2009-07-08

Uma crítica à cibercultura


Every year of her life, Laura thought, the Net had been growing more expansive and seamless. Computers did it. Computers melted other machines, fusing them together. Television-telephone-telex. Tape recorder–VCR–laser disk. Broadcast tower linked to microwave dish linked to satellite. Phone line, cable TV, fiber-optic cords hissing out words and pictures in torrents of pure light. All netted together in a web over the world, a global nervous system, an octopus of data. There'd been plenty of hype about it. It was easy to make it sound transcendently incredible...
The Net was a lot like television, another former wonder of the age. The Net was a vast glass mirror. It reflected what it was shown. Mostly human banality.

Bruce Sterling escreveu o texto acima em 1988, no romance "Islands In The Net", uma história ambientada em 2022. Previsão impecável. Não fosse por incluir "telex" e "tape recorder", seria impossível perceber sua idade. A rede global só existia na cabeça do escritor; a palavra "Web" como metáfora da rede multimídia só seria adotada dali a anos, pois a tecnologia ainda não tinha sido inventada. O mais arrepiante, porém, é a profecia da transformação da rede numa imensa TV, mantendo a banalidade tão criticada e combatida na era anterior às comunicações digitais. A frivolidade que a TV nos servia na infância apenas migrou de meio, com mais eficiência técnica e preservando seu valor de "refletir sem questionar". Videocassetadas e Big Brother em qualidade HD para download na hora que você quiser! Com o recurso extra de poder insultar estranhos nos comentários!

Fracasso dos futurólogos. A rede não aumentou a inteligência geral do mundo. A relação sinal/ruído (informação relevante versus dados incorretos, não verificados ou redundantes) piorou em proporção à quantidade de material disponível.

Não fomos afogados pelo spam comercial, como temíamos há 10 anos. Fomos afogados pelo spam pessoal dos nossos próprios amigos. Updates insistentes das redes sociais, email no celular, pessoas desconhecidas que se aproximam com falso senso de intimidade porque leram demais a nosso respeito nos perfis online que escrevemos de nós mesmos.

A história da cultura pop pode ser condensada nesta frase: o underground virou mainstream e foi consumido, para então ser substituído por um novo underground. A cultura hacker era o underground emergente dos anos 80 e 90. Diluída e consumida, o que surgiu em seu lugar? Após 15 anos de Web comercial e 25 do cyberpunk, o paradoxo é irônico. Metade da população do país está inscrita no Orkut, mas a cibercultura está firmemente presa na estaca zero.

Antes mesmo da exploração espacial ou da medicina estética, um dos temas relevantes pode ser a construção de algum novo alicerce cultural que volte a olhar para a frente, a partir da perspectiva ampla que se obteria dando sentido aos escombros pulverizados pela rede que hoje são o foco da distração das massas conectadas. O que há visível são lampejos tímidos no meio do entulho. O valor de uma rede aumenta na proporção do quadrado do seu número de conexões. É preciso agregar os vislumbres desarticulados.

13 comentários:

  1. Tudo o que eu sempre quis escrever, porque pensava assim sobre o assunto. Que naba, devia ter escrito antes, agora só posso passar adiante :D

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  2. Passe adiante a versão atual... Os temas cortados da postagem guardei para usar em outras ocasiões.

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  3. O problema não está nas tecnologias, está nas pessoas, ou melhor, nas pessoas que sempre vão tentar alienar cada vez mais ('mídias do mal'), e nas pessoas que se acomodam (quase todas).

    Mas acho que o mundo não está perdido... Se a proporção de gente interessada diminuiu, sua quantidade aumentou, e há muito espaço para construir coisa útil na internet, ao menos para os que se dedicam a isso (eu mesmo sou viciado em Wikipédia, e acho que meu conhecimento e cultura deram um salto depois que isso aconteceu).

    Quando eu trabalhava em hospital, achava que quase todo mundo estava doente. É que a gente acaba sendo soterrado pelo pior, a saúde ainda existe, inclusive a mental, inclusive na internet.

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  4. Cabe a gente continuar batalhando para criar sempre um novo underground, quando o comercial achar que está levando a melhor estaremos sempre lá, recriando o underground :-]
    @idegasperi
    http://israel.blog.br

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  5. Muito bom. Veio bem a calhar com o que eu estava pensando. A maior parte do que rola na internet é banalidade. A metade do país conectada acessa as mesmas coisas, e tem muito mais coisas acontecendo no mundo e que não são publicadas na internet.

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  6. Há 16 anos eu navegava na web acadêmica (Gopher e Mosaic) com a entrada da comercial acreditei que hoje teriamos algo bem mais evoluido como média da frivolidade da entao mass media vigente... Ai, ai, sempre fui um tantinho sonhador.

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  7. Posso mandar mais uma referência interessante?

    “Além disso, a telegrafia fotográfica, inventada no século passado pelo professor Giovanni Caselli, de Florença, permitia que se enviasse à distância por fac-símile de toda escrita, autógrafo ou desenho, e que se assinassem letras de câmbio ou contratos à 5 mil léguas de distância.
    A rede telegráfica cobria toda a superfície dos continentes e os fundos dos mares; nem um segundo separava a América da Europa, e na experiência solene feita em 1903, em Londres, dois experimentadores se corresponderam entre si depois de fazer suas mensagens darem a volta ao mundo.”

    (Julio Verne - Paris no Século XX. 1863:72)

    Foi o texto que usei para abrir minha monografia sobre weblogs em 2004.

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  8. (Esse comentário vai ficar uma merda porque, na verdade, esse assunto merecia um bate-papo de mesa de bar... tenho muita informação não formatada na cabeça e minha dentativa de "desfragmentar" o cérebro pra organizar esse comment não foi bem sucedida... enfim... vão os fragmentos mesmo).

    Seus últimos dois textos me fizeram lembrar do começo da década de 90 (até 1994, mais ou menos) quando eu era Co-SysOp de uma BBS no Rio e editava o zine Mídia Nômade.

    Eu sempre acreditei que o destino do underground É virar mainstream. Quando o underground tem qualidade, acaba atingindo a tal "massa crítica" que o transforma em mainstream... é inevitável.

    Acho que o que mudou nesses quase 20 anos é que, naquea época, a maioria dos zines (pelo que me lembro)eram escritos para um público específico. Escrevíamos para os nossos pares. A norma era: "Que se foda os que não entendem daquilo que eu escrevo".

    Só havia diferença entre cibercultura e a "cultura do mundo real" porque, pra fazer parte da cibercultura, era preciso pertencer a um nicho intelectual. Quando tudo ficou mais fácil (interfaces gráficas, plug-and-play, etc..) e os requisitos culturais para entrar na Internet desapareceram, foi como se tivessem colocado um teleférico climatizado que levasse todos diretamente ao topo do Everest.

    (não sei se o que eu digo ainda faz sentido... não estou relendo o que escrevi... não adianta tentar organizar)

    Hoje em dia tudo é fácil... tudo é para todos... e não há mais requisitos para pertencer a nenhum grupo... A idéia de que "all information should be free" estava incompleta...

    Vou parar por aqui e tentar organizar melhor as idéias para um novo comentario.

    Abraços!

    __________
    Coincidentemente, na última segunda-feira, peguei para rever a edição especial de Blade Runner, com as "versões arquivadas" e o documentário "Dias Perigoso - realizando Blade Runner".

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  9. Mário, apesar da atual distopia em que vivemos, acredito no movimento pendular que a cultura sempre teve.
    Estamos hoje soterrados pelo consumismo dos filhos bem alimentados da classe média. Esse valor é a principal referência cultural de nossos tempos. Ter tudo o que for possível e não ser responsável por nenhum de seus próprios atos.
    Acredito que as próximas gerações vão se insurgir, como tantas outras fizeram. E, não tem jeito, a insurgência será absorvida pelo status quo e nova insurgência surgirá e assim por diante.

    Ah, e Blade Runner é um alento. O pior é parecer que estamos caminhando para a realidade de Idiocracy, filme ruim com um final trash, mas um mote genial e boas piadas.

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  10. Este texto meu era bem mais longo e detalhado, mas resumi e eliminei tópicos, porque alguns dos leitores iniciais acharam "chato". Então, preferi o artigo "menos chato" e lido por alguns a "mais chato" e ignorado por todos.

    Este blog publica seguidamente artigos que partem de um ponto de vista que é fundamentalmente contra o consumo irresponsável, contra a economia insustentável, contra a gastança irrefreada de recursos, contra a coisificação do ser humano, contra o relativismo moral aplicado como subterfúgio, contra a cultura de confronto.

    É inevitável, então, que meu texto conteste na cara várias coisas que pautam o estilo de vida de quem lê. Não é para não parecer "chato" a seus olhos, mesmo.

    Não tenho porque esconder que intelectualmente sou um pouco anterior à geração que comanda a atual merdocracia cultural da mídia de massa. Participei dos que construíram a transição para a mídia online.

    O meu sonho anterior à Internet foi traído quando a geração anterior (a minha), que não tinha voz suficientemente alta para fazer o contraponto que tanto desejava, passou o controle a uma nova geração que, pautada pelos valores vazios que você aponta (corrida pela posse material e irresponsabilidade disfarçada de libertarismo), obteve a voz graças às novas tecnologias, mas a tem usado para manter iguais ou piores os vícios que herdaram, numa realimentação progressiva de lixo.

    Esta reflexão nasceu quando alguém postou uma ideia verdadeiramente criativa e original na Internet e outras pessoas deram o link descrevendo a ideia como "muito tempo sobrando na mão" em vez de "ideia genial". Claro, essas pessoas estão acostumadas a copiar rapidamente tudo que está pronto, em vez de criar o espaço mental para que novas ideias amadureçam.

    A merdocracia cultural não ocorre por maldade, nem estupidez, nem ignorância. É tudo isso amalgamado com a falta de perceber de que há outras possibilidades e explorá-las. Muitas vezes, quem menos se toca é exatamente quem mais veementemente prega sobre o assunto. Está aí a moderna publicidade brasileira como prova.

    Não basta dizer basta, é preciso reunir os bastas. E mostrar o caminho.

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  11. @doisespressos: Continua havendo barreiras entre a cultura das ruas e a cibercultura. É daí que vem o depreciativo termo "ativismo de poltrona".

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  12. Não há solução para a ignorância da maioria população.
    A única forma é isola-los da rede. Diga não a inclusão digital.

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  13. O pior é que o comentário do danielsouzat poderia ser defendido, tanto no sentido fascista literal, quanto na ironia catastrófica. Mas não resolveria absolutamente nada, é como Cypher preferindo o conforto da Matrix a vida dura da realidade.

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