2009-01-27

Macintosh faz 25 anos







Em dezembro de 1993, aconteceram simultaneamente quatro coisas que eu considero pessoalmente influentes na minha, ahã, carreira.

1 O Macintosh completava dez anos de existência. A plataforma tinha tido grandes progressos. Ainda não havia a sombra da crise gerencial na Apple, nem o fantasma da concorrência do Windows 95 pegando carona no crescimento explosivo da Web. O Mac vendia bem e seu público era uma elite, já que o produto fora reposicionado, de um pequeno computador doméstico para uma workstation para profissionais criativos. Em 1993, a Apple foi a marca número 1 de computadores nos EUA, estabelecendo o recorde de 13% do mercado. (Aqui no Brasil, Mac só existia de contrabando ou importado por pessoas jurídicas a preço de platina, por causa da estúpida reserva de mercado inventada por tecnocratas do tempo da ditadura - mas isso é outra história, a ser contada em outro post, ou talvez não.)

2 No estúdio A.N.T. do artista plástico Angelo Palumbo, no Sumaré, São Paulo, eu tinha três máquinas à disposição para explorar novas tecnologias de arte digital. Um PC 486 bem nutrido, um elegante Commodore Amiga e um Macintosh Quadra 700 turbinado com placa de entrada e saída de vídeo, drive SyQuest de 88 MB, monitor NEC MultiSync, scanner HP, System 7, Adobe Premiere, Photoshop e um pacote de 3D. Eu já vinha de uma boa experiência com PCs e Macs. Mas o Quadra me enfeitiçou tanto que os outros computadores ficaram abandonados; o monitor do pobre Amiga ainda virou um segundo monitor para o Mac. Comecei a usar o Photoshop na versão 2.0. Ainda sem BBS, email, chat e Web para me distrair, eu investia os dias estudando a fundo os novos e maravilhosos softwares. O portfólio da A.N.T. era, em vez de um folder ou folheto, um vídeo. Gerado dentro do Mac. Um luxo.

3 Não longe dali, numa ladeira no Paraíso, era finalizada a primeira edição da Macmania, uma revista independente fundada por um pequeno grupo de entusiastas, encabeçados por Heinar Maracy e Tony de Marco, com tanta ambição de conquistar o mundo quanto aqueles outros malucos que tinham inventado o Mac uma década antes. Não contavam com absolutamente nenhum apoio da Apple, que nem mesmo tinha escritório no Brasil. O mais irônico é que a Macmania era um spin-off de um fanzine de humor, o Macintóshico, que fora criado em Mac, impresso a laser e enviado por fax. O Macintóshico virou encarte da Macmania. Foram 41 encartes distribuídos entre 131 edições da revista ao longo de 11 anos. O meu trabalho com Palumbo virou nota na edição 6 da Macmania. Conheci os editores por intermédio de colegas em comum na Folha de S. Paulo. Larguei o jornal e virei co-editor da Macmania na edição 26 (mas, por dividir meu tempo com o BOL, só assumi o posto efetivamente na edição 32).

4 Ao mesmo tempo que tudo isso ocorria, uma dupla de jovens colunistas de Mac, Bob LeVitus e Michael Fraase, lançavam um livro com um retrato amplo da cultura do Mac nos EUA naquele tempo: Guide to the Macintosh Underground. Absorvi esse livro como uma esponja. A coisa mais extensa que eu lera sobre Mac antes dele foram a enviesada autobiografia do CEO John Sculley, Odyssey, e alguns artigos na finada revista Byte.

Achei o "Macintosh Underground" numa prateleira da Cultura e comprei-o porque tinha grande curiosidade sobre os Macs e as coisas que se podia fazer com Macs, e a única outra coisa disponível que tinha a ver com Macs eram uns livros-cursos da Adobe. (Apesar de eu ensinar Photoshop profissionalmente, até hoje nunca fiz um curso oficial da Adobe.) Só depois de ler uma parte do livro, entendi que "Mac" não era apenas um tipo de computador; era também uma subcultura rica, com parâmetros próprios, dinâmica, história, símbolos, códigos e personalidades. Somente vários anos depois o mundo PC assimilaria pedaços desse universo. Certas partes, como a mania coletiva de personalização com ícones e extensões malucas, jamais se repetiria da mesma maneira fora do Mac.

O livro ainda hoje exala entusiasmo e espírito revolucionário. É denso; muitos dos insights soam originais e novos. O espírito daquilo que a badalada revista Wired tinha de verdadeiramente bom e instigante em 1994, e não tem mais hoje, está concentrado ali. Mas o que me intrigou mais dentre tudo era um trecho intitulado "How Multimedia Almost Killed The Macintosh". O texto começa falando do HyperCard, o software da Apple que antecipou a multimídia e também o hipertexto na Web. O lançamento foi um relativo fracasso, porque faltava um ingrediente importante para alavancar a eficácia da multimídia: inteligência para extrair sentido da informação. Sem a inteligência, segundo LeVitus, a multimídia "não passa de televisão ruim com o som melhorado". Após descrever alguns CD-ROMs multimídia em voga na época, ele prossegue a sua tese (tradução minha):

Dissemos antes que o Macintosh foi um salto de paradigma. Ele mudou para sempre a maneira como nós pensamos sobre computadores. Nunca antes uma máquina pareceu tão convidativa, tão íntima, tão pouco intimidadora, tão divertida. Muitos donos de Macs desenvolveram relacionamentos com o computador que só podem ser chamados de simbioses. Batizamos nossos HDs com nomes bacanas; de acordo com muitos estudos, passamos a gastar uma quantidade extraordinária de tempo com nossas máquinas.
Com o lançamento do HyperCard em agosto de 1987 (descrito e vendido como sendo um kit para a construção de aplicações multimídia e gerenciamento de informação), a empresa posicionou-se para participar no terceiro salto de paradigma. Esse salto - a transição dos documentos planos e bidimensionais para documentos eletrônicos em três e até quatro dimensões - pode bem ser um salto tão importante quanto a introdução e a aceitação do próprio computador pessoal. Assim como o Apple II e depois o Macintosh mudaram a nossa maneira de pensar sobre o que é um computador, a multimídia específica para o Mac irá nos mostrar uma nova maneira de pensar sobre como usar um computador.
Mas não ainda. A Apple estabeleceu os critérios para a mudança de fase que precede o salto de paradigma da multimídia, mas há pedaços faltando. Multimídia não diz respeito a hardware nem a software. É um meio de comunicação - ou, mais precisamente, uma coleção de meios de comunicação e nada mais.
A maior peça que falta no quebra-cabeças é a inteligência. O Macintosh deve nos ajudar a lidar com a informação por inferências e padrões. O computador deve ser capaz de aprender a partir da observação de nossos hábitos de trabalho.
A inteligência combinada a múltiplos meios ricamente integrados nos tornará muito mais produtivos. Infelizmente, a integração rica é outra peça que falta. O Mac sempre teve uma capacidade de áudio sofisticada, por exemplo, e a maioria deles vem com microfones. Porém, muito pouco é feito para tirar vantagem dessas capacidades. Sim, você pode fazer o seu Mac produzir um som de vômito ao ejetar um disquete. E daí? Isso permite a personalização do ambiente de trabalho, mas não adiciona valor nenhum ao lidar com informação.
Para que a multimídia baseada no Mac cause um salto de paradigma, o Macintosh deve desaparecer. Calma! O que queremos dizer é que, a fim de que a multimídia seja efetiva, o mecanismo de transmissão (assim como o meio em si mesmo) virtualmente desapareça. Por exemplo, o áudio de muitos projetos de multimídia foi criado usando-se um Mac, mas não é isso o que você escuta. O que você escuta é um áudio rico. O Mac, os instrumentos musicais e o próprio CD virtualmente desaparecem quando você ouve a música. Mas esse é somente um meio: é som, não é multimídia.
Quando a multimídia for finalmente feita do jeito certo, com inteligência e integração fluida, ela dissolverá a barreira entre você e aquilo no qual está trabalhando. Programas de software separados se dissolverão; existirá apenas um ambiente de informação combinando texto, imagens, sons e vídeo. Você não precisará mais usar um editor de texto para trabalhar com texto, ou um editor gráfico para trabalhar com imagens. Todas as ferramentas estarão presentes juntas e ao mesmo tempo.
Uma coisa que diferencia o Macintosh de outros computadores é a sensação de não-modalidade. De acordo com a primeira edição do manual "Human Interface Guidelines" da Apple, seção "The Apple Desktop Interface":

"Com poucas exceções, uma dada ação do usuário deve sempre gerar o mesmo resultado, independentemente das atividades anteriores. Modos são contextos nos quais a ação do usuário é interpretada diferentemente de como seria se a mesma ação fosse interpretada em outro contexto. Em outras palavras, a mesma ação, quando completada em dois modos diferentes, resulta em duas reações diferentes. Um modo tipicamente restringe as operações que o usuário pode executar enquanto o modo está em efeito."

Contudo, os aplicativos de software são modais em si mesmos. Por exemplo, você precisa abrir um processador de texto antes de escrever uma carta. Algum dia, poderemos trabalhar num ambiente de computação completamente não-modal, e esse ambiente será baseado em multimidia, ou ao menos não será baseado em mídia. Mas isso provavelmente não acontecerá até que a realidade virtual seja tão difundida quanto os computadores e modems são hoje. Quando isso acontecer, o Macintosh não será mais o Macintosh.
A multimídia quase matou o Macintosh uma vez. Mas quando a Apple - ou outro alguém - finalmente fizer a coisa da maneira certa, a multimídia seguramente irá matar o Macintosh. E isso será Uma Coisa Muito Boa.


Quinze exatos anos depois, ainda lembro do impacto que senti lendo essa ambiciosa profecia.
Ao assistir à posse do presidente Obama pela Web via streaming, com imagem fluida e comentários em tempo real de outras pessoas do mundo todo, caiu a ficha de que a minha casa não só não tem televisão como nunca mais terá. Falo da TV na concepção que os meus pais conheceram. Haverá sempre o monitor de alta resolução e as caixas de som. Mas a programação exibida será aquela que eu quiser, sem limitação de fornecedor e sem interrupções.
Então, para começar já temos a integração de meios.
O desenvolvimento da inteligência também ocorreu, mas não dentro da máquina. O que está emergindo é uma inteligência global, distribuída por toda a Internet. A tal “nuvem”. É uma tecnologia tão profunda, vasta e radical que podemos perdoar o livro por não tê-la antecipado.
Muito do que chega à tela do meu computador é relacionado ao que já acessei, aumentando a relevância pessoal das informações. Mas até quando um website substitui a TV, ele oferece uma experiência mais rica. Há conexões para outros conteúdos relacionados. Há interação em mão dupla. E as experiências continuam uma na outra, sem divisões arbitrárias. Tudo converge harmoniosamente no browser.
E o ciberespaço tornou-se ubíquo sem depender da realidade virtual, que era tida como um pré-requisito básico há 15 anos. Ambiente imersivo em 3D acabou restrito ao domínio dos games.
No meu trabalho, enorme parte das minhas aplicações de uso diário podem ser supridas por um computador banal em qualquer lugar, bastando que esteja conectado à mãe de todas as redes, que é onde as aplicações moram. Entro com algumas senhas e o meu ambiente pessoal de computação está disponível onde eu estiver. Gmail, Evernote, Flickr, Blogger... Até mesmo o Photoshop está migrando para a “nuvem”.
Embora a orientação pelo conteúdo de informação e não pelo software que o manipula seja melhor expressa pelo Mac OS X do que pelo Windows – com os menus separados das janelas de documentos –, as aplicações que fundem todos os meios num conteúdo combinado grassam no ambiente coletivo, na Web colaborativa, não mais no desktop. E quanto mais ficam espertas, mais irrelevante fica a caixa onde isso tudo está rodando.

Se já é assim hoje em dia, por que o Mac ainda não deixou de ser o Mac?
Espere... Tem certeza?
Cada iPhone ou iPod é um Mac disfarçado. Todos têm a mesma tecnologia subjacente e uma mesma inteligência compartilhada.
Se a Apple vendeu no último trimestre 2,5 milhões de Macs, 4,4 milhões de iPhones e 22,7 milhões de iPods, assim que você redefine “Mac” como “dispositivo de comunicação multimídia integrado online rodando um tipo de Unix com perfumaria Apple por cima”, o número efetivo passa a ser de 30 milhões de “Macs” novos em apenas três meses.
Eis aí a pista para o fato de a Apple permanecer relevante e influente num mundo no qual o PC tornou-se “genérico” e “comoditizado”.
Fechada a equação, o Macintosh está, sim, deixando de ser ele mesmo – no sentido pelo qual concebíamos um computador pessoal há 25 anos – para renascer em múltiplas novas formas. Tente imaginar algumas das formas que existirão daqui a outros 25 anos!

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O blog de LeVitus está aqui.
Houve uma festa de reunião dos projetistas originais do Mac. Fotos aqui. (Se você ainda não conhece o Guy Kawasaki, conheça; é uma das personalidades do mundo Mac que valem mais a pena, depois de Jobs, Jony Ive e os demais "suspeitos de sempre" - David Pogue, Walt Mossberg.)



E a revista Mac+ que está nas bancas traz um artigo especial de capa resumindo a história do Mac desde o seu lançamento.

Feliz aniversário, Mac!

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10 comentários:

  1. Ha! eu tive o HyperCard original no Apple IIGS.

    Em 2004 fiz minha monografia (OS WEBLOGS COMO FERRAMENTA PROMOTORA
    DA DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO NA INTERNET) e li A Vida Digital (dispensa apresentações), comentei a seleção de conteúdo, o narrowcasting e a migração dos softwares para seus modelos online, que você comentou aí.
    Me identifiquei muito com o texto.

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  2. Helvécio27/1/09 21:11

    Esse texto que você colocou me lembra muito uma tecnologia da Apple que quando li sobre ela, e depois vi em funcionamento pensei que seria o futuro da computação. Pena que morreu, talvez até por ser ambiciosa demais!

    Me refiro ao OpenDoc, que a maioria das pessoas que conheceu se limitou àquele cachorrinho simpático do "programa"de email!

    A filosofia por trás daquilo é exatamente o que está descrito: a não necessidade de programas separados para trabalhar com texto, imagens, áudio, vídeo, rede, etc.

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  3. Eu tenho os CDs de desenvolvimento do OpenDoc. Era uma boa ideia sem nenhuma chance comercial dentro do modelo de negócio das companhias interessadas, Apple e IBM. Não se engane: a cultura do desktop continua firme em torno do aplicativo dedicado. Para fotos, Photoshop. Para texto, Pages. Para planilhas, Excel. E assim por diante. A mudança está acontecendo dentro do browser. A flexibilidade da Web está atingindo objetivos similares - um ambiente de trabalho "documentocêntrico" - sem ter que quebrar o que foi criado antes, e por uma via totalmente diferente da preconizada pelo OpenDoc. Tanto aqui como na previsão do livro, chegou-se a um futuro certo por caminhos alternativos.

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  4. Legal esse post! Vou ver se compro esta edição da Mac+ aí…

    Anyway, fiz um experimento besta aqui somando 1984 com 2009 e dividindo o resultado por dois… cheguei à metade do ano de 1995, e os três Macs compactos produzidos naquela época foram o LC 575, o Performa 5200 e o último dos compactos clássicos, o Color Classic.

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  5. Isso é bom, Microsoft caindo, Apple subindo. Gostei muito do texto.

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  6. (Tietagem)

    Olá Mário. Inspirador o post. Sou mais um dos que enxergam algo a mais no Mac. "Entendi que "Mac" não era apenas um tipo de computador..." Eu recebi esse número da Mac+ em casa e na mesma hora percebi que a capa era sua. Sempre fui fã do seu trabalho e do Tony na Macmania (na época ainda era usuário de PC).

    Leio seu blog há algum tempo (com várias idas e vindas) desde o tempo da Zel e seu namorado (que esqueci o nome), da Cora Ronai, das fotos do "nada" do Tony... Na época eu tinha o Febre 7 e o Quase Deus.

    Valeu recordar. Um abraço cara!

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  7. @MaGioZal: Color Classic já era bem velho nessa época. Embora seja meu Mac tudo-em-um favorito de todos os tempos. Dele para o 5200/5300/5500 foi uma decadência clara no design, embora essa série tenha feito mais sucesso. O Color Classic era limitadíssimo e sofreu um fracasso muito similar ao do G4 Cube dez anos depois.

    @Rogério: Eu lembro das pessoas mencionadas. Na verdade todas ainda estão por aí, e quem era amigo meu nesse tempo continua sendo.

    O Mac é mais do que o computador; criou uma cultura em torno dele desde o início. Mas se você perguntar a um aficionado, de MSX, Amiga, OS/2, Atari e outras coisas da época, incluindo versões antigas do Windows, ele vai dizer a mesma coisa sobre a sua predileção.

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  8. mário, vc sabe de alguém interessado em um Classic II funcionando? com toda a documentação. ele ta com tudo funcionando, e tem uma impressora junto, só não vi ainda qual. uma amiga está com um pegando poeira na casa dela e quer se livrar dele, mas ela não quer dá-lo. você sabe se ele tem algum valor???

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  9. Como assim? Eu tenho um museu de informática com vários Macs antigos. É complicado enviar para mim essa máquina? Pegue meu email e combinemos: differentthinker arroba gmail ponto com.

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  10. E não, máquinas anteriores ao G4 não têm valor comercial. As antigas que têm valor de mercado para colecionadores são poucas e baratas. Confira no eBay.

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