2009-01-19

Sexta-feira de bike na Paulista





















Assim foi a passeata de bike da sexta-feira à noite na Avenida Paulista, promovida pela Bicicletada, com um número de manifestantes muito maior que o do ato improvisado da quarta-feira, data da estúpida morte da ciclista Márcia Prado embaixo das rodas de um ônibus.

Novamente o clima paulistano não quis ajudar: a chuva começou sincronizadamente com o ato e insistiu em castigar os cerca de 300 ciclistas e pedestres presentes. Todos ignoraram a chuva e seguiram em frente.

Novamente, não houve violência verbal nem física. Uma das faixas dizia, sardonicamente, "Proíbam as bikes: viva a lei do mais forte" e outra, um tanto inocente demais na analogia, "Bem-vindo a Gaza". Quem quisesse podia pegar uma lata de spray branco para ajudar a pintar no asfalto a silhueta da falecida, pouco adiante do local do acidente, gravado com uma cruz também pintada.

Ao mesmo tempo, foi instalado um memorial sob a árvore mais próxima no canteiro da calçada: a "ghost bike", uma bicicleta completamente pintada de branco. Num poste ao lado dessa bike foi montado um par de painéis com fotos e textos para a população ler, mais um livro de visitas para qualquer um escrever uma mensagem.

Hoje (segunda-feira 19) à tarde, passei por ali e percebi que a "ghost bike" parece funcionar melhor como meio de comunicação do que qualquer website. Muita gente que caminha por essa calçada tira um tempo para ler os painéis, várias pessoas a cada vez; boa parte delas tira fotos e assim transmite a mensagem adiante.

(Adendo geek: A Canon Rebel XS - merci VV - desempenhou estupendamente. Capturou o clima que eu via graças ao uso em ISO 1600, com a objetiva estabilizada, permitindo fazer todas as fotos sem o emprego do flash, somente com a escassa luz da rua. Sem estouros de luz, sem sombras pretas, sem tremores e, incrivelmente, praticamente sem ruído. Uma das minhas fotos da quarta-feira foi usada na abertura de uma matéria na IstoÉ, a única das semanais a falar alguma coisa sobre o assunto.)


Combatendo os idiotas, um por vez

Enquanto isso, ao acompanhar a repercussão do meu artigo anterior na Web, percebi que definitivamente há duas frentes de batalha para lutar em nome de um trânsito mais humano. A primeira é mobilizar-se e agir em prol de mais respeito mútuo de todos no trânsito. Se um ciclista quer ser respeitado pelo pedestre e pelo motorista, ele deve agir como um veículo sério, seguindo as normas de trânsito, usando os equipamentos de segurança e pilotando de maneira previsível e defensiva.

Em segundo lugar, é preciso fortalecer o contraponto a um punhado de vozes que são contrárias a se circular pelas ruas das cidades a pedal. Esse pessoal aparece nos lugares mais inusitados. Eu achava que só maníacos por veículos a motor e ignorantes em geral viriam criar caso com os ciclistas. Mas gente aparentemente esclarecida dentro de redações e, incrivelmente, até alguns dos próprios ciclistas opõem-se a um movimento de massa para promover o transporte alternativo.

No texto anterior havia vários "argumentos contra idiotas", mas eles não são suficientes. Acrescente-se o seguinte:

Morre gente no trânsito todo dia, por que isso agora? - Essa é uma pergunta insensível, cínica e mal-intencionada, que ouvi pelo menos duas vezes no fim de semana. Qualquer oportunidade precisa ser aproveitada para promover a paz no trânsito. Que seja necessária uma morte de um ser humano, e tendo de concentrar tantas circunstâncias extraordinárias para chamar a atenção - mulher, cicloativista, no meio da avenida mais importante da cidade, num tipo de ocorrência considerado banal, causada por um motorista profissional, motorista esse que não assume a responsabilidade, e com a mídia dando mais relevância ao congestionamento do que ao acidente - tudo isso diz muito mais sobre o estado moral da sociedade motorizada do que sobre as pessoas que se levantaram contra esse estado moral.

Existem maus ciclistas também - Sim, e daí? Isso é um falso argumento, porque nenhuma pessoa, boa ou má, merece ser punida com a morte pelo seu comportamento na rua. Relativizar o desastre apontando para outra direção não tem nada a ver. E quem faz isso, para mim, o faz de má fé.
Mas a questão é intrinsecamente geral, envolve a todos: há maus motoristas, há maus ciclistas e há maus pedestres. A sociedade deve orientar todos os maus para serem bons, independentemente do meio de locomoção. Todos têm direito a circular com qualquer veículo, mas antes disso, e forma absolutamente inegociável e garantida pela lei, todos têm direito à vida. E a vida só é assegurada pelo respeito mútuo de todos. Quando você deixa de reconhecer um estranho na rua como um semelhante, está aberta a porta para todos os tipos de desgraças.
Por que as discussões anteriores focaram prioritariamente nos maus motoristas em vez de nos maus ciclistas e nos maus pedestres? Porque o veículo a motor desequilibra totalmente a relação. É numericamente superior. Ocupa todos os espaços. Pode ser mal utilizado e criar situações perigosas com extrema facilidade. Pode ser usado agressivamente. Pode virar uma arma.

Não tem jeito, as coisas não vão melhorar, é impossível, desista... - Deparei com esse tipo de idiota várias vezes ao longo de toda a vida. O mais notório em tempos recentes foi o sociólogo que a Folha de S. Paulo, num ato de imperdoável insensibilidade editorial, escolheu entrevistar no dia seguinte à morte da Márcia, dizendo que o problema de São Paulo não tem solução, e ainda chamando de irresponsável a quem promove a bike como transporte na cidade.
A resposta a esse tipo de idiota vem de mais embaixo: da questão sobre o que significa ser cidadão. Ser cidadão não é só pagar os impostos em dia e virar as costas ao que acontece ao seu redor. Ser cidadão é ajudar a criar as condições para as melhorias que beneficiem a todos.
Uma pessoa até pode ser honesta, afável, decente, culta. Mas quando reforça a velha visão vira-lata do brasileiro sem auto-estima, de que as coisas são assim mesmo e não têm conserto, de que vivemos numa terra eternamente dominada pelos espertos e safados, e que só nos resta viver explorados, ela só está ajudando a esses espertos e safados e desestimulando as pessoas de bem. Portanto, não merece epíteto melhor do que imbecil. Os brasileiros como povo não são piores do que ninguém. Os maus elementos existem em qualquer grupo humano e nunca devem ser ignorados nem deixados à própria sorte. E os problemas sociais não são insolúveis. Sempre há mudanças e progressos. Mas eles não acontecem se um número suficiente de pessoas não quiser.
Eis o mais importante: o entusiasmo é contagioso, mas a depressão também é. Se você se sente derrotado, impotente, incapaz, incompetente, roubado, isso é problema seu; não assuma que o próximo deva se sentir igual. Se eu ou o meu amigo acreditou na possibilidade de mudança e você não acredita, a pior coisa que pode fazer é sabotar as nossas esperanças e esforços insistindo que não dá para fazer nada para que nada mude. A isso, é preferível que você fique calado. Não apenas discordo dos derrotistas, chororôs e mimimis, como agora enuncio-os como um obstáculo ativo às minhas metas. O recado é o seguinte: a minha paciência com os inúteis acabou. Saiam da frente. Abram caminho.

16 comentários:

  1. Obrigado Mário por ser uma voz segura e contundente. Precisamos sair deste estado de letargia, as pessoas não ligam mais para nada. Mas espere cair um avião e aí todo mundo vai ficar chocado.

    Quantos ainda precisam morrer para se valorizar a vida, esteja ela em um avião, carroça, bicicleta, sobre a calçada ou mesmo dentro de um carro?

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  2. Gabriel Dias19/1/09 22:56

    Brilhante, como sempre, Mario.
    O trecho que você diz sobre "(...) vivemos numa terra eternamente dominada pelos espertos e safados (...)" me lembrou dessa materiazinha que vi na Folha Online:
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u491368.shtml

    Aí eu lembro daquele institucional do governo "o melhor do Brasil é o brasileiro". Será?

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  3. Sou Australiano que moro no brasil faz 11 anos. Semper andava na Australia de bicicleta e nunca teve uma problema com carro ou onibus - nunca!!! Andava 10 anos aqui em Brasil de bicicleta pois achava absurdo o poluçao que o carro faz quemando e poluindo o ar que a gente precisar e muito estupido junto com a extraição de oleo que não congelar, lubrificar tectonic plates, e balancar a terra em uma maneira mas pesoal achar o unico motivo de oleo é para quemar. Bem, andava cerca de 20kms por dia e não posso contar quantas babacas passou por perto pra dar um assusto, principalmente motorista de onibus, tinha pesoal virar em meu frente querendo me derrubar, tinha tudo tipo de idiota que não respeitar a vida e ainda bem eu sou muito bom de bicicleta dai fugi muitos accidentes manobrindo. Tem ruas muitas perigoas em que eu não andava e pegui a calcada, somente calcada larga sempre respitando os pedestres. Adorei quando Av Paulista esta congestionado pois passei muito facilmente entre os carros sempre olhando por um movemento estupido por motoristas e gostava de falar " vou estar em casa em 10 minutos pra as pesoas que pasei preso em seus carros matando a terra com seu poluçao. Fui bom demais, nao poluindo nossa terra andando milares de kms, em boa forma ate um dia um idiota me forcou num buraco na rua as 21 horas e como eu estava andando ums 30 kms por hora entrou o buraco, guidao quebrou e fui voando ums 10 metres ate batei no calcado. Tinha gente muito bom fui me ajudar, discolocei meu ombro, entre outros machucas, policia chegou 21.10 depois bombeiros chegou 22.00, cortou minha camisa e me levou pra hospital mais lentamente posivel ate ficou perdido indo pra lapa aonde 4 medicos e 2 fermeiras não podem colocar meu ombro de volta usando lencois involvendo 2 pesoas empurrando um direcao e 2 pesoas empurrando a outra. Dai outro ambulancia me levou pra clinicas muito lentamente aonde eles conseguiram colocar de voltar as 3 de manha. Ate agora meu ombro, 1 ano depois esta ruin e naõ voltei da bicicleta - agora ir muito a pe. E um sociedade muito triste aonde tudo mundo so se importar com si mesmo e não respeitar a vida ou a terra que ambrigar nos -egoismo. Oque esta acontecendo com a raca humana? Sou jovem ainda mas ja estou procurando um lugar num ilha sem carros pra morar e moro com tourismo, não aguento mais este tipo de mentalidade pela maioria.

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  4. participo da bicletada.
    obrigado por esclarecer questões e principios que para muitos parecem irrelevantes.

    Susssa

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  5. @Renato, renato: Ao responder as babaquices que se diz por aí, temos que ser intransigentes num ponto: vida humana não se relativiza.

    @Australian: Espero que o seu acidente não tenha tirado a sua vontade de pedalar. A sua história de socorro lento me lembra outra da qual fui testemunha.
    Em novembro, uma estudante da universidade Mackenzie foi atropelada bem na minha frente na Rua da Consolação. Eram umas 21 horas e ela estava à frente de um grupo de pessoas atravessando corretamente, na faixa, com o sinal aberto para pedestres. Uma viatura da PM, que deveria atender alguma ocorrência, subia pela faixa exclusiva de ônibus, aparentemente de luzes apagadas e sem sirene (ou então, vinha rápida demais para as sirenes serem ouvidas a tempo). A moça foi atingida em cheio e ficou estendida no chão com fratura numa perna e vários ferimentos. A lateral do carro ficou marcada pelo choque, com lataria amassada e vidros trincados. Outras viaturas chegaram rapidamente e bloquearam a rua naquele sentido. Os colegas da vítima ensaiaram brigar com a PM, mas foram apaziguados. Uma multidão se formou no meio da rua. A moça permaneceu isolada no asfalto durante mais 40 minutos até chegar o carro de resgate. Só fui embora do local depois de ver a vítima ser socorrida, contando os minutos no relógio. Parecia que eu tinha pressentido a demora no socorro. A moça poderia ter morrido ali, na minha frente.
    Naquela noite eu perdi a confiança nos Bombeiros, que sempre tivera em muito alta estima: até forneci imagens de minha primeira fotorreportagem para um documentário. Mas agora penso diferente. Não podemos contar com pronta ajuda em caso de emergência. Nada explica para mim tal demora no socorro, sendo o local do acidente a 400 metros de um quartel dos Bombeiros e a 1200 metros do Hospital das Clínicas.
    Quanto à PM, não preciso falar nada. Você deve ter a sua ideia formada na cabeça.
    Eu sei o nome da vítima porque o seu atropelamento foi relatado em muitos veículos de comunicação. Mas não sei da repercussão, não sei se a moça ficou bem e se o motorista da PM foi indiciado. Nenhum veículo de comunicação se interessou em seguir o caso. Só a parte desgracenta ficou registrada e catalogada na Web: segundo o Google, ela é "a estudante atropelada pela PM" e nada mais do que isso.

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  6. A inversão de paradigmas é absurda, e está profundamente entranhada na sociedade de consumo cega e irresponsável, onde o valor monetário tudo pode. Não consigo evitar de pensar que a Folha, apesar de tudo, também recebe gordas verbas publicitárias das montadoras, basta abrir o jornal e ver, assim como toda a mídia, que já vendeu a alma ao diabo faz muito tempo. A vida de Márcia é um detalhe, aos olhos dos imbecis resignados, verdadeiros fósseis que nunca pensam em mudar. Quanto ao idiota do sociólogo entrevistado, nossa mídia sempre requisita um explicólogo para manter a atual visão sobre tudo e sobre todos. E aposto um rim que ele foi embora de carro.

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  7. Mário,
    sabe que tenho visto coisas legais por aí? Em Porto Alegre, o número de ciclistas nas ruas (com roupas de trabalho, mesmo) aumentou visivelmente. Mas o mais legal, percebo, é que algumas das bicis que vejo circulando por aí são bem velhinhas: crianças da perifa montadas em Monaretas, várias Caloi 10, velhinhas nas Cecis... e o que mais gosto é que amigos meus venham, super entusiasmados, me pedir dicas sobre onde comprar uma bike legal, MESMO USADA. :-)

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  8. Grande Mário, mandou muito bem de novo. E essa frase - "nenhuma pessoa, boa ou má, merece ser punida com a morte pelo seu comportamento na rua" - matou a pau. É o que eu costumo dizer. Se o motorista acha que eu estou errado de estar ali, tudo bem, que passe e grita pra eu ir pra calçada que seja, mas nada justifica jogar o carro (ou ônibus, por Deus!) em cima de mim para tentar provar um ponto de vista, para me punir com a morte por uma infração de trânsito, ou para em "ensinar uma lição" que pode me custar a vida...

    Muito motorista que não tem idéia que o carro pode matar numa "brincadeira boba" dessas. É coisa que acontece só com os outros.

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  9. Amigo, concordo com tudo que você escreveu.Sou ciclista também.mas parei faz um tempo, por conta do trabalho , horários e principalmente porque, acredite, comecei a ter medo!A última vez que saí, estávamos em três, um cara fechou os três, que ra´pidamente, instintivamente perceberam o que ia acontecer e fomos pro chão com um "leve" toque do carro,que ao parar,seu motorista disse:"vocês não podem andar por aqui".Sempre peguei estradas, em grupo, e já vi coisas muito ruins acontecer.Acho que nos últimos anos, a situação piorou.As autoridades cada vez mais assumem o cinismo como discurso.Como é o caso da cidade em que vivo, Guarulhos, que possui uma ciclovia de 3 ou 4 quilômetros, com obstáculos e interrompida.só lembrada em campanha para os desavisados.Mas sabe, apesar do peso da situação, sinto em suas palavras e no ato em que fizeram, grande força e verdade.É isto.Quero deixar aminha solidariedade e disposição em ajudar.Estou pronto para voltar a andar e se for o caso,conte comigo também para se for o caso, criar uma campanha pró-ciclovias/ciclismo.

    Meu nome é Alexandre, sou arte-educador e faço parte do grupo coletivo 308
    Abraços.

    P.S.Não se preocupe com quem quer desencorajá-lo.Provavelmente, nunca subiram em uma bicileta.talvez, nunca tiveram a necessidade de utilizar um ônibus.Andam de carro, é só o que sabem fazer.

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  10. @Lívia, no Mercado Livre dá para achar ótimas ofertas de bikes, mas tem-se sempre que negociar desconfiado, já que é um item muito roubável.

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  11. Eu morei em Guarulhos durante 20 anos, sem incidentes. Mas acho mesmo que nas cidades periféricas a educação no trânsito declina dramaticamente em relação à capital. E isso porque no local mais importante da capital passa-se literalmente por cima de ciclistas.

    Mas espera lá... Como assim, um motorista comete tentativa de homicídio contra um grupo de três ciclistas, coisa que deve render processo e cadeia, e não é denunciado? Ninguém nem mesmo anotou a placa para ir atrás de satisfações?

    E você me encoraja a continuar ao mesmo tempo que abandona as ruas por medo?

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  12. Te encorajo sim, e disse estar disposto a ajudar.Não encorajaria algo em que eu estivesse fora.Não ando com vocês porque trabalho no período noturno, mas adoraria estar junto,já fui convidado por amigos..
    estou voltando a andar aos poucos.Preciso me acostumar.mas estou andando.mas, guarulhos piorou muito nos últimos anos no que se refere ao ciclismo.
    Quanto a denúncia, o carro em questão era roubado e o paradeiro do motorista é desconhecido.

    Abraço.

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  13. É... não sei se é por causa do trabalho ... ou sei lá o que, mas não fiquei sabendo deste caso não, sou ciclista e moro aqui em Palmas - Tocantins, que é uma cidade que foi planejada... ams planejada para se andar de carro e casos de acidentes com ciclistas e motociclistas são frequentes aqui .. e nada se faz ...

    Fico feliz em saber que há uma manifestação em prol deste!

    Abraços e belo post :)

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  14. Tecnicamente a câmera ajudou, e as imagens são muito comoventes.

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  15. Carla Zucchi Weissheimer3/3/09 20:10

    Encorajo e incentivo todas as iniciativas pro-bike. Parabéns pela matéria e gostaria de saber dias e horários dos passeios. Um grande abraço e sucesso!

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