Desde então, no aniversário do nosso dia de "Gotham City sitiada pelo Coringa", alguns cidadãos rememoram a data, trocam impressões e refletem.
Para muitos paulistanos, os acontecimentos tiveram um sabor de "11 de Setembro", mas não foram suficientes para um real mudança de mentalidade. Por todo lado vemos extremos de descaso e também de paranoia. Hoje, trombadinhas de bicicleta arrancam diariamente iPhones das mãos de pedestres distraídos na Avenida Paulista; na Favela São Remo, na madrugada de cada domingo para segunda-feira, há sempre um ruidoso baile de samba fora da lei, com aparente permissão da delegacia policial que fica bem ao lado; misteriosos fogos de artifício explodem em vários locais ao mesmo tempo numa madrugada de quinta-feira; no bairro onde cresci, Vila Galvão, em Guarulhos, todas as casas antigas, que no meu tempo de infância tinham quintais floridos, continuam a ser paulatinamente convertidas em caixotes de concreto e aço.
E o mais notável: desde os dias de terror, nunca mais uma cobertura jornalística chamou a "uma facção criminosa" pelo seu nome real.
Eis as versões reprocessadas das fotos que já tinha feito em 15 de maio de 2006, acrescidas de outras inéditas, agora com horário e legendas. Desta vez mantive o enquadramento original.


15:27 - Os rumores de atentados chegaram à redação da Futuro antes do almoço. Eu acompanhava pelo rádio. Afinal, o fim de semana já tinha sido pesado, com notícias de ataques a agentes de segurança pública. Todo mundo parou na frente da TV para conferir o telejornal ao vivo. A expressão da âncora da Record é notável. "90 mortos" era um número especulativo, mas impressionante. Só durante guerras ou ataques terroristas mata-se gente nessa escala.



15:40 - A editora decidiu fechar. O pessoal pegou as mochilas, reuniu-se à frente do prédio na R. Heitor Penteado e combinou esquemas de carona. Meu destino era o Portal do Morumbi. Fiquei me mortificando por não ter ido trabalhar de bicicleta nesse dia como em tantos outros. Estaria em casa após 50 minutos de pedal. Meu itinerário sem a bike incluía o Metrô, mas fui desaconselhado a usá-lo por causa dos boatos sobre ataques a estações com bombas. Fui dentro de uma kombi até Pinheiros, onde esperava arranjar outra condução.

16:21 - Chegando a Pinheiros, vi o centro comercial completamente deserto. Havia movimento ali perto, mas só de pessoas em fuga.




16:30 - Na esquina da Faria Lima com Rebouças eu esperava pegar o meu ônibus. Mas devido à superlotação seria inútil tentar pegar o ônibus fora do ponto inicial. Não havia táxis.






16:30 - 16:40 - Apesar da preocupação visível em muitos rostos, no ponto de ônibus não deu para fazer uma foto onde não aparecesse alguém sorrindo. Uma mulher sorria diretamente para a câmera de dentro de um coletivo apinhado. Alguns desses sorrisos seriam uma reação automática ao medo, outros de gente com cabeça mais fria achando que tudo aquilo não era nada além de um grande circo.





16:50 - Ao passar pelo Shopping Iguatemi, fechado e cercado pela polícia e por repórteres de TV, vi que tinha chegado tarde demais para tentar qualquer condução sobre rodas. Os ônibus já estavam desaparecendo e nenhum mais se dirigia à minha região. O fim antecipado dos transportes foi tão rápido e eficaz que não pareceria tê-lo sido se fosse previamente combinado.




17:30 - A travessia do Rio Pinheiros foi o último local fotografado, porque a minha câmera era incapaz de trabalhar com pouca luz e também porque não cruzei mais com gente na rua dali até minha casa. As ruas também ficaram desertas de carros. Todo mundo já estava trancado em casa às 18 horas. Uma sensação fantasmagórica me tomava naquele crepúsculo. Foram três horas e meia de caminhada.







