Cresci no final da Guerra Fria, e jamais ficou muito distante a impressão de que alguma das potências nucleares certo dia poderia deixar escapar o dedo e apertar sem querer, mas querendo, o botão do Juízo Final. E graças à política de Mútua Destruição Assegurada (MAD em inglês), apenas um dos lados precisaria apertar o botão para decretar o suicídio compulsório da humanidade inteira. Na minha adolescência eu especulava quantos mísseis estariam apontados para São Paulo, pois sabia que a estratégia das potências contemplava com seu brinde de morte todas as grandes cidades do mundo além das suas próprias, a fim de eliminar potenciais aliados que ajudassem a reconstruir o inimigo.
Qualquer um, exceto talvez os próprios líderes das potências, pode perceber que a escalada armamentista foi a coisa mais insana, perversa e hedionda que o ser humano inventou depois dos próprios bombardeios atômicos. Com o fim da Guerra Fria parecia que poderíamos ficar aliviados, mas os loucos que inventaram o absurdo ainda estão soltos por aí. E têm saudades do passado.
É por isso que envelheceram bem os filmes sobre o holocausto nuclear. Além dos que todo mundo conhece - "Dr. Fantástico" e "O Dia Seguinte" - há um punhado de outros que exploram o tema.
Miracle Mile
(Miracle Mile, 1988)
Este thriller dirigido por Steve de Jarnatt (colaborador de "E.R.") conta a história de uma pessoa comum que, por puro golpe de sorte - ou de má sorte - fica sabendo antes de todo mundo que a guerra nuclear começou e os mísseis já estão a caminho. Pode parecer uma premissa forçada, mas na época ela soava muito possível. O protagonista não é um herói salvador do dia, e sim uma vítima dos acontecimentos que tenta reagir com o pouco que pode. Isso contruibui para uma perspectiva sóbria e sem a grandiosidade canhestra de filmes como "O Dia Depois de Amanhã" nem as pretensões didáticas enfadonhas de "O Dia Seguinte".
Surpreendentemente, os primeiros 18 minutos têm todo o clima de uma leve e fofa comédia romântica. Harry (Anthony Edwards, o Dr. Green de "E.R.", ainda com cabelo e parecido comigo quando eu tinha 22 anos) é um músico de passagem por Los Angeles que vai ao museu de História Natural para ver fósseis de dinossauros. Lá conhece a garçonete Julie (Mare Winningham, exibindo alguns dos piores figurinos, makeups e penteados do estilo New Wave). Nasce o amor entre eles.

Mas, por um acidente do destino (uma breve cena que faz um belo comentário filosófico sobre causas e consequências e acaba de ser imitada pela realidade), Harry perde a hora para o segundo encontro. Vai em plena madrugada à lanchonete onde ela trabalha, numa tentativa desengonçada de compensar o furo. Nisso, acontece aquilo que foi descrito pelo crítico Charlie Brooker, do The Guardian, como "a maior mudança de tom de todos os tempos em um filme".

Um orelhão na calçada toca, Harry atende. É uma ligação errada. Do outro lado, pensando que estaria falando com o próprio pai, um funcionário de um silo de míssil nuclear conta, aterrorizado e fora de si, que a guerra atômica foi finalmente deflagrada. Os mísseis começarão a explodir sobre a cidade dentro de 70 minutos. Desde essa chocante revelação até os créditos finais, a narrativa passa a ser nervosa e toda a ação acontece em tempo real, com pequenos cortes imperceptíveis. Nenhum segundo do tempo, nenhum efeito especial é desperdiçado. Harry corre para achar Julie e encontrarem juntos uma maneira de fugir. Uma sequência de eventos bizarros envolvendo diversas pessoas surtadas acaba impedindo-o de concretizar a fuga rapidamente.


O sol nasce, a cidade acorda e a mídia informa prontamente a população da hecatombe iminente. Forma-se então o caos absoluto nas ruas, calçadas e lojas. Gente correndo em todas as direções, incêndios, atropelamentos, quebra-quebras, saques, tiroteios, gritaria, sirenes incessantes. Tudo de repente e ao mesmo tempo.

Uma tomada por cima mostra um congestionamento de carros total e definitivo, com pessoas em pânico correndo por cima dos tetos e capôs.

Harry e Julie, que contavam com fugir da cidade num providencial helicóptero, estão tão confusos e atordoados que não conseguem escapar do inferno a tempo. Ao subirem no elevador, a luz do edifício acaba: terá sido por causa de uma explosão? Na cobertura, um bêbado contempla um míssil subindo ao céu e espera pelo fim com um sorriso insano.

A história é tocante, mas sem pieguice. O drama das pessoas não é pautado pela dignidade; parece, aleatório, sem sentido, até ridículo. A multidão em pânico lembra um monte de baratas ou ratos encurralados. Há lances de ironia cruel; por exemplo, quando Julie fala dos "sobreviventes que vão reconstruir o mundo", Harry retruca: "acho que agora é a vez das formigas".

As reações das pessoas na história são muito variadas. Inicialmente, elas se dividem entre as que creem em Harry e as céticas. As primeiras dentre as que acreditam mobilizam-se para escapar e somem de vista. Outros ficam para trás porque simplesmente não se importam; não sabemos se é porque nao creem, ou porque sabem que não adianta tentar fugir, ou porque estão isolados em seus mundos mentais. Outros, conforme se conscientizam da morte iminente, exibem atitudes cada vez mais inconsequentes e extremas, e todo verniz de civilização por fim se dissolve (de uma forma não muito diferente de "O Anjo Exterminador" de Buñuel, um dos meus filmes favoritos). No fundo, apesar das décadas de tensão e advertências sobre a guerra nuclear, ninguém na cidade demonstra estar preparado.
Ante a inevitabilidade do bombardeio, as palavras de consolo trocadas por Harry e Julie são: "Seremos encontrados um dia... e colocados num museu. Ou então... talvez levemos um impacto direto e sejamos transformados em diamantes."
No próximo artigo vou comentar "Boletim Especial", um premiado filme para a TV de 1983 que retrata um incidente de terrorismo com bomba atômica, do ponto de vista de um telejornal.


6 comentários:
Cara to deu vontade de ver o filme por causa do seu review. Muito bom. Pena que filmes assim não passam na sessão da tarde, mas também, mesmo se passassem não daria para assistir devido ao trabalho.
O jeito é ver se tem na locadora ou torrent.
[ ]'s
Bem legal o post e a indicação de um filme (pouco conhecido, mas muito interessante). Acredito que o frescor de "modernidade" desses filmes sobre guerra atômica aconteça pelo fato de que as promessas e esperanças que o fim da guerra fria nunca se concretizaram. Au contraire: as ameaças aumentaram, com a "democratização" de arsenais atômicas das falidas repúblicas da ex-URSS e com a inventividade e argúcia comuns aos senhores da guerra (pequenos, médios e grandes) imaginando inventos como "bombas/mísseis suja(o)s", lotada(o)s de material radiativo mais barato (sem os complicados processos necessários para a construção de artefatos atômicos) ótimos para acertar regiões de nascentes de rios ou locais de cultivo agrícola. A Guerra Fria expandiu-se, democratizou-se: perdeu um pouco do elan apocalíptico que possuía durante a Guerra Fria. mas nada de seu perigo real.
Além dos falcões e dos políticos, eu colocaria na linha dos culpados pela loucura atômica os cientistas, que adoraram ser adulados e considerados deuses. Canalhas como Edward Teller – que não hesitou em denunciar como anti-americanos antigos colegas (Robert Oppenheimer, por exemplo), quando estes começaram a perceber a extensão da tragédia que a guerra atômica era –, o papai da bomba de hidrogênio, são o antiexemplo da Ciência, que um dia (um Giordano Bruno, por exemplo) resistiu à loucura de morte dos potentados e buscou decifrar a verdade do universo porque isso parecia bom e justo.
Bem legal o post e a indicação de um filme (pouco conhecido, mas muito interessante). Acredito que o frescor de "modernidade" desses filmes sobre guerra atômica aconteça pelo fato de que as promessas e esperanças que o fim da guerra fria nunca se concretizaram. Au contraire: as ameaças aumentaram, com a "democratização" de arsenais atômicas das falidas repúblicas da ex-URSS e com a inventividade e argúcia comuns aos senhores da guerra (pequenos, médios e grandes) imaginando inventos como "bombas/mísseis suja(o)s", lotada(o)s de material radiativo mais barato (sem os complicados processos necessários para a construção de artefatos atômicos) ótimos para acertar regiões de nascentes de rios ou locais de cultivo agrícola. A Guerra Fria expandiu-se, democratizou-se: perdeu um pouco do elan apocalíptico que possuía durante a Guerra Fria. mas nada de seu perigo real.
Além dos falcões e dos políticos, eu colocaria na linha dos culpados pela loucura atômica os cientistas, que adoraram ser adulados e considerados deuses. Canalhas como Edward Teller – que não hesitou em denunciar como anti-americanos antigos colegas (Robert Oppenheimer, por exemplo), quando estes começaram a perceber a extensão da tragédia que a guerra atômica era –, o papai da bomba de hidrogênio, são o antiexemplo da Ciência, que um dia (um Giordano Bruno, por exemplo) resistiu à loucura de morte dos potentados e buscou decifrar a verdade do universo porque isso parecia bom e justo.
Mais uma vez trazendo conteúdo relevante à blogosfera!
Não esqueça de incluir as duas versões de “Fail Safe”.
Abraços!
Antes de Fail Safe, falarei de "Boletim Especial" e "Without Warning", que não é exatamente sobre a ameaça nuclear mas segue a mesma estrutura.
Baixei Miracle Mile por influência deste post. No dia seguinte, encontro as imagens da TV no início do filme em um programa da TV Escola: Cosmos, de Carl Segan! Conspiração do Universo...
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