2009-03-31

Filmes atômicos - Parte 2

Boletim Especial
(Special Bulletin, 1983)

Produção feita para a TV que encena com perfeição alarmante um incidente de terrorismo nuclear , do ponto de vista da cobertura ao vivo por um telejornal. Escrito e dirigido por Edward Zwick e Marshall Herskovitz (os mesmos de "O Último Samurai"), o filme foi indicado a seis Emmys e ganhou quatro.



Começa sem créditos nem títulos, como se o espectador tivesse acabado de zapear para o fictício canal RBS (nada a ver com o homônimo brasileiro). Entram no ar os dois âncoras do jornal, trazendo a cobertura ao vivo de um incidente no porto de Charleston, South Carolina.



O porto está em greve e deserto. Um barco atraca com um grupo de extremistas (americanos, não estrangeiros) que diz carregar consigo uma bomba de fabricação caseira. O detalhe é que a bomba não é convencional, é atômica. Ela tem poder similar à bomba de Nagasaki, suficiente para vaporizar e empestiar com radiação durante décadas a maior parte da cidade.



O líder do grupo é um cientista nuclear, ex-colaborador do programa de armas atômicas dos EUA, que mudou de lado, virou um pacifista radical e pretende obrigar o governo a entregar na sua mão os detonadores de todo o seu arsenal nuclear, o que poria um fim à corrida armamentista com a União Soviética. A bomba tem um prazo de 24 horas para detonar; dispositivos eletrônicos de segurança garantem que ela não possa ser desarmada por ninguém exceto o próprio criador.



Um repórter e um cameraman da RBS são tomados de reféns logo no início da cobertura, o que permite ver cada lance da crise pela TV, e ao mesmo tempo transforma a mídia em protagonista dos fatos. A população acompanha tudo com tensão, medo, dúvida e muita especulação. O governo tenta negociar, e há indícios de que ao mesmo tempo está bolando um plano ousado para surpreender e prender os terroristas e obrigá-los a desarmar a bomba. Só que eles também estão assistindo à TV.



O filme avança para o clímax: será que os terroristas serão pacificados e a bomba desarmada? A tensão fica insuportável à medida que corre o cronômetro na tela.



Mesmo sendo datado pelo cenário da Guerra Fria, o filme não perdeu força, porque eventos reais recentes apenas demonstraram que o seu vislumbre foi muito bem acertado, até profético. A detalhadíssima ação é toda relatada em linguagem televisiva autêntica. Os atores são espontâneos e improvisam bastante. Existem até aquelas inevitáveis falhas técnicas e vacilos típicos de uma transmissão de emergência ao vivo. As reações dos jornalistas na tela profetizam o clima de confusão e estupefação do 11 de Setembro. O uso de vídeo em vez de película é outra boa decisão do diretor. De quebra, o filme apresenta uma discussão séria sobre o papel ético da imprensa durante uma situação de perigo extremo em que ela é um dos participantes decisivos.

De forma similar à radiodifusão de "A Guerra dos Mundos" por Orson Welles em 1938, "Boletim Especial" causou um pânico entre os telespectadores na estreia, mesmo com a precaução de apresentar a palavra "Dramatização" durante as cenas mais intensas, além de telas pretas com textos de desmentido a cada fim de corte comercial.

With such contemporary threats as nuclear briefcases and "dirty bombs," it's nothing short of a miracle that Americans have gone this long without facing a nuclear terror threat such as the one portrayed in Special Bulletin.
~ Jason Buchanan, All Movie Guide


Artigo selecionado pelo

2009-03-27

Filmes atômicos - Parte 1

Há um zunzunzum no ar de que a Rússia e a China estão com vontade de voltar a brincar juntos. E a Rússia quer levar umas bombinhas para animar a rodinha.

Cresci no final da Guerra Fria, e jamais ficou muito distante a impressão de que alguma das potências nucleares certo dia poderia deixar escapar o dedo e apertar sem querer, mas querendo, o botão do Juízo Final. E graças à política de Mútua Destruição Assegurada (MAD em inglês), apenas um dos lados precisaria apertar o botão para decretar o suicídio compulsório da humanidade inteira. Na minha adolescência eu especulava quantos mísseis estariam apontados para São Paulo, pois sabia que a estratégia das potências contemplava com seu brinde de morte todas as grandes cidades do mundo além das suas próprias, a fim de eliminar potenciais aliados que ajudassem a reconstruir o inimigo.

Qualquer um, exceto talvez os próprios líderes das potências, pode perceber que a escalada armamentista foi a coisa mais insana, perversa e hedionda que o ser humano inventou depois dos próprios bombardeios atômicos. Com o fim da Guerra Fria parecia que poderíamos ficar aliviados, mas os loucos que inventaram o absurdo ainda estão soltos por aí. E têm saudades do passado.

É por isso que envelheceram bem os filmes sobre o holocausto nuclear. Além dos que todo mundo conhece - "Dr. Fantástico" e "O Dia Seguinte" - há um punhado de outros que exploram o tema.

Miracle Mile
(Miracle Mile, 1988)

Este thriller dirigido por Steve de Jarnatt (colaborador de "E.R.") conta a história de uma pessoa comum que, por puro golpe de sorte - ou de má sorte - fica sabendo antes de todo mundo que a guerra nuclear começou e os mísseis já estão a caminho. Pode parecer uma premissa forçada, mas na época ela soava muito possível. O protagonista não é um herói salvador do dia, e sim uma vítima dos acontecimentos que tenta reagir com o pouco que pode. Isso contruibui para uma perspectiva sóbria e sem a grandiosidade canhestra de filmes como "O Dia Depois de Amanhã" nem as pretensões didáticas enfadonhas de "O Dia Seguinte".

Surpreendentemente, os primeiros 18 minutos têm todo o clima de uma leve e fofa comédia romântica. Harry (Anthony Edwards, o Dr. Green de "E.R.", ainda com cabelo e parecido comigo quando eu tinha 22 anos) é um músico de passagem por Los Angeles que vai ao museu de História Natural para ver fósseis de dinossauros. Lá conhece a garçonete Julie (Mare Winningham, exibindo alguns dos piores figurinos, makeups e penteados do estilo New Wave). Nasce o amor entre eles.



Mas, por um acidente do destino (uma breve cena que faz um belo comentário filosófico sobre causas e consequências e acaba de ser imitada pela realidade), Harry perde a hora para o segundo encontro. Vai em plena madrugada à lanchonete onde ela trabalha, numa tentativa desengonçada de compensar o furo. Nisso, acontece aquilo que foi descrito pelo crítico Charlie Brooker, do The Guardian, como "a maior mudança de tom de todos os tempos em um filme".



Um orelhão na calçada toca, Harry atende. É uma ligação errada. Do outro lado, pensando que estaria falando com o próprio pai, um funcionário de um silo de míssil nuclear conta, aterrorizado e fora de si, que a guerra atômica foi finalmente deflagrada. Os mísseis começarão a explodir sobre a cidade dentro de 70 minutos. Desde essa chocante revelação até os créditos finais, a narrativa passa a ser nervosa e toda a ação acontece em tempo real, com pequenos cortes imperceptíveis. Nenhum segundo do tempo, nenhum efeito especial é desperdiçado. Harry corre para achar Julie e encontrarem juntos uma maneira de fugir. Uma sequência de eventos bizarros envolvendo diversas pessoas surtadas acaba impedindo-o de concretizar a fuga rapidamente.




O sol nasce, a cidade acorda e a mídia informa prontamente a população da hecatombe iminente. Forma-se então o caos absoluto nas ruas, calçadas e lojas. Gente correndo em todas as direções, incêndios, atropelamentos, quebra-quebras, saques, tiroteios, gritaria, sirenes incessantes. Tudo de repente e ao mesmo tempo.



Uma tomada por cima mostra um congestionamento de carros total e definitivo, com pessoas em pânico correndo por cima dos tetos e capôs.



Harry e Julie, que contavam com fugir da cidade num providencial helicóptero, estão tão confusos e atordoados que não conseguem escapar do inferno a tempo. Ao subirem no elevador, a luz do edifício acaba: terá sido por causa de uma explosão? Na cobertura, um bêbado contempla um míssil subindo ao céu e espera pelo fim com um sorriso insano.



A história é tocante, mas sem pieguice. O drama das pessoas não é pautado pela dignidade; parece, aleatório, sem sentido, até ridículo. A multidão em pânico lembra um monte de baratas ou ratos encurralados. Há lances de ironia cruel; por exemplo, quando Julie fala dos "sobreviventes que vão reconstruir o mundo", Harry retruca: "acho que agora é a vez das formigas".



As reações das pessoas na história são muito variadas. Inicialmente, elas se dividem entre as que creem em Harry e as céticas. As primeiras dentre as que acreditam mobilizam-se para escapar e somem de vista. Outros ficam para trás porque simplesmente não se importam; não sabemos se é porque nao creem, ou porque sabem que não adianta tentar fugir, ou porque estão isolados em seus mundos mentais. Outros, conforme se conscientizam da morte iminente, exibem atitudes cada vez mais inconsequentes e extremas, e todo verniz de civilização por fim se dissolve (de uma forma não muito diferente de "O Anjo Exterminador" de Buñuel, um dos meus filmes favoritos). No fundo, apesar das décadas de tensão e advertências sobre a guerra nuclear, ninguém na cidade demonstra estar preparado.

Ante a inevitabilidade do bombardeio, as palavras de consolo trocadas por Harry e Julie são: "Seremos encontrados um dia... e colocados num museu. Ou então... talvez levemos um impacto direto e sejamos transformados em diamantes."

No próximo artigo vou comentar "Boletim Especial", um premiado filme para a TV de 1983 que retrata um incidente de terrorismo com bomba atômica, do ponto de vista de um telejornal.

2009-03-18

Pedalando pelado (exceto na Avenida Paulista)

14 de março, sábado, 13 horas. Sol forte, flocos de nuvens, 29 graus. Reunião coletiva na Praça do Ciclista (aquela calçada que fica ao redor do buraco que interliga a Av. Rebouças e a Dr. Arnaldo com a Av. Paulista e tem bem no meio a estátua de um revolucionário latinoaericano). Pela segunda vez na cidade, a multidão foi lá pedalar com menos roupa que o habitual para pregar a paz no trânsito e expor a sua fragilidade física em meio aos carros, caminhões e ônibus. Para quem acabou de voltar de Marte e está boiando, a manifestação World Naked Bike Ride acontece anualmente em várias cidades do mundo ao mesmo tempo.







No ano passado, não apoiei a pedalada pelada. Dizia que o público geral não está preparado para interpretar a mensagem de forma útil ou séria. Achei que o evento seria implacavelmente reinventado pela mídia sensacionalista como desfile burlesco para ser ridicularizado. Mas uma série de acontecimentos na minha vida pessoal me convenceu de que devemos fazer hoje mesmo qualquer coisa que estiver ao nosso alcance para contribuir para a cultura de paz. Se ninguém tivesse iniciativa e coragem, a vida urbana continuaria irremediavelmente contaminada pela mediocridade, pela brutalidade e pela insensibilidade. Pelo contrário, é preciso assumir o "pensar diferente" e evidenciar a postura dissonante quando se promove uma causa justa. Haverá resistência, fricção, distorção, incompreensão, até sofrimento. Mas a mudança acontecerá. Em relação ao uso da bicicleta como transporte em São Paulo, já estamos vendo uma mudança geral de atitude. Sentar e reclamar sem contribuir para as mudanças que desejamos não vale rigorosamente nada.









O pelotão de ciclistas percorreu a Paulista cautelosamente vestido, inibido pelo policiamento ostensivo que estava lá para impedir a nudez. Os participantes estavam preparados para expor o corpo apenas quando não estivessem sob a intimidação de cassetetes repressores de policiais truculentos. Havia também o assédio de "urubus da mídia" e todo tipo de exploradores e oportunistas procurando inventar factoides. Houve quem incitasse ciclistas a tirar a roupa para preencher suas lentes fotográficas de pele nua, a fim de usá-la como chamariz para audiência barata no mercado de carne da mídia comercial. Levou como resposta um esguicho de água. Um fotógrafo mais descarado levou pancada de uma manifestante, que usou a própria bicicleta como arma de defesa. A Paulista estava ruim de trafegar, de tantos que eram os intrusos a pé enfiando-se no meio do pelotão com suas câmeras e filmadoras. Se esses tivessem reconhecido os manifestantes como seres humanos e não alegorias de desfile, e se tivessem comparecido com suas próprias bicicletas e fotografado o evento de dentro do grupo, teriam imagens mais interessantes e talvez também aprendessem os motivos e recompensas do ciclismo urbano responsável.









Na Avenida Paulista, o efetivo da Polícia Militar era fantasticamente exagerado, mais apropriado para invadir prisões rebeladas ou conter tumultos em estádios de futebol. O número total de ciclistas oscilava entre 300 e 500, número que por hábito foi subestimado pela PM para 200.



Se houvesse mesmo 200 ciclistas, haveria um PM individual para cada ciclista presente. Marcação homem a homem? Tudo isso para evitar a exposição pública de partes corporais? Ladrões, homicidas e meliantes por toda a cidade devem ter tido um sábado de glória, seu "trabalho" generosamente facilitado pelo desvio dos PMs de suas funções reais para vigiar e isolar um grupo pacífico e alegre como se fosse uma horda de vândalos. Numa sociedade mais sadia, o cerco seria reconhecido como muito mais ofensivo do que qualquer expressão de nudez. O comandante da PM declarou à imprensa que o policiamento estava lá para proteger os ciclistas, mas houve muitos casos de repressão verbal à nudez, alguns ocorridos bem na minha frente. Portanto, algo nesta história é mentiroso e hipócrita, e não acredito que sejam as fotografias.







A massa pôs em prática a tática do despiste: chegando ao início da avenida no Paraíso, separou-se em vários grupos e só voltou a reunir-se no Monumento do Empurra-Empurra, às portas do Parque Ibirapuera. Ali, quem quisesse tirar a roupa teve paz para fazê-lo antes de o grupo seguir pelas avenidas Brasil e Faria Lima.













A dispersão teve a utilidade adicional de despistar a maior parte das câmeras sedentas de espetáculo. Os participantes que de fato se despiram foram poucos, e a maioria deles por pouco tempo.



Uma tática bem-sucedida para manter o bom humor e dosar a exposição foi pintar a pele e cobrir os rostos com máscaras, óculos e balaclavas. Quanto às bikes, quanto mais diferentes, melhor.

















A multidão era recebida com sorrisos pelos pedestres em todos os lugares.



Mas também respondeu com vaias aos poucos motoristas que buzinavam impacientes em alguns cruzamentos. (Previsivelmente, a TV Globo vingou-se anunciando no telejornal SPTV que os ciclistas "atrapalharam o trânsito", em tom de reprimenda, e antes disso anunciou equivocadamente que o grupo reivindicava "ciclovias". ) O grupo também passou sem a mínima cerimônia por dentro da ruazinha que contorna por trás o Shopping Iguatemi e serve de acesso ao estacionamento.





Foi um gesto de intenso poder simbólico, que reprisou a Bicicletada de fevereiro na Rua Amauri, local de concentração de restaurantes grão-finos no Itaim. Os comerciantes da rua queriam, segundo uma reportagem fantasticamente enviesada da Vejinha, expulsar as linhas de ônibus para deixarem os clientes e valetes mais à vontade para manobrar e parar seus carrões em fila dupla. (O mimimi não adiantou: a SPTrans recusou-se expressamente a deslocar os itinerários dos ônibus.) Outro ato simbólico foi terminar o circuito subindo a R. Colômbia/Augusta, local que reúne as lojas de carros importados mais caros do país, todo mundo gritando sem pausa: "menos carros, mais bicicletas!"



Para fechar e amarrar a ironia, a mangueirada salvadora de água refrescante veio da porta da loja da Mercedes-Benz.



Na esquina da R. Estados Unidos, o grupo ajudou a abrir caminho para um carro de bombeiros, incidentalmente ensinando boas maneiras a alguns motoristas.





A ladeira da Rua Augusta fez o grupo espalhar-se uniformemente desde a R. Estados Unidos até a Alameda Santos. Em grupo, a subida pareceu muito mais fácil.







De volta à Praça do Ciclista, a PM correu a verificar se ninguém estaria cometendo "atentado violento ao pudor", mas nada encontrou além de pessoas novamente vestidas, sorridentes, celebrando o sucesso da manifestação com o gesto universal de erguer as bikes no ar.









A repórter da TV Globo apareceu para colher "aspas" para uma matéria do jornal SPTV. Mas, de forma nada surpreendente, ninguém queria sequer lhe dirigir a palavra. Muitos têm ressentimento da chamada mídia de massa, depois de inúmeros casos de declarações distorcidas na edição. Todo mundo receava que o evento fosse apresentado como "um carnaval fora de época que atrapalha o trânsito".



Mas quem se ofereceu para dar declarações ajudou a resgatar a mensagem com presença de espírito.



"Nós não atrapalhamos o trânsito, nós somos trânsito. Fluímos e nos divertimos, assim como os motoristas que nos viram, que também se divertiram."



As passeatas de bicicleta em São Paulo são movimentos sem liderança nem hierarquia, e sendo auto-organizados espontaneamente, não podem ser combatidos por meios convencionais. O rápido progresso da bike como meio de transporte na cidade é sua causa e também consequência. Os seus promotores têm atuação mais ampla sendo a sua própria mídia, propagando a mensagem sem depender de canais de comunicação viciados, comercialmente comprometidos com o "status quo" estruturado sobre o modelo econômico esgotado do carro individual. Centenas de ciclistas rolando por uma grande avenida são uma força irresistível; ninguém deve ousar tentar pará-los. A harmonia vencerá a prepotência. A alegria vencerá o stress.








Erros da mídia e novos "argumentos contra idiotas"

Não perca este artigo refutando ponto a ponto as incorreções da mídia escrita.

Os novos "argumentos contra idiotas" foram inspirados pela cobertura da pedalada pelada em websites que não são escritos ou controlados por ciclativistas, nudistas e simpatizantes, mas por gente "comum" de todos os tipos. Nesses lugares se fizeram ouvir algumas vozes de reprovação. O problema é que todas, eu disse todas mesmo, sem exceção, traziam argumentos refutáveis. Eis as queixas mais comuns e as respectivas refutações; copie e cole onde achar necessário.

É o fim do mundo mesmo. Estamos perdidos. Não seria um começo, já que o movimento celebra a retomada das ruas sequestradas pelos carros? Perdidos estaríamos se fôssemos todos motoristas: ninguém conseguiria mais dirigir para lugar algum.

É uma pouca vergonha. Pouca vergonha é a PM estacionar dezenas de viaturas sobre a calçada no dia da WNBR. Pouca vergonha é a mais nova e mais cara ponte da cidade, o Estilingão, não incluir no seu projeto a passagem de pedestres e bicicletas, que é obrigatória por lei. Pouca vergonha é quando motoristas fazem conversões à direita sem sinalizar, fechando e derrubando bicicletas. Pouca vergonha são motorizados queimarem sinais vermelhos e pararem sobre a faixa de pedestres, arriscando a vida de inocentes pela ilusão de chegar mais depressa ao próximo semáforo. Pouca vergonha é o motorista que estaciona na porta do restaurante em fila dupla ter a cara de pau e a prepotência de reclamar que os ônibus atrapalham. Pelo contrário, nudez natural não é vergonha nenhuma. Nós nascemos todos nus. O Adão de Michelangelo no teto da Capela Sistina está nu.

Um pai de família não deve deixar ver a sua filha pelada na rua. Na sociedade contemporânea, pai de família não é o mesmo que tirano nem inquisidor. Na WNBR não havia nenhuma pessoa menor de idade ou não emancipada, sobre cujas atitudes o pai pudesse dar qualquer pitaco. Fora isso, a escolha das palavras "pai de família" e "filha" revela outra atitude obsoleta: sexismo. Não poderia ser mãe de família? Se o filho fosse homem, aí ele poderia se despir sem causar vergonha a ninguém? Isso é hipócrita. Venha para o nosso século ou sofra por merecer.

Deveriam fazer um protesto mais útil, como contra os políticos corruptos, em vez de perder tempo com bicicletas. Falso argumento. Ninguém deve expressar crítica a alguma coisa só porque outrem acha que é "mais" importante. Ademais, é flagrantemente incoerente uma pessoa assim, de viés autoritário a ponto de querer impor temas para manifestações alheias, sugerir que o grande problema são os políticos. Os políticos emergem exclusivamente do eleitorado que vota neles. Então, comece votando direito. E, a fim de validar a própria opinião e angariar a moral que acha que já tem, que tal arrancar a bunda da cadeira na frente do seu PC e ir protestar nas ruas de fato? Enquanto conversamos, ciclistas são atropelados, mutilados e mortos nas nossas ruas por motoristas incompetentes e insensíveis, apoiados por uma infraestrutura viciada e leis que não se cumprem. Isso não é suficientemente importante e digno de protestar?

Artigo selecionado pelo