2009-01-06

A nova ortografia - Parte 1

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa está aí. Embora o prazo para adaptar os textos seja longo, a maioria dos veículos brasileiros mudou abruptamente na primeira oportunidade, mesmo sem suporte decente de dicionários e corretores informáticos. Tenho lido muitos artigos discutindo e criticando a minirreforma, e outros tentando explicar o que muda. Este site já está seguindo as normas do Acordo há alguns meses. É claro que com naturais deslizes, mas a gente vai se acostumando. Não é tão complicado. Como treino, juntei exemplos do que mudou, precedidos de um comentário crítico. A minha abordagem é eminentemente prática: quais são as palavras relevantes que sofrem mudanças?

EXCELENTE: acaba o desnecessário e feio acento nos ditongos abertos em paroxítonas, como já se usava em Portugal:

ideia
heroico
Coreia
europeia
colmeia
hemorroida

RUIM: o serviço ficou incompleto, pois persiste retardadamente o acento nas oxítonas derivadas das mesmas raízes:

herói
anéis
chapéu
espanhóis

Isso vai criar confusão onde antes não existia, deixando claro que esses acentos só são úteis para os tarados por etimologia. Pessoalmente, minha vontade de escrever heroi sem acento é irresistível.

ÓTIMO: acabam os acentos em hiatos de vogais repetidas, como já era em Portugal:

veem
creem
leem
voo
enjoo

BOM: acabam os acentos diferenciais:

para
pelo

RUIM: mantém-se o acento diferencial em:

pôde
pôr

Isso deve servir para ajudar o hipotético imbecil que desconheça o contexto da frase.

BEM FEITO: somem os horrendos acentos de verbos rizotônicos e de paroxítonas com i e u tônicos precedidos de ditongo. Já vão tarde.

argui
enxague
baiuca
feiura

CONTROVERSO mas BOM: o trema, que a Folha de S. Paulo decidira abolir por sua própria conta há uns 15 anos, finalmente desaparece de todas as demais publicações no idioma. Assim como as letras K, Y e W, só está liberado em nomes próprios, como Schicklgrüber. Aguentaremos tranquilamente comer cinquenta linguiças de pinguim?

ÓTIMO: o hífen desaparece das palavras formadas por prefixos terminados em vogal com o restante iniciado em outra vogal.

autoajuda
autoescola
contraindicação
infraestrutura
semiárido
ultraeletrificado

RUIM: a norma acima não funciona se a segunda parte da palavra começar por H:

anti-histamínico
pré-história
anti-histriônico

Na minha arrogante opinião, o H mudo inicial, cuja sobrevivência só satisfaz os gramáticos, devia ter sido abolido já em 1911. No italiano funciona assim e ninguém estranha. Por que não?

HORRÍVEL: nas palavras prefixadas nas quais o prefixo termina em vogal e o resto começa com R ou S, o antigo hífen é trocado pela consoante, agora dobrada.

antessala
antirrugas
untrassonografia
extrasseco
antissocial
autorregulamentação
ultrarreligioso
contrarregra

Consoante dobrada é um lixo. Ponto.

PÉSSIMO: se o fim do prefixo e o início da segunda parte da palavra tiverem a mesma vogal, passa a haver um hífen onde antes não havia.

anti-inflamatório
arqui-inimigo
micro-ondas
micro-ônibus

Há uma exceção quando o prefixo é "co-":

cooperar
cooptar

ÓBVIO: O hífen some das palavras em que, nas palavras da norma, "perdeu-se a noção da composição":

paraquedas
paralama
parachoque

O critério vago é uma das fontes de controvérsia entre os dicionaristas. Isso só ajuda a reforçar a minha resistência contra a introdução do hífen em qualquer palavra que não o tivesse antes.
Essa norma e a anterior, que complicam as coisas sem necessidade, me dão vontade de praticar uma desobediência civil básica e simplesmente grafar tudo sem hífen, como em alemão.

INDIFERENTE: Mantém-se o hífen após os prefixos vice-, ex-, pós- pan-, além-, recém-, sem-, sufixos de origem tupi e nomes que interconectam duas coisas.

inter-religioso
vice-rei
pan-aural
sem-teto
escoteiro-mirim
Baquirivu-guaçu
Rio-Santos

PODIA SER MELHOR: Desaparecem os hifens de diversas locuções comuns. Infelizmente mantiveram-se muitas exceções bobas, que vão requerer consultas ao dicionário:

água-de-colônia
arco-da-velha
cor-de-rosa
pé-de-valsa
queima-roupa
pré-história

EXPLOSIVO: a norma prevê facultatividade gráfica para muitas palavras. Formas dialetais com pronúncia diferenciada, como

facto/fato
exacto/exato
óptimo/ótimo
direcção/direção
aspecto/aspeto
caractere/caratere
excepção/exceção
peremptório/perentório
subtil/sutil
súbdito/súdito

podem ser escritas em qualquer uma das variantes em qualquer local que use o idioma. Portugueses ficaram furiosos com a regra, porque para eles é uma porta aberta para a imposição, via mídia importada, da forma brasileira sobre os demais lusófonos no mundo, que são minoria. O queixume tem uma boa razão: não se trata aqui de simples variantes de escrita, mas de variações fonéticas reais em palavras importantes. Assim, esta é a única reforma ortográfica do mundo que se diz unificadora mas não unifica. Na prática, a facultatividade é um tiro no pé, sem objetivo linguístico, apenas político.

JÁ DEU TEMPO: Coisas que tinham sido alteradas em 1971 mas o povo insiste em escrever do jeito antigo? As formas abaixo NÃO estão certas e não levam acento. Já se passaram 38 anos, é mais do que hora de aprender isso de uma vez por todas!

côco
êste
aquêle
cafèzinho
hipotèticamente


Para matar as últimas dúvidas existe este site, onde você pode colar um trecho de texto e obtê-lo corrigido.

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14 comentários:

  1. Com várias meia-regras, a coisa complicou. Adoria uma reforma ortográfica que simplificasse de vez, no mais das vezes seguindo suas sugestões. E dá-lhe conversor até eu me acostumar...

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  2. Matar a crase nem pensar, neh...

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  3. anderson7/1/09 00:18

    Côco e cocô não tem acento? Subi na palmeira e alguem tinha deixado um coco na copa.

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  4. Adorei o post! Seus comentários foram ótimos. Compartilho das mesmas opiniões, rsrsrs.

    Agora, uma coisa é certa: a maioria das pessoas - se não todas - irá penar bastante pra se adaptar.

    Conversores e dicionários?? Hum... talvez ajudem! Se não fossem as regras que tem exceções doidas que só confundem a cabeça.

    Tô pagando pra ver (ainda)!!!

    ;-)

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  5. Eu fiquei ressentido do acento diferencial, mas admito que era mais por capricho meu.

    Concordo em gênero, número e "degrau" com você sobre os acentos em vogais abertas. Ou tira tudo, ou não tira.
    Da maneira que está, dá-lhe gente separando as palavras (mentalmente) para saber se é ditongo ou não. Desnecessário.

    Dúvida que ninguém me tira:
    Por que raios "ninguém", "também", "contém" (e afins) têm acento se a nossa pronúncia é "ninguêm", "também"... ?

    Pelo menos no BR, ainda falamos "idéia", então tem algum sentido se fosse mantidos.

    Sobre a nova hifenização.... eu mal sabia antes, agora eu vou saber menos ainda.

    Essa "reforma" na verdade foi só uma demão de tinta para parecer novo, mas não conserta o que deveria ser consertado. IMHO.

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  6. No site que você indicou (portuguesexacto.pt) o conversor muda obrigatoriamente exacto para exato! Achei estranho, achei que eram boas as duas formas e tal...

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  7. É uma falha do site. O certo é preservar a variante dialetal original de quem escreveu. Exacto lá, exato cá.

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  8. muito interessante, a adequação sera demorada, mas são mudanças importantes, sua iniciativa foi bem valida, aguardo as proximas postagens..
    forte abraço
    filipino

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  9. Flavio Donadio12/1/09 23:45

    O hífen nos encontros vocálicos servia apenas para destacar o hiato que existe ali. Era desnecessário, mas eu curtia.

    Eu acho que o Mario resume bem toda a idéia com essa frase:

    "é um tiro no pé, sem objetivo linguístico, apenas político."

    Eu sei que o Mário se referia apenas à facultatividade, mas me apodero da frase para dizer que a reforma, como um todo, é um tiro no pé. Desaprovo totalmente, pois tenho coisas muito mais importantes a aprender do que aprender a escrever de novo.

    Acabar com o trema, na minha opinião, também foi pecado grave. Se acabarem com a crase e nos forçarem a escrever "aa", faço toda a questão de desaprender a falar o Português e me converter ao Esperanto!

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  10. Você está errado com relação a "para-lama" e "para-choque": ambos continuam com hífen.
    Lúcia Helena Velloso - Revisora da Ed. Rocco

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  11. Nada como uma correção eficaz, na base da carteirada e sem um pingo de gentileza.
    Paralama e parachoque estavam, antes da reforma, registrados em dicionários sem o hífen. O novo vocabulário da ABL preferiu incluir o hífen.
    Mais informação aqui: http://blog.estadao.com.br/blog/novaortografia/

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  12. vai toma no cú com essa nova ortografia
    quem sãos esses otarios que inventam isso ??

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  13. Você saberia se tivesse usado o seu tempo de xingar para, em vez disso, pesquisar.

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