Como todas as pessoas versadas em cultura já notaram, os livros de autoajuda (N. do E.: com a nova ortografia, a palavra é sem hífen) transformaram-se em autêntico problema social. Uma rápida pesquisa informal nas boas livrarias da cidade comprova que a quantidade de livros de autoajuda em estoque já ultrapassou a cifra lapidar de 66,67% do total, e no ranking geral dos mais vendidos eles respondem por 95,14% dos títulos em lista. Esse domínio exacerbado da literatura momentânea, que oblitera os livros que pretendem cultivar valores culturais mais perenes, só não aparenta ser tão vasto porque muitas dessas pequenas obras oportunistas disfarçam-se de outros gêneros. Preste atenção ao visitar a seção infanto-juvenil da loja, por exemplo; muitos dos títulos clássicos foram convertidos para o novo formato. Agora são baseados em números de pesquisas, testemunhos de anônimos contentes e listas numeradas de dicas:
Isso só para ficar nos exemplos mais conhecidos da literatura internacional. O mesmo acontece com proeminência entre mapas de viagem, livros de arte, agendas de escritório, romances em croata. Tudo transformou-se numa sucessão de conselhos vagos e sabedoria genérica temperados por doses variáveis de charlatanice.
É claro que nada supera a seção de livros de autoajuda que se assumem como tais: entre eles, a superficialidade e o descaramento crescem a cada novo coquetel de lançamento. Uma passada de olhos pela lista dos recentes best-sellers revela uma descontrolada galeria de disparates sem critério:
Contra este estado de coisas levanta-se solitariamente o novo título da Editora 42: "Como Parar de Ler Livros de Autoajuda" (680 páginas), trabalho do renomado engenheiro de sistemas de refrigeração pública e crítico cultural Lou Freeman. Esse autor já surpreendera o mundo em 2004 com o seu monumental "Workplace Brinkmanship" (ainda sem tradução para o português), o livro que revolucionou as relações de trabalho no mundo do design gráfico.
Logo no prefácio, Freeman ataca impiedosamente os criadores daquilo que ele intitula, sem meias palavras nem hífens, de "caçaníqueis editoriais", com a coragem de citar nominalmente alguns luminares da autoajuda; grandes vendedores de livros como Alfred Sigmund Voss, Paulo Coelho, Richard Croydon, Rupak Radhakrishnan e Diogo Mainardi.
No capítulo 1 ele põe mãos à obra, ensinando sofisticadas "técnicas neurocognitivas quânticas" desenvolvidas pelos cientistas da Universidade Católica de Blindland, desenvolvidas para fazer o leitor jamais sentir novamente a compulsão de adquirir qualquer livro de conselhos. Os primeiros exercícios são designados para serem executados em sebos e bancas de jornal, a fim de minimizar ao máximo quaisquer deslizes do leitor-aluno. O nível intermediário explica como encontrar um livro sério numa livraria repleta de arapucas. O nível avançado aborda as situações que contam com o elemento surpresa para empurrar a mercadoria, como infomerciais de TV e caixas de supermercados.
O método preconiza efeitos imediatos a partir do nível básico: "você simplesmente não conseguirá começar a ler outro livro enquanto não terminar este". O material prossegue com uma série de exercícios puramente visuais, que ocupam o terço central da obra, concebidos para serem visualizados em rápida sucessão com os olhos mantidos abertos por meio de um dispositivo encartado no volume a título de brinde. Segue-se a isso uma lista de testemunhos, fotos e depoimentos de pessoas que conseguiram livrar-se do vício da leitura de autoajuda em tempo recorde usando o método e agora conduzem as suas vidas de maneira muito mais gratificante e recompensadora. A parte final é um útil infográfico em forma de pôster dobrado, que pode ser levado na carteira, contendo informações resumidas que permitem identificar qualquer livro de autoajuda em menos de 30 segundos de leitura.
Este trabalho, na minha opinião, é uma excelente contribuição para a literatura que verdadeiramente atende às necessidades das pessoas e não poderia vir em melhor hora. Mas não mereceria ser exposto em meio aos próprios livros que ele se propõe a combater. Infelizmente, foi essa a situação na qual eu o encontrei na Fnac de Pinheiros e também na Livraria Cultura da Paulista. Já notifiquei as respectivas gerências das lojas sobre o caso.
Correndo o risco de soar repetitivo: você deveria mesmo escrever um livro. Mesmo, mesmo, mesmo. Tipo "Como fazer amigos e parecer descolado citando artistas que ningué conhece! (porque você os inventou)" ou "101 discos que mudariam sua vida se existissem".
ResponderExcluirAdorei a ideia do "101 discos que mudariam sua vida se existissem"... Mas cá entre nós... Jura que nunca ouviu falar do Super Money? Acha mesmo que é inventado? Pô... muito mais legal do que Coldplay e Radiohead juntos. Esse pessoal desinformado é f...
ResponderExcluirQue infantilidade criticar livros, quaisquer que sejam. Não há uma lei que a cada novo livro eles tenham que proibir um antigo de ser vendido. Há lugar para todos os gêneros e qualidades.
ResponderExcluirLiteratura não é como rádio que, passando uma coisa ruim, isto toma o espaço da boa.
Caro Anônimo, se você tiver em relação aos livros de qualquer qualidade as mesmas acuidade interpretativa e ponderação opinativa que acaba de demonstrar tão eloquentemente acerca do meu pequeno artigo de humor, atrevo-me a lembrar que os olhos não são suficientes para ler algo, pois o cérebro deve participar também do ato.
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