uma merda", ou ainda (a pior de todas) "Não estão pagando muito, por isso fiz qualquer coisa".
    Ora, caro mancebo, temos algumas questões a serem esclarecidas então:
    –Se você passou anos numa faculdade, gastou dinheiro com mensalidades, livros, revistas e materiais de desenho, frequentou aulas de GD e perspectiva que até hoje não entendeu para que lhe serviram e virou noites para terminar os projetos, será que até hoje você ainda não entendeu o porquê disso tudo? Se o cliente é careta, não cabe a você procurar entender o mais banal fundamento de sua caretice e, a partir daí, acrescentar seus conhecimentos contemporâneos a fim de desenvolver um bom trabalho?
    –Quem disse a você que "comercial" combina com "brega" e "antiquado"?
    –Se você achava que o preço não era justo diante do seu inquestionável conhecimento e indispensável talento, por que aceitou fazer o trabalho? Falta de autoestima ou de vergonha na cara?
    Diante disso tudo, cabe também a mim perguntar a você se o que determina a beleza do seu trabalho é o grau de idiotice do cliente. Em caso afirmativo, concluo então que você não entendeu nada.
    Pensem sobre isso e parem de reclamar.
    Designer reclama muito e faz pouco.
    E considerem isto uma reclamação.

    ~Haroldinho (Claudio Reston), no zine Design de Bolso (edição #6), desenvolvido com Elesbão (José Bessa) (Twitter) em 1999

    2009-06-09

    Snow Leopard x Windows Vista

    O colunista Prince McLean publicou uma dissertação no site AppleInsider sobre a diferença de atitude da Apple e da Microsoft em relação aos seus lançamentos futuros de sistemas operacionais.

    O Snow Leopard é apresentado como um refinamento do Leopard, e o mesmo é dito do Windows 7 em relação ao Vista. Até aí tudo bem. Mas me chamou a atenção esta parte do demolidor texto dele (tradução, adaptação e links meus):

    Após tentar combater o entrincheiramento progressivo do Mac no mundo do PC com comerciais enfatizando a diferença de preço, a Apple finalmente usou a mesma arma da Microsoft para dar uma retribuição à altura. Esta anunciou o preço do upgrade do Mac OS X Leopard para o futuro Snow Leopard: US$ 29, com um "pacote família" por US$ 49. Quem comprar um Mac novo a partir de agora terá direito ao novo sistema por US$ 9,95, apenas o suficiente para cobrir o custo de envio. Supõe-se que o sistema empacotado custará US$ 129, mas como seu público-alvo é quem já possui Macs modernos com processador Intel e o sistema Tiger ou Leopard, é até difícil imaginar que alguém precise do pacote avulso.

    [O preço do upgrade do Vista para 7 deverá ser de US$ 49.]

    Enquanto a Apple corta violentamente o preço do seu sistema operacional, mesmo em meio a um aumento no interesse e na demanda do público pela plataforma Mac, a Microsoft faz exatamente o oposto com o Windows. Aumentou o preço da atualização e das cópias avulsas do Vista e ainda criou várias faixas de preço. Isso tudo com o mercado de PCs estagnando e a onda dos netbooks causando o questionamento da necessidade de um sistema complexo e caro.

    Desde então, a Microsoft voltou atrás no esquema de preços do Vista e, pela primeira vez, tomou a medida de praticamente dar de graça a quem quiser um ano de licença de Windows. através do Windows 7 Release Candidate, lançado no mercado para deter a maré de usuários que dão as costas ao Vista e também reconquistar as pessoas insatisfeitas, num verdadeiro Mojave Experiment em maior escala. Naturalmente, o Windows 7 só será gratuito até o ano que vem, quando será preciso pagar por ele para que o seu PC continue funcionando.

    Se isso acontecesse em qualquer outra indústria, essa estratégia seria chamada de dumping. Na indústria de PCs, que na prática a Microsoft comanda há 20 anos como se fosse um governo privado, é apenas "business as usual".

    A decisão da Apple de oferecer o Snow Leopard muito barato contrasta com a tática "a primeira dose é de graça" da Microsoft para o Windows 7. A Apple recompensa os consumidores leais, enquanto a Microsoft busca reconquistar o interesse de clientes cansados de seguidos abusos: o pesadelo da segurança, a agressão dos preços, as promessas quebradas de novos recursos e o desempenho lamentável.

    Muitos usuários de PC com Windows Vista exigiram downgrade para o Windows XP. Os fabricantes de computadores sentiram a pressão e, numa manobra inédita, forçaram a Microsoft a fornecer ao menos um instalador do XP junto com os PCs novos. Isso permitiu à Microsoft continuar contando como vendidas as cópias do Vista fornecidas em regime de OEM (pré- instaladas em PCs novos), mesmo quando desinstaladas depois pelos usuários, a fim de maquiar os números e poupar a reputação do software mais fraco que ela lançou em anos.

    O Windows Vista foi rejeitado até pelos usuários corporativos, que tradicionalmente servem como uma barreira contra a adoção de concorrentes ao Windows nos ambientes de trabalho. Essencialmente, o monopólio da Microsoft atacou a si mesmo, como se fosse uma doença autoimune. A companhia tanto batalhou para eliminar as alternativas que ela mesma não conseguiu oferecer nada inovador.

    É uma diferença tão grande quanto a que existe até entre as apresentações visuais que as duas empresas deram para os novos sistemas em seus sites (linkados lá no começo). Compare e reflita.


    Por outro lado...

    A Apple também cortou os preços da linha de laptops. Num efeito cascata coincidental, a filial brasileira também baixou seus ultimamente insuportáveis preços.

    Algum tempo atrás, falei aqui que a Apple estava perdendo oportunidades de mercado e teria de admitir que sua prática comercial elitista não funciona em tempos de recessão. Isso apesar de muita gente, inclusive no Brasil, praticamente torcer para que a empresa mantivesse a postura metida de "marca premium", com preços exagerados, quem sabe para reservar a si mesmos uma nesga de "exclusividade". Faz sentido numa sociedade em que "ter" é confundido com "ser".

    Mas nem tudo é bonito e florido no mundo das maçãs. A Apple adorou proclamar na WWDC que o novo sistema será 6 incríveis gigabytes menor que a versão atual. Mas esqueceu-se de explicar que isso se deve em grande parte à abolição do código para processadores PowerPC, mantendo somente o código para Intel (o Leopard contém código completo para os dois tipos de procesadores).

    Os Macs com processadores Intel foram lançados há pouco mais de três anos, na mesma época em que o Windows Vista surgia nos PCs. É bem pouco tempo. Se a Microsoft dissesse que o upgrade direto do XP para o Vista é impossível, haveria uma gritaria brutal do público que usa PCs com três anos de idade. Só que a realidade é oposta: o Windows 7 consegue rodar bem melhor que o Vista em equipamentos mais velhos. A Apple, pelo contrário, está acelerando a obsolescência dos Macs, bem numa época em que menos gente está trocando de hardware, e achamos essa atitude normal. Talvez porque os macmaníacos atuais são afeitos a usar equipamentos mais novos e a trocá-los rapidamente?


    Meu Windows 7

    Eu me inscrevi no programa de teste do Windows 7 e deixei passar a versão beta, mas instalei a Release Candidate logo que saiu, em um PC decente com processador Pentium D e funções de Media Center. A máquina veio originalmente com o Vista, que permanece instalado, já que o 7 está cautelosamente segregado num segundo HD. O único bug que vi até agora foi quando a máquina sofreu dificuldades após compartilhar na rede um volume com o Mac ao mesmo tempo que era controlado via rede pelo Remote Desktop Connection. De resto, o sistema é mais esperto que o Vista. Mais rápido e sem incômodos evidentes.

    Do ponto de vista de um   programador competente que não reza pelo catecismo do software proprietário, o Windows continua sendo aquele amontoado tedioso de pedaços de código passados e requentados, com gosto de café queimado. Para o usuário leigo, porém, está tudo lindo. E ficou um pouquinho mais difícil distinguir um PC com Windows de um Mac. Cuidado, Apple. Mesmo que tenha recursos técnicos inferiores, o Windows 7, com seu visual barroco e congestionado, herdado do Vista, ainda dá aquela impressão de que "faz mais coisas" que o Mac OS X.

    Ao menos, o que copiaram da Apple desta vez foi interessante: a Taskbar acumulou as funções e o jeitão do Dock do Mac OS X. Nem todos os cronistas de informática tiveram a coragem de dizer isso com todas as letras. Mas é verdade, e o resultado ficou bem melhor do que era antes. Espero não ver muitos puristas reclamando.

    Falando em reclamação, o grau de louvor que o Windows 7 tem recebido de alguns jornalistas dedicados ao mundo PC é tão superlativo que me faz desconfiar seriamente de sua credibilidade e racionalidade, especialmente quando essas pessoas são as mesmas que em outra época tocaram o mais violento fogo verbal no Vista. O clima é de uma verdadeira torcida coletiva para que desta vez "dê certo". O Windows 7, como aludi lá no começo, é extremamente parecido com o Vista. O aperfeiçoamento foi só nos detalhes. Então, a mudança brusca de opinião tem mais a ver com mudanças na atitude das pessoas do que com mudanças no código. Quais as motivações para isso? É nesses extremos de opinião que você distingue quem merece crédito de quem não tem a menor ideia do que está dizendo e trata de embromar o público a fim de angariar cliques. Cuidado, que na websfera brasileira existem alguns desses.

    2009-06-08

    Bicicleta em SP: será que agora vai?

    São Paulo terá Coordenadoria De Bicicletas na Secretaria De Transportes do Município.

    Este site, como o de muitas outras pessoas que lutam pela libertação da dependência cultural do automóvel e promovem meios de transporte mais limpos e humanos, sempre reservou palavras muito duras aos administradores públicos. Nunca gostei de escrever essas coisas, ao contrário do que pode pensar o eventual "fã do circo pegando fogo". Tampouco partilho da ideologia dos que reclamam de braços cruzados esperando favores do governo. Longe disso.

    Acontece que os alvos das críticas nunca fizeram por merecer outro tipo de palavra. Uma coisa é que eles demonstrem descaso e desconhecimento do assunto. Outra diferente é fazer promessas sem intenção de cumpri-las. Outra coisa igualmente deplorável é tentar calar e reprimir os manifestantes enviando multas da CET. Essas coisas não são simples idiotices ridículas, são atos contra a moral. Por fim, uma coisa muito mais grave é atrapalhar iniciativas de boa fé dos ciclistas, pondo a vida de inocentes em perigo. Foi o que aconteceu no caso deo fechamento do acostamento da Marginal Pinheiros.

    Agora, os mesmos caras que ignoraram os ciclistas, tentaram calá-los e os reprimiram, mudaram de ideia e anunciaram criar um grupo de diálogo para os interesses dos ciclistas dentro da CET. Havia já um grupo dentro da Secretaria do Verde, que tinha as mãos amarradas para lidar com os problemas do trânsito.

    Uma coisa que proporciona uma fímbria de esperança é que essa promessa surgiu durante uma ação real, fruto de uma bela iniciativa do André Pasqualini (CicloBR), que ajudou a informar e educar os motoristas de ônibus e contou com a presença dos secretários municipais e do prefeito.

    Uma mudança de cultura pode estar prestes a ocorrer. Mas como apontou a Renata Falzoni num comentário ao texto do André sobre a questão, só vou ter certeza de que é sério e aplaudir quando a CET tiver sinalizado a primeira ciclofaixa compartilhada na cidade de São Paulo.


    Não se pode relaxar na cobrança

    Você pode me perguntar se não está indo muito longe a minha insatisfação e a desconfiança em relação às intenções da prefeitura, se deveríamos lhe dar um voto de confiança mais amplo.

    Sabe o que acontece? Enquanto acena verbalmente com a possibilidade de criar um grupo de ouvidoria para ciclistas, a mesma prefeitura se prepara para, em parceria com o governo estadual, destruir 50 quilömetros de canteiros arborizados na Marginal Tietê e substituí-los por uma estúpida faixa extra de rolamento para nela socar ainda mais veículos do que cabem hoje. Os dois governos se dispõem juntos a eliminar a área que resta com vegetação numa região de várzea industrializada e já completamente desprovida de áreas verdes; impermeabilizar o solo bem à margem do rio, potencializando novas enchentes; atrair novos veículos para a região e gerar de imediato congestionamentos ainda maiores que os atuais, não resolvendo coisa alguma; tudo isso visando promover o nome do governador como candidato a presidente, sob a pauta burra e retrógrada do rodoviarismo urbano obsoleto, e ao mesmo tempo encher os bolsos das empreiteiras (a obra é tão cara que pagaria 13 quilômetros de Metrô). Enfim, é uma ideia condenável em todo e cada um dos seus aspectos. E as obras começam na semana que vem.

    Contra esse tipo de ação, que já é considerada inaceitável e obsoleta em qualquer país civilizado, os ciclistas não têm força de agir.

    Por enquanto.

    Veja: tanto tentou que um dia conseguiu

    Há duas semanas, analisei uma capa da Playboy brasileira que foi parar no Photoshop Disasters sem merecer.

    Logo a seguir saiu uma edição da Veja, revista que já não é assim de ganhar prêmios de design, com uma fotoxopagem mais presépica que o habitual na capa. Dezenas de pessoas prontamente linkaram essa capa da Veja no post do Photoshop Disasters sobre a Playboy e também enviaram emails para os autores do site, pedindo a sua inclusão num post novo.

    Demorou, mas cá está:



    Qual foi o problema? Não vamos nos deter no fundo infinito branco pobre, nem na péssima colocação das chamadas menores, com bullets desalinhados e até um deles invadindo a foto, muito menos no corte "lobotomizador" que arrancou uma tampa da cabeça da pobre modelo, menos ainda a possibilidade de uma leitura machista de "mulher como um ingrediente de um prato de salada". Vamos nos deter apenas no problema da perna, que foi o que causou a polêmica.

    O briefing da foto da Veja é um óbvio decalque desta fotografia famosa:



    Só que uma modelo da década de 2000 – ainda mais, uma modelo magrinha convocada para uma capa sobre dietas, mais do que naturalmente não vai aparecer no estúdio com as generosas coxas fusiformes da Marilyn.

    Eis o que pretendia o pessoal de edição de imagem. Reposicionando as pernas da modelo (sim, porque acho que mexeram nas duas; já explico), o contorno exterior da foto conforma-se melhor à, aham, referência. Só que com as coxas finas afastadas, a geometria anatômica da moça ficou antinatural. Se você projetar a posição da cabeça do fêmur da coxa e a provável curvatura da espinha dorsal, vai perceber que a anatomia não se encaixa bem no nível esquelético. A relativa rigidez da cintura para cima da modelo da Veja, que está com o torso bem mais ereto e de frente para a câmera que a Marilyn, sugere que se as duas pernas foram deslocadas.

    Não sabemos como era a foto antes da edição, pois ela não vazou para a Internet. Eu me atrevi a fazer uma reconstituição especulativa. Note como a foto pede um deslocamento das duas pernas, cada uma numa distância diferente. Creio que, surpreendementemente, a des-edição não muda tanto assim o caráter da imagem. E provavelmente exagerei um pouco. Mas a foto não parece mais um quebra-cabeças.



    No meu passado de fotoxopista existem fotos manipuladas com mulheres emagrecidas, mulheres engordadas e até mulheres com uma cabeça aplicada sobre o corpo dela mesma de outra foto. Mas você não vai saber quais são essas fotos se eu não contar, porque as fotografias já foram criadas visando essas manipulações e elas resultaram coerentes e naturais. Não é questão de virtuosismo com o mouse; é questão de planejar e saber exatamente o que precisa ser feito.

    Você poderia argumentar que é preciso dar um desconto à Veja, porque um trabalho como este nem sempre será feito com tranquilidade e prazo decente numa revista semanal de grande porte, com um monte de gente dando pitaco, onde tudo é feito muito corrido e a pauta de capa deve ser escolhida no último instante possível.

    Só que tem duas coisas. Primeiro, dieta é uma pauta "fria" que foi dada como capa nessa semana graças à falta de notícias consideradas mais relevantes, como escândalos políticos ou desastres de avião. Isso dá a oportunidade de publicar com o maior destaque possível um material de estilo de vida que pode ficar algum tempo pronto na "gaveta", esperando seu momento certo. Assim sendo, se não deu tempo de burilar melhor uma capa "fria", há um problema de organização, além do problema de qualidade.

    A segunda coisa é que a concorrente Época, da Globo, que tem uma direção de arte decididamente mais sofisticada que a da Veja (e no geral, reconheçamos, textos melhores também), consegue não apenas desenvolver ao menos quatro capas de uma mesma pauta para escolher a melhor delas no fechamento, como ainda mostra todas as opções para o público opinar no blog.

    Como faz a Veja? Sempre omite o crédito da edição de arte da capa, no que, como um cara do ramo, entendo como desrespeito continuado e persistente dos editores em relação à atividade do fotoilustrador. Difícil alguém querer criar uma obra de arte dessa maneira.

    É isso. Se você vir nas nossas publicações outra fotoxopagem digna de nota para ser analisada, pode ter a liberdade de me sugerir. E não precisa ser necessariamente desastre de Photoshop. Nem necessariamente de revistas da editora Abril.

    2009-06-06

    2009-06-01

    Deixem os logotipos para quem sabe desenhá-los!

    Hoje me chamou a atenção o linchamento verbal a que está sendo submetido o logo que a MPM Propaganda criou para a Copa de 2014 em São Paulo e colocou para todos verem no Flickr. Eu recomendo que você vá lá e participe da acalorada discussão. Se não tiver conta lá, pode ser aqui mesmo. Eis aqui o design:



    Você entendeu isso? Minha leitura visual inicial foi "um par de rodas de carro atropelando as letras S e P para lembrar do nosso desumano trânsito; reforçando o tema automobilístico, a tipografia remete diretamente ao logo da Ferrari."

    Teve que vir alguém explicar que a intenção original é mostrar um jogador de futebol fazendo um voleio. A implementação gráfica é a velha e absolutamente desgastada "solução" das "unhas cortadas", ligeiramente transmutada em quatro fitas coloridas (Bahia? Não era SP?), esboçadas de maneira vaga e unidimensional, sem embasamento caligráfico e sem harmonia geométrica.

    Em resumo, não é um design, é um desastre.

    Nem estou pegando pesado demais, veja bem. Lá no Flickr, muita gente foi direto na jugular: entrou só para dizer que o logo é um lixo, sem dar explicações. Uma pessoa da agência postou a seguinte defesa clichê e patética: "quem critica é invejoso ou rival". Para uma companhia que se dedica especificamente a cuidar de comunicação pública, o design e a tentativa de defender o indefensável atacando de volta são um duplo fracasso. Espero que seja um fracasso exemplar a ponto de fazer certos profissionais de comunicação começarem a repensar seus procedimentos.

    A casa caiu e o rei está pelado.

    Em posts anteriores neste blog, alguns dos quais foram meus campeões de audiência e outros não deixaram esquecer fracassos passados, havia embutida uma crítica à tendência de as agências de propaganda encamparem o trabalho de criação de logotipos, que era tarefa de designers especialistas. Sempre desconfiei profundamente das implicações desse encampamento na qualidade dos resultados. E continuam aparecendo exemplos e casos que só reforçam minha posição, expressa no título deste post. Publicitários, assumam: vocês não sabem desenhar logotipos. Mais ainda, não deveriam atrever-se a fazê-lo. Criem suas peças de propaganda em paz, mas ponham na tarefa da criação de identidade visual corporativa alguém que de fato saiba fazê-lo. Contratem um escritório de design externo especializado. Com desenhistas que sabem desenhar. E tipógrafos que tenham uma noção real de tipografia. Não fez o seu dever? Está inexoravelmente sujeito à execração pública na Internet. Fica com cara de idiota e, pior, seu cliente mais ainda. Sem dó e sem chance.


    Repercussão

    Como o governo estadual já está usando oficialmente o logo, o tipógrafo Henrique Nardi começou uma campanha pública para derrubá-lo, via reclamações diretas no site da SP Turismo.

    Nardi também apurou esta declaração do diretor de criação da MPM, Jorge Iervolino, que se apresenta como um dos criadores do logotipo e que, assim como outros marketeiros profissionais, insiste em chamá-lo erradamente de "logomarca":

    ...a ideia era criar um logotipo direto e simples, que fosse de fácil reconhecimento. “A logomarca de São Paulo traz dinamismo, movimento e energia, em que as cores mostram a diversidade de culturas e raças que só São Paulo tem”, reforça."

    Enquanto isso, o assunto bombou no Twitter e a página Flickr da MPM recebeu 200 comentários de repúdio em três horas.

    Se a repercussão no Flickr da MPM, no Twitter e neste blog forem ruidosas o suficiente para mudar a cabeça de um ou dois idiotas no comando e para levar à reflexão os pretensos sabe-tudos alienados que pastam no mundinho de faz-de-conta autogerado do celeiro de vaidades fúteis da publicidade, ainda não vou ficar feliz, mas vou ficar um pouquinho aliviado.

    3 de junho, pela manhã: Rendeu nota no Terra.
    Um grupo de pessoas (do qual não faço parte) resolveu criar um site só de paródias malvadas do logo, usando os seus elementos construtivos.
    E no Flickr a pancadaria continua. Com direito a anônimo suspeito criando perfil só para reclamar chateado das críticas. Um prato cheio.

    3 de junho, à tarde: Numa manobra para conter o fiasco, a SP Turismo declarou à imprensa que a marca era "provisória" e que um design definitivo só deve ser adotado após a FIFA autorizar a criação de um logo distinto para cada cidade sede da Copa. E que esse logo seria escolhido por concorrência pública.
    Até aí, podemos aceitar o fato de que a recepção negativa ao logo foi acusada internamente e causou uma mudança de atitude. Mas este pedaço da declaração soa esfarrapado, falso, até mesmo descarado:

    "Muitos designers ficaram animados com a possibilidade de participar. Então, vamos organizar um concurso para escolher o melhor e mais criativo. Montaremos uma comissão para avaliar todos os logos."
    ~Caio Carvalho, presidente da SPTuris


    Por tudo o que vi nas últimas 48 horas, esses "designers animados" não existem e fazem parte da manobra revisionista.

    3 de junho, à noite: Uma pessoa bacana, com quem de vez em quando converso sobre fotografia e design no Flickr, comentou isto no post da MPM – e eu concordo de cara:

    Então vamos lá: um grupo de designers (e micreiros, e publicitários, que também entrarão na onda, mas esses dá para ignorar, enfim), põe estudo, tempo, esforço e competência para fazer um logo que preste, a Secretaria recebe um monte de logos, escolhe o que agradar mais e paga um serviço só.
    Hhhmmm... por essas e outras eu sou contra concursos desse tipo.
    Não seria mais justo e honesto contratar de uma vez um designer (ou escritório de design)?


    Coincidência ou não, a página de Flickr do logo da MPM está com o acesso extremamente lento. Está batendo nas 14000 visualizações e 400 comentários.

    15 de junho: O Moraleida fez uma coisa muito bacana. E não, não me refiro ao elogio en passant a este blog. A coisa bacana foi estabelecer uma conexão entre as principais polêmicas do momento envolvendo a imagem de entidades corporativas na Web. Além do caso em pauta, ele comenta dois outros, da indústria de automotores e a briga suja da Petrobras contra alguns jornalistas.