2009-01-28

Um livro que fazia falta escrever

Como todas as pessoas versadas em cultura já notaram, os livros de autoajuda (N. do E.: com a nova ortografia, a palavra é sem hífen) transformaram-se em autêntico problema social. Uma rápida pesquisa informal nas boas livrarias da cidade comprova que a quantidade de livros de autoajuda em estoque já ultrapassou a cifra lapidar de 66,67% do total, e no ranking geral dos mais vendidos eles respondem por 95,14% dos títulos em lista.

Esse domínio exacerbado da literatura momentânea, que oblitera os livros que pretendem cultivar valores culturais mais perenes, só não aparenta ser tão vasto porque muitas dessas pequenas obras oportunistas disfarçam-se de outros gêneros. Preste atenção ao visitar a seção infanto-juvenil da loja, por exemplo; muitos dos títulos clássicos foram convertidos para o novo formato. Agora são baseados em números de pesquisas, testemunhos de anônimos contentes e listas numeradas de dicas:
  • "O Barba Azul" foi transmogrificado num manual sobre o uso correto de barbeadores.
  • "Os Músicos de Bremen" em sua edição corrente é um tratado sobre a evolução da carreira musical no mundo moderno do download digital.
  • "O Lobo e a Cegonha" virou uma fábula baseada na carreira empresarial dos administradores de maternidades privadas.
  • "A Lebre e a Tartaruga" renasceu como um guia de receitas culinárias de carnes exóticas.
  • "O Patinho Feio" explora as questões do direito de imagem em blogs e o culto à personalidade nas comunidades do orkut.
    Isso só para ficar nos exemplos mais conhecidos da literatura internacional. O mesmo acontece com proeminência entre mapas de viagem, livros de arte, agendas de escritório, romances em croata. Tudo transformou-se numa sucessão de conselhos vagos e sabedoria genérica temperados por doses variáveis de charlatanice.

    É claro que nada supera a seção de livros de autoajuda que se assumem como tais: entre eles, a superficialidade e o descaramento crescem a cada novo coquetel de lançamento. Uma passada de olhos pela lista dos recentes best-sellers revela uma descontrolada galeria de disparates sem critério:
  • "Como Viver a Sua Vida em Vez de Deixar que Outros a Vivam por Você" - Parece título de romance espírita, mas é apenas um manual jurídico e psicológico para celebridades às voltas com autores de biografias não-autorizadas.
  • "Como Reaver o Controle do seu PC" - Conselhos psicológicos para usuários do Windows, um livro de autoajuda infiltrado na seção de informática.
  • "Faça Melhor Você Mesmo O Que Você Já Sabe Fazer Você Mesmo" - Mais um título motivacional engraçadinho e comprido para um livro fininho sobre otimização de processos, mas cuja capa faz crer equivocadamente que se trata de orientação sexual.
  • "Faça do Seu Negócio Um Grande Sonho" - Na contramão dos outros livros sobre gestão de negócios, este afirma que dorme melhor o executivo que conceitualiza as suas melhores ideias depois de tê-las. Sim, eu também não entendi a premissa.
  • "101 Dicas Para Liderar e Influenciar Gatos" - Cruzando o gênero empresarial com o de criação de animais, inexplicavelmente é um grande sucesso de vendas, apesar da contradição em termos.
  • Fique Rico Sem Fazer Nada - Campeão absoluto de vendas, revelando mais sobre os traços culturais do público a que se destina do que quaisquer informações de valor sobre empreendedorismo.
  • Pai Rico, Filhinho de Papai - Descreve situações de ascensão social que para começar são inacessíveis à maioria dos leitores. Um completo logro.
  • Quem Mexeu no Meu Mouse - Supostamente criado para auxiliar as pessoas que enfrentam mudanças de sistema operacional, malware e outros incidentes traumáticos no âmbito cibernético. Só que custa mais caro que o upgrade do Office.
  • O Homem Mais Rico de Bangladesh - Interessa a você? A mim também não.
  • O Poder Mental no Trabalho e na Família - Um livro que fala ao mesmo tempo de gestão empresarial e relações humanas não pode dar certo. Para gerentes sem autonomia que em casa são oprimidos por esposas megeras.
  • Cinco Passos para o Paraíso - Controverso título que tenta dar confiança emocional e conforto moral a pessoas prestes a passar por situações de alta probabilidade de morte: cirurgias, viagens de avião etc.
  • "Os Sete Maus Hábitos das Sete Pessoas Mais Influentes" - Um suposto tratado de psicologia ocupacional que só ensina porcarias a quem nem tem sequer noção clara de quais seriam os "bons" hábitos.
  • "101 Diferenças entre Funcionário e Empregado" - Suposto volume de auxílio psicológico, não passa de uma leitura depressiva para pessoas que perderam o rumo da própria carreira.
  • "O Senhor da Vida e os Segredos da Guerra" - Título sem pé nem cabeça que também só vende bem por incluir as palavras da moda, "Vida" e "Segredo".
  • "O Segredo das Mentes Vendedoras" - Um cartapácio de 320 páginas que se resume a fazer propaganda do livro seguinte da mesma série.
  • "Faça do Seu Negócio Um Grande Segredo" - Plágio de outro livro de sucesso que fala em gestão de negócios e sonhos.
  • "O Segredo do Segredo" - Não há de existir no mundo um livro mais descaradamente oportunista do que este.

    Contra este estado de coisas levanta-se solitariamente o novo título da Editora 42: "Como Parar de Ler Livros de Autoajuda" (680 páginas), trabalho do renomado engenheiro de sistemas de refrigeração pública e crítico cultural Lou Freeman. Esse autor já surpreendera o mundo em 2004 com o seu monumental "Workplace Brinkmanship" (ainda sem tradução para o português), o livro que revolucionou as relações de trabalho no mundo do design gráfico.

    Logo no prefácio, Freeman ataca impiedosamente os criadores daquilo que ele intitula, sem meias palavras nem hífens, de "caçaníqueis editoriais", com a coragem de citar nominalmente alguns luminares da autoajuda; grandes vendedores de livros como Alfred Sigmund Voss, Paulo Coelho, Richard Croydon, Rupak Radhakrishnan e Diogo Mainardi.

    No capítulo 1 ele põe mãos à obra, ensinando sofisticadas "técnicas neurocognitivas quânticas" desenvolvidas pelos cientistas da Universidade Católica de Blindland, desenvolvidas para fazer o leitor jamais sentir novamente a compulsão de adquirir qualquer livro de conselhos. Os primeiros exercícios são designados para serem executados em sebos e bancas de jornal, a fim de minimizar ao máximo quaisquer deslizes do leitor-aluno. O nível intermediário explica como encontrar um livro sério numa livraria repleta de arapucas. O nível avançado aborda as situações que contam com o elemento surpresa para empurrar a mercadoria, como infomerciais de TV e caixas de supermercados.

    O método preconiza efeitos imediatos a partir do nível básico: "você simplesmente não conseguirá começar a ler outro livro enquanto não terminar este". O material prossegue com uma série de exercícios puramente visuais, que ocupam o terço central da obra, concebidos para serem visualizados em rápida sucessão com os olhos mantidos abertos por meio de um dispositivo encartado no volume a título de brinde. Segue-se a isso uma lista de testemunhos, fotos e depoimentos de pessoas que conseguiram livrar-se do vício da leitura de autoajuda em tempo recorde usando o método e agora conduzem as suas vidas de maneira muito mais gratificante e recompensadora. A parte final é um útil infográfico em forma de pôster dobrado, que pode ser levado na carteira, contendo informações resumidas que permitem identificar qualquer livro de autoajuda em menos de 30 segundos de leitura.

    Este trabalho, na minha opinião, é uma excelente contribuição para a literatura que verdadeiramente atende às necessidades das pessoas e não poderia vir em melhor hora. Mas não mereceria ser exposto em meio aos próprios livros que ele se propõe a combater. Infelizmente, foi essa a situação na qual eu o encontrei na Fnac de Pinheiros e também na Livraria Cultura da Paulista. Já notifiquei as respectivas gerências das lojas sobre o caso.
  • 2009-01-27

    O que pensam os "donos" da Avenida Paulista

    Alguns posts abaixo, eu disse que responderia duro e na cara de quem soltasse argumentos inválidos contra aqueles que querem usar a bicicleta como transporte em São Paulo. Isso não tem acontecido, especialmente com o banho de passeios ciclísticos que ronda cada aniversário da cidade. Mas outra vez a Folha de S. Paulo dá voz a alguém que defende os interesses de um grupo privilegiado contra o interesse maior da população.

    O trânsito é o pior pior problema mesmo na Paulista.
    Precisa tirar o congestionamento de ônibus.
    Gera poluição ambiental, sonora, visual e adensamento dos veículos.
    O tráfego é absurdo não por causa dos carros, é por causa dos ônibus.
    A Paulista não é de escoamento de tráfego. É de tráfego local.
    Se tirar os ônibus a situação melhora bastante.


    O autor dessas declarações é o empresário Nelson Baeta Neves, da Associação Paulista Viva, uma entidade de empresários dedicada a "preservar a avenida".

    Seria lícito concluir que "preservar", na opinião dos membros desse clube, caso se estenda o raciocínio até o extremo lógico, implique fechar a avenida aos transportes coletivos, a fim de que o Jaguar do patrão passe desimpedido e livre da desagradável coexistência com tantos empregados antiestéticos, barulhentos e poluidores.

    Será que um ciclista também entraria nessa categoria de plebeu indesejável?

    Além da óbvia idiotice da opinião, potencializada por um elitismo social que não tem o menor respaldo na legítima urbanidade, chama-me a atenção que seja mais uma vez esse jornal a amplificar ideias tão contrárias ao senso comum sem o básico e necessário contraponto. A ocasião anterior foi a entrevista do sociólogo afirmando, em suma, que os ciclistas deveriam desistir de pedalar pelas ruas desta cidade. É válido perguntar: qual é a agenda do editor de Cotidiano da Folha?

    Macintosh faz 25 anos







    Em dezembro de 1993, aconteceram simultaneamente quatro coisas que eu considero pessoalmente influentes na minha, ahã, carreira.

    1 O Macintosh completava dez anos de existência. A plataforma tinha tido grandes progressos. Ainda não havia a sombra da crise gerencial na Apple, nem o fantasma da concorrência do Windows 95 pegando carona no crescimento explosivo da Web. O Mac vendia bem e seu público era uma elite, já que o produto fora reposicionado, de um pequeno computador doméstico para uma workstation para profissionais criativos. Em 1993, a Apple foi a marca número 1 de computadores nos EUA, estabelecendo o recorde de 13% do mercado. (Aqui no Brasil, Mac só existia de contrabando ou importado por pessoas jurídicas a preço de platina, por causa da estúpida reserva de mercado inventada por tecnocratas do tempo da ditadura - mas isso é outra história, a ser contada em outro post, ou talvez não.)

    2 No estúdio A.N.T. do artista plástico Angelo Palumbo, no Sumaré, São Paulo, eu tinha três máquinas à disposição para explorar novas tecnologias de arte digital. Um PC 486 bem nutrido, um elegante Commodore Amiga e um Macintosh Quadra 700 turbinado com placa de entrada e saída de vídeo, drive SyQuest de 88 MB, monitor NEC MultiSync, scanner HP, System 7, Adobe Premiere, Photoshop e um pacote de 3D. Eu já vinha de uma boa experiência com PCs e Macs. Mas o Quadra me enfeitiçou tanto que os outros computadores ficaram abandonados; o monitor do pobre Amiga ainda virou um segundo monitor para o Mac. Comecei a usar o Photoshop na versão 2.0. Ainda sem BBS, email, chat e Web para me distrair, eu investia os dias estudando a fundo os novos e maravilhosos softwares. O portfólio da A.N.T. era, em vez de um folder ou folheto, um vídeo. Gerado dentro do Mac. Um luxo.

    3 Não longe dali, numa ladeira no Paraíso, era finalizada a primeira edição da Macmania, uma revista independente fundada por um pequeno grupo de entusiastas, encabeçados por Heinar Maracy e Tony de Marco, com tanta ambição de conquistar o mundo quanto aqueles outros malucos que tinham inventado o Mac uma década antes. Não contavam com absolutamente nenhum apoio da Apple, que nem mesmo tinha escritório no Brasil. O mais irônico é que a Macmania era um spin-off de um fanzine de humor, o Macintóshico, que fora criado em Mac, impresso a laser e enviado por fax. O Macintóshico virou encarte da Macmania. Foram 41 encartes distribuídos entre 131 edições da revista ao longo de 11 anos. O meu trabalho com Palumbo virou nota na edição 6 da Macmania. Conheci os editores por intermédio de colegas em comum na Folha de S. Paulo. Larguei o jornal e virei co-editor da Macmania na edição 26 (mas, por dividir meu tempo com o BOL, só assumi o posto efetivamente na edição 32).

    4 Ao mesmo tempo que tudo isso ocorria, uma dupla de jovens colunistas de Mac, Bob LeVitus e Michael Fraase, lançavam um livro com um retrato amplo da cultura do Mac nos EUA naquele tempo: Guide to the Macintosh Underground. Absorvi esse livro como uma esponja. A coisa mais extensa que eu lera sobre Mac antes dele foram a enviesada autobiografia do CEO John Sculley, Odyssey, e alguns artigos na finada revista Byte.

    Achei o "Macintosh Underground" numa prateleira da Cultura e comprei-o porque tinha grande curiosidade sobre os Macs e as coisas que se podia fazer com Macs, e a única outra coisa disponível que tinha a ver com Macs eram uns livros-cursos da Adobe. (Apesar de eu ensinar Photoshop profissionalmente, até hoje nunca fiz um curso oficial da Adobe.) Só depois de ler uma parte do livro, entendi que "Mac" não era apenas um tipo de computador; era também uma subcultura rica, com parâmetros próprios, dinâmica, história, símbolos, códigos e personalidades. Somente vários anos depois o mundo PC assimilaria pedaços desse universo. Certas partes, como a mania coletiva de personalização com ícones e extensões malucas, jamais se repetiria da mesma maneira fora do Mac.

    O livro ainda hoje exala entusiasmo e espírito revolucionário. É denso; muitos dos insights soam originais e novos. O espírito daquilo que a badalada revista Wired tinha de verdadeiramente bom e instigante em 1994, e não tem mais hoje, está concentrado ali. Mas o que me intrigou mais dentre tudo era um trecho intitulado "How Multimedia Almost Killed The Macintosh". O texto começa falando do HyperCard, o software da Apple que antecipou a multimídia e também o hipertexto na Web. O lançamento foi um relativo fracasso, porque faltava um ingrediente importante para alavancar a eficácia da multimídia: inteligência para extrair sentido da informação. Sem a inteligência, segundo LeVitus, a multimídia "não passa de televisão ruim com o som melhorado". Após descrever alguns CD-ROMs multimídia em voga na época, ele prossegue a sua tese (tradução minha):

    Dissemos antes que o Macintosh foi um salto de paradigma. Ele mudou para sempre a maneira como nós pensamos sobre computadores. Nunca antes uma máquina pareceu tão convidativa, tão íntima, tão pouco intimidadora, tão divertida. Muitos donos de Macs desenvolveram relacionamentos com o computador que só podem ser chamados de simbioses. Batizamos nossos HDs com nomes bacanas; de acordo com muitos estudos, passamos a gastar uma quantidade extraordinária de tempo com nossas máquinas.
    Com o lançamento do HyperCard em agosto de 1987 (descrito e vendido como sendo um kit para a construção de aplicações multimídia e gerenciamento de informação), a empresa posicionou-se para participar no terceiro salto de paradigma. Esse salto - a transição dos documentos planos e bidimensionais para documentos eletrônicos em três e até quatro dimensões - pode bem ser um salto tão importante quanto a introdução e a aceitação do próprio computador pessoal. Assim como o Apple II e depois o Macintosh mudaram a nossa maneira de pensar sobre o que é um computador, a multimídia específica para o Mac irá nos mostrar uma nova maneira de pensar sobre como usar um computador.
    Mas não ainda. A Apple estabeleceu os critérios para a mudança de fase que precede o salto de paradigma da multimídia, mas há pedaços faltando. Multimídia não diz respeito a hardware nem a software. É um meio de comunicação - ou, mais precisamente, uma coleção de meios de comunicação e nada mais.
    A maior peça que falta no quebra-cabeças é a inteligência. O Macintosh deve nos ajudar a lidar com a informação por inferências e padrões. O computador deve ser capaz de aprender a partir da observação de nossos hábitos de trabalho.
    A inteligência combinada a múltiplos meios ricamente integrados nos tornará muito mais produtivos. Infelizmente, a integração rica é outra peça que falta. O Mac sempre teve uma capacidade de áudio sofisticada, por exemplo, e a maioria deles vem com microfones. Porém, muito pouco é feito para tirar vantagem dessas capacidades. Sim, você pode fazer o seu Mac produzir um som de vômito ao ejetar um disquete. E daí? Isso permite a personalização do ambiente de trabalho, mas não adiciona valor nenhum ao lidar com informação.
    Para que a multimídia baseada no Mac cause um salto de paradigma, o Macintosh deve desaparecer. Calma! O que queremos dizer é que, a fim de que a multimídia seja efetiva, o mecanismo de transmissão (assim como o meio em si mesmo) virtualmente desapareça. Por exemplo, o áudio de muitos projetos de multimídia foi criado usando-se um Mac, mas não é isso o que você escuta. O que você escuta é um áudio rico. O Mac, os instrumentos musicais e o próprio CD virtualmente desaparecem quando você ouve a música. Mas esse é somente um meio: é som, não é multimídia.
    Quando a multimídia for finalmente feita do jeito certo, com inteligência e integração fluida, ela dissolverá a barreira entre você e aquilo no qual está trabalhando. Programas de software separados se dissolverão; existirá apenas um ambiente de informação combinando texto, imagens, sons e vídeo. Você não precisará mais usar um editor de texto para trabalhar com texto, ou um editor gráfico para trabalhar com imagens. Todas as ferramentas estarão presentes juntas e ao mesmo tempo.
    Uma coisa que diferencia o Macintosh de outros computadores é a sensação de não-modalidade. De acordo com a primeira edição do manual "Human Interface Guidelines" da Apple, seção "The Apple Desktop Interface":

    "Com poucas exceções, uma dada ação do usuário deve sempre gerar o mesmo resultado, independentemente das atividades anteriores. Modos são contextos nos quais a ação do usuário é interpretada diferentemente de como seria se a mesma ação fosse interpretada em outro contexto. Em outras palavras, a mesma ação, quando completada em dois modos diferentes, resulta em duas reações diferentes. Um modo tipicamente restringe as operações que o usuário pode executar enquanto o modo está em efeito."

    Contudo, os aplicativos de software são modais em si mesmos. Por exemplo, você precisa abrir um processador de texto antes de escrever uma carta. Algum dia, poderemos trabalhar num ambiente de computação completamente não-modal, e esse ambiente será baseado em multimidia, ou ao menos não será baseado em mídia. Mas isso provavelmente não acontecerá até que a realidade virtual seja tão difundida quanto os computadores e modems são hoje. Quando isso acontecer, o Macintosh não será mais o Macintosh.
    A multimídia quase matou o Macintosh uma vez. Mas quando a Apple - ou outro alguém - finalmente fizer a coisa da maneira certa, a multimídia seguramente irá matar o Macintosh. E isso será Uma Coisa Muito Boa.


    Quinze exatos anos depois, ainda lembro do impacto que senti lendo essa ambiciosa profecia.
    Ao assistir à posse do presidente Obama pela Web via streaming, com imagem fluida e comentários em tempo real de outras pessoas do mundo todo, caiu a ficha de que a minha casa não só não tem televisão como nunca mais terá. Falo da TV na concepção que os meus pais conheceram. Haverá sempre o monitor de alta resolução e as caixas de som. Mas a programação exibida será aquela que eu quiser, sem limitação de fornecedor e sem interrupções.
    Então, para começar já temos a integração de meios.
    O desenvolvimento da inteligência também ocorreu, mas não dentro da máquina. O que está emergindo é uma inteligência global, distribuída por toda a Internet. A tal “nuvem”. É uma tecnologia tão profunda, vasta e radical que podemos perdoar o livro por não tê-la antecipado.
    Muito do que chega à tela do meu computador é relacionado ao que já acessei, aumentando a relevância pessoal das informações. Mas até quando um website substitui a TV, ele oferece uma experiência mais rica. Há conexões para outros conteúdos relacionados. Há interação em mão dupla. E as experiências continuam uma na outra, sem divisões arbitrárias. Tudo converge harmoniosamente no browser.
    E o ciberespaço tornou-se ubíquo sem depender da realidade virtual, que era tida como um pré-requisito básico há 15 anos. Ambiente imersivo em 3D acabou restrito ao domínio dos games.
    No meu trabalho, enorme parte das minhas aplicações de uso diário podem ser supridas por um computador banal em qualquer lugar, bastando que esteja conectado à mãe de todas as redes, que é onde as aplicações moram. Entro com algumas senhas e o meu ambiente pessoal de computação está disponível onde eu estiver. Gmail, Evernote, Flickr, Blogger... Até mesmo o Photoshop está migrando para a “nuvem”.
    Embora a orientação pelo conteúdo de informação e não pelo software que o manipula seja melhor expressa pelo Mac OS X do que pelo Windows – com os menus separados das janelas de documentos –, as aplicações que fundem todos os meios num conteúdo combinado grassam no ambiente coletivo, na Web colaborativa, não mais no desktop. E quanto mais ficam espertas, mais irrelevante fica a caixa onde isso tudo está rodando.

    Se já é assim hoje em dia, por que o Mac ainda não deixou de ser o Mac?
    Espere... Tem certeza?
    Cada iPhone ou iPod é um Mac disfarçado. Todos têm a mesma tecnologia subjacente e uma mesma inteligência compartilhada.
    Se a Apple vendeu no último trimestre 2,5 milhões de Macs, 4,4 milhões de iPhones e 22,7 milhões de iPods, assim que você redefine “Mac” como “dispositivo de comunicação multimídia integrado online rodando um tipo de Unix com perfumaria Apple por cima”, o número efetivo passa a ser de 30 milhões de “Macs” novos em apenas três meses.
    Eis aí a pista para o fato de a Apple permanecer relevante e influente num mundo no qual o PC tornou-se “genérico” e “comoditizado”.
    Fechada a equação, o Macintosh está, sim, deixando de ser ele mesmo – no sentido pelo qual concebíamos um computador pessoal há 25 anos – para renascer em múltiplas novas formas. Tente imaginar algumas das formas que existirão daqui a outros 25 anos!

    -

    O blog de LeVitus está aqui.
    Houve uma festa de reunião dos projetistas originais do Mac. Fotos aqui. (Se você ainda não conhece o Guy Kawasaki, conheça; é uma das personalidades do mundo Mac que valem mais a pena, depois de Jobs, Jony Ive e os demais "suspeitos de sempre" - David Pogue, Walt Mossberg.)



    E a revista Mac+ que está nas bancas traz um artigo especial de capa resumindo a história do Mac desde o seu lançamento.

    Feliz aniversário, Mac!

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    2009-01-26

    Apple: um cala-boca definitivo?

    Por causa dessa crise idiota, empresas reais com empregos reais estão tombando como uma fileira de dominós. Chegaram simultaneamente na semana passada estas notícias:

    Microsoft reportou um lucro líquido de US$ 4,7 bilhões no trimestre. O faturamento foi de US$16,6 bilhões. Isso é apenas 2% a mais que no mesmo trimestre do ano passado e US$900 milhões abaixo da expectativa. A empresa já enxugou US$ 600 milhões dos gastos operacionais, mas vai ter que demitir 5 mil pessoas. 1400 foram postos na rua no mesmo dia do anúncio. Além disso, eles estão cortando 20% das despesas de viagem. Teve até carta chorosa do Steve Ballmer para os funcionários.

    Sony teve o seu primeiro prejuízo trimestral em 14 anos. A perda foi de incríveis US$ 2,9 bilhões. Estão com um plano de reestruturação de US$170 bilhões até 2010. Começou pelo fechamento imediato de seis fábricas e 16 mil demissões ao redor do mundo. Se eu tivesse um PlayStation 3 estaria muito, muito preocupado.

    Apple teve um lucro de US$1,61 bilhão no trimestre sobre um faturamento de US$10,17 bilhões, batendo a estimativa de US$9,74 bilhões. Vendeu 2,5 milhões de Macs, 4,4 milhões de iPhones e 22,7 milhões de iPods, batendo a expectativa de 20 milhões. No mesmo trimestre do ano anterior, a companhia faturou US$9,6 bilhões.

    Um website passou os últimos anos colecionando os relatos e declarações de figurões e analistas explicando porque a Apple estaria condenada a apodrecer e morrer. Esse tipo de previsão tornou-se popular durante a sua última grande crise, na metade da década passada, quando praticamente toda a imprensa de tecnologia juntou-se para bater na empresa em coro. Eu sei porque já estava na Web, lia os veículos e vivi a época. Declarar o uso de Mac chegava a causar escárnio em muitos círculos de discussão. "Matar a Apple" virou um esporte entre muitos que se apresentavam como connaisseurs da indústria de informática. Foram desmentidos repetidamente, seu número minguou, mas alguns deles persistiram na contramão dos fatos até virarem figurinhas marcadas, como Rob Enderle e Paul Thurrott. Esses caras praticamente montaram uma carreira em cima da tese anti-Apple. E se você é observador, sabe que alguns brasileiros seguiram os seus passos. O que as Cassandras falsificadas podem me dizer agora sobre essas novas notícias? Como explicam os resultados positivos dentro dessa conjuntura horrível, e ainda com o CEO-fundador afastado?

    Update [5 de fevereiro] - Agora foi a Panasonic que rodou. 15 mil pessoas na rua, 27 fábricas fechadas.

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    2009-01-19

    Sexta-feira de bike na Paulista





















    Assim foi a passeata de bike da sexta-feira à noite na Avenida Paulista, promovida pela Bicicletada, com um número de manifestantes muito maior que o do ato improvisado da quarta-feira, data da estúpida morte da ciclista Márcia Prado embaixo das rodas de um ônibus.

    Novamente o clima paulistano não quis ajudar: a chuva começou sincronizadamente com o ato e insistiu em castigar os cerca de 300 ciclistas e pedestres presentes. Todos ignoraram a chuva e seguiram em frente.

    Novamente, não houve violência verbal nem física. Uma das faixas dizia, sardonicamente, "Proíbam as bikes: viva a lei do mais forte" e outra, um tanto inocente demais na analogia, "Bem-vindo a Gaza". Quem quisesse podia pegar uma lata de spray branco para ajudar a pintar no asfalto a silhueta da falecida, pouco adiante do local do acidente, gravado com uma cruz também pintada.

    Ao mesmo tempo, foi instalado um memorial sob a árvore mais próxima no canteiro da calçada: a "ghost bike", uma bicicleta completamente pintada de branco. Num poste ao lado dessa bike foi montado um par de painéis com fotos e textos para a população ler, mais um livro de visitas para qualquer um escrever uma mensagem.

    Hoje (segunda-feira 19) à tarde, passei por ali e percebi que a "ghost bike" parece funcionar melhor como meio de comunicação do que qualquer website. Muita gente que caminha por essa calçada tira um tempo para ler os painéis, várias pessoas a cada vez; boa parte delas tira fotos e assim transmite a mensagem adiante.

    (Adendo geek: A Canon Rebel XS - merci VV - desempenhou estupendamente. Capturou o clima que eu via graças ao uso em ISO 1600, com a objetiva estabilizada, permitindo fazer todas as fotos sem o emprego do flash, somente com a escassa luz da rua. Sem estouros de luz, sem sombras pretas, sem tremores e, incrivelmente, praticamente sem ruído. Uma das minhas fotos da quarta-feira foi usada na abertura de uma matéria na IstoÉ, a única das semanais a falar alguma coisa sobre o assunto.)


    Combatendo os idiotas, um por vez

    Enquanto isso, ao acompanhar a repercussão do meu artigo anterior na Web, percebi que definitivamente há duas frentes de batalha para lutar em nome de um trânsito mais humano. A primeira é mobilizar-se e agir em prol de mais respeito mútuo de todos no trânsito. Se um ciclista quer ser respeitado pelo pedestre e pelo motorista, ele deve agir como um veículo sério, seguindo as normas de trânsito, usando os equipamentos de segurança e pilotando de maneira previsível e defensiva.

    Em segundo lugar, é preciso fortalecer o contraponto a um punhado de vozes que são contrárias a se circular pelas ruas das cidades a pedal. Esse pessoal aparece nos lugares mais inusitados. Eu achava que só maníacos por veículos a motor e ignorantes em geral viriam criar caso com os ciclistas. Mas gente aparentemente esclarecida dentro de redações e, incrivelmente, até alguns dos próprios ciclistas opõem-se a um movimento de massa para promover o transporte alternativo.

    No texto anterior havia vários "argumentos contra idiotas", mas eles não são suficientes. Acrescente-se o seguinte:

    Morre gente no trânsito todo dia, por que isso agora? - Essa é uma pergunta insensível, cínica e mal-intencionada, que ouvi pelo menos duas vezes no fim de semana. Qualquer oportunidade precisa ser aproveitada para promover a paz no trânsito. Que seja necessária uma morte de um ser humano, e tendo de concentrar tantas circunstâncias extraordinárias para chamar a atenção - mulher, cicloativista, no meio da avenida mais importante da cidade, num tipo de ocorrência considerado banal, causada por um motorista profissional, motorista esse que não assume a responsabilidade, e com a mídia dando mais relevância ao congestionamento do que ao acidente - tudo isso diz muito mais sobre o estado moral da sociedade motorizada do que sobre as pessoas que se levantaram contra esse estado moral.

    Existem maus ciclistas também - Sim, e daí? Isso é um falso argumento, porque nenhuma pessoa, boa ou má, merece ser punida com a morte pelo seu comportamento na rua. Relativizar o desastre apontando para outra direção não tem nada a ver. E quem faz isso, para mim, o faz de má fé.
    Mas a questão é intrinsecamente geral, envolve a todos: há maus motoristas, há maus ciclistas e há maus pedestres. A sociedade deve orientar todos os maus para serem bons, independentemente do meio de locomoção. Todos têm direito a circular com qualquer veículo, mas antes disso, e forma absolutamente inegociável e garantida pela lei, todos têm direito à vida. E a vida só é assegurada pelo respeito mútuo de todos. Quando você deixa de reconhecer um estranho na rua como um semelhante, está aberta a porta para todos os tipos de desgraças.
    Por que as discussões anteriores focaram prioritariamente nos maus motoristas em vez de nos maus ciclistas e nos maus pedestres? Porque o veículo a motor desequilibra totalmente a relação. É numericamente superior. Ocupa todos os espaços. Pode ser mal utilizado e criar situações perigosas com extrema facilidade. Pode ser usado agressivamente. Pode virar uma arma.

    Não tem jeito, as coisas não vão melhorar, é impossível, desista... - Deparei com esse tipo de idiota várias vezes ao longo de toda a vida. O mais notório em tempos recentes foi o sociólogo que a Folha de S. Paulo, num ato de imperdoável insensibilidade editorial, escolheu entrevistar no dia seguinte à morte da Márcia, dizendo que o problema de São Paulo não tem solução, e ainda chamando de irresponsável a quem promove a bike como transporte na cidade.
    A resposta a esse tipo de idiota vem de mais embaixo: da questão sobre o que significa ser cidadão. Ser cidadão não é só pagar os impostos em dia e virar as costas ao que acontece ao seu redor. Ser cidadão é ajudar a criar as condições para as melhorias que beneficiem a todos.
    Uma pessoa até pode ser honesta, afável, decente, culta. Mas quando reforça a velha visão vira-lata do brasileiro sem auto-estima, de que as coisas são assim mesmo e não têm conserto, de que vivemos numa terra eternamente dominada pelos espertos e safados, e que só nos resta viver explorados, ela só está ajudando a esses espertos e safados e desestimulando as pessoas de bem. Portanto, não merece epíteto melhor do que imbecil. Os brasileiros como povo não são piores do que ninguém. Os maus elementos existem em qualquer grupo humano e nunca devem ser ignorados nem deixados à própria sorte. E os problemas sociais não são insolúveis. Sempre há mudanças e progressos. Mas eles não acontecem se um número suficiente de pessoas não quiser.
    Eis o mais importante: o entusiasmo é contagioso, mas a depressão também é. Se você se sente derrotado, impotente, incapaz, incompetente, roubado, isso é problema seu; não assuma que o próximo deva se sentir igual. Se eu ou o meu amigo acreditou na possibilidade de mudança e você não acredita, a pior coisa que pode fazer é sabotar as nossas esperanças e esforços insistindo que não dá para fazer nada para que nada mude. A isso, é preferível que você fique calado. Não apenas discordo dos derrotistas, chororôs e mimimis, como agora enuncio-os como um obstáculo ativo às minhas metas. O recado é o seguinte: a minha paciência com os inúteis acabou. Saiam da frente. Abram caminho.

    2009-01-16

    Mahler é hype

    Aliás, agora a moda é ouvir Mahler, não é? Mahler é hype. De repente, é Mahler o que se ouve de longe nas velhas lojas de discos da Avenida São João. Mahler chia baixinho escapando do iPod de um passageiro num carro lotado da linha verde do Metrô. Na trilha sonora do comercial de sabonete metido a ecológico, não tenha dúvida: é Mahler. Já existe funk de periferia com Mahler sampleado. Mahler também foi usado no jingle do candidato derrotado a vereador do bairro. Meu vizinho ensaia ruidosamente Mahler transposto para guitarra. Mahler é o que todo taxista da cidade ouve no rádio. Blogs sobre estética feminina tocam Mahler como música de fundo. Há trinta e seis perfis no MySpace intitulados Mahler, nove de bandas com vários integrantes. A Orquestra Sinfônica Municipal repete Mahler toda semana sem falta. Mahler agora entrou no set dos DJs do Jive. Mahler está no novo comercial da Pepsi. E o entregador de gás pirata toca Mahler para chamar a atenção das donas de casa. A TV a cabo exibe uma minissérie sobre as sinfonias de Mahler. E na TV aberta, Mahler é personagem de desenho animado. Mahler é o nome mais registrado nos cartórios este ano. Mahler é assobiado pelos garotos de rua que moram na marquise do terminal de ônibus abandonado. Som de espera do PABX da firma: Mahler. Mahler foi enredo de Carnaval do ano passado. Pilhas de CDs de Mahler em promoção ficam bem na entrada do hipermercado. No sistema de som das estações da linha de trem em Ermelino Matarazzo, também só dá Mahler e mais Mahler. Até quando suportaremos?! Entendam: Mahler não é música para ouvir, é um clássico para ser estudado. Será que alguém ainda me dará ouvidos?

    2009-01-15

    Paz

    Chega de destruição e tristeza.
    Algumas imagens para inspirar um novo dia:




    Flower Power
    Por Bernie Boston, fotojornalista falecido em 24 de janeiro de 2008 aos 74 anos. Essa foto, a favorita da sua carreira, foi tomada durante a passeata contra a Guerra do Vietnã no Pentágono em 21 de outubro de 1967. A imagem foi indicada ao Prêmio Pulitzer.




    Jan Rose Kasmir
    Por Marc Riboud, nascido em 1923, ainda na ativa. A foto é da mesma manifestação da foto acima. A moça que aparece na foto participa de manifestações pacifistas até hoje.

    Sim, ambas têm uma identidade espontânea com os ciclistas oferecendo flores no ato de quarta-feira. Mas você viu a foto do carro que queria arrancar no meio dos manifestantes e foi bloqueado? Aquela cena me lembrou esta outra:




    Tiananmen Square, Beijing, June 4 1989
    Por Jeff Widener/AP

    Uma pessoa que postou uma cópia desta foto na Internet perguntou: What are things that you would stand up for?

    Protesto dos ciclistas na Paulista

    Dia maldito numa cidade maldita

    "São Paulo é mesmo uma cidade maldita." Eram os meus sentimentos desolados ao deixar a sede da editora Digerati, na Haddock Lobo, onde estava fazendo um frila, para reunir-me aos ciclistas que fariam o protesto e ato de memória pela morte da ciclista Márcia Regina de Andrade Prado, integrante do grupo ativista Bicicletada, atropelada de maneira estúpida e covarde por um ônibus na Avenida Paulista. Saí em meio a uma absurdamente intensa tempestade de verão, como se uma força maligna viesse tentar destruir qualquer esperança de expressão da raiva e luto dos colegas ciclistas. Minhas esperanças de que o ato fosse significativo desabavam junto com a torrente, pois achava que a chuva dispersaria o pessoal. Mas felizmente estava enganado. Em torno de 60 pessoas persistentes simplesmente não se importaram com o clima e fizeram uma ciclopasseata a partir da Praça do Ciclista, ponto de reunião da Bicicletada nas tardes de sexta-feira, que fica no penúltimo quarteirão da própria Av. Paulista. O grupo foi pedalando (e eu a pé) até o local da morte, na altura da ruína da mansão Matarazzo. Fecharam duas das três faixas da avenida e promoveram uma mistura de cerimônia e protesto. O clima, além de pesar, era de intensa raiva. A PM apareceu com motos, escopetas e palavras brutas, mas fez um acordo com os ciclistas. A polícia sabia que não era hora de iniciar ali uma guerra. Pois se fosse o caso, haveria quem lutasse; ciclistas já estão acostumados à ideia da desvantagem física em qualquer tipo de confronto urbano. Poderíamos ter chutado os veículos, nos deitado na avenida, sido presos. Em vez disso, trazíamos flores nas mãos. Uma pessoa de carro até tentou avançar nos manifestantes que ofereciam as flores aos motoristas que passavam pelo quase-bloqueio. Faltou muito pouco para não acontecer um incidente violento nesse instante. Mas houve paz e nada mais de ruim aconteceu. Velas foram acesas e colocadas num círculo de pétalas de rosas brancas e vermelhas no local do acidente, que quando chegamos já estava completamente lavado e isento de vestígios de sangue. O grupo fez uma roda, com elegias e orações. A chuva, mais fraca, insistia em não parar completamente. Depois de todos irem embora, dois cavaletes de madeira ficaram protegendo o monte de flores e velas no asfalto úmido. Guarda-chuva numa mão e câmera emprestada na outra, registrei o que vi.





















    O que aconteceu

    O motorista que matou a Márcia fez, segundo testemunhas, uma clássica manobra ilegal de ônibus, que todo mundo já viu. Ele ultrapassou a ciclista, que vinha pedalando na faixa da direita. Antes que houvesse aberto espaço suficiente, o ônibus começou a retornar para a faixa, espremendo a ciclista contra o meio-fio, até derrubá-la por contato direto da lateral do veículo com o guidão da bike. Caída no piso, as rodas traseiras do ônibus passaram por cima da sua cabeça, causando morte instantânea.

    Para adicionar um gigantesco insulto à injúria fatal, o corpo de Márcia ficou exposto no asfalto durante QUATRO HORAS no local mais importante da cidade.

    O motorista do ônibus disse à imprensa que tem a consciência tranquila e não sente nenhuma culpa, que foi uma fatalidade. Errado. O Código de Trânsito estabelece distância lateral obrigatória mínima de 1,5 metro entre veículos e bicicletas. Com base na lei, ele é um criminoso. Cometeu homicídio culposo. Será processado por isso. Mas e o que se fará com os milhares de outros bárbaros que praticam a tal manobra impunemente todos os dias? De que maneira faremos que mudem seu pensamento e o seu comportamento, numa cidade onde a educação e a fiscalização são tão ineficazes? Todo ciclista urbano pode contar pelo menos uma história de agressão por ônibus, além das dezenas de pequenas más educações de cidadãos motorizados de todo tipo que testemunhamos, a cada saída nossa para a rua.

    Veja que tudo o que se disse sobre a péssima relação entre motorizados e bikes é aplicável a pedestres, também. No mesmo dia, na mesma avenida, dois pedestres foram atropelados. Um deles morreu ali mesmo na rua. Portanto, enfie na cabeça: o problema é de todos. Não é problema de um grupo de ativistas. É problema de toda a cidade. É um problema social e cultural, acima de tudo. Simplesmente com respeito humano, mesmo com as ruas inadequadas que temos, crueldades gratuitas já não aconteceriam. Seriam evitáveis com um pouco a mais de civilização.

    Falo de civilização sem chutar, com propriedade. Eu estive na Suíça. Em qualquer lugar da rua em Berna, onde eu fizesse apenas menção de botar o pé para fora da calçada, os carros paravam e esperavam tranquilos. Não precisava nem ser na faixa de travessia: isso valia em qualquer ponto da rua. Ouço dizerem que em cidades no Sul do Brasil os motoristas chegam a dar passagem a pedestres na faixa independentemente do semáforo, o que nem é algo especial, é simplesmente obedecer a lei. Por que nunca deu para cultivar um comportamento não-agressivo em São Paulo? Aqui há uma loucura coletiva e generalizada para queimar semáforos. E se você inventar de atravessar a pé, mesmo que na faixa e até com o semáforo a seu favor, o motorista cretino, que já chega a toda velocidade - porque estudou o trajeto de forma a saber onde há radar e onde ele pode abusar do acelerador - apenas buzina para que você fuja correndo da frente dele. É um desvio de comportamento público, uma falha de caráter geral do povo, que precisa ser resolvida na escola, na família e na mídia. É simples educação básica. Não estou pedindo nada impossível.

    Ou isso, ou vamos ter cada vez mais proponentes de um estado policial, onde tudo só se resolve na base da multa, da coerção, da ameaça, da vigilância, da desconfiança.

    Falta a simples aplicação do que diz o Código de Trânsito que está em vigor: os veículos maiores tem obrigação de proteger os menores. Os veículos menores têm prioridade, e os não-motorizados têm prioridade total. Sem discussão. Sem exceções. Cumpra-se a lei. Em vez disso, os maiores estão massacrando os menores, várias vezes por dia. O trânsito mata mais gente todo dia do que as principais doenças. É uma guerra. Quando escrevi numa lista de discussão contra os SUVs, teve gente que achou ruim. Mas uma causa primária de escolher um SUV para dirigir nas ruas congestionadas de São Paulo é exatamente intimidar os outros no trânsito e ocupar todos os espaços. Enquanto essa mentalidade brutalizada e prepotente persistir em ascensão, cada vez mais gente vai morrer inutilmente na rua.


    Argumentos contra idiotas

    Já vi em fóruns na Internet uma variedade de imbecis virem com argumentos para desencorajar o uso da bicicleta como transporte de rua. É o seguinte: a partir de agora, não praticarei mais a diplomacia. O sujeito que não quer que eu pedale na rua e não me respeita é meu inimigo. E será tratado como tal. Na minha opinião, os seus argumentos são imbecis, egoístas e desinformados. E não podem prevalecer. Devem ser combatidos e extintos.

    Andar de bike é coisa de mauricinho - A realidade é exatamente ao contrário: o custo de acesso da bicicleta é baixíssimo. Tem bike para vender na entrada de todo supermercado. E todas as bikes, independentemente do modelo, têm o mesmo princípio de operação. O que a pessoa pedala é totalmente irrelevante no trânsito. O respeito deve ser igual para todos.

    A rua não foi feita para acomodar bicicletas - É óbvio, caro mentecapto, que a rua não foi feita para acomodar bicicletas. A rua foi, sim, estabelecida para ser usada somente por veículos motorizados. Só que isso é um erro. Deve ser corrigido. Transportes alternativos precisam ser promovidos. O que temos na prática? A nova ponte estaiada em São Paulo, que alguns exibem como cartão-postal da cidade, não tem calçadas. A entrada de bicicletas nela está proibida. O projeto dela é exclusivamente para os carros particulares. Ônibus e caminhões também não podem usar a ponte. Mas tem uma coisa: a lei manda que exista acesso de todas as vias não subterrâneas a pedestres e ciclistas. A ponte foi construída contra a lei, na cara-dura. É preciso que isso nunca mais aconteça daqui em diante.

    As bikes devem ficar fora da rua para dar espaço aos carros - É o mais comum e mais idiota dos argumentos dos energúmenos e trogloditas do volante. Minha resposta: o seu carro é caro, poluente, ineficiente e ocupa um espaço muito maior. Mesmo assim, eu não acho que você não tenha direito de trafegar. Não quero banir o seu carro da rua. Estou apenas demandando o uso socialmente responsável do veículo. A rua é para todos andarem nela, com o veículo que quiserem. Bicicleta é um tipo de veículo. Reconhecido e com normas próprias no Código de Trânsito. Estando isso esclarecido, faça o favor de calar a boca.

    É preciso que façam mais ciclovias - Sim, este argumento foi contabilizado entre os idiotas. Antes que você se ofenda, fique claro um detalhe: não sou contra as ciclovias em si. Acontece que em São Paulo ciclovia ainda é um delírio, piada de mau gosto, promessinha de político demagogo e discurso vazio de pseudo-urbanista. E todo tipo de desinformados repete que o que os ciclistas querem é ciclovias. NÃO. Os ciclistas querem respeito. Separá-los em vias próprias não é pré-requisito. A nossa rede viária monstruosa, o volume de tráfego descontrolado, a topografia ingrata e os custos de construção impedem que se monte uma rede de ciclovias razoável em curto tempo. O problema mais básico não é estrutural. Repito: é um problema de atitude, de humanidade. Se eu precisar andar de bicicleta na rua, vou querer fazer isso agora, independentemente das obras viárias. Esperar que um dia passe uma ciclovia na porta de casa seria tão irreal quanto um motociclista esperar que se pintassem faixas exclusivas para motos. E, igualmente importante, não vou usar um carro por medo ou pressão social. O número de pessoas de cabeça aberta está aumentando, apesar do desestímulo da sociedade automobilítica ao uso da bicicleta como algo além de brinquedo de parque. Em países mais civilizados existe a ciclofaixa ou faixa compartilhada, que funciona porque as pessoas não tentam assassinar umas às outras usando seus veículos como armas.

    É preciso ser maluco para pedalar em São Paulo - Estou completamente farto desta frase, que só sai da boca de pessoas ignorantes e acomodadas, que nunca pedalam, que demonstram incapacidade para pensar no assunto de maneira minimamente diferente do consenso burro do rebanho que entope as ruas. A cidade é uma porcaria para pedalar exatamente por causa dessa mentalidade de manada. A situação não está boa para ninguém, nem mesmo para os carros, que mal conseguem avançar com os congestionamentos cada vez maiores. Contudo, apesar dos obstáculos e ameaças contra as pessoas sem motor, 300 mil ciclistas em SP demonstram que viver pedalando é, sim, possível. A monocultura do automóvel individual, numa cidade como a minha, é um equívoco. Precisa mudar. E rápido. Quem sabe dentro de alguns anos, maluco seja considerado quem insiste em desperdiçar gasolina em engarrafamentos, enquanto as bicicletas passam por eles livres.

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