2009-07-28

O iPod das câmeras digitais



O iPod não foi o primeiro tocador de áudio digital pessoal portátil. Quando ele apareceu, havia vários outros modelos, estabelecidos após a explosão do MP3 com a ajuda do Napster. Meu primeiro tocador de MP3, depois de várias encarnações do Walkman e do Discman, foi o Creative Nomad Jukebox. Você pode ler sobre ele aqui – num site que fala de tudo menos iPod, numa forma irônica de resistir à hegemonia da Apple no ramo.

O Nomad Jukebox tinha HD de 6 gigabytes e muitas funções avançadas. Mas navegar no conteúdo era tedioso. A carga da música via USB era lenta demais. Com algum tempo de uso, o meu exemplar recusou-se a funcionar com pilhas. Grande como um Discman 5 anos anterior e com o triplo do peso, ele fazia o tipo do filho feio que só o engenheiro nerd que o projetou poderia sinceramente amar. No entanto, vendeu bem, auxiliado pela ausência de alternativas igualmente sofisticadas que fossem baseadas num hardware menos manhoso.

Então, veio o iPod. Muitos audiófilos torceram o nariz, exatamente da maneira como ainda fazem os autores do site linkado acima. Mas o sucesso do produto não só alavancou a estratégia comercial da Apple para o resto da década (iTunes, iPhone), como influenciou todos os outros tocadores de mídia portáteis.

A história acima serve como uma analogia. Se você trocar alguns nomes, quase tem a história das câmeras digitais compactas, com a diferença de que quem sacudiu esse mercado foi a Canon com as suas PowerShots S, criadas a partir da série IXUS/ELPH de câmeras de filme APS.

No começo do ano 2000, as câmeras digitais não tinham muita credibilidade técnica e eram bem diferentes uma da outra. Algumas pareciam filmadoras, outras pareciam Frankensteins com articulações bizarras e lentes em lugares esquisitos. Algumas não tinham visor LCD. A maioria era horrivelmente lenta para tudo. A imagem tinha ruído de cor, sujeira de compressão, halos nas zonas de contraste, brancos violentamente estourados e uma tendência a esverdear. A resolução típica era de 1,3 megapixels – inferior a um bom monitor de vídeo. E a bateria acabava em meia hora.

Então, veio a Canon Digital IXUS – também chamada Digital ELPH e PowerShot S – e cristalizou a nossa expectativa do que deveria ser uma câmera digital de bolso. Por esse motivo, aparece frequentemente nas listas de gadgets mais marcantes da década. Ela já surgiu com lente zoom de 3x e uma bateria decente. O sensor era de 2 megapixels.

Seu lançamento em junho de 2000 foi uma sensação. Quase todo geek da época adquiriu uma, comprada a peso de ouro (seu preço oficial era de R$ 2500). As PowerShots tornaram-se onipresentes nas reuniões, festas, baladas e viagens. O fotógrafo e patrono da revista Macmania, David Drew Zingg, viveu o suficiente para brincar com uma dessas Canonzinhas. Ela encaixava-se na sua concepção de foto urbana e de viagem, que pedia apenas uma máquina simples para registrar flagrantes com grande valor humano e pequeno investimento técnico. A Macmania deu um review escrito por mim na edição 79, em dezembro de 2000, onde dizia, entre outras coisas, o seguinte:

A máquina vem com um cartão de memória CompactFlash de 8 MB. Cabem umas 8 a 10 fotos em qualidade alta, ou 15 a 20 em baixa (o número exato varia). Se você tiver (bastante) grana a mais, pode comprar vários cartões e intercambiá-los como se fossem filmes.

Tirar do bolso e disparar não é tão instantâneo quanto com filme. Gasta-se dois segundos para o equipamento ficar pronto, e até aí você já pode ter perdido aquele momento único. A velocidade de disparo é passável: uma exposição a cada 1,7 segundos.

A bateria de íon de lítio recarrega em duas horas, mas dura apenas umas três sessões de fotos. É recomendável andar com uma segunda bateria para não ser pego de surpresa.

...se você não quiser usar flash no modo automático, terá que desligá-lo a cada nova foto.

Para ver as fotos, é só mudar a qualquer momento para o modo Play. É nesse modo que você apaga as imagens ruins, abrindo espaço para as boas. Isso compensa a pequenez da memória.

O custo inicial da PowerShot é bem maior que o de uma boa máquina convencional, mas pense na fortuna que você vai deixar de gastar com revelação e compra de filmes. Com o tempo, a máquina digital se amortiza e até ultrapassa a de filme em economia. É um ponto importante, especialmente para aqueles que queimam rolos e mais rolos de filme em viagens turísticas, reuniões de família etc.

Agora que as câmeras digitais são uma realidade tanto no campo profissional quanto no amador, sempre há os deslumbrados que correm a anunciar “a morte do filme”. Só que isso não vai ocorrer. Falaram antes que o CD acabaria totalmente com o vinil, a TV com o rádio, a Internet com as publicações de papel... e o PC Wintel com o Macintosh. O que ocorre na vida real é que as tecnologias pioneiras não somem, viram nichos; e é exatamente esse fenômeno que está para acontecer entre as câmeras de filme e as digitais.

Curiosidade: as fotos que abrem este artigo, as mesmas que foram usadas naquela edição da Macmania, são scans de alta resolução e não fotos de verdade. Não tínhamos equipamento de macrofotografia decente, muito menos digital. O scan resolvia nossa necessidade para retratar objetos com superfícies relativamente planas, como as câmeras digitais tijoludas da época.

Não tive minha própria Digital IXUS, nem qualquer das variações do famoso tijolinho de metal. Em compensação, as revistas me davam para testar todo tipo de compacta que saía no mercado, como ainda hoje acontece (acabei de concluir o review de seis novas câmeras para as revistas Windows e Mac+). Pois as compactas atuais de todas as marcas seguem fielmente o gabarito estabelecido pela Canon há 9 anos, com novidades incrementais: tela maior, eliminação do visor óptico, controle por toque, cartão SD em vez de CF e modo automático com detecção de cena. A coisa mais diferente na S100 é a ausência do conjunto de botões em cruz, que surgiu na geração seguinte (não sei quem introduziu primeiro esse conceito, mas estou pesquisando).

De forma nada menos do que incrível, ao visitar Santa Efigênia no último sábado encontrei à venda, numa vitrine de um box no fundo de um dos minishoppings de eletrônicos, o que me pareceu ser uma PowerShot S400. O vendedor a desprezava, dizendo que com apenas um pouco a mais de dinheiro eu poderia levar um modelo mais moderno e mais capaz. E de fato, seu formato de caixa de Marlboro e a tela minúscula são os dois detalhes que saltam à vista e reduzem seu atrativo aos olhos de hoje. Tal é a sina de todos os eletrônicos de consumo: nascerem sexies e morrerem repelentes, sem terem mudado eles mesmos em nada, mas sim o mundo ao seu redor. Em sua época (fevereiro de 2003), a S400 era a top de linha de toda a categoria; foi a primeira subcompacta do planeta a combinar um sensor de 4 megapixels com uma objetiva de 3x.

Perto de completar a sua primeira década, o iPod está começando a ser substituído pelo iPhone e outros aparelhos que fazem muito mais do que tocar áudio e filminhos. As câmeras digitais compactas mostram cansaço análogo frente à competição dos celulares com câmera. Tendem a se reinventar como ultracompactas (acaba de sair uma Lumix similar às Sony da série T), como quase-filmadoras (vídeo HD passou a ser requisito básico) ou, no limite das possibilidades físicas, com lentes zoom absurdamente longas. A indústria está percebendo que megapixels já não são argumento irresistível de venda.

Por que alguém compraria em 2009 uma câmera digital de seis anos de idade? Talvez, quem sabe, para instalar este software, que estende os recursos da máquina e implementa coisas como captura em RAW, intervalador, exposição longa, bracketing de foco, detecção de movimento, prioridade de abertura, controle remoto via USB e scripts. O programa não faz mudanças no firmware da câmera, é carregado do cartão de memória. Muito tentador.

Como fecho, eis uma versão atual da Canon PowerShot série SD, que acabei de testar (foto minha):

8 comentários:

Rodrigo van Kampen disse...

Opa,

Eu uso o CHDK na minha Canon PowerShot SD600 há algum tempo, acho que há mais de um ano, e não me arrependo em nada!

Tirar fotos em raw com uma câmera bem compacta é realmente bem interessante. Consegui uns resultados muito bons:
http://rodrigosaxplr.deviantart.com/art/Reflexoes-na-Noite-Bauruense-90261366

Abraços!
Rodrigo

Gregório Moreira disse...

Eu tive uma S200 comprada baseado nesse review da Macmania. rs Foi minha única câmera digital até coisa de dois anos atrás. Tinha 2.0 megas e me acompanhou em quase todas as viagens que fiz nesse período e por um bom tempo fez muito sucesso em festinhas na casa dos amigos. Nesse tempo todo o único defeito que apresentou, e o que me fez aposentá-la, foi uma irritante tela branca que aparecia quando a máquina era ligada e que ficava ali até seu humor mudar. Compreensível, visto sua idade. Na assistência técnica disseram que não compensava arrumar. Saudades da praticidade e eficiência dessa pequena notável. Gostava mais dela do que de minha atual compacta de outra marca, 10.1 megas e mais mil firulas.

Mario disse...

Que fim levou a sua maquininha? Está descansando num fundo de gaveta? Como falo no fim do artigo, ando com vontade de arrumar uma "vítima" para instalar o CHDK e fazer umas experiências, particularmente envolvendo fotografia com longos intervalos. Precisa ser uma Canon quase "descartável" e modelos mais antigos da série S servem perfeitamente. Se interessar fazer doação ou rolo, avise.
(Aos demais, acessem o recém-inaugurado blog do Greg, que é bem bacana: http://gregoriomoreira.blogspot.com)

Gregório Moreira disse...

Mario, dei a máquina para um amigo e, se não me engano, dele ela passou para um outro. Vou verificar e se tiver uma resposta positiva te falo. Falando em doação, possuo um gravador de CD externo LACIE SCSI (grava em 12x) em perfeito estado com cabos e CDs originais. Funcionava em um G3 com placa SCSI Adaptec 2906. Tem alguma utilidade para seu museu? Obrigado por divulgar meu blog. Abs

Anônimo disse...

E o Maitani morreu, né?

Foda. Pouquíssimas notas a respeito. Até no site da Olympus, há homenagens e textos esparsos, quase criptografados.

Mario disse...

Triste isso...
Justamente agora que a Olympus reinventou a fantástica Pen, 50 anos depois da original revolucionar o mercado, em forma digital igualmente inovadora.
Maitani era mais um um dos meus peculiares heróis obscuros.

Anônimo disse...

Total harmonia de vida, a meu ver, é que ele viu todo um ciclo de suas criações darem essa volta até essa iteração do E-P1.

Daí fechou o boteco.

E a propaganda nova da Pen ficou MUITO bacana, mesmo que chupada do japa. Achei as justificativas deles bonita, mas fajutas.

Mario disse...

Hoje o Heinar me deu para experimentar a S400 dele, que estava encostada por causa de um defeito no sensor. As fotos dela parecem uma versão digital da Lomo. Ainda assim, ´´uma maquininha adorável. Mas parece que o CHDK não roda nela, só em modelos mais modernos. Se alguém quiser se livrar de um, confira se está na lista em http://mighty-hoernsche.de e me dê um toque em caso positivo.

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