2009-05-20

Playboy criou a fama e deitou na cama

Esta semana, uma foto da revista Playboy brasileira foi novamente indicada no site Photoshop Disasters. E foi nada menos que a capa. Segundo o povo do site, os mamilos da moça teriam sido apagados. Será mesmo?



Por felicidade, a própria revista traz a maneira de tirar a teima e comprovar a manipulação: a foto da capa aparece repetida no ensaio fotográfico. Na foto interna a pessoa tem mamilos, apesar da horrivelmente antinatural curvatura do silicone e das marcas de biquíni exageradas – dois aspectos aceitos pela cultura visual brasileira, mas amplamente criticados pelos visitantes internacionais do Photoshop Disasters – que aparentemente angariam vendas impulsivas em nossas bancas.

Você quer aprender como se faz a prova do Photoshop? Continue lendo.

1. Faça um scan da capa e outro da página interna, com resolução decente e o filtro antimoiré ativado. No caso de scans de página inteira de revistas com lombada quadrada, pode ser o caso de desmanchar a lombada com um estilete e isolar a página. Você perde a revista, mas escreve um belo post de blog sobre o assunto. (Melhor ainda no meu caso, pois obtive os scans sem ter que comprar a revista.) Com as duas imagens abertas, aplique Levels e Curves até que os valores de meios-tons sejam muito próximos. Pode comparar no painel Info do Photoshop, se fizer questão de precisão. No nosso exemplo, o fato de as fotos serem em preto e branco simplificou a tarefa. Aqui estão os dois scans abertos no Photoshop:



2. As duas versões da foto foram publicadas em escalas de ampliação diferentes. Ponha a camada (layer) de um scan sobre o outro (tanto faz a ordem), com Opacity de 50% no de cima, e altere-o com Free Transform até que não fique visível nenhuma falha de registro entre as camadas sobrepostas.

3. Volte a opacidade da camada de cima para 100% e altere o Blending Mode (menuzinho ao lado de Opacity) para DIfference. O resultado será similar ao abaixo. Os pixels com valores iguais nas duas imagens ficam pretos; os com valores diferentes, tanto mais claros quanto maior for a diferença.



Quanto mais perfeito o alinhamento entre as fotos, menor o efeito de contorno claro que ainda aparece em partes da imagem. Não importa que reste um pouco desse contorno, porque as curvas de meio-tom das duas fotos nunca são absolutamente idênticas, especialmente nos tons escuros. Afinal, temos aqui duas impressões com técnicas diferentes e tintas diferentes sobre papéis diferentes. E a rotogravura da Playboy jamais vai chegar à precisão gráfica de, digamos, uma National Geographic gringa. Tudo bem.

Repare apenas no seguinte: toda área onde houver uma diferença entre as versões de uma mesma foto ficará decisivamente mais clara quando visualizada em Difference. Você está vendo os mamilos suspeitosamente claros? Não! Há uma manipulação visível em um dos elos da correntinha e outra na curva da sombra do seio esquerdo. Mas os mamilos não foram apagados da forma que o Photoshop Disasters afirmou que foram. O efeito de ocultamento foi obtido unicamente pela colocação cuidadosa da chamada de texto vermelha.

Quais são as lições que tiramos deste exemplar episódio?

  • Internauta é um bicho afobado, que corre a regurgitar links sem checar a informação. Quem levantou a pauta no Photoshop Disasters, mão à palmatória já.

  • A Playboy já errou tantas as vezes a mão encomendando retoques óbvios, grosseiros e exagerados que criou uma má fama totalmente indelével. Hoje, antes mesmo de ver as fotos, até o público mais iletrado em fotomanipulação já conta com a suspeita prévia de que a revista retoca as imagens sem critério de verossimilhança. Mesmo quando sob prova cabal em contrário de que não o fez, como agora. Mão à palmatória para os diretores de arte míopes, dos fotoxopistas sem refinamento e dos editores sem cultura que subsistem nas redações.

    Enquanto isso, esboça-se em estúdios de melhor nível um movimento pela foto não retocada, ou retocada o mínimo possível para acertar luz e tons, sem carimbinhos nem filtrinhos. O principal expoente desse movimento no Brasil é o Clicio, e sempre apoiei a ideia, apesar de ter criado minha própria fama pré-blog pilotando o Photoshop. A lógica disso é simples: se a foto for bem capturada, não precisa retocar tanto. A bola da vez fica com os fotógrafos.
  • 3 comentários:

    MaGioZal disse...

    Aproveitando aqui o ensejo, quero falar que uma das coisas que mais me chama atenção nas “photoshopagens” da Playboy é o fato dela sempre apagar o ânus das mulheres. É sério.

    Bom, se a política da revista é realmente não mostrar, porque então simplesmente decide-se não publicar as fotos em que ele aparece, em vez de usar o “carimbinho” para criar superfícies biologicamente impossíveis?

    Isso pode passar batido por moleque de 12 anos que nunca viu uma mulher nua de verdade na vida mas… peraí! A revista é para maiores de 18 anos!…:-P

    MaGioZal disse...

    Erro meu: onde se lê “12 anos” aí acima lê-se uma idade bem abaixo disso, visto hoje em dia que qualquer qualquer criança tem acesso à internet.

    MaGioZal disse...

    Ah, falando nesses assuntos, a Elle francesa convidou recentemente famosas como Monica Bellucci para posar para capa… sem maquiagem, nem photoshopagem.;-)

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