Logo a seguir saiu uma edição da Veja, revista que já não é assim de ganhar prêmios de design, com uma fotoxopagem mais presépica que o habitual na capa. Dezenas de pessoas prontamente linkaram essa capa da Veja no post do Photoshop Disasters sobre a Playboy e também enviaram emails para os autores do site, pedindo a sua inclusão num post novo.
Demorou, mas cá está:

Qual foi o problema? Não vamos nos deter no fundo infinito branco pobre, nem na péssima colocação das chamadas menores, com bullets desalinhados e até um deles invadindo a foto, muito menos no corte "lobotomizador" que arrancou uma tampa da cabeça da pobre modelo, menos ainda a possibilidade de uma leitura machista de "mulher como um ingrediente de um prato de salada". Vamos nos deter apenas no problema da perna, que foi o que causou a polêmica.
O briefing da foto da Veja é um óbvio decalque desta fotografia famosa:

Só que uma modelo da década de 2000 – ainda mais, uma modelo magrinha convocada para uma capa sobre dietas, mais do que naturalmente não vai aparecer no estúdio com as generosas coxas fusiformes da Marilyn.
Eis o que pretendia o pessoal de edição de imagem. Reposicionando as pernas da modelo (sim, porque acho que mexeram nas duas; já explico), o contorno exterior da foto conforma-se melhor à, aham, referência. Só que com as coxas finas afastadas, a geometria anatômica da moça ficou antinatural. Se você projetar a posição da cabeça do fêmur da coxa e a provável curvatura da espinha dorsal, vai perceber que a anatomia não se encaixa bem no nível esquelético. A relativa rigidez da cintura para cima da modelo da Veja, que está com o torso bem mais ereto e de frente para a câmera que a Marilyn, sugere que se as duas pernas foram deslocadas.
Não sabemos como era a foto antes da edição, pois ela não vazou para a Internet. Eu me atrevi a fazer uma reconstituição especulativa. Note como a foto pede um deslocamento das duas pernas, cada uma numa distância diferente. Creio que, surpreendementemente, a des-edição não muda tanto assim o caráter da imagem. E provavelmente exagerei um pouco. Mas a foto não parece mais um quebra-cabeças.

No meu passado de fotoxopista existem fotos manipuladas com mulheres emagrecidas, mulheres engordadas e até mulheres com uma cabeça aplicada sobre o corpo dela mesma de outra foto. Mas você não vai saber quais são essas fotos se eu não contar, porque as fotografias já foram criadas visando essas manipulações e elas resultaram coerentes e naturais. Não é questão de virtuosismo com o mouse; é questão de planejar e saber exatamente o que precisa ser feito.
Você poderia argumentar que é preciso dar um desconto à Veja, porque um trabalho como este nem sempre será feito com tranquilidade e prazo decente numa revista semanal de grande porte, com um monte de gente dando pitaco, onde tudo é feito muito corrido e a pauta de capa deve ser escolhida no último instante possível.
Só que tem duas coisas. Primeiro, dieta é uma pauta "fria" que foi dada como capa nessa semana graças à falta de notícias consideradas mais relevantes, como escândalos políticos ou desastres de avião. Isso dá a oportunidade de publicar com o maior destaque possível um material de estilo de vida que pode ficar algum tempo pronto na "gaveta", esperando seu momento certo. Assim sendo, se não deu tempo de burilar melhor uma capa "fria", há um problema de organização, além do problema de qualidade.
A segunda coisa é que a concorrente Época, da Globo, que tem uma direção de arte decididamente mais sofisticada que a da Veja (e no geral, reconheçamos, textos melhores também), consegue não apenas desenvolver ao menos quatro capas de uma mesma pauta para escolher a melhor delas no fechamento, como ainda mostra todas as opções para o público opinar no blog.
Como faz a Veja? Sempre omite o crédito da edição de arte da capa, no que, como um cara do ramo, entendo como desrespeito continuado e persistente dos editores em relação à atividade do fotoilustrador. Difícil alguém querer criar uma obra de arte dessa maneira.
É isso. Se você vir nas nossas publicações outra fotoxopagem digna de nota para ser analisada, pode ter a liberdade de me sugerir. E não precisa ser necessariamente desastre de Photoshop. Nem necessariamente de revistas da editora Abril.


6 comentários:
Esse erro da perna deslocada é tão hediondo e ainda tem gente lá dizendo que está certo.... como explicar isso?!
Três comentários nada a ver (mas aproveitando o embalo):
1 - Obrigado pela citação no seu post sobre o (horror)logo de SP;
2 - Não tem como você configurar o blogger para os links abrirem direto numa outra aba? Entendo o porque de você desabilitar o botão direito, e também sei que um ctrl+click resolve, mas às vezes a mão esquerda tá ocupada (segurando um prato, ou segurando a cabeça... hehehehe). Enfim, só uma sugestão mesmo.
3 - Você tem usado o Chrome? Ou eventualmente se depara em leituras (opiniões) sobre ele?
Pergunto isso pois, por duas vezes, numa atualização malfeita produzida pela equipe, ele simplesmente bugou o Yahoo! Mail.
Falta de habilidade do pessoal do Google ou, no fundo, no fundo, sobra uma maldadezinha?
(de repente é ideia pra post, sei lá)
Abraço!
Gabriel, você tem toda a razão quanto aos links externos. Todos deveriam vir com o código target=_blank para abrir o link em página separada. Vou tomar mais cuidado com isso.
Quanto ao Chrome com Y!Mail, nunca experimentei essa combinação. Deve ser um gosto adquirido e não inato, como chocolate com menta.
Eu sei que a "moda" é o GMail (até para quem usa todos -ou quase- serviços do Google, o GMail é bem óbvio), mas eu gosto bastante do formato do Yahoo! Mail "beta" (outra moda de hoje em dia: chamar tudo novo de "beta") responde bem às minhas necessidades.
Mas em duas atualizações do Chrome, o Y! Mail bugou geral... vou pensar que é apenas questão de scripts e que a galera do Google não se atenta às vezes.
Abraço!
Pode ser mesmo. O que acontece em outros browsers? Tenho aqui Safari, Opera, Firefox, Camino e Chrome, para poder fazer testes e também contornar esse tipo de encheção eventual.
Quanto ao estado de "beta", seu significado foi subvertido e corrompido, assim como o significado original de "hacker".
Mas voltemos ao caso Veja.
Minha opinião é que a “seção capista” (ó eu querendo inventar termo…) da VEJA parou no tempo — ela tem como base de inspiração o tipo de “capa vendedora” que a revista TIME fazia nos anos 80 — um dos períodos esteticamente mais fracos da revista norte-americana, ao meu ver.
olá. que post mais bacana esse seu.
realmente é amazing o que conseguiram fazer. olhando agora depois dos seus comentários, obviamente as pernas enxertadas estão fora de lugar.
agora só um detalhe --- acho que as capas da veja são tão pobres e graficamente falando tão mal elaboradas que quase ninguém mais presta atençao no que eles estão colocando lá.
outra coisa --- se a gente levar em consideração que essas capas são tão poluídas e lotadas de informação mal organizada, esse erro ai acaba passando mesmo despercebido.
nada como bater os olhos nas capas da time ou da newsweek toda semana. ou mesmo da economist para ter outros referenciais de trabalho bacana e visualmente interessante.
veja, veja é veja, não é.
:)
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