14 de março, sábado, 13 horas. Sol forte, flocos de nuvens, 29 graus. Reunião coletiva na Praça do Ciclista (aquela calçada que fica ao redor do buraco que interliga a Av. Rebouças e a Dr. Arnaldo com a Av. Paulista e tem bem no meio a estátua de um revolucionário latinoaericano). Pela segunda vez na cidade, a multidão foi lá pedalar com menos roupa que o habitual para pregar a paz no trânsito e expor a sua fragilidade física em meio aos carros, caminhões e ônibus. Para quem acabou de voltar de Marte e está boiando, a manifestação
World Naked Bike Ride acontece anualmente em várias cidades do mundo ao mesmo tempo.



No ano passado, não apoiei a pedalada pelada. Dizia que o público geral não está preparado para interpretar a mensagem de forma útil ou séria. Achei que o evento seria implacavelmente reinventado pela mídia sensacionalista como desfile burlesco para ser ridicularizado. Mas uma série de acontecimentos na minha vida pessoal me convenceu de que devemos fazer hoje mesmo qualquer coisa que estiver ao nosso alcance para contribuir para a cultura de paz. Se ninguém tivesse iniciativa e coragem, a vida urbana continuaria irremediavelmente contaminada pela mediocridade, pela brutalidade e pela insensibilidade. Pelo contrário, é preciso assumir o "pensar diferente" e evidenciar a postura dissonante quando se promove uma causa justa. Haverá resistência, fricção, distorção, incompreensão, até sofrimento. Mas a mudança acontecerá. Em relação ao uso da bicicleta como transporte em São Paulo, já estamos vendo uma mudança geral de atitude. Sentar e reclamar sem contribuir para as mudanças que desejamos não vale rigorosamente nada.




O pelotão de ciclistas percorreu a Paulista cautelosamente vestido, inibido pelo policiamento ostensivo que estava lá para impedir a nudez. Os participantes estavam preparados para expor o corpo apenas quando não estivessem sob a intimidação de cassetetes repressores de policiais truculentos. Havia também o assédio de "urubus da mídia" e todo tipo de exploradores e oportunistas procurando inventar factoides. Houve quem incitasse ciclistas a tirar a roupa para preencher suas lentes fotográficas de pele nua, a fim de usá-la como chamariz para audiência barata no mercado de carne da mídia comercial. Levou como resposta um esguicho de água. Um fotógrafo mais descarado levou pancada de uma manifestante, que usou a própria bicicleta como arma de defesa. A Paulista estava ruim de trafegar, de tantos que eram os intrusos a pé enfiando-se no meio do pelotão com suas câmeras e filmadoras. Se esses tivessem reconhecido os manifestantes como seres humanos e não alegorias de desfile, e se tivessem comparecido com suas próprias bicicletas e fotografado o evento de dentro do grupo, teriam imagens mais interessantes e talvez também aprendessem os motivos e recompensas do ciclismo urbano responsável.




Na Avenida Paulista, o efetivo da Polícia Militar era fantasticamente exagerado, mais apropriado para invadir prisões rebeladas ou conter tumultos em estádios de futebol. O número total de ciclistas oscilava entre 300 e 500, número que por hábito foi subestimado pela PM para 200.

Se houvesse mesmo 200 ciclistas, haveria um PM individual para cada ciclista presente. Marcação homem a homem? Tudo isso para evitar a exposição pública de partes corporais? Ladrões, homicidas e meliantes por toda a cidade devem ter tido um sábado de glória, seu "trabalho" generosamente facilitado pelo desvio dos PMs de suas funções reais para vigiar e isolar um grupo pacífico e alegre como se fosse uma horda de vândalos. Numa sociedade mais sadia, o cerco seria reconhecido como muito mais ofensivo do que qualquer expressão de nudez. O comandante da PM declarou à imprensa que o policiamento estava lá para proteger os ciclistas, mas houve muitos casos de repressão verbal à nudez, alguns ocorridos bem na minha frente. Portanto, algo nesta história é mentiroso e hipócrita, e não acredito que sejam as fotografias.



A massa pôs em prática a tática do despiste: chegando ao início da avenida no Paraíso, separou-se em vários grupos e só voltou a reunir-se no Monumento do Empurra-Empurra, às portas do Parque Ibirapuera. Ali, quem quisesse tirar a roupa teve paz para fazê-lo antes de o grupo seguir pelas avenidas Brasil e Faria Lima.






A dispersão teve a utilidade adicional de despistar a maior parte das câmeras sedentas de espetáculo. Os participantes que de fato se despiram foram poucos, e a maioria deles por pouco tempo.

Uma tática bem-sucedida para manter o bom humor e dosar a exposição foi pintar a pele e cobrir os rostos com máscaras, óculos e balaclavas. Quanto às bikes, quanto mais diferentes, melhor.








A multidão era recebida com sorrisos pelos pedestres em todos os lugares.

Mas também respondeu com vaias aos poucos motoristas que buzinavam impacientes em alguns cruzamentos. (Previsivelmente, a TV Globo vingou-se anunciando no telejornal SPTV que os ciclistas "atrapalharam o trânsito", em tom de reprimenda, e antes disso anunciou equivocadamente que o grupo reivindicava "ciclovias". ) O grupo também passou sem a mínima cerimônia por dentro da ruazinha que contorna por trás o Shopping Iguatemi e serve de acesso ao estacionamento.


Foi um gesto de intenso poder simbólico, que reprisou a Bicicletada de fevereiro na Rua Amauri, local de concentração de restaurantes grão-finos no Itaim. Os comerciantes da rua queriam, segundo uma reportagem fantasticamente enviesada da Vejinha, expulsar as linhas de ônibus para deixarem os clientes e valetes mais à vontade para manobrar e parar seus carrões em fila dupla. (O mimimi não adiantou: a SPTrans recusou-se expressamente a deslocar os itinerários dos ônibus.) Outro ato simbólico foi terminar o circuito subindo a R. Colômbia/Augusta, local que reúne as lojas de carros importados mais caros do país, todo mundo gritando sem pausa: "menos carros, mais bicicletas!"

Para fechar e amarrar a ironia, a mangueirada salvadora de água refrescante veio da porta da loja da Mercedes-Benz.

Na esquina da R. Estados Unidos, o grupo ajudou a abrir caminho para um carro de bombeiros, incidentalmente ensinando boas maneiras a alguns motoristas.


A ladeira da Rua Augusta fez o grupo espalhar-se uniformemente desde a R. Estados Unidos até a Alameda Santos. Em grupo, a subida pareceu muito mais fácil.



De volta à Praça do Ciclista, a PM correu a verificar se ninguém estaria cometendo "atentado violento ao pudor", mas nada encontrou além de pessoas novamente vestidas, sorridentes, celebrando o sucesso da manifestação com o gesto universal de erguer as bikes no ar.




A repórter da TV Globo apareceu para colher "aspas" para uma matéria do jornal SPTV. Mas, de forma nada surpreendente, ninguém queria sequer lhe dirigir a palavra. Muitos têm ressentimento da chamada mídia de massa, depois de inúmeros casos de declarações distorcidas na edição. Todo mundo receava que o evento fosse apresentado como "um carnaval fora de época que atrapalha o trânsito".

Mas quem se ofereceu para dar declarações ajudou a resgatar a mensagem com presença de espírito.
"Nós não atrapalhamos o trânsito, nós somos trânsito. Fluímos e nos divertimos, assim como os motoristas que nos viram, que também se divertiram."
As passeatas de bicicleta em São Paulo são movimentos sem liderança nem hierarquia, e sendo auto-organizados espontaneamente, não podem ser combatidos por meios convencionais. O rápido progresso da bike como meio de transporte na cidade é sua causa e também consequência. Os seus promotores têm atuação mais ampla sendo a sua própria mídia, propagando a mensagem sem depender de canais de comunicação viciados, comercialmente comprometidos com o "status quo" estruturado sobre o modelo econômico esgotado do carro individual. Centenas de ciclistas rolando por uma grande avenida são uma força irresistível; ninguém deve ousar tentar pará-los. A harmonia vencerá a prepotência. A alegria vencerá o stress.

Erros da mídia e novos "argumentos contra idiotas"Não perca
este artigo refutando ponto a ponto as incorreções da mídia escrita.
Os novos "argumentos contra idiotas" foram inspirados pela cobertura da pedalada pelada em websites que não são escritos ou controlados por ciclativistas, nudistas e simpatizantes, mas por gente "comum" de todos os tipos. Nesses lugares se fizeram ouvir algumas vozes de reprovação. O problema é que todas, eu disse todas mesmo, sem exceção, traziam argumentos refutáveis. Eis as queixas mais comuns e as respectivas refutações; copie e cole onde achar necessário.
É o fim do mundo mesmo. Estamos perdidos. Não seria um começo, já que o movimento celebra a retomada das ruas sequestradas pelos carros? Perdidos estaríamos se fôssemos todos motoristas: ninguém conseguiria mais dirigir para lugar algum.
É uma pouca vergonha. Pouca vergonha é a PM estacionar dezenas de viaturas sobre a calçada no dia da WNBR. Pouca vergonha é a mais nova e mais cara ponte da cidade, o Estilingão, não incluir no seu projeto a passagem de pedestres e bicicletas, que é obrigatória por lei. Pouca vergonha é quando motoristas fazem conversões à direita sem sinalizar, fechando e derrubando bicicletas. Pouca vergonha são motorizados queimarem sinais vermelhos e pararem sobre a faixa de pedestres, arriscando a vida de inocentes pela ilusão de chegar mais depressa ao próximo semáforo. Pouca vergonha é o motorista que estaciona na porta do restaurante em fila dupla ter a cara de pau e a prepotência de reclamar que os ônibus atrapalham. Pelo contrário, nudez natural não é vergonha nenhuma. Nós nascemos todos nus. O Adão de Michelangelo no teto da Capela Sistina está nu.
Um pai de família não deve deixar ver a sua filha pelada na rua. Na sociedade contemporânea, pai de família não é o mesmo que tirano nem inquisidor. Na WNBR não havia nenhuma pessoa menor de idade ou não emancipada, sobre cujas atitudes o pai pudesse dar qualquer pitaco. Fora isso, a escolha das palavras "pai de família" e "filha" revela outra atitude obsoleta: sexismo. Não poderia ser mãe de família? Se o filho fosse homem, aí ele poderia se despir sem causar vergonha a ninguém? Isso é hipócrita. Venha para o nosso século ou sofra por merecer.
Deveriam fazer um protesto mais útil, como contra os políticos corruptos, em vez de perder tempo com bicicletas. Falso argumento. Ninguém deve expressar crítica a alguma coisa só porque outrem acha que é "mais" importante. Ademais, é flagrantemente incoerente uma pessoa assim, de viés autoritário a ponto de querer impor temas para manifestações alheias, sugerir que o grande problema são os políticos. Os políticos emergem exclusivamente do eleitorado que vota neles. Então, comece votando direito. E, a fim de validar a própria opinião e angariar a moral que acha que já tem, que tal arrancar a bunda da cadeira na frente do seu PC e ir protestar nas ruas de fato? Enquanto conversamos, ciclistas são atropelados, mutilados e mortos nas nossas ruas por motoristas incompetentes e insensíveis, apoiados por uma infraestrutura viciada e leis que não se cumprem. Isso não é suficientemente importante e digno de protestar?
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