2009-03-31

Filmes atômicos - Parte 2

Boletim Especial
(Special Bulletin, 1983)

Produção feita para a TV que encena com perfeição alarmante um incidente de terrorismo nuclear , do ponto de vista da cobertura ao vivo por um telejornal. Escrito e dirigido por Edward Zwick e Marshall Herskovitz (os mesmos de "O Último Samurai"), o filme foi indicado a seis Emmys e ganhou quatro.



Começa sem créditos nem títulos, como se o espectador tivesse acabado de zapear para o fictício canal RBS (nada a ver com o homônimo brasileiro). Entram no ar os dois âncoras do jornal, trazendo a cobertura ao vivo de um incidente no porto de Charleston, South Carolina.



O porto está em greve e deserto. Um barco atraca com um grupo de extremistas (americanos, não estrangeiros) que diz carregar consigo uma bomba de fabricação caseira. O detalhe é que a bomba não é convencional, é atômica. Ela tem poder similar à bomba de Nagasaki, suficiente para vaporizar e empestiar com radiação durante décadas a maior parte da cidade.



O líder do grupo é um cientista nuclear, ex-colaborador do programa de armas atômicas dos EUA, que mudou de lado, virou um pacifista radical e pretende obrigar o governo a entregar na sua mão os detonadores de todo o seu arsenal nuclear, o que poria um fim à corrida armamentista com a União Soviética. A bomba tem um prazo de 24 horas para detonar; dispositivos eletrônicos de segurança garantem que ela não possa ser desarmada por ninguém exceto o próprio criador.



Um repórter e um cameraman da RBS são tomados de reféns logo no início da cobertura, o que permite ver cada lance da crise pela TV, e ao mesmo tempo transforma a mídia em protagonista dos fatos. A população acompanha tudo com tensão, medo, dúvida e muita especulação. O governo tenta negociar, e há indícios de que ao mesmo tempo está bolando um plano ousado para surpreender e prender os terroristas e obrigá-los a desarmar a bomba. Só que eles também estão assistindo à TV.



O filme avança para o clímax: será que os terroristas serão pacificados e a bomba desarmada? A tensão fica insuportável à medida que corre o cronômetro na tela.



Mesmo sendo datado pelo cenário da Guerra Fria, o filme não perdeu força, porque eventos reais recentes apenas demonstraram que o seu vislumbre foi muito bem acertado, até profético. A detalhadíssima ação é toda relatada em linguagem televisiva autêntica. Os atores são espontâneos e improvisam bastante. Existem até aquelas inevitáveis falhas técnicas e vacilos típicos de uma transmissão de emergência ao vivo. As reações dos jornalistas na tela profetizam o clima de confusão e estupefação do 11 de Setembro. O uso de vídeo em vez de película é outra boa decisão do diretor. De quebra, o filme apresenta uma discussão séria sobre o papel ético da imprensa durante uma situação de perigo extremo em que ela é um dos participantes decisivos.

De forma similar à radiodifusão de "A Guerra dos Mundos" por Orson Welles em 1938, "Boletim Especial" causou um pânico entre os telespectadores na estreia, mesmo com a precaução de apresentar a palavra "Dramatização" durante as cenas mais intensas, além de telas pretas com textos de desmentido a cada fim de corte comercial.

With such contemporary threats as nuclear briefcases and "dirty bombs," it's nothing short of a miracle that Americans have gone this long without facing a nuclear terror threat such as the one portrayed in Special Bulletin.
~ Jason Buchanan, All Movie Guide


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2009-03-29

Quem realmente atrapalha o trânsito



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2009-03-27

Filmes atômicos - Parte 1

Há um zunzunzum no ar de que a Rússia e a China estão com vontade de voltar a brincar juntos. E a Rússia quer levar umas bombinhas para animar a rodinha.

Cresci no final da Guerra Fria, e jamais ficou muito distante a impressão de que alguma das potências nucleares certo dia poderia deixar escapar o dedo e apertar sem querer, mas querendo, o botão do Juízo Final. E graças à política de Mútua Destruição Assegurada (MAD em inglês), apenas um dos lados precisaria apertar o botão para decretar o suicídio compulsório da humanidade inteira. Na minha adolescência eu especulava quantos mísseis estariam apontados para São Paulo, pois sabia que a estratégia das potências contemplava com seu brinde de morte todas as grandes cidades do mundo além das suas próprias, a fim de eliminar potenciais aliados que ajudassem a reconstruir o inimigo.

Qualquer um, exceto talvez os próprios líderes das potências, pode perceber que a escalada armamentista foi a coisa mais insana, perversa e hedionda que o ser humano inventou depois dos próprios bombardeios atômicos. Com o fim da Guerra Fria parecia que poderíamos ficar aliviados, mas os loucos que inventaram o absurdo ainda estão soltos por aí. E têm saudades do passado.

É por isso que envelheceram bem os filmes sobre o holocausto nuclear. Além dos que todo mundo conhece - "Dr. Fantástico" e "O Dia Seguinte" - há um punhado de outros que exploram o tema.

Miracle Mile
(Miracle Mile, 1988)

Este thriller dirigido por Steve de Jarnatt (colaborador de "E.R.") conta a história de uma pessoa comum que, por puro golpe de sorte - ou de má sorte - fica sabendo antes de todo mundo que a guerra nuclear começou e os mísseis já estão a caminho. Pode parecer uma premissa forçada, mas na época ela soava muito possível. O protagonista não é um herói salvador do dia, e sim uma vítima dos acontecimentos que tenta reagir com o pouco que pode. Isso contruibui para uma perspectiva sóbria e sem a grandiosidade canhestra de filmes como "O Dia Depois de Amanhã" nem as pretensões didáticas enfadonhas de "O Dia Seguinte".

Surpreendentemente, os primeiros 18 minutos têm todo o clima de uma leve e fofa comédia romântica. Harry (Anthony Edwards, o Dr. Green de "E.R.", ainda com cabelo e parecido comigo quando eu tinha 22 anos) é um músico de passagem por Los Angeles que vai ao museu de História Natural para ver fósseis de dinossauros. Lá conhece a garçonete Julie (Mare Winningham, exibindo alguns dos piores figurinos, makeups e penteados do estilo New Wave). Nasce o amor entre eles.



Mas, por um acidente do destino (uma breve cena que faz um belo comentário filosófico sobre causas e consequências e acaba de ser imitada pela realidade), Harry perde a hora para o segundo encontro. Vai em plena madrugada à lanchonete onde ela trabalha, numa tentativa desengonçada de compensar o furo. Nisso, acontece aquilo que foi descrito pelo crítico Charlie Brooker, do The Guardian, como "a maior mudança de tom de todos os tempos em um filme".



Um orelhão na calçada toca, Harry atende. É uma ligação errada. Do outro lado, pensando que estaria falando com o próprio pai, um funcionário de um silo de míssil nuclear conta, aterrorizado e fora de si, que a guerra atômica foi finalmente deflagrada. Os mísseis começarão a explodir sobre a cidade dentro de 70 minutos. Desde essa chocante revelação até os créditos finais, a narrativa passa a ser nervosa e toda a ação acontece em tempo real, com pequenos cortes imperceptíveis. Nenhum segundo do tempo, nenhum efeito especial é desperdiçado. Harry corre para achar Julie e encontrarem juntos uma maneira de fugir. Uma sequência de eventos bizarros envolvendo diversas pessoas surtadas acaba impedindo-o de concretizar a fuga rapidamente.




O sol nasce, a cidade acorda e a mídia informa prontamente a população da hecatombe iminente. Forma-se então o caos absoluto nas ruas, calçadas e lojas. Gente correndo em todas as direções, incêndios, atropelamentos, quebra-quebras, saques, tiroteios, gritaria, sirenes incessantes. Tudo de repente e ao mesmo tempo.



Uma tomada por cima mostra um congestionamento de carros total e definitivo, com pessoas em pânico correndo por cima dos tetos e capôs.



Harry e Julie, que contavam com fugir da cidade num providencial helicóptero, estão tão confusos e atordoados que não conseguem escapar do inferno a tempo. Ao subirem no elevador, a luz do edifício acaba: terá sido por causa de uma explosão? Na cobertura, um bêbado contempla um míssil subindo ao céu e espera pelo fim com um sorriso insano.



A história é tocante, mas sem pieguice. O drama das pessoas não é pautado pela dignidade; parece, aleatório, sem sentido, até ridículo. A multidão em pânico lembra um monte de baratas ou ratos encurralados. Há lances de ironia cruel; por exemplo, quando Julie fala dos "sobreviventes que vão reconstruir o mundo", Harry retruca: "acho que agora é a vez das formigas".



As reações das pessoas na história são muito variadas. Inicialmente, elas se dividem entre as que creem em Harry e as céticas. As primeiras dentre as que acreditam mobilizam-se para escapar e somem de vista. Outros ficam para trás porque simplesmente não se importam; não sabemos se é porque nao creem, ou porque sabem que não adianta tentar fugir, ou porque estão isolados em seus mundos mentais. Outros, conforme se conscientizam da morte iminente, exibem atitudes cada vez mais inconsequentes e extremas, e todo verniz de civilização por fim se dissolve (de uma forma não muito diferente de "O Anjo Exterminador" de Buñuel, um dos meus filmes favoritos). No fundo, apesar das décadas de tensão e advertências sobre a guerra nuclear, ninguém na cidade demonstra estar preparado.

Ante a inevitabilidade do bombardeio, as palavras de consolo trocadas por Harry e Julie são: "Seremos encontrados um dia... e colocados num museu. Ou então... talvez levemos um impacto direto e sejamos transformados em diamantes."

No próximo artigo vou comentar "Boletim Especial", um premiado filme para a TV de 1983 que retrata um incidente de terrorismo com bomba atômica, do ponto de vista de um telejornal.

2009-03-19

Fóssil movido a fóssil

2009-03-18

Pedalando pelado (exceto na Avenida Paulista)

14 de março, sábado, 13 horas. Sol forte, flocos de nuvens, 29 graus. Reunião coletiva na Praça do Ciclista (aquela calçada que fica ao redor do buraco que interliga a Av. Rebouças e a Dr. Arnaldo com a Av. Paulista e tem bem no meio a estátua de um revolucionário latinoaericano). Pela segunda vez na cidade, a multidão foi lá pedalar com menos roupa que o habitual para pregar a paz no trânsito e expor a sua fragilidade física em meio aos carros, caminhões e ônibus. Para quem acabou de voltar de Marte e está boiando, a manifestação World Naked Bike Ride acontece anualmente em várias cidades do mundo ao mesmo tempo.







No ano passado, não apoiei a pedalada pelada. Dizia que o público geral não está preparado para interpretar a mensagem de forma útil ou séria. Achei que o evento seria implacavelmente reinventado pela mídia sensacionalista como desfile burlesco para ser ridicularizado. Mas uma série de acontecimentos na minha vida pessoal me convenceu de que devemos fazer hoje mesmo qualquer coisa que estiver ao nosso alcance para contribuir para a cultura de paz. Se ninguém tivesse iniciativa e coragem, a vida urbana continuaria irremediavelmente contaminada pela mediocridade, pela brutalidade e pela insensibilidade. Pelo contrário, é preciso assumir o "pensar diferente" e evidenciar a postura dissonante quando se promove uma causa justa. Haverá resistência, fricção, distorção, incompreensão, até sofrimento. Mas a mudança acontecerá. Em relação ao uso da bicicleta como transporte em São Paulo, já estamos vendo uma mudança geral de atitude. Sentar e reclamar sem contribuir para as mudanças que desejamos não vale rigorosamente nada.









O pelotão de ciclistas percorreu a Paulista cautelosamente vestido, inibido pelo policiamento ostensivo que estava lá para impedir a nudez. Os participantes estavam preparados para expor o corpo apenas quando não estivessem sob a intimidação de cassetetes repressores de policiais truculentos. Havia também o assédio de "urubus da mídia" e todo tipo de exploradores e oportunistas procurando inventar factoides. Houve quem incitasse ciclistas a tirar a roupa para preencher suas lentes fotográficas de pele nua, a fim de usá-la como chamariz para audiência barata no mercado de carne da mídia comercial. Levou como resposta um esguicho de água. Um fotógrafo mais descarado levou pancada de uma manifestante, que usou a própria bicicleta como arma de defesa. A Paulista estava ruim de trafegar, de tantos que eram os intrusos a pé enfiando-se no meio do pelotão com suas câmeras e filmadoras. Se esses tivessem reconhecido os manifestantes como seres humanos e não alegorias de desfile, e se tivessem comparecido com suas próprias bicicletas e fotografado o evento de dentro do grupo, teriam imagens mais interessantes e talvez também aprendessem os motivos e recompensas do ciclismo urbano responsável.









Na Avenida Paulista, o efetivo da Polícia Militar era fantasticamente exagerado, mais apropriado para invadir prisões rebeladas ou conter tumultos em estádios de futebol. O número total de ciclistas oscilava entre 300 e 500, número que por hábito foi subestimado pela PM para 200.



Se houvesse mesmo 200 ciclistas, haveria um PM individual para cada ciclista presente. Marcação homem a homem? Tudo isso para evitar a exposição pública de partes corporais? Ladrões, homicidas e meliantes por toda a cidade devem ter tido um sábado de glória, seu "trabalho" generosamente facilitado pelo desvio dos PMs de suas funções reais para vigiar e isolar um grupo pacífico e alegre como se fosse uma horda de vândalos. Numa sociedade mais sadia, o cerco seria reconhecido como muito mais ofensivo do que qualquer expressão de nudez. O comandante da PM declarou à imprensa que o policiamento estava lá para proteger os ciclistas, mas houve muitos casos de repressão verbal à nudez, alguns ocorridos bem na minha frente. Portanto, algo nesta história é mentiroso e hipócrita, e não acredito que sejam as fotografias.







A massa pôs em prática a tática do despiste: chegando ao início da avenida no Paraíso, separou-se em vários grupos e só voltou a reunir-se no Monumento do Empurra-Empurra, às portas do Parque Ibirapuera. Ali, quem quisesse tirar a roupa teve paz para fazê-lo antes de o grupo seguir pelas avenidas Brasil e Faria Lima.













A dispersão teve a utilidade adicional de despistar a maior parte das câmeras sedentas de espetáculo. Os participantes que de fato se despiram foram poucos, e a maioria deles por pouco tempo.



Uma tática bem-sucedida para manter o bom humor e dosar a exposição foi pintar a pele e cobrir os rostos com máscaras, óculos e balaclavas. Quanto às bikes, quanto mais diferentes, melhor.

















A multidão era recebida com sorrisos pelos pedestres em todos os lugares.



Mas também respondeu com vaias aos poucos motoristas que buzinavam impacientes em alguns cruzamentos. (Previsivelmente, a TV Globo vingou-se anunciando no telejornal SPTV que os ciclistas "atrapalharam o trânsito", em tom de reprimenda, e antes disso anunciou equivocadamente que o grupo reivindicava "ciclovias". ) O grupo também passou sem a mínima cerimônia por dentro da ruazinha que contorna por trás o Shopping Iguatemi e serve de acesso ao estacionamento.





Foi um gesto de intenso poder simbólico, que reprisou a Bicicletada de fevereiro na Rua Amauri, local de concentração de restaurantes grão-finos no Itaim. Os comerciantes da rua queriam, segundo uma reportagem fantasticamente enviesada da Vejinha, expulsar as linhas de ônibus para deixarem os clientes e valetes mais à vontade para manobrar e parar seus carrões em fila dupla. (O mimimi não adiantou: a SPTrans recusou-se expressamente a deslocar os itinerários dos ônibus.) Outro ato simbólico foi terminar o circuito subindo a R. Colômbia/Augusta, local que reúne as lojas de carros importados mais caros do país, todo mundo gritando sem pausa: "menos carros, mais bicicletas!"



Para fechar e amarrar a ironia, a mangueirada salvadora de água refrescante veio da porta da loja da Mercedes-Benz.



Na esquina da R. Estados Unidos, o grupo ajudou a abrir caminho para um carro de bombeiros, incidentalmente ensinando boas maneiras a alguns motoristas.





A ladeira da Rua Augusta fez o grupo espalhar-se uniformemente desde a R. Estados Unidos até a Alameda Santos. Em grupo, a subida pareceu muito mais fácil.







De volta à Praça do Ciclista, a PM correu a verificar se ninguém estaria cometendo "atentado violento ao pudor", mas nada encontrou além de pessoas novamente vestidas, sorridentes, celebrando o sucesso da manifestação com o gesto universal de erguer as bikes no ar.









A repórter da TV Globo apareceu para colher "aspas" para uma matéria do jornal SPTV. Mas, de forma nada surpreendente, ninguém queria sequer lhe dirigir a palavra. Muitos têm ressentimento da chamada mídia de massa, depois de inúmeros casos de declarações distorcidas na edição. Todo mundo receava que o evento fosse apresentado como "um carnaval fora de época que atrapalha o trânsito".



Mas quem se ofereceu para dar declarações ajudou a resgatar a mensagem com presença de espírito.



"Nós não atrapalhamos o trânsito, nós somos trânsito. Fluímos e nos divertimos, assim como os motoristas que nos viram, que também se divertiram."



As passeatas de bicicleta em São Paulo são movimentos sem liderança nem hierarquia, e sendo auto-organizados espontaneamente, não podem ser combatidos por meios convencionais. O rápido progresso da bike como meio de transporte na cidade é sua causa e também consequência. Os seus promotores têm atuação mais ampla sendo a sua própria mídia, propagando a mensagem sem depender de canais de comunicação viciados, comercialmente comprometidos com o "status quo" estruturado sobre o modelo econômico esgotado do carro individual. Centenas de ciclistas rolando por uma grande avenida são uma força irresistível; ninguém deve ousar tentar pará-los. A harmonia vencerá a prepotência. A alegria vencerá o stress.








Erros da mídia e novos "argumentos contra idiotas"

Não perca este artigo refutando ponto a ponto as incorreções da mídia escrita.

Os novos "argumentos contra idiotas" foram inspirados pela cobertura da pedalada pelada em websites que não são escritos ou controlados por ciclativistas, nudistas e simpatizantes, mas por gente "comum" de todos os tipos. Nesses lugares se fizeram ouvir algumas vozes de reprovação. O problema é que todas, eu disse todas mesmo, sem exceção, traziam argumentos refutáveis. Eis as queixas mais comuns e as respectivas refutações; copie e cole onde achar necessário.

É o fim do mundo mesmo. Estamos perdidos. Não seria um começo, já que o movimento celebra a retomada das ruas sequestradas pelos carros? Perdidos estaríamos se fôssemos todos motoristas: ninguém conseguiria mais dirigir para lugar algum.

É uma pouca vergonha. Pouca vergonha é a PM estacionar dezenas de viaturas sobre a calçada no dia da WNBR. Pouca vergonha é a mais nova e mais cara ponte da cidade, o Estilingão, não incluir no seu projeto a passagem de pedestres e bicicletas, que é obrigatória por lei. Pouca vergonha é quando motoristas fazem conversões à direita sem sinalizar, fechando e derrubando bicicletas. Pouca vergonha são motorizados queimarem sinais vermelhos e pararem sobre a faixa de pedestres, arriscando a vida de inocentes pela ilusão de chegar mais depressa ao próximo semáforo. Pouca vergonha é o motorista que estaciona na porta do restaurante em fila dupla ter a cara de pau e a prepotência de reclamar que os ônibus atrapalham. Pelo contrário, nudez natural não é vergonha nenhuma. Nós nascemos todos nus. O Adão de Michelangelo no teto da Capela Sistina está nu.

Um pai de família não deve deixar ver a sua filha pelada na rua. Na sociedade contemporânea, pai de família não é o mesmo que tirano nem inquisidor. Na WNBR não havia nenhuma pessoa menor de idade ou não emancipada, sobre cujas atitudes o pai pudesse dar qualquer pitaco. Fora isso, a escolha das palavras "pai de família" e "filha" revela outra atitude obsoleta: sexismo. Não poderia ser mãe de família? Se o filho fosse homem, aí ele poderia se despir sem causar vergonha a ninguém? Isso é hipócrita. Venha para o nosso século ou sofra por merecer.

Deveriam fazer um protesto mais útil, como contra os políticos corruptos, em vez de perder tempo com bicicletas. Falso argumento. Ninguém deve expressar crítica a alguma coisa só porque outrem acha que é "mais" importante. Ademais, é flagrantemente incoerente uma pessoa assim, de viés autoritário a ponto de querer impor temas para manifestações alheias, sugerir que o grande problema são os políticos. Os políticos emergem exclusivamente do eleitorado que vota neles. Então, comece votando direito. E, a fim de validar a própria opinião e angariar a moral que acha que já tem, que tal arrancar a bunda da cadeira na frente do seu PC e ir protestar nas ruas de fato? Enquanto conversamos, ciclistas são atropelados, mutilados e mortos nas nossas ruas por motoristas incompetentes e insensíveis, apoiados por uma infraestrutura viciada e leis que não se cumprem. Isso não é suficientemente importante e digno de protestar?

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2009-03-04

Ditabranda: o suicídio moral da Folha



Charge do cartunista Latuff oferecendo uma explicação chocantemente irônica para o absurdo cometido pelos editorialistas da Folha de S. Paulo em 17 de fevereiro. Nesse dia, dentro de uma coluna que falava de Chávez, chamaram "en passant" a ditadura brasileira de "ditabranda". Ao ter esse texto criticado na seção de cartas do leitor pelos professores Fábio Konder Comparato e Maria Benevides, o jornal respondeu à sua indignação com um insulto direto: "cínica e mentirosa". Por fim, a crítica do ombudsman foi sintomaticamente tímida e falou apenas sobre essas respostas de cartas.

Lembremos duas coisas que ajudam a compor o contexto do escândalo:

1) O autor de cada editorial não é pessoalmente identificado, mas ele faz parte de um grupo listado no expediente do jornal. Dessa forma, entre as pessoas implicadas no absurdo da "ditabranda" estão as seguintes (informação retirada diretamente do website da Folha): Presidente: Luís Frias - Diretor Editorial: Otavio Frias Filho - Superintendentes: Antonio Manuel Teixeira Mendes e Judith Brito - Editora-executiva: Eleonora de Lucena - Conselho Editorial: Rogério Cezar de Cerqueira Leite, Marcelo Coelho, Janio de Freitas, Gilberto Dimenstein, Clóvis Rossi, Carlos Heitor Cony, Celso Pinto, Antonio Manuel Teixeira Mendes, Luís Frias e Otavio Frias Filho (secretário). Tudo o que qualquer editorialista escreve é aprovado pelo diretor editorial, quando não parte da sua própria mão.

2) O ombudsman da Folha teve seus poderes severamente limitados no ano passado. O ocupante anterior do cargo, Mário Magalhães, deixou de renovar seu mandato em abril de 2008, quando a direção condicionou a sua permanência à não publicação na Web das críticas diárias que ele dirige internamente à redação. A ouvidoria do jornal foi deliberadamente castrada, e a sua razão de existir, enfraquecida. Qual a motivação de tomarem essa decisão àquela altura?

Há gente dizendo que o uso de "ditabranda" num editorial da Folha é o pior erro de opinião cometido pelo jornal em décadas. Não pode passar batido. Além das críticas pesadas vindas de todos os cantos da imprensa, muita gente aproveitou para relembrar que a Folha viveu confortável durante a ditadura. Vieram à tona denúncias de que a direção do jornal ajudou a entregar gente para o regime. Por qualquer ângulo que se olhe - informação, marketing, ética-, e independentemente da posição ideológica do leitor, o resultado dessa controvérsia para a Folha é desastroso.

No fundo, o que está em jogo aqui não é uma questão de ideologia, informação, poder ou justiça: é simplesmente hipocrisia. Toda a elaborada máscara do marketing moral da Folha caiu pelo peso de uma única palavra.

A organização Movimento dos Sem-Mídia, junto com a entidade representante dos ex-presos políticos e professores da USP e Unicamp, está convocando para este sábado (7 de março), às 10 horas, um protesto na frente da porta do jornal, que fica na Al. Barão de Limeira, no centro de São Paulo.

Update - Dentre todos os blogs que fizeram críticas e participaram da mobilização, o que gostei mais de ler foi este: O Biscoito Fino e a Massa, de Idelber Avelar.

O Luddista também escreveu algo que me chamou a atenção:

...[É] mais um alerta para a urgência da chamada “democratização das comunicações”, ou seja, da necessidade de se tirar das mãos de meia dúzia de famílias ou grupos o controle da agenda nacional.


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2009-03-03

Sonhando com netbooks

Quando vejo um me dá coceiras. Apaixonei-me pelo HP Mini-Note, uma máquina pequena, mas cheia de truques. Agora me chega a propaganda de um novo modelo da Dell, o Inspiron Mini 9, que quase cabe numa lancheira (mede 17 por 23 cm). Sou um dos que teriam usos genuínos e de real valor para uma gracinha dessas. Com modem 3G integrado além do Wi-Fi, seria mais útil para mim do que um iPhone.

Os netbooks, aliás, são um fenômeno de mercado interessante, porque só agora estão pegando com tanta força, sendo que o conceito não é nada novo. A indústria de PC reporta números de vendas catastróficos neste primeiro trimestre, e os netbooks são a única categoria de produto que não sofreu desastre absoluto nas vendas.

A ironia fica por conta da inadequação dos sistemas operacionais a essa categoria de aparelho. O Inspiron Mini 9 vem com o ridículo - em termos de estarmos no ano de 2009 - Windows XP Home Original. Diga-me: terei motivos para esperar que o Windows 7 rode decentemente nesse processador Atom? Antes que qualquer zelote comece a berrar na minha orelha o nome Linux, esclareço que sou um Adobe-dependente e o caquético sistema da Microsoft é uma base tecnológica que eu não prefiro, mas teria de adotar neste caso.

E a Apple? Ela se recusa a competir no mercado de baixo desempenho técnico dos netbooks. Não é só isso: acham que o MacBook Air e o iPhone combinados já marcam a devida presença entre o público discernente. Acho, todavia, que o verdadeiro raciocínio deles é menos nobre. A dura verdade é que os netbooks têm lucratividade muito pobre. Outra verdade é que seus compradores não estão tão interessados em software luxuoso, apenas em algo que funcione com o mínimo conforto. Ou seja, o vetusto Windows XP.

Azar da Apple, que abdicou voluntariamente de expandir os seus negócios no único segmento que está trazendo boas notícias aos fabricantes de PCs, e pela primeira vez em anos deixará de crescer muito mais depressa que a média da indústria.

A estupidez

Quando você trabalha dentro do universo da comunicação de massa, que graças à tecnologia da Web deu voz pela primeira vez para vastas massas humanas no planeta, começa a perceber que o seu papel será lutar incessantemente contra o crescente tsunami de estupidez que parece invadir o mundo por todos os cantos. Se aqueles que contestam essa estupidez e batalham em prol do esclarecimento sabem que a sua posição é de brutal desvantagem e influência sempre declinante, qual é o seu imperativo de ação?

Elitismo onde, idiota? Bike não é carro!

A boa notícia é que apesar do trânsito infernal, das ruas violentas, da prepotência e agressividade reinantes, dos acidentes com mortes, do descaso total das autoridades públicas e da alienação dos responsáveis por gerir tráfego, o número de pessoas que resolvem investir na bicicleta como transporte urbano - e se dão bem com ela - está aumentando muito rapidamente em São Paulo. E não só porque a bike é mais prática para distâncias curtas, não gasta muito espaço, economiza muito dinheiro de combustível e impostos, não paga estacionamento, gera mais sociabilidade com outras pessoas no trânsito, exercita coração, pulmões e músculos e enche as pessoas de endorfinas geradoras de alegria. Não só por isso. Mas também pela comunidade de ciclistas que está se formando, todos trocando ideias, roteiros e dicas, apoiando-se, encontrando-se, formando grupos, criando amizades, interconectando afinidades.

Eu pedalo habitualmente nas ruas de São Paulo desde 1992, quando havia muito menos trânsito e quase não havia ainda ciclistas renunciando voluntariamente ao automóvel para viver mais contentes. O povo gritava "tartaruga" ao me ver de longe, pois o capacete era uma raridade inusitada. Hoje, ciclistas equipados estão por toda parte, e onde há um é muito fácil ver outros.

Também diversificou-se o tipo de bike que circula pelas ruas e avenidas. Nos anos 90 houve uma explosão da mountain bike e imitações vagabundas de mountain bikes, as quais são quase exclusivamente o que ainda hoje se vende nos supermercados. Nas ruas atuais, a maioria ainda usa mountain bikes e imitações. Mas muita gente também usa compactas, dobráveis com rodas pequenas, cargueiras antigas restauradas, bikes de sexo trocado (bikes masculinas usadas por mulheres e bikes femininas usadas por homens), estradeiras levíssimas e de pneus finos, choppers artesanais, lowriders de butique. A fauna sobre duas rodas é muito mais ampla hoje.

E isso me traz ao assunto verdadeiro deste artigo. Quando comecei a pedalar, parecia haver só dois tipos de bikes para uso mais sério: a pseudo-mountain bike vendida no supermercado, e acima dela, a importada glamurosa. Atualmente, além da maior variedade de marcas, temos nacionais que preenchem um segmento intermédio. Quem começa a pedalar a sério logo nota que as bikes de supermercado servem para começar, pegar gosto, quebrar um galho, mas assim que você exigir só mais um pouquinho delas, começarão a quebrar constantemente, e então você perceberá que as bikes de grife que você achava injustificavelmente caras são as que simplesmente funcionam direito.

Se você se tornar um fanático pelas duas rodas - ou mesmo se não se tornar fanático, mas acumular muitos e muitos quilômetros de pedal -, vai começar a entender a intimidade do funcionamento da bike. Sacar a diferença entre uma suspensão hidropneumática e uma de elastômero. Discutir a diferença entre ter um pinhão de 34 dentes com uma coroa de 24 e ter um pinhão de 32 com uma coroa de 22. Isso vem naturalmente, com a experiência. E tem muito ciclista que não está nem aí com treinamento físico e alimentação, mas adora conversar sobre tecnicidades, peças, materiais. O pessoal dos meus primeiros tempos não conversava sobre cicloativismo, infiltração na mídia, massificação, controle social, ações de conscientização pública e tantos outros assuntos políticos e sociais, que hoje são constantes e prementes. Não havia esse tipo de auto-orientação coletiva. Todo mundo falava apenas sobre as maravilhosas bikes novas, as últimas inovações tecnológicas que eram anunciadas nas revistas gringas, e em quais lugares em Mairiporã ou na Serra do Japi seria legal testá-las.

O pessoal que vejo nos novos passeios urbanos - descontando os passeios patrocinados por lojas, dos quais não tenho participado - usa, preferencialmente, bikes urbanas. Com bagageiros. Cestas. Alforjes. Baús. Buzinas. Faróis. Pedestais. Refletores. Adesivos. São uma outra "tribo" que emergiu majoritariamente. Embora esteja no meio disso tudo, ainda me considero diferente. Além de ser mais velho, sou um remanescente do tradicional mountain biking. Penso muito antes de instalar o mínimo acessório numa bike minha. Para promover dois usos diferentes, tenho duas bikes modernas: uma mountain bike pura, e uma outra bike mais simples que recebe os tais acessórios.

On The Go


O pessoal novo eminentemente urbano não entende porque eu apareço num passeio com a minha FSR XC, que só está verdadeiramente em casa nas trilhas no meio do mato. Resposta: porque me deu vontade, adoro pedalar ela em qualquer lugar. Mas é uma full suspension de cross-country, com freios a disco hidráulicos e despida de acessórios para uso na rua. Isso aparentemente destoa muito do gosto dos ciclourbanitas.

Eu não me importaria com nada disso, porque além de ser uma bela bike, ela tem uma história justa. Minha primeira mountain bike com tudo a que tinha direito foi uma Specialized Stumpjumper, que montei peça por peça em 1992. Daí veio a minha admiração por essa marca, que é como se fosse uma Apple das mountain bikes. Tive mais duas Specialized além dela, ambas passadas adiante. Consegui atingir a incrível marca de 14 anos pedalando a Stumpjumper, com pouquíssima manutenção. Só então cogitei de comprar outra bike mais moderna, pois a mecânica tinha mudado dramaticamente em 14 anos. Não investi meu dinheiro do FGTS num modelo milionário; apenas naquele que um norte-americano consideraria mediano, com peças que não chegam a ser profissionais para competição, mas sem comprometer demais o peso, batendo na marca decisiva das 30 libras de peso (13,6 quilos). Grupo Shimano Deore LX, para os mais entendedores. A escolha foi correta. A bike é gostosa, feliz, move-se com elegância, veste-me como uma luva, não dá trabalho.

Daí que estou num passeio urbano com umas 30 pessoas, quase todas do perfil urbano que descrevi. Descubro no meio do trajeto que a pastilha de freio dianteira está definitivamente gasta. Vou ter que guiar nas pontas dos dedos, pois por uma imprevidência minha, eu não trouxera um par de pastilhas de reposição para instalar ali mesmo. Chega então um ciclista que não conheço e proclama, com a aparente satisfação fútil e rasa de um invejoso: "É por isso que não abro mão do velho e confiável V-Brake".

Que existe um feudo entre defensores dos velhos V-Brakes e dos novos freios a disco é visível em qualquer fórum de mountain bike. Mas por mim é uma discussão passada, já que TODAS as mountain bikes gringas vêm com freios a disco. Hoje esses freios têm uma longa série de vantagens que só mesmo um zelote alucinado poderia ignorar. E não custam um absurdo para possuir e manter, pelo contrário. Eles dão zero manutenção. E mais: eu ignorei o ciclista do passeio, mas poderia ter respondido: "Está vendo o número no odômetro? Quanto diz ali, 4600? Esse é o número de quilômetros que esta bike rodou com um único e mesmo par de pastilhas de freio dianteiras, desde que veio da fábrica." Mas entrar nessa minúcia técnica seria entrar num jogo desigual, onde o outro lado está presente apenas para marcar posição e afirmar-se, não para atingir qualquer entendimento.

Esse incidente simples passaria totalmente batido, se não fosse apenas um dentre muitos outros, sempre semelhantes, repetitivos, pequeninos incômodos que se acumulam como picadas de minúsculos mosquitos verbais. Ora são as críticas sem fundamento para marcar posição, ora é simplesmente um tipo de ostracismo tácito, isolando o dono da "bike cara". Ah, sim, isso também acontece bastante.

Num dos passeios, alguém veio me insistir que a suspensão traseira roubava movimento oscilando. É um velho preconceito gerado pelo fato real de há suspensões traseiras que usam um projeto obsoleto e oscilam horrivelmente com a pedalada. Mas a FSR, ou qualquer outra suspensão atual e bem implementada, NÃO oscila se eu não pedalar como um macaco destreinado. Mais ainda: bastaria o crítico pedalar ao meu lado por alguns metros, observando o movimento vertical da roda, para comprovar o que digo, em vez de jogar a objeção no meio de uma conversa no pré-aquecimento. Qual é? Medo de descobrir que está perdendo algo muito bom? Porque de fato a suspensão é uma coisa de sonho, representa boa parcela do motivo de eu insistir em pedalar a minha bike vermelha quando não preciso dela. Experimente em vez de resistir por reflexo cultural; que tal?

Só quando comecei a me incomodar de verdade com tanto estranhamento bobo é que comecei a entendê-lo. Dentro desses grupos de neociclistas metropolitanos, há um emergente preconceito contra o que chamam de "elitistas". E o que seriam tais elitistas, na opinião deles? Alguém que anda com uma bike um pouco mais cara do que a média geral do grupo. Que, no seu julgamento precipitado e superficial, não "merece" pedalar nada mais sofisticado. Qualquer ciclista que aparece mais arrumadinho, na opinião deles, só pode ser um mauricinho que não pedala nada, trazendo a bike cara dentro do conforto do seu SUV para ostentar-se brevemente com ela na ciclovia do parque. Se ele vestir roupas específicas de ciclismo, então, será o insulto final: ficará irremediavelmente marcado como um "inimigo do povo".

Alguém me perguntou se eu tenho a bicicleta para mostrar em público como sou descolex e modernete, ou apenas porque ela foi o melhor que pude comprar em 2006, depois de 14 anos pedalando uma mesma bike antiga, sendo que ela poderia ter sido financiada pela economia advinda de eu nunca ter tido carro por opção voluntária, quando na verdade o dinheiro veio de uma rescisão de emprego e eu a usei para escapar da depressão? Alguém me perguntou se fiz questão de que fosse uma bike "gringa" porque ela é bonita, ou porque tem uma ergonomia séria, não deixa peças quebradas pelo caminho e o quadro tem garantia vitalícia para o dono original? Essas são as perguntas que não foram feitas antes que começassem com picuinhas que não mudam em nada minha opinião sobre as bicicletas, mas me afastam das pessoas, porque minha tolerância com essa gente é zero.

Eu gosto de todas as bicicletas do mundo. Adoraria ter uma bike de turismo da Peugeot dos anos 70 ou uma rara Moulton inglesa; acho a Barra Circular admiravelmente harmoniosa; roubaram-me na garagem do prédio uma Diamond Back de downhill antiga, que eu estava restaurando com componentes STX garimpados em oficinas; um dos meus melhores amigos tem em casa uma oficina de metalurgia, onde constrói bicicletas sob medida, com as próprias mãos. Levei a minha segunda bike, equipada com bagageiro, alforjes e barraca de camping, numa viagem pelo interior. Não creio que seja exatamente o currículo de um elitista.

E acho também que tudo o que disse agora a título de me justificar só interessa a mim mesmo, não preciso imprimir e levar na carteira.

Quer saber mais? Vou continuar a pedalar a minha bike vermelha "cara" quando eu quiser e onde quiser. Objeções não mais serão recebidas com complacência.

A tragédia da situação é que aparentemente as pessoas precisam conhecer a fundo as bicicletas para começarem a entender que todas elas têm uma magia especial, e com isso aprenderão a parar de tratá-las e a seus ocupantes com a mesma lógica socialmente viciada que chegou ao ponto extremo de tornar o simples ato de dirigir moralmente questionável em certas circunstâncias. A cultura de massa do automóvel alçou-o a símbolo de status supremo do consumismo sem noção e da escravidão à moda. Bicicleta, porém, se é para ser símbolo, há de ser de uma opção de vida saudável e feliz; de uma escolha individual inteligente e liberta da mentalidade estúpida de manada; de uma consciência social desenvolvida. E de mais nenhuma outra coisa.

Tom Ritchey foi um dos inventores da mountain bike, e a empresa com seu nome ainda hoje produz alguns dos componentes mais luxuosos do ramo. Mas o que está tomando o tempo de Tom Ritchey? Ações humanitárias na África. Projetar e fabricar uma bicicleta de transporte para ajudar as comunidades rurais pobres de Ruanda. Patrocinar uma corrida feita com bikes artesanais de madeira sem pedais. Para mim, a opinião de Tom Ritchey sobre o papel social da bicicleta tem muito mais consequência do que a de um morto-de-fome-espiritual preconceituoso que pedala pelas ruas de São Paulo.

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