2009-12-29

Há dez anos

Esclarecimento inicial: este post não foi motivado pela "virada da década", porque a década NÃO vira agora e sim daqui a mais um ano, apesar de as revistas semanais estarem forçando a barra para que nos confundamos e compremos logo as suas edições gordas de retrospectiva, já nas bancas.



Se fosse aplicar um clichê da década a estas capas de revistas, seria: "percorremos um longo caminho desde então". A Magnet (predecessora do atual site Geek) anunciava a Internet de banda larga e adivinhava sem querer o nome de um serviço futuro do ramo, "Ajato".
O destaque principal era "modelos virtuais". Apesar da relativa tosquice do acabamento do CG na modelo da capa, batizada inimaginativamente de Webby (e usada numa campanha publicitária da Nokia), havia quem jurasse que o futuro consistiria em renderizar as beldades em vez de fotografá-las. A viagem nerd dos artistas digitais era criar personagens com nomes próprios, vidas inventadas e personalidades idealizadas, e então tentar vender isso ao público como um sucedâneo direto das pessoas reais. Claro que nunca deu certo.
Lembre que vivíamos então os estertores finais da bolha da Web e o ambiente ainda estava lotado de capitalistas de risco e marketeiros em frenética busca por qualquer engana-trouxa que transformasse rapidamente a Internet na nova televisão. Acabou levando mais tempo do que eles desejavam, e muitos faliram no processo. As "modelos virtuais" eram de fato engana-trouxas.
A realidade que prevalece - a reconstrução extrema das modelos no Photoshop - enfrenta hoje uma resistência cultural crescente.


A Macmania da mesma época descrevia o novo iMac com gabinete mais leve e bonito. Mas de longe, já que ele só tinha sido anunciado nos EUA e não tínhamos acesso a ele. A única foto disponível em alta resolução era da lateral do gabinete. Foi uma das capas mais feias que fizemos, mas não havia mesmo escolha.
O destaque "10 respostas para detonar seu amigo pecezista", lindamente ilustrado por Tom B, consistia numa série de argumentos afiados e sarcásticos atacando os aspectos em que o PC com Windows era decisivamente pior que o Mac. Lembre que o que existia então eram o Windows 98 e o recém-lançado Mac OS 9, dois sistemas extremamente capengas e simplórios pelos nossos padrões atuais. Todavia, comparação igual hoje não faria tanto sentido, porque as diferenças entre eles eram muito maiores em 1999.
Essa "pauta negativa", que refletia o espírito rebelde da revista em seu início, teve sugestão inicial e redação final minhas. Em retrospecto, acho que não foi uma boa ideia. Semanas depois, um conhecido troll de newsgroups de Mac, onde passava o seu tempo mandando as pessoas não comprarem Macs porque PCs seriam incomparavelmente melhores, teve a paciência e o distorcido senso de justiça de ir muito além e escrever um website inteiro intitulado "MacOtários".
Nesse site, ele tentava desbancar a nossa matéria ponto a ponto, usando a falácia retórica do "red herring": responder cada argumento com outro fora do contexto. E aproveitou o ensejo para despejar toda a bile de uma só vez, xingando os adeptos da maçã de muitas outras coisas além de "otários". Tanta raiva assim ultrapassava os parâmetros da simples e boa inveja.
Infelizmente as suas críticas, em vez de informar, revelavam espesso preconceito e elementar ignorância acerca do Mac. Mas valeu por ter sido a mais elaborada trollagem dirigida contra a Macmania em todos seus 10 anos de publicação. Não é todo dia que em vez de um "hate mail" você é premiado com um website furibundo de 11 páginas com layout próprio e ilustrações.
Após um brutal flamewar contra o autor (com minha justa participação, incógnito), ele tirou o site do ar. Mas pegou gosto por esse negócio de fazer propaganda religiosa na Web. Hoje ele mantém um site exclusivamente sobre Windows, que tem patrocínio da Microsoft e um fórum dos leitores onde é proibido mencionar o nome de qualquer outra plataforma - mas nos editoriais ainda sobram farpas dirigidas à Apple.
Dessa forma, em alguma pequena medida eu me sinto um pouco responsável pela criação de um monstro. E parece que a velha rixa está voltando à moda, no que depender de conhecidos veteranos da plataforma que insistem em manter a polarização: confira a matéria sobre o tema no Diário do Comércio.
Postei um comentário lá, mas não saiu por algum problema técnico. Disse o seguinte:

A rixa entre os macmaníacos e os supostos (porque de fato são raros) pecezistas era mais intensa nos anos 90, quando o Mac era muito mais uma plataforma de nicho do que hoje. Além de serem relativamente muito mais caros que agora e bem menos numerosos, os Macs eram menos compatíveis com o mainstream PC. Então, cada usuário de Mac precisava se munir de um monte de informações e argumentos somente para justificar sua escolha para a multidão. Uns ou outros davam um passo além e tentavam "converter" as pessoas por conta própria. Vários dos entrevistados para esta matéria são veteranos dessa turma. Em alguma medida, ainda insistem no papel de "guerrilheiros culturais", mesmo que hoje em dia a Apple não seja "talento não reconhecido", e certamente não precisa da ajuda de ninguém.
Síndrome de Estocolmo seria se a Apple tivesse seguidores fanáticos de produtos péssimos, o que muito evidentemente não é o caso. Culturalmente, muitos macmaníacos tentam extrair status social de seu equipamento, de forma similar a fotógrafos com câmeras Nikon, por exemplo. Esse status, porém, deve vir do que a pessoa realiza, não da ferramenta. Quanto ao caráter pessoal, se os macmaníacos buscam passar a sensação de serem maravilhosos, já conheci um número maior de chatos. Perdoem a sinceridade.

17 comentários:

  1. poxa eu realmente achei que um dia o cg ia ficar igual ao mundo real, principalmente quando vi a KAYA que era feita aqui no Brasil pela veotr zero, mas aí quando o fantástico começou a usar aquela reporter virtual eu desisti...hehehe

    http://www.vetorzero.com.br/kaya/kaya1.html

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  2. Quando eu comecei a ler seu post e você citou da 'tendência' de usarem modelos virtuais, na hora eu pensei 'É, hoje em dia não estão usando CG, mas estão usando TANTO Photoshop que não fica devendo muito para uma CG pura'. Umas linhas depois você mencionou o que eu havia pensado.
    Esperemos mesmo que haja um certo, digamos, 'amansamento' no uso do PS em modelos.

    Quanto a guerra de Mac X PC... deve ser comentário de quem quase nunca usou Mac e sequer é um usuário hardcore de computador em geral, mas...... p*rr*, AINDA essa briguinha de plataformas e SOs?
    Que saco, não?
    Cada um usa o que mais apetece e pronto. Simples.

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  3. hahaha! Adorei esse teu post! Concordo em gênero, número e grau.

    E é de fato engraçado ver como era tudo há 10 anos. 1999, todo mundo esperando o ano 2000; ninguém sequer ia imaginar ter banda larga no celular. Acho. Videochamada, skype...

    Ufa. Acho que nasci na era correta. Haha!

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  4. Lembro da Kaya. Mas o fato é que essas mulheres inventadas nunca passaram, em essência, de explorações fetichistas que marketeiros tentaram transformar em algo mais abrangente. A graça das pessoas reais está exatamente nas suas características essenciais únicas, que não podem ser bem definidas, menos ainda controladas. As belezas mais impactantes são as que nunca ninguém imaginou dentro da diversidade humana. Posto isso, foi provado cientificamente que dentro de nossos cérebros existe um conjunto definido de proporções faciais e físicas "ideais", que são mais ou menos consenso universal. Mas o que acontece quando se constrói a imagem de uma pessoa que obedece a essas especificações? Ela não tem graça. Por isso é que o mundo precisa da boca da Angelina Jolie, os olhos da Alexis Bledel, as bochechas da Leelee Sobieski, o nariz da Malin Akerman, o supercílio da Olivia Wilde e o bumbum da Alisa Kiss. Todas elas estão claramente fora do arquétipo.

    A briguinha de plataforma existirá enquanto existir pessoas que precisem preencher o ego com elas. Da minha parte, adoro meus Macs e também meus PCs.

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  5. Eu gostei dos caminhos encontrados por Avatar, King Kong e Senhor dos Anéis, do realismo em coisas irreais (smurfs, macacos, gollum, etc). Já os modelos em CG são bem utilizados no nicho tecnológico mais avançado: a pornografia.

    QUAL década não está virando agora? Todo ano tem uma década, século ou milênio virando. Décadas virando de 9 para 0 atraem mais, dão impressão de folha limpa. Deixa o pessoal comemorar. Feliz Solstício, House.

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  6. Eu sou um daqueles que exalta Macs e detona PCs, mas faço mais por gozação mesmo. Já tinha minha época de fanboy, já passou.

    Mário, capa nenhuma da Macmania vai ser pior que aquele do marombado segurando o G3, aquela foi "uó". Lembro que me zoaram tanto na fábrica de leite porque o pessoal da empresa não sabia o que era Mac e achava que eu estava com uma revista gay... até o G3 estampado na CPU ajudava...

    O tal forum-site Windows deve ser o Babboo, nunca vi lugar mais tedioso que aquele.

    Abraços e feliz 2010 pra você e pros comentadores aqui!

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  7. Anderson, pornografia feita usando CG me soa notavelmente deprimente.

    Quanto à virada da década, não é a falta de convenção que irrita, mas aproveitar-se disso para faturar duas vezes em anos seguidos com as chatas retrospectivas. Eu já li a da Época, é um trabalho aparentemente feito na correria e relativamente mal redigido, que contribuiu para prejudicar a minha percepção pessoal de bom texto dessa semanal, a qual considero em sutil declínio já faz algum tempo. Depois investigo a concorrência.

    Douglas, a capa da Macmania do marombeiro foi um risco calculado. A contestação cultural da revista ia além da pobre torcida Mac x PC e constantemente questionava as convenções culturais. Pode retrucar que revista de cultura digital não tem que se meter com cultura mainstream nem temas sociais e políticos, mas discordo. Foi uma lástima descobrir que tantos leitores não tinham abertura de cabeça ou senso de humor para acompanhar a proposta dos editores. E um grupo gay ainda conseguiu se ofender, depois com o Macintóshico derivado dessa capa. Mas nesse episódio todo, como no recente caso da estudante da Uniban, estava todo mundo errado. Certamente hoje seria diferente.

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  8. Bacana as lembranças, ao ler a primeira, nao pude deixar de lembrar do Final Fantasy, o primeiro filme (não o Advent Children) no qual a onda era dizer que não precisaríamos mais de atores diante de cameras pesadas.
    Ledo engano, hoje, vemos filmes como Avatar, é cg pura? Claro, mas o elemento humano é presente aonde teríamos trabalho em dobro a que colocar o ator diante da câmera: A movimentação.

    Sobre macs, sou usuário a anos, de 3 plataformas (osx, win e linux), pra mim o ser humano tem uma espécie de egoísmo besta em cima daquilo que ele possui em primeira instância, e tende a defender empresa X...de graça. Acho engraçado, tiro o macbook da bolsa (aqui é interior) já vem alguém falando: Computador de viado? E blá blá blá.
    Dosagem é fundamental, cada SO possui suas facilidades e aspectos, nada me impede de usar um ou outro. Mas infelizmente quem tem um mac tende a ser visto com ódio. Inveja? Acho que é a velha sindrome de cachorro que caiu da mudança, tudo que é mais caro ou único, tende a ser visto como mal.

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  9. Mesmo na época em que comprei (ou ganhei? não lembro…) essa Magnet eu já sabia que havia muito de fantasia, pretensão e erro nessa “moda forçada” das tais modelos virtuais. Os homens em sua maioria podem até querer “ilusões”, mas essas precisam ser “ilusões reais”.

    Nunca haveriam papparazzis nem sessões de autógrafo nem imprensa de celebridades nem escândalos sexuais ou com drogas para as modelos virtuais. E é por isso, muito além da qualidade ou não do CG, que as tornam impossíveis demais para se tornarem famosas.

    Anyway, falando especificamente do CG em 3D, acho que ficaram entusiasmados demais com ele e o adotaram cedo demais, pensando-se de menos. Vi hoje “O Império Contra-Ataca” e ele é MUITO superior a qualquer outro prequel da série justamente porque ele não era baseado em CG, e sim em tecnologia analógica, feita de átomos, principalmente no caso do animatronics, que deu um salto evolutivo imenso nos anos 80 para ser morto precocemente pela computação gráfica nos anos 90.

    Mas eu não sou luddista a ponto de dizer que todo CG é uma porcaria. Mas acho que ele deveria ser usado em situações em que ele soma, e não subtrai.

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  10. CG na pornografia pode soar deprimente, mas é menos deprimente do que todo o mundo sórdido que acompanha a pornografia IRL. Se filmes pornográficos em CG ou desenho forem suficientes para liberar as fantasias de pessoas sem recorrer à degradação humana presente em 99% das produções reais, então acho que estaremos num mundo um pouco melhor.

    Desculpe o off-topic, mas só caiu a ficha agora e com o comentário do MaGioZal acima.

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  11. A “sordidez” e a “degradação” da pornografia (e da prostituição) não é tudo aquilo que dizem a respeito. Na imensa maioria dos casos, quem está envolvido com isso é autônomo e o faz por vontade própria, e ainda fatura um bom dinheiro com isso.

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  12. É autônomo buscando dinheiro ou projeção a qquer custo. A imensa maioria dos profissionais envolvidos são subpagos (uma prostituta recebe o equivalente a um programa para filmagem de várias horas) e a grana fica com o produtor. Dificilmente os atores. Ou seja, há muitas promessas e pouco retorno. Claro que cada é um é dono do seu nariz. Mas pega uma menina pobre, família desestruturada e bonita, oferece mundos e fundos e ela topa qquer coisa. Geralmente não é o que ela esperava, mas aí já está viciada em algum entorpecente e não consegue largar a vida. Há exeções, mas são poucas. Estou sendo simplista? É possível, mas peguei estas informações no campo.

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  13. Sobre a tecnologia CG x analógica, acredito que a primeira deverá levar certa vantagem nos próximos anos. O filme azulado Avatar, além de District 9, provaram que o Mocap pode funcionar muito bem (coisa que as medonhas animações do Zemeckis, empregando tal tecnologia, não conseguiam). A tecnologia analógica, claro, era maravilhosa: a transformação do lobisomem no velho filme do John Landis (Lobisomem americano em Londres), é imbatível; as cores e a interação animação-live action em Uma cilada para Roger Rabbit, etc. Mas isso acontecia, claro, quando se tratava de trabalho muito bem feito (havia péssimos efeitos analógicos no passado como há CGI tosco hoje).

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  14. A contestação cultural da revista ia além da pobre torcida Mac x PC e constantemente questionava as convenções culturais.

    Mario... Se bebia em fontes limpas. A Wired, tinha muito disso.

    Eu tenho esta Macmania e esta Magnet... Você pdoeria falar da Play.

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  15. Gente, é o Baboo sim. Só que hoje eles não falam só de Windows, mudaram o foco.

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  16. Não tem muito a ver com a materia mas não sei por nde mandar para o MarioAV:
    Coleção: tenho um Performa 5215CD funcionando para doar. Se conhecer alguem que quer ... matheusbern AROBAS laposte.net

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