Mais uma vez nos deparamos com aquela máxima: o cliente é burro.
OK, pode até ser. Inclusive, em boa parte dos casos, é.
Isso você já entendeu há muito tempo, não? Claro, pois entender isso é fácil e cômodo.
Difícil mesmo são vocês designers entenderem que, se o cliente é burro – e, muito por acaso, nossa fonte máxima de renda – cabe a nós nos tornarmos o mais exímio dos pedagogos e ensinarmos o que é certo (ou não).
É muito, mas muito fácil você justificar jogar a culpa de sua incompetência no cliente.
Estamos cansados de escutar aquelas ladainhas babacas de sempre: "Não ficou bom porque o cliente é 'careta' ". Ou "O trabalho é pra um engenheiro, por isso ficou uma merda", ou ainda (a pior de todas) "Não estão pagando muito, por isso fiz qualquer coisa".
Ora, caro mancebo, temos algumas questões a serem esclarecidas então:
–Se você passou anos numa faculdade, gastou dinheiro com mensalidades, livros, revistas e materiais de desenho, frequentou aulas de GD e perspectiva que até hoje não entendeu para que lhe serviram e virou noites para terminar os projetos, será que até hoje você ainda não entendeu o porquê disso tudo? Se o cliente é careta, não cabe a você procurar entender o mais banal fundamento de sua caretice e, a partir daí, acrescentar seus conhecimentos contemporâneos a fim de desenvolver um bom trabalho?
–Quem disse a você que "comercial" combina com "brega" e "antiquado"?
–Se você achava que o preço não era justo diante do seu inquestionável conhecimento e indispensável talento, por que aceitou fazer o trabalho? Falta de autoestima ou de vergonha na cara?
Diante disso tudo, cabe também a mim perguntar a você se o que determina a beleza do seu trabalho é o grau de idiotice do cliente. Em caso afirmativo, concluo então que você não entendeu nada.
Pensem sobre isso e parem de reclamar.
Designer reclama muito e faz pouco.
E considerem isto uma reclamação.
OK, pode até ser. Inclusive, em boa parte dos casos, é.
Isso você já entendeu há muito tempo, não? Claro, pois entender isso é fácil e cômodo.
Difícil mesmo são vocês designers entenderem que, se o cliente é burro – e, muito por acaso, nossa fonte máxima de renda – cabe a nós nos tornarmos o mais exímio dos pedagogos e ensinarmos o que é certo (ou não).
É muito, mas muito fácil você justificar jogar a culpa de sua incompetência no cliente.
Estamos cansados de escutar aquelas ladainhas babacas de sempre: "Não ficou bom porque o cliente é 'careta' ". Ou "O trabalho é pra um engenheiro, por isso ficou uma merda", ou ainda (a pior de todas) "Não estão pagando muito, por isso fiz qualquer coisa".
Ora, caro mancebo, temos algumas questões a serem esclarecidas então:
–Se você passou anos numa faculdade, gastou dinheiro com mensalidades, livros, revistas e materiais de desenho, frequentou aulas de GD e perspectiva que até hoje não entendeu para que lhe serviram e virou noites para terminar os projetos, será que até hoje você ainda não entendeu o porquê disso tudo? Se o cliente é careta, não cabe a você procurar entender o mais banal fundamento de sua caretice e, a partir daí, acrescentar seus conhecimentos contemporâneos a fim de desenvolver um bom trabalho?
–Quem disse a você que "comercial" combina com "brega" e "antiquado"?
–Se você achava que o preço não era justo diante do seu inquestionável conhecimento e indispensável talento, por que aceitou fazer o trabalho? Falta de autoestima ou de vergonha na cara?
Diante disso tudo, cabe também a mim perguntar a você se o que determina a beleza do seu trabalho é o grau de idiotice do cliente. Em caso afirmativo, concluo então que você não entendeu nada.
Pensem sobre isso e parem de reclamar.
Designer reclama muito e faz pouco.
E considerem isto uma reclamação.
~Haroldinho (Claudio Reston), no zine Design de Bolso (edição #6), desenvolvido com Elesbão (José Bessa) (Twitter) em 1999


10 comentários:
Mais atual do que nunca e acho que continuará atual por muito tempo.
Infelizmente, há essa mesquinharia com quem trabalha com criação; designers, publicitários, fotógrafos...
Galera fala, com um ar de superioridade, que os outros não entendem coisa alguma e os debocham. Ok, mas ninguém sabe sabendo e, quem não é da área, não tem a obrigação de entender do assunto. Custa ser didático? E digo mais: ser didático de um jeito SIMPÁTICO, sem, de novo, parecer arrogante, a última bolacha do pacote, um ser abençoado com o dom da criação.
No final das contas, todos ganham: o cliente que aprende algo novo, e o prestador de serviço que tem um cliente que entende melhor das coisas e vai começar a solicitar trabalhos melhores.
Quem sabe um dia?
Abraço!
Imagino MAV que se essa relação envolve-se apenas o cliente e o designer direto 50% do passo para aplicar isso já estaria adiantado. Mas sabemos que em agência é tanta "gente" envolvida que isso cai para 5%.
Opa, honrado!
BTW, o texto é do Cláudio.
Crédito corrigido.
A honra é minha por ainda ter comigo o DDB em papel, uma década depois. E poder citá-lo para voltar a levantar a bandeira do design consciente. Mesmo não fazendo muito design pessoalmente nos dias atuais.
tem que imprimir e colar na parede da sala
Olá Mario, acompanho seu blog a anos, parabéns! Sou formado e pós graduado em design e agora mestrando, passei por mazelas medonhas que via aqui numa pequena cidade no interior de MG, hoje este tipo de cliente que citam como "burro" é base de meus estudos.
Pudera, aqui, como dizem, agencias de publicidade são mantidas por micreiros, pessoas no qual na faculdade regam nossa concepção como um mal que aflorava composto por gente burra e sem noção de design algum. As faculdades de design no país tangem os alunos a um mundo mágico, aonde o cliente é um sujeito culto que entende de gestalt, que você receberá em dia seu dinheirinho e que você terá seu trabalho vangloriado como um ode ao bom design.
Esta germinação desta idéia fez sair das faculdades uma turba de alunos desmiolados achando que falar de bauhaus na entrevista pra operador de impressora em bureau de impressão irá dar a chance maior a vaga que a um rapaz que fale que saiba mexer no "Córeu".
Deste exército de supostos designers a maior parte cai, quando se reluta a fazer um banner com uma foto de criança ou briga "não vou colocar um degradê num logotipo".
Quando eu saí da faculdade imaginava o tal mundo que citei frases acima, mas cai, mas comecei e entender aonde aflora o verdadeiro design. Trabalhei no que seria hoje a parte marrom do design e considerada por muitos colegas uma afronta, pintei faixas de rua, fiz banner em recorte, subia em andaime, aguentava cliente.
Foi quando comecei a usar o design pra valer, vendo que estava cercado de gente e fazendo serviços braçais, comecei a projetar em cima deste mundo, com gosto e realmente um olhar crítico.
A realidade desta área de comunicação visual me permitiu inciar uma espécie de pesquisa no qual catalogava clientes como borboletas, como se cada fosse um briefing a ser entendido, sabendo que eles queriam ou que não gostavam.
Clientes chatos não existiam mais pois bastava olhar pro gordinho de pulseira de ouro suado entrando na sala e sentando do meu lado querendo fazer um logotipo pra uma "roça" eu fazia ele sair feliz da vida em 3 minutos sem complicação, pois aprendí graças ao projeto e a pesquisa entender o verdadeiro público do design no Brasil, o povão.
Enquanto eu lotava os bolsos de dinheiro e trabalhava muito, via colegas de sala na noia de abrir agências mágicas onde levavam calote em cima de calote, e onde o mesmo gordinho ia, só que pentelhava durante 3 horas seguidas e saia de lá com fama de burro.
A engenharia social é uma das bases do design hoje mas muitos esquecem disso e olham para o próprio umbigo, "entender o cliente" como falam no primeiro ano do curso é deixado de lado, daí entram produçõezinhas conceituais lotadas de "brushes" e teminhas vetoriais do Deviantart. Mas cadê o estudo? A teoria? O lado humano? Design não é só desenho!
Não existe cliente burro, existe cliente no qual você não sabe estudar e compreender, portanto se você não é capaz de entender uma pessoa que você denomina "burra" jogue seu diploma pela janela, porque uma pessoa inteligente será impossível para você entender.
No interior, o design é pra povão.
Uma vez ou outra há um trabalho que faz valer a pena, mas enquando os alunos de design continuarem saindo das faculdades pensando nesta glória utópica em se tornar um novo Wollner, veremos mais e mais designers cairem.
Passei por isso, hoje, graças ao passado estou no nicho acadêmico e muito bem e posso bater no peito e me denominar um designer porque sei o básico para exercer a profissão: Entender as pessoas.
Resumindo sua minitese de 3226 caracteres a uma frase simples:
"Conforme-se, a única realidade possível é a pastelaria".
Espero estar equivocado na minha interpretação. Se for isso mesmo, ela ofende quem trabalha para não apenas "encher os bolsos", mas propagar as boas práticas e influenciar positivamente a qualidade dos trabalhos do ramo.
Vindo de alguém que dá aula, tal opinião é mais perigosa ainda. Você acha mesmo que entender de gestalt e querer emular o Wollner é algum tipo de demérito? Que o design sério é o mundo dos sonhos impossíveis?
Além disso, afirmar que o design no interior é pior porque o povo é mais deseducado, além de embutir autopreconceito, ajuda a justificar uma perpetuação da mediocridade. Cuidado.
É possível, sim, satisfazer um cliente sem cultura visual com um trabalho que o próprio designer considere decente. De fato, é uma habilidade social. É a de convencer o cliente da sua competência e estabelecer uma relação de cumplicidade. Ai o cliente topa aprender sobre o seu trabalho.
Estando garantida a sua competência, o projeto caminha para uma conclusão positiva para todos. isso só não acontece quando a interferência política é totalmente inescapável. Mas você não pega esse tipo de bucha se souber bem com quem está lidando.
A pastelaria não é a solução. Nunca.
Complicado, Mario.
Acho que o que ele insistiu em sua tese me pareceu muito mais a defesa do "tem que ter o fator humano, ouvir o cliente, e ter discernimento o suficiente para atender à sua solicitação da melhor maneira possível e sem se perder em preciosismos" do que, necessariamente, bater na tecla da inutilidade do embasamento teórico tão necessário a que esse atendimento seja feito decentemente, mas, que no ponto de vista dele, fica apenas restrito a um discurso elitista, alienante e muito mais fonte de problemas enquanto postura dos profissionais formados do que alicerce e repertório necessários a um bom trabalho prático.
Eu noto que ele não está defendendo a pastelaria pela praticidade de poder dar uma consultinha médica de quinze minutos em que você receita um remédio e presto, resolveu o problema do paciente. Quero antes crer no fator eficácia em termos de corresponder satisfatoriamente à demanda do cliente, sendo bem sucedido em termos de uma prática em que o ganho é de escala: quanto mais clientes puderem ser atendidos, mais você fatura.
O foda, quero dizer, a contrapartida, é que você está absolutamente certo, Mario, quando diz que tais práticas são extremamente empobrecedoras, são igualmente alienantes na medida em que você fica PRESO a um tipo de lógica de atendimento em que você NÃO DÁ O QUE O CLIENTE PRECISA, e sim, O QUE O CLIENTE QUER (e como sabemos, só para os políticos a voz do povo é a voz de Deus). Basta ver, por exemplo, o Maurício de Souza, que ficou durante décadas preso ao sistema narrativo das histórias da Turma da Mônica, sem sair disso, e que aparentemente conseguiu dar uma renovada (ainda que parcial, claro), com a Turma da Mônica Jovem e seu pique narrativo emulando o mangá publicado no Brasil (o exemplo do prisioneiro).
Por outro lado, tenho o exemplo do cara que foi no extremo oposto, o João Emanuel Carneiro, autor da novela A FAVORITA, que se recusava a dar o que o povo queria... até surpreender a todos com a revelação chocante que a Flora, até então aparentemente a mocinha injustiçada da história, era de fato a vilã. Eu ressalto isso como dar o que O CLIENTE NECESSITA, indo muito além do que a mera expressão da vontade dele. E não adianta, isso requer bagagem, repertório, discernimento e embasamento teórico pra poder dar passos deste tamanho.
O grande perigo é gente com esta responsabilidade em ensinar a outros passar o ponto de vista do pragmatismo como se fosse o único caminho correto, menosprezando a bagagem teórica. Sei lá que porra de curso foi esse que nosso pobre colega foi submetido a ponto dele desenvolver esta visão excessivamente pé-no-chão e frontalmente contra a teoria, que, infelizmente, não me parece muito fora da realidade do meio universitário que eu frequentava na faculdade de arquitetura em fins dos anos oitenta... mas deixo aqui o recado básico que sempre ouço para o pessoal que quer trabalhar com histórias em quadrinhos (a turma com quem ando) mas que se aplica muitíssimo bem a profissões como designer e escritores de ficção:
“Não é porque você decidiu SE VENDER que os outros IRÃO COMPRAR!”
Quando seu comentário chegou, pensei que era para o artigo que fala de microstock. Ali também a discussão foi nessa direção, quase a ponto de confundir aspirações de progresso cultural com elitismo, preciosismo etc. De fato, na cabeça de quem visa pagar a conta do seu MacBook na virada do mês e não deixar o nome inscrito em catálogos e estudos, a filosofia e a ética têm relevo diferente.
Há alguns anos, trabalhei para um chefe que só dizia amém aos clientes. Eles tiravam vantagem da sua insegurança. A qualquer momento tudo podia mudar para pior num projeto, simplesmente porque o chefe não sabia expor os valores da equipe ao cliente, e este ficava à vontade para pedir coisas que os designers sabiam pela própria bagagem serem inadequadas, causando um grande desperdício de tempo e recursos até ficar claro para o cliente que a ideia era ruim.
Na outra ponta do espectro, um verdadeiro inventor soluciona a necessidade do cliente antes até que este a formule conscientemente. Esse tipo de criador é extremamente raro, em boa parte feito pelas circunstâncias e não apenas pelo talento. E não é bem-sucedido se insistir em repetir a tática que deu certo da primeira vez. Mas a imensa maioria dos profissionais quer descobrir uma fórmula segura para ordenhá-la ao máximo, e vender isso como sendo talento. No mundo de hoje isso não tem mais como existir.
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