2009-04-24

O verdadeiro caráter do povo se revela pelas buscas

Este post era um apêndice de outro post recente, mas resolvi promovê-lo. É que finalmente me dei conta de uma coisa sobre o comportamento das pessoas que usam a Internet. Muita coisa pode ser deduzida do caráter dos visitantes de um site registrando e analisando a maneira como chegaram nele. O meu contador de visitantes informa de qual site vieram para cá. Acompanho essa informação porque ele detecta muitos trackbacks que a ferramenta do Blogger não enxerga. É assim que posso postar um agradecimento num site novo que acabou de citar um conteúdo daqui (e também ficar de olho nos plagiadores).

Mas as buscas no Google, Yahoo e outros serviços são particularmente reveladoras. Fico sabendo de coisas inconfessáveis que o buscador anônimo na Web pensa que nunca ninguém ficará sabendo. Apenas pensa. Mas como não reagir dando risadas solitárias, ou ocasionalmente com um esgar de desgosto, quando as buscas frequentemente contêm termos desonestos como...

tutorial roubar senha de orkut
como descobrir quem postou anônimo

ou tão textuais que parece que o usuário acredita que do outro lado existe um homenzinho lendo tudo e interpretando, como

o que significa a placa de trânsito que tem um carro, uma bicicleta e um risco no meio Wikipédia

ou mais ou menos controversos, como

foto flagrante mulher pelada
fotos de bombeiros pelados sem roupa
foto de mulher pelada com a vagina à mostra
fotos caseiras de negras peladas da periferia

Não sinto vergonha alheia por algumas das buscas mais escabrosas. O sentimento é outro. As buscas pela palavra "flagrante" são particularmente numerosas, o que é significativo. Basicamente, o que entendo disso é que um monte de marmanjos se excita profundamente com fotos amadoras toscas de situações nas quais jamais gostaria de ver sua própria namorada ou esposa como personagem, mas topa a degradação se nunca vier a conhecer a pessoa flagrada e não lembrar-se de que ela é outro ser humano e não um pedaço de carne. A busca por "vagina à mostra" me evoca a imagem de um solitário nerd jovem e espinhento procurando por sadia e edificante educação sexual, o que embute uma centelha de esperança. Quanto à busca que inclui "negra" e "periferia" na mesma frase, é melhor não comentar nada.

Inevitavelmente, a simples menção textual dessas buscas trará para cá mais alguns "cerumanos" do mesmo nível. Chegarão aqui para ler este singelo apelo à consciência. Portanto, podemos repetir impunemente: Roubar senhas de orkut... Fotos de bombeiros pelados sem roupa... Negras peladas da periferia...

Esse já foi abordado antes, mais de uma vez, e continuará sendo. Isto é um aviso.

2009-04-21

Monitores sexies

A melhor parte de testar hardware profissionalmente é conhecer de perto as coisas que você pode querer comprar para si mesmo. A pior parte é a hora de embalar e devolver um produto muito bom. Passei alguns dias com um EIZO especificamente desenvolvido para soft proofing de fotografias, com precisão de brilho e cor extremamente rigorosa.



Agora estou "quebrando o galho" com um Dell 2408WFP completíssimo, com painel S-PVA, Full HD, oito entradas de sinal, slot para cartões de memória, hub USB e rotação de tela.



Tirei as duas fotos em HDR para conseguir preservar as sombras sem estourar a luz nos monitores. Daí a saturação e cor meio esquisitas nas imagens.

Para quem estranhou o Dell estar vertical na foto: ano passado fiz uma experiência trabalhando com o monitor em modo retrato durante algumas semanas e o resultado foi positivo.

2009-04-18

Adianta entrar em choque?

Leia a matéria da Renata Falzoni sobre a intervenção dos ciclistas na Marginal Pinheiros, quando tentaram reverter a absurda e inútil transformação do acostamento entre as pontes Morumbi e João Dias em mais uma faixa de rolamento para os carros, prejudicando centenas de pessoas que pedalam por transporte lá.

Quando tiver mais tempo, vou colocar em pauta aqui neste post a discussão que se coloca sobre as estratégias de ativismo dos ciclistas. O título do post dá a dica: pelo caminho que está indo, não pode. Transformar o motorista individual em inimigo é o contrário do que se precisa para promover a convivência em paz no trânsito. Transformar a PM no inimigo é mais sério ainda. Além de um gasto de energia ineficaz, bater boca com a PM fomenta hostilidades futuras.
Artigo selecionado pelo

2009-04-13

Desarmamento Mental




Preciso mesmo explicar o sentido desta campanha?
Digamos que ela é o contrário do Mimimitter.
Pegue o logo e faça o que quiser com ele, modifique, espalhe.
Opine e enriqueça o conceito aqui nos comentários.
Por uma Internet menos cheia de negatividade.

Monday Morning Mail

Esse título não dá um belo nome para um semanário britânico fictício?
Na verdade, este post é um papo furado para avisar que todos os posts dos primeiros três meses do blog a partir de 2000, e depois todos os outros desde agosto de 2005, estão finalmente revisados e reformatados. Muitos que tinham perdido suas fotos e ilustrações foram restaurados. Outros receberam ilustrações inéditas, como o que fala da antiga revista Magnet, ou o que menciona a pioneiríssima personagem de webcomics Aline Alien (sim, fiz webcomic em 1997; só a palavra webcomic ainda não existia).
Vários dos posts da série sobre bicicletas foram incrementados com ilustrações minhas sobre mountain bike feitas no começo dos anos 90: Parte 5, Parte 6, Parte 7, Parte 8, Parte 9, Parte 10, Parte 11, Parte 12, Parte 13.

Aos poucos, todos os posts perdidos serão restaurados e recolocados no ar em suas datas e horas originais. Como o resultado desse trabalho não é evidente, em 18 de abril passei a listar as restaurações mais recentes (na coluna à esquerda, embaixo do índice cronológico). O ano mais complicado é 2003, quando eu tentei migrar para o Gardenal.org escrevendo quatro blogs temáticos ao mesmo tempo. Uma série de problemas me demoveu do esforço. O pior foi a perda do servidor do Gardenal, destruindo muitos posts que não tinham backup. Mais informação se perdeu naquele tempo: o sistema de comentários era externo ao blog e sujeito a dar paus constantes. Os comentários não tinham backup, com exceção de alguns raros posts. O que sobreviveu dessa bagunça está reunido no meu HD, numa longa fila de upload.


Links amigos
Esta semana, o que mais engrossou o movimento do meu site foi o Scrap MTV, com a graciosa menção ao texto sobre avatares. E pensar que ele tinha cinco anos de idade, originalmente falava de avatares de chat, é anterior ao orkut e Facebook... mas na era do Twitter continua perfeitamente válido. Os avatares pessoais estão aqui para ficar, mais ou menos como o barbeador de lâminas paralelas e o celular com mensagens de texto.
Este artigo do prestigiado Brand New, que cita o meu trabalho de misturas de logos (posts aqui, aqui e aqui) é fonte de visitantes internacionais diários desde maio do ano passado, o que dá uma ideia do imenso poder agregador desse site.


Marcadores funcionando
As porteiras estão abertas. Mais de 600 posts estão marcados com tags de assunto. Ler tudo o que escrevi sobre cada assunto, em ordem coerente, está a um clique de distância. O que me deixa feliz pela possível redescoberta de posts que gosto e apreensão pelos que não gosto mas mantive por questão documental. E pular de um assunto a outro é possível, porque a imensa maioria dos posts tem pelo menos dois tags.
Um dos tags mais divertidos é o Idiotas, com muitos textos. Era para se chamar "Crítica", mas os artigos que são diretamente combativos não merecem uma retranca mais fraquinha do que sua própria linguagem. O Dr. House concordaria com essa opinião.
Ainda dá para melhorar, reduzindo os tags redundantes. Condensei "Trânsito" com Transporte num só, por exemplo. Aos poucos tudo se ajeita às necessidades.

2009-04-11

Miran

Dois trabalhos oportunos, em sintonia com nosso tempo, de um homem que é grande inspiração para os artistas gráficos, designers, ilustradores e cartunistas (sim, é um blog separado para cada assunto).





(Post inspirado por outro do Pedaleiro.)

Um Judas para malhar

Uma porção de pessoas está com muita raiva de Alexandre de Moraes, burocrata no comando da CET de São Paulo, comprometido com a indústria automobilística, que numa concentração de poder perigosa e que deveria ser considerada ilegítima, acumula mais três cargos públicos relacionados a transportes urbanos.

A raiva não é apenas por ele ser incompetente em cumprir a missão que se atribui, de auxiliar a "fluidez" do trânsito de carros particulares - 30% da população - em detrimento dos que usam transporte público - os 70% restantes. O engarrafamento em São Paulo chegou ao recorde de 240 quilômetros nesta quinta-feira. Com o reaquecimento das vendas de carros, certamente vai aumentar até envenenar mais ainda o ar e generalizar a atmosfera de guerra no trânsito.

Além de incompetente, o czar do trânsito paulistano é um ser desumano. Confira o que ele disse no evento “Circulação e Transporte”, na Associação Paulista do Ministério Público, no dia 31 de março de 2009:

Não podemos colocar uma faixa só para bicicletas [nas avenidas], pois em São Paulo temos ruas [transversais saindo] à esquerda e à direita, e os ciclistas atrapalhariam o trânsito, porque os carros iam querer virar. Além de arranjar um problemão, com um monte de ciclistas atropelados.

Acidentes com vítima causam muita lentidão. Quando a pessoa morre, demora para a pista ser liberada. Tem de esperar a perícia chegar, e às vezes isso para todo o trânsito. O impacto de um acidente com morte é o mesmo de um veículo quebrado.

Há medidas para ampliar a segurança, mas não implantamos, pois prejudicam o trânsito.

Mais detalhes e declarações aqui.

O resumo é o seguinte: esse indivíduo, numa sociedade sadia, jamais poderia arrumar um emprego relacionado a gestão de trânsito. Numa sociedade apenas parcialmente funcional como a nossa, deveria ser demitido. Essas declarações são ignorantes, irresponsáveis e preconceituosas. Faz-se necessária uma oposição clara e direta à sua filosofia operacional, que está literalmente matando cidadãos paulistanos.

Foi confirmada para hoje, sábado, ao redor das 14 horas, na Praça do Ciclista - o quarteirão da Av. Paulista que fica entre as ruas Bela Cintra e Consolação - uma Malhação do Judas, que a ele será apropriadamente dedicada.


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2009-04-09

Ciclovia não é prioridade

Todo mundo que não pedala acha que a principal aspiração de quem usa a bike como transporte é ganhar ciclovias. É um preconceito tão recorrente que os cicloativistas locais começaram a encarar o termo como um palavrão.

As prioridades dos ciclistas urbanos são a convivência mais pacífica com outros veículos e mais respeito mútuo. Isso depende da conscientização dos motoristas, já que são eles que preenchem todos os espaços das ruas com veículos mais velozes e pesados, que podem ferir e matar em um simples instante de descuido ou de agressão. E também depende da conscientização dos ciclistas, que em todos os momentos devem tratar a bike como o veículo que é e guiá-la de acordo com as regras do trânsito.

Sempre tive vontade de explicar em mais detalhes o que é que não está certo na ideia fixa dos leigos em relação às ciclovias como panaceia ou solução mágica para problemas que, como acabei de observar, têm muito mais a ver com cultura e psicologia do que com infraestrutura.

Finalmente achei um excelente texto em um blog chileno, que só tive o trabalho de traduzir.

Não concordamos com ciclovias segregadas, pelas seguintes razões:
  • Apresentam novos conflitos a cada esquina, sendo mais arriscadas até para os ciclistas experientes.
  • Pretendem eliminar as bicicletas do local aonde pertencem todos os veículos, que é dentro da via.
  • São um sinal claro de falta de vontade política para tornar as ruas mais seguras, em favor da devoção exagerada ao automóvel particular.
  • Nas ciclovias chilenas, o ciclista é obrigado a percorrer vias estreitas, sinuosas, repletas de obstáculos como árvores, postes e travessias; as pistas quase não têm manutenção; acumulam sujeira e detritos perigosos como vidro e lixo. E ainda por cima, temos de parar para ceder passagem a cada nova esquina.


  • É exatamente isso o que vi acontecer na lendária ciclovia de faz-de-conta da Av. Faria Lima, que demonstra o nível de absurdo a que se chega quando uma obra é projetada por quem não pedala. A pista, isolada dentro do canteiro central, é interrompida a cada esquina por um retorno de carros movimentado, sem haver nem uma guia rebaixada para prover a mais rudimentar acessibilidade a quem não é versado em manobras de BMX e freeride. Exige uma perigosa travessia a pé para entrar e sair em qualquer ponto. A profusão de obstáculos impede até o ciclista mais paciente de atingir uma velocidade que justifique pedalar lá dentro. A pouca sinalização que foi instalada desapareceu, depredada ou roubada, e nunca foi cuidada nem reposta. Obras novas no curso da avenida, como pontos de ônibus e uma nova estação de Metrô, eliminaram completamente a pista de bikes. Finalmente, a pista foi adotada por pedestres praticantes de exercícios e jogging; se você entrar lá com uma bicicleta, será hostilizado.

    Cenário idêntico formou-se na Avenida Sumaré, a mesma onde mais recentemente tentou-se implantar uma faixa exclusiva para motos e o resultado foi o aumento imediato dos acidentes com motos.

    O governo local passou os últimos anos falando de outra ciclovia inútil, que nem ainda foi construída: a da Marginal Pinheiros. Além de ser paralela a uma linha de trem já existente, o projeto faz mais sentido para quem percorre distâncias maiores, pois os pontos de acesso a uma ciclovia na Marginal se resumiriam às pontes sobre o rio, que distam de 2 a 5 km uma da outra. Na própria Marginal não há muitos locais de interesse direto para as bikes, exceto no lado direito do rio, que é oposto ao trajeto da ciclovia e à linha de trem. Tudo isso reduz o seu atrativo integrador de transporte. Seria talvez uma obra para faraó ver, e nem foi iniciada, de qualquer maneira.

    Na Zona Leste está sendo implantada uma ciclovia real, que novamente é paralela a uma linha de trem em vez de estabelecer um caminho novo.

    O site chileno segue comentando que o instrutor norte-americano David Smith, do site A Better Bicyclist, assistiu a uma palestra de Brian Hansen, planejador de transportes de Copenhagen, a respeito da separação física das ciclovias. Estes foram alguns de seus pontos:


  • Antes de existir a separação física em ciclovias, as viagens de bicicleta eram o dobro de hoje.
  • Devido à facilidade de obter um carro, muita gente abandonou a bicicleta e o transporte público.
  • Devido a isso, surgiram congestionamentos.
  • Para reduzir os congestionamentos, o uso do carro está sendo desestimulado, inclusive com medidas restritivas. Para promover o uso da bicicleta, construiu-se para elas uma nova infraestrutura.
  • As ciclovias não são mais seguras do que compartilhar a rua. São falsamente percebidas como sendo mais seguras. Elas também não são mais seguras que as ciclofaixas (vias para ciclistas demarcadas na rua), pois elas concentram um número maior de colisões nos cruzamentos.
  • A falsa percepção de segurança é apoiada pelo aumento no número de ciclistas. A um número maior de ciclistas na rua corresponde uma quantidade constante de acidentes de trânsito envolvendo bicicletas. Ou seja, a taxa de ciclistas acidentados diminui. Isso acontece porque os motoristas ficam mais atentos à presença das bicicletas e tomam mais cuidado ao dirigir.


  • Essa tese novamente apoia a minha convicção, que se resume a isto: é preciso antes de tudo promover uma cultura de convivência pacífica. E isso não depende de obras. Se a intenção dos planejadores urbanos com as ciclovias é desincentivar a convivência entre as bicicletas e outros veículos para "não atrapalhar os carros", é melhor mesmo que não se construa ciclovia nenhuma.

    Artigo selecionado pelo

    21 de abril - Como um post mais recente menciona, os cicloativistas de São Paulo estão em pé de guerra novamente, por causa de mais uma decisão estúpida da CET. O trecho de acostamento da Marginal Pinheiros entre as pontes Morumbi e João Dias é usado por um grande número de ciclistas de longa distância que pedalam a trabalho. Eu mesmo percorri aquele trecho algumas vezes, porque ele não tem paralela próxima; somente os morros do Morumbi e Panamby, com ladeiras e ruas sinuosas e congestionadas.
    A decisão estúpida da CET, motivada pelos congestionamentos gerados pela nova Ponte Estaiada – em si mesma uma obra estúpida – foi tentar dar mais espaço aos carros, transformando o acostamento em via normal. E que se danem as bicicletas, naturalmente!
    O pessoal da Bicicletada esteve lá para repintar a faixa, num ato de desobediência civil plenamente justificável, mas confrontou a polícia e levou a pior. Estão planejando recomeçar a iniciativa com um efetivo maior de manifestantes, tentando vencer pela pressão. Mas a coisa toda pode acabar muito mal.
    Pessoalmente, digo pela terceira vez que acho estúpida a alteração na faixa, pois ela NÃO resolve o problema do congestionamento de carros, apenas empurra a demanda de espaço para mais adiante, e ainda prejudica centenas de pessoas de bem, desestimulando-as das bicicletas e obrigando-as a gastar dinheiro com trens lotados.
    Mas a situação não levaria a um impasse dramático se a tão prometida e jamais cumprida ciclovia da Marginal – que eu mesmo nem achava tão importante assim – estivesse construída e operando. Agora ela passou a ser importante e necessária. Porque o que o poder público está fazendo nesta cidade consistentemente ignora as bicicletas – e os pedestres junto –, ou as expulsa de propósito, a fim de forçar a abertura de espaço para o carro individual, que é o causador fundamental do caos no trânsito e deveria ser francamente desincentivado, não mais protegido.
    Eis algo para ser pensado pelas pessoas que querem consertar o grande problema desta cidade, que não é fundamentalmente de infraestrutura, e sim de atitude e de valores humanos.
    E por conta da minha raiva da cegueira teimosa de alguns administradores públicos e da hipocrisia de alguns outros, este post acabou de ter acrescentado o marcador Idiotas.

    Maio de 2010 - A prefeitura inaugurou a ciclovia da Marginal Pinheiros, ainda sem pontos de entrada e saída intermediários e destinada claramente ao puro lazer e não ao transporte. A ciclovia passa por baixo da Ponte Estaiada, vizinha à Rede Globo, que por sua vez usou a ponte como cenário para uma corrida de bicicletas na novela Passione, que pega embalo na modinha atual da bicicleta entre a classe média. A ponte, como já foi comentado, é de acesso proibido para qualquer coisa além de automóveis, num flagrante desrespeito à lei estadual. Enquanto isso, cansados de esperar, cicloativistas sinalizaram por conta própria a travessia da Ponte da USP.

    2009-04-06

    2009-04-03

    Em defesa do Kraftwerk

    É um sintoma de que algo não vai bem com um veículo grande quando, além de você nem se importar em lê-lo, todas as menções que chegam sobre ele são negativas. Aconteceu isso quando o Diogo Mainardi escreveu em sua coluna um texto magnificamente enviesado sobre o show de Kraftwerk e Radiohead.

    Como um exercício de demonstrar como um insolente zé-quase-ninguém da subimprensa blogueira pode rebater o argumento de um privilegiado palpiteiro da velha mídia, me diverti em escrever uma defesa do Kraftwerk em dez minutos e jogá-la na lista de discussão onde o assunto emergiu. Pelo menos neste cantinho da Web alguma justiça se faz com os velhos alemães.

    Acompanhei seus primeiros discos. Autobahn e Radio-Activity. Em 1977, quando saiu Trans-Europe Express, eu já desistira do grupo. Tinha 15 anos. Era velho demais. Quase a idade de Mozart em 1775. Naquele tempo, o Kraftwerk evocava o futuro. Mas era uma imagem do futuro de 30 anos atrás. Ridiculamente datada. Embolorada. Caduca. Com seus uniformes aderentes, com sua imobilidade no palco, com suas letras afásicas, com seus arranjos elementares, com sua batida narcótica, com sua tecnologia rudimentar, o futurismo caipira do Kraftwerk era igual ao do seriado de TV com marionetes "Os Thunderbirds".


    Para começar, um esclarecimento: os primeiros discos da banda não são os citados. Autobahn já era o quarto creditado ao Kraftwerk. Memória ruim? Desleixo para checar fontes? Maus sinais.

    Ele reclama que som do Kraftwerk é de um futurismo caipira de antigamente. Surpresa! É exatamente isso mesmo. Já soava estranhamente retrô em sua época original, mesmo usando instrumentos modernos. Por quê? Porque na estrutura as músicas são deliberadamente conservadoras. Mas o Diogo não tinha como pescar isso com 15 anos, e até hoje não conseguiu. Nunca entendeu que a afetação do Kraftwerk é uma elaborada ironia. Não bastaria ter mais cultura, o Diogo precisaria também de senso de humor.

    O disco Autobahn, de 1974, que mostra na capa um Mercedes-Benz e um Fusca, foi composto exatamente durante a primeira grande crise do petróleo. Os europeus, que já preferiam carros menores e mais modestos que os norte-americanos, estavam com um tremendo bode de automóvel em geral. A letra da música, celebrando a viagem de carro, é uma provocação, um comentário cínico sobre o estilo de vida que a geração do pós-guerra se dedicara a construir e então parecia desmoronar. E eles ainda tiveram a cara de pau de parodiar um estilo de canção folclórica alemã (a segunda melodia) para dar à composição um tom provinciano, de uma alegria alienada.



    Durante os shows, a projeção de vídeo mostra filmes antigos de algumas Autobahnen recém-construídas, durante nada menos que o governo Hitler. Ironia sobre ironia.



    Radio-Activity/Radio-Aktivität é um álbum que mistura o conceito de radiodifusão com o de radiação. A música título é um alerta contra o mau uso da energia nuclear. A versão corrente tocada nos shows começa com um texto falado alertando contra a produção descontrolada de lixo radioativo e emenda com nomes funestos relacionados ao tema: Chernobyl, Harrisburgh, Sellafield, Hiroshima.



    Trans-Europe Express era uma rede de ferrovias de transporte de passageiros que cobria toda a Europa ocidental, mas declinou e fracassou comercialmente. Já estava quase toda desmantelada quando o Kraftwerk compôs a canção. É outro tema posto em evidência deliberadamente fora de sua época para criar ironia. A própria capa do disco é uma foto dos músicos no estilo dos anos 50. Sabendo do background histórico, que de fato não é óbvio para um brasileiro, você pode compreender o toque elegíaco, por vezes soturno, nesse hino às glórias do transporte ferroviário. As projeções nos shows do Kraftwerk mostram o TEE no seu princípio, nos anos 50. Os próprios carros dos trens tinham um estilo futurista brega e feioso, que envelhecera muito mal e reforça esteticamente o tom da música.




    Por outro lado, os sons sampleados de metal chocando-se contra metal marcaram a gênese do estilo industrial. Que eu posso chutar com razoável chance de acerto que o Diogo desconhece completamente ou odeia.

    Computerwelt/Computerworld, que o Mainardi não mencionou, é de 1981 e profetizou com impressionante precisão o atual estilo de vida baseado na Internet. O disco seguinte de 1983, que foi adiado para 1986 devido a um acidente de bicicleta de Hütter, chamaria-se "Techno Pop" e antecipava a estética de quase toda música pop que domina as rádios desde então, gostemos disso ou não. Outro disco não mencionado, The Man-Machine/Die Mensch-Maschine, especula sobre a relação cada vez mais complexa entre seres humanos e máquinas, o que só tem se confirmado desde então.



    O ponto aqui é que você não precisa gostar do som para reconhecer que ele comenta temas relevantes da sociedade atual, e que o enfoque pseudo-retro-futurista põe em xeque a confiança que temos nos nossos planos e expõe o doloroso fato de que, na verdade, não temos a mínima ideia de para onde a civilização humana está indo.

    Por fim, quatro caras que trocam a si mesmos por robôs durante a apresentação e voltam vestidos com roupas fluorescentes imitando wireframes de CG estão pedindo muito claramente para não serem levados a sério demais.




    Mas a gente viu lá no começo que o Diogo não tem senso de humor, quer que tudo seja high art, não? Então OK.

    O resto do texto lá é uma maneira patética e pobre de ostentar o relativo privilégio de ter visto o Radiohead do soundboard e ter conversado com alguns músicos, apesar de aparentemente ter detestado o show. O que previsivelmente se alinha à premissa da coluna: nada nunca pode ser bom, jamais algo merece elogios e a destruição inconsequente é a única atividade intelectual possível. Detestar tudo e falar mal sem limites dá prazer, não? Essa parece ser a derradeira conexão a um hausto definhante de vida artística de um melancólico fracassado (não o estou insultando, são as suas próprias palavras).

    Diogo fecha o texto dizendo que a sua geração perdeu-se. Não vou entrar nesse debate, a esta hora alguém por aí já escreveu algumas boas provas do contrário. Seria bom agora que tivesse a dignidade de não gorar a geração atual, para a qual as suas lamúrias têm ainda menos valor que a cadeira que tanta falta fez para descansar seu cérebro fatigado.

    Reclame à vontade com o Mimimitter

    Com a consolidação do Twitter, a próxima grande onda são os clones temáticos do Twitter. Já existe um serviço específico para mães com bebês, outro para animais de estimação, um sobre carros tunados e assim por diante. Acompanhando de perto as tendências e interesses da twittosfera brasileira, uma empresa associada ao Twitter resolveu criar um serviço semelhante, mas dedicado somente a mensagens negativas: o Mimimitter.



    Está de saco cheio do seu emprego medíocre? O dinheiro acabou e o mês não? Sendo seguido por um mala que não para de mandar Directs retrucando um assunto de ontem? Encontrou sua grande rival online e não resiste ao impulso de falar mal dela? Está no meio de uma guerra de relações públicas com um concorrente na Web? É um ativista lutando pela conscientização sobre a necessidade de proteger o trevo lilás da neve? Dispensou o namorado depois de flagrá-lo com outro homem? Seu HD pifou e levou junto toda a sua vida digital porque você é um otário que nunca faz backup? Acesse o Mimimitter e fique quites com o mundo cruel! Nunca foi tão fácil reclamar de coisas irrelevantes para gente que você nem conhece. Cada chilique, piti, bronca ou diatribe requer apenas 140 caracteres! Muito mais fácil do que montar um blog! Venha vociferar você também!

    2009-04-01

    Mostra-me teu avatar e direi-te quem és

    Bicho de estimação
    O que a pessoa quer que pensem dela: Ama os animais
    O que significa realmente: Tem problemas de relacionamento com seres humanos

    Personagem de anime ou mangá
    O que a pessoa quer que pensem dela: Exótico, alternativo, interessado em outras culturas
    O que significa realmente: Nerd

    Logo da empresa
    O que a pessoa quer que pensem dela: Veste a camisa da companhia
    O que significa realmente: Precisa logo mudar de emprego

    Fofinho
    O que a pessoa quer que pensem dela: Sensível, brincalhona
    O que significa realmente: Se for mulher, imatura e alienada; se for homem, pedófilo

    Ícone genérico
    O que a pessoa quer que pensem dela: Não tem tempo a perder procurando ícones, a palavra é o que importa
    O que significa realmente: Mala

    Foto em close fechado
    O que a pessoa quer que pensem dela: Os olhos são a janela da alma
    O que significa realmente: Gordo, possivelmente careca

    Instrumento musical
    O que a pessoa quer que pensem dela: Tem uma banda muito cool
    O que significa realmente: Desempregado

    Foto nostálgica da própria infância ou adolescência
    O que a pessoa quer que pensem dela: Bons tempos aqueles
    O que significa realmente: Não realizou nada decente desde então

    Figura popular de filme ou TV
    O que a pessoa quer que pensem dela: Identidade com as qualidades admiráveis do personagem
    O que significa realmente: Sem personalidade própria; feio demais para mostrar a cara

    Casal
    O que a pessoa quer que pensem dela: Apaixonados e inseparáveis
    O que significa realmente: Não pode nunca mais mudar esse avatar, senão o/a namorado/a surta

    Imagem referente à Apple
    O que a pessoa quer que pensem dela: Usa Mac e tem orgulho disso
    O que significa realmente: Consultor desesperado atrás de novos clientes

    Imagem incompreensível, precisa ficar explicando
    O que a pessoa quer que pensem dela: Artista, sofisticado, criativo
    O que significa realmente: Maconheiro

    Foto borrada de perfil em atitude blasé
    O que a pessoa quer que pensem dela: Original, não leva a aparência a sério
    O que significa realmente: Antipática, metida e a câmera do celular é horrível

    Bebê
    O que a pessoa quer que pensem dela: Sou bom pai/mãe
    O que significa realmente: Tem sentimento de culpa por passar menos tempo junto com os filhos do que deveria

    Auto-retrato incluindo a câmera
    O que a pessoa quer que pensem dela: Fotógrafo profissional
    O que significa realmente: Comprou uma máquina cara demais e para pagá-la precisa pegar algum frila urgente

    Toy art
    O que a pessoa quer que pensem dela: Descolex
    O que significa realmente: Consumista fútil e seguidor de hype

    Imagem pornô ou chocante
    O que a pessoa quer que pensem dela: Ousado, franco e direto
    O que significa realmente: Não saiu da infância

    Personalidade controversa do momento
    O que a pessoa quer que pensem dela: Bem informado
    O que significa realmente: Coça o saco o dia inteiro navegando pela Internet no computador do trabalho

    Muda de avatar todo dia
    O que a pessoa quer que pensem dela: "Prefiro ser essa metamorfose ambulante..."
    O que significa realmente: Esquizofrênico


    Livremente baseado num texto originalmente publicado na revista Macmania 115, de janeiro de 2004.

    Artigo selecionado pelo

    Template do Blogger

     
    1º de abril
    Os poucos que vieram aqui pela manhã não se enganaram. Tentei mesmo adaptar o design deste blog (que data de 2001 e é tecnicamente obsoleto), usando o sistema de código modular do Blogger. Peguei o layout que me interessava, mudei algumas propriedades de estilo, publiquei do jeito que estava e fui dormir. Ao voltar à edição, espanto: os principais itens da sidebar deram conflito com a interface de publicação. O Blogger reclama que o código desses adendos está com problemas de sintaxe e não permite a publicação. Voltei temporariamente ao layout velho, fazer o quê? (Se tentar de novo e não rolar, alguma boa alma me informe como migrar tudo para o Wordpress.)

    9 de abril
    Ao customizar o visual do novo blog da Verônica, Gata de Rodas, finalmente entendi o que estava fazendo de errado no meu próprio. O novo sistema do Blogger é modular, totalmente em XML, com uma sintaxe ultraprecisa. Para os códigos externos funcionarem, é preciso incluí-los como módulos de layout. Isso à primeira vista parece burocracia, mas é o contrário: facilita muito a montagem da página.

    Entendendo como funciona, finalmente migrei o meu site para o novo sistema. E não é que ficou mais rápido para carregar? Além disso, passou a ter o importantíssimo recurso dos marcadores de assunto (tags), vastas melhorias tipográficas (afinal, precisei redefinir todos os estilos de CSS do zero), comentários na mesma página do post e permalink no título.

    A redefinição da tipografia segue meus gostos pessoais, refletidos nas páginas do meu portfólio. Quem acessa do Mac OS X agora vê os textos em Optima. No Windows Vista, em Segoe UI. No Windows XP, em Tahoma. Falta definir o tipo para o Linux; sugestões são bem-vindas.

    Estrategicamente guardadas na manga estão benesses técnicas futuras que finalmente trarão o blog para o atual século. Que venham os comentários.

    11 de abril
    Mais umas mexidas no código, com o estabelecimento de um estilo para citações e a colocação de marcadores (tags) em todos os posts publicados. Agora dá para acessar de uma vez só todos os posts sobre bicicletas ou Apple, por exemplo. Falta agora migrar algumas imagens de servidor e recolocar no ar todos os meus posts "perdidos" entre 2001 e 2003. Tarefa de longo prazo.