2008-11-29

Chequem as fontes, idiotas









A mancada começou na agência de notícias espanhola EFE e espalhou-se imediatamente para dezenas de páginas da Web do tipo que coleciona "bizarrices", "curiosidades", "notícias", "humor" e as demais categorias da moda do momento. Na maioria desses sites, a notícia falsa ficará sem desmentido, gerando mais um daqueles hoaxes persistentes que invadem nossos emails periodicamente. Parabéns, IRFAK, quando crescer eu quero ser como você!

Update - Este post inspirou o Blog dos Malvados do André Dahmer. Na versão dele, o título é "Checar as fontes? Nem pensar...". Impensável que um título meu para uma crítica pudesse ser mais violento que um do André sobre o mesmo assunto.

2008-11-28

mais mals esemplos de portuges



Mais uma coleção de erros comuns de português na Web.
Nenhum deles é gracinha, miguxês ou tiopês. É erro mesmo.
Se você chegou aqui por uma busca no Google, tome jeito!

A muito tempo...
abastardas
anciedade
antes que vc vinhece...
aproposito
cerumano
chegam aconcrusoes...
conheçe
dançe
descutindo
do meu interece
embarasar
encomodarem
errônios
Eu falo mau
Fala seriu!
familha
geito
haviam ônibus
impecílios
incoveniêntes
mal exemplo
margia
nescessario
nos vinhemos
O que poço de adiantar é que...
opnião
pansinha
percussão mundial
prevalescer
publistários
quando dis
se focemos...
será que minha mala foi extravasada?
so pode aver copias se ouver...
um paço a frente

2008-11-27

E o fascismo avança

O João Carlos Caribé postou um vídeo sobre a mobilização contra o projeto de lei Azeredo e participou da Descolagem usando uma camiseta personalizada que anexa ao manifesto o endereço virtual do grupo Ciberativismo no Ning.

Surpreendeu-me apurando a seguinte informação, veiculada pela TV Record no dia 23. O Ministério Público quer contornar a pendência da aprovação da lei de cibercrimes na Câmara, tomando a iniciativa própria de requerer a assinatura dos provedores num "termo de compromisso" para implantar o grampo nas conexões da rede, o tal registro de logs de acessos dos últimos três anos para cada um dos 30 milhões de usuários da rede. Sem autorização judicial prévia. Independentemente de haver ou não lei sobre o assunto. É um abuso de poder escancarado.

O registro de logs de acesso tem sua utilidade, ainda que limitada, para rastrear criminosos na Internet. Mas obter os dados sem mandado judicial é inconstitucional. É o mesmo que considerar os cidadãos como criminosos a priori, negando o princípio fundamental do Direito.

E mais descarado foi quando a Polícia Federal deixou escapar, durante o debate público sobre a lei, que ela já vasculha os acessos das pessoas à vontade, com e sem o amparo legal. O grampo digital é uma realidade generalizada. Essa mentalidade autoritária não é o que precisamos para tornar a Web mais civilizada. O que precisamos é de medidas que eliminem a vigilância sem sentido. Não de medidas que a institucionalizem.

Tendo eu crescido em plena ditadura militar e durante as épocas insanas, absurdas e olvidáveis da "Nova República", "Era Sarney" e "República de Alagoas", nunca me iludi demais com a "democracia brasileira". O povo brasileiro nutre uma vocação perene para o autoritarismo e para a manipulação. Mas isto que se presta a acontecer tem um outro nome: fascismo.

Não vejo a sociedade nem os grupos de comunicação importarem-se com o cerco aos direitos civis. Apenas um punhado de blogueiros que soam alienados de tão isolados. Vão deixar que fique tarde antes de assumirem uma atitude? Alguém me explique o que há. Se a medida do MP virar realidade, vou começar a alimentar uma teoria conspiratória: os provedores estão sendo complacentes a fim de ganhar um instrumento de proteção para um certo interesse próprio: o controle de cópia de arquivos digitais pela rede. Procede?


Foto: Patricia Haddad


Posts anteriores sobre este assunto:
Material para campanha
Protesto na Paulista
Fique de olho

Mapeando a vida

Em 2001, eu convidei os blogueiros brasileiros a enviarem suas localizações para montar um mapa. Tinha visto uma iniciativa similar com os blogs de Nova York e queria repetir a brincadeira com as maiores cidades do Brasil. A quantidade de blogs no Brasil ainda estava em poucas dezenas e aumentava lentamente, o que me levou à ingenuidade de achar que seria fácil de administrar.
Muita gente me enviou endereços, de fato. Mas eles jamais foram aproveitados, nem mesmo para enviar lembrancinhas de Natal. O motivo foi a minha descoberta de que montar um mapa dinâmico e de fácil manutenção na Web ainda estava muito longe de qualquer possibilidade técnica.
Anos passaram, o assunto foi esquecido por todos e a mítica blogosfera cresceu até se misturar totalmente ao tecido de informação digital.
Agora, por ocasião do desastre climático em Santa Catarina, uma tecnologia aberta de mapeamento está sendo empregada para o Bem™, graças à iniciativa da Maffalda, que se pôs a mapear as opções para encaminhar donativos às vítimas do desastre. Isso acontece espontaneamente, no calor do momento, sem necessidade de um intenso background técnico em informática. Nessas horas se percebe que afinal o mundo melhorou.
Outra maneira mais "lo-tech" de obter informação sobre como e onde ajudar é buscando por textos recentes no Google. Mas cheque cautelosamente para não enviar nada a um bandido fazendo-se de arrecadador. Há, afinal, outras coisas no mundo que nunca melhoram.

Isso sim é webcomic

Depois do extraordinário Malvados do André Dahmer, achei que demoraria bastante para aparecer outro webcomic brasileiro semelhantemente genial. Coisa de anos ou décadas, já que a originalidade criativa parece ser um valor em baixa na Web e a ordem geral é reciclar ideias, a ponto de se repetir preguiçosamente o conceito ou o estilo das tiras dos outros.

Então, finalmente apareceu um digno inovador sucedendo o Malvados. Sim, existe vida na Web além de clones de sucessos estrangeiros ou downloads piratas com extensão .CBR. O nome da obra é Wagner & Beethoven. Vai bombar. E você ouviu falar primeiro aqui.

Update: Obviamente sou fã também do De(ath)sign, que já existe faz uns anos. Tudo o que ele mostra do cotidiano de uma agência, incluindo a péssima relação com clientes estúpidos e malvados, é completamente verdadeiro... exceto as poucas partes catárticas em que os funcionários conseguem se vingar.

2008-11-26

Dialetos da Internet: Leet, miguxês, tiopês

No primeiro debate sobre Internet do Digestivo Cultural, do qual participei em maio de 2008, em algum momento a conversa entrou no assunto dos "dialetos" da internet. Muita gente versada na chamada "norma escrita culta" do idioma confunde tudo e pensa que a escrita abreviada dos chats, o "miguxês" e o "tiopês" seriam apenas variantes igualmente detestáveis de "escrever errado". Na verdade, o que temos no universo da escrita informal divide-se entre vários tipos bem específicos, com características próprias, que só até certo ponto se misturam em motivos e métodos.


Texto simplificado de chat
Internet_slang (na Wikipédia, em inglês)
Internetês (na Wikipédia)

No século 19, antes do uso generalizado de gravadores de voz e máquinas de escrever, popularizou-se a taquigrafia, também chamada de estenografia, que é um sistema de escrita baseado em sinais gráficos simplificados que representam as palavras foneticamente, permitindo escrever muito mais depressa do que com o sistema alfabético. De fato, com a estenografia é possível registrar um falante à mesma velocidade da sua fala.

Antes do surgimento da imprensa tipográfica no século 15, os livros eram copiados manualmente em folhas de pergaminho. O trabalho do copista e o suporte do texto eram onerosos. Assim, o texto pré-renascentista empregava vários estratagemas gráficos para registrar as palavras de forma rápida e compacta. O texto desse período é cheio de abreviaturas. Algo disso sobreviveu até hoje, em particular os caracteres @, & e o nosso ~ (til), que surgiu originalmente para abreviar as numerosas palavras latinas terminadas em sons nasais.

Nos textos transmitidos pelo telefone, via telex e telegrama, os caracteres acentuados eram inexistentes. O costume era indicar o acento adicionando um H após a vogal. Essa prática migrou para os chats modernos, somando-se a ele o "...um" para representar o til:

naum
soh
tah


Algum novo método de abreviatura também teve de aparecer para acelerar os chats. O resultado foi o surgimento espontâneo de um léxico de uso geral, contendo palavras abreviadas por consenso entre muitos internautas:

akela
aki
axo
d
kbca
kd
ke
ksa
mto
ngm
qdo
rs
vc
tc
tb
tdo


Todas essas convencionalidades gráficas acabaram sendo naturalmente transportadas para o SMS, onde a economia de caracteres digitados é ainda mais importante do que nos chats.

A abreviatura das palavras frequentes é uma das características específicas da escrita online em tempo real, mas pode ser entendida como erro pelas pessoas puristas e inexperientes nos meios eletrônicos. Claro que é natural que alguns erros genuínos de português possam surgir no meio dos textos, como nos exemplos reais a seguir, que apresento sem tentativa de julgamento:

MTU BOA KRA
UhuLLLLLLL arazo \o/
Pow som muito manero ok vlw
Adorei msm!!
Me cadastrei no site soh pra baixar!! huahuahua
mulheres vms trnsar!!!!!!!!!!!!
num tem criatividade naum? intaum dexa em branco...
bem tbm tc de onde?
Pronto ta add..
Um dia na facul
Vemm aki nao conta pra ngm
Dai qdo fika dificil explicar ,
ng da minha família sabe
tu kurti bob esponja!!!caralhoooouuu,bizarro!
akeli bagulho moh nada a verr meuuu
kkkkk zuera!
fla seriooo
Odeio quem add e ñ deixa scrap!
naum consigo mano como fasoo?/



Leet
Leet (na Wikipédia, em inglês)
Leet (na Desciclopédia)

Leet, ou mais formalmente 1337 (derivado da palavra "elite", referindo-se originalmente à "elite dos hackers"), é uma forma de escrever que usa caracteres intencionalmente trocados. O estilo surgiu para conferir um visual original e diferenciado aos textos e pode ser considerado como um socioleto, isto é, uma característica tribal ou identificadora de grupo cultural. No caso, o grupo seria a comunidade de auto-intitulados hackers e geeks. Hoje em dia, o excesso de uso fez o Leet ser pejorativamente associado aos n00b5 ("noobs", de "newbies", novatos), desestimulando o seu uso.

Existem variedades específicas de 1337. Uma das mais antigas é o "KrAzY KaPs" ou "alternante", que usa caixa alta e baixa alternadas dentro das palavras. Embora tenha a aparência de algo trabalhoso, pode ser produzida sobre um texto comum de forma automática, usando um algoritmo scriptável.

QuEm TeIm BoCa FaLa O kE KeR MaIs So NaUm PoDe SeR MaNé
CoRaCaUm De 'VaGaBuNdO' BaTe Na SoLa Do Pé


Outro estilo básico simplesmente substitui as letras por outros caracteres disponíveis que tenham a aparência suficientemente similar, tecnicamente chamados "homógrafos" ou "homóglifos":

1337 15 n07 4 c0mm0n 1n73rn37 5p34k 4m0n9 r34l h4x0r
(Leet is not a common Internet speak among real hackers)


Baseado nesse estilo, em 2005 eu criei uma fonte tipográfica para simular o 1337 em qualquer texto, sem necessidade de trocar letras manualmente nem com scripts. Batizada experimentalmente como "Helvetica h4©K3®" (de "hacker"), foi construída sobre os caracteres da fonte Helvetica fornecida por default no Mac OS clássico. Ela contém alguns homóglifos hilariantemente impossíveis de digitar em ASCII ou Unicode, em particular os algarismos e arroba absurdamente acentuados que substituem as vogais A, E, I e O. Isso torna a fonte impossível de simular apenas com algoritmos de troca de caracteres.



Um terceiro, mais sofisticado e mais trabalhoso estilo de 1337 constrói vários caracteres usando sinais gráficos externos ao conjunto alfanumérico. Pode ser produzido usando scripts:

\/0<3 7/241(_) 0 (V)0\/1(V)3/\/70 (_1/\/6(_)1571<0, \/310!
(Você traiu o movimento linguístico, véio!)



1337 de Unicode
Os browsers de Internet recentes representam corretamente textos escritos em múltiplos idiomas e sistemas de escrita usando Unicode, e os sistemas operacionais modernos vêm com as fontes necessárias. Isso abriu o acesso a milhares de novos glifos (desenhos de caracteres) usados em idiomas estrangeiros. Logo surgiu um modismo no orkut, Messenger e Fotolog que aproveita essa paleta de glifos estendida.

A variante mais sofisticada do 1337 pode ser vista nos nomes de usuários e comunidades do orkut:

εïз♥Loly♥εïз
*♥*Paula*♥*
ЯΘŠдЙĠĔŁд
☆_ツ THaH ☆_ツ
<♥•♥Rafah♥•♥>
Ŧєłiρρє
╠╣єяìKa ઇઉ
™Ғєŗиǻиďă™
ŁęøňäЯďŏ
♂SÅмîllÅ
@ ¢σмu σяigiиαl
© þяσƒILє σяIGIиคL ®


Os símbolos usados como ornamentos "barrocos" ao redor de muitos dos nomes podem ser interpretados como uma influência do miguxês.

Os n00b5 encontram esses textos com glifos alterados e perguntam como fazer para "escrever com letras diferentes" e produzir "scraps decorados". A resposta é simples: emprega-se uma variedade de scripts escritos pelos próprios usuários para automatizar as trocas de caracteres. Eis um exemplo de script de domínio público, que se executa colando-o sobre a janela de URL do browser com o texto a modificar selecionado dentro do campo de formulário do scrap, perfil etc.:

javascript:var txt=document.getElementsByTagName('textarea')[0];
txt.value=txt.value.replace(/l/gi,"l");
txt.value=txt.value.replace(/A/gi,"α");
txt.value=txt.value.replace(/B/gi,"в");
txt.value=txt.value.replace(/d/gi,"∂");
txt.value=txt.value.replace(/j/gi,"ﻝ");
txt.value=txt.value.replace(/k/gi,"κ");
txt.value=txt.value.replace(/l/gi,"ℓ");
txt.value=txt.value.replace(/n/gi,"η");
txt.value=txt.value.replace(/p/gi,"ρ");
txt.value=txt.value.replace(/m/gi,"м");
txt.value=txt.value.replace(/E/gi,"є");
txt.value=txt.value.replace(/h/gi,"н");
txt.value=txt.value.replace(/i/gi,"i");
txt.value=txt.value.replace(/s/gi,"s");
txt.value=txt.value.replace(/o/gi,"σ");
txt.value=txt.value.replace(/t/gi,"т");
txt.value=txt.value.replace(/w/gi,"ω");
txt.value=txt.value.replace(/r/gi,"я");
void(0);


Eis as trocas de glifos produzidas por esse script:

Aα Bв d∂ jﻝ kκ lℓ nη pρ mм
Eє hн ii ss oσ tт wω rя


Para criar novas variantes estéticas, basta assinalar glifos diferentes nos campos de troca do script. Pesquisando a fundo as tabelas Unicode é possível inventar trocas ainda mais exóticas. As possibilidades abrangem um repertório estético mais amplo do que o que seria possível através da mera troca da fonte. Veja algumas outras trocas de letras populares:

aค aα bß dđ fҒ fƒ nи sร uυ uµ v√



Miguxês
Miguxês (na Wikipédia)
Miguxês (na Desciclopédia)
Miguxeitor - Conversor de texto para miguxês

Depois de um período em que chegou perigosamente perto de monopolizar os chats e websites jovens, o miguxês (nome derivado de "miguxa", amiga) entrou em marcado declínio. O pessoal que o usava freneticamente nos anos recentes cresceu em idade e em cultura e adotou uma escrita mais próxima do português convencional. Enquanto isso, os novos usuários que poderiam se interessar pelo socioleto enfrentam uma crescente resistência que se expressa por esta frase depreciativa, repetida em inúmeros websites:

Miguxês é dialeto de EMO!


O Miguxeitor é um script online que usa detectores de sequências específicas de caracteres, a fim de converter qualquer texto em miguxês de maneira convincente, refletindo os seus vícios estéticos mais típicos: "fofices" fonéticas, trocas e redundâncias de caracteres por critério puramente ornamental, abusos de términos estendidos nas palavras e emprego abundante de letras repetidas e da letra X.

Um aspecto pouco compreendido sobre o miguxês é o de ele ser muito diferente de uma tentativa de simplificar a escrita. Tampouc é uma simples prova de ignorância de quem escreve. O miguxês é, em primeiro lugar, um construto estético que parte do português escrito comum. É claramente mais complexo para escrever e exige um raciocínio extra. A melhor teoria que tenho para explicar o sucesso temporário dessa forma de escrita é a sua utilidade prática de camuflar das pessoas "de fora" o conteúdo de textos a respeito de temas privados em emails, blogs, chats, scraps e torpedos.

A drástica queda na legibilidade é proporcionada pela mistura entre múltiplos métodos: os floreios típicos do miguxês, os truques estenográficos descritos no início do artigo, trocas de caracteres no estilo 1337 e o emprego de gírias correntes. Fica muito mais difícil para um adulto desinformado sobre a cultura jovem decifrar o texto de um adolescente quando ele combina todo o repertório de elementos construtivos a uma só vez.

Exemplos reais:

Eu aDolu faLa kI nEm CriAnxiNha... hehe... QuE bOm xaBê ki oS HomEns goStaM!!


~* Meeo pensaa numa meninaa FODAA é essaa pakita aiii! meeoo porquêee é sóo mee faaz rii sóo mee faaz choraaa mee faaz fazee ass coisaas maais lokaaas faaz eeu fikaa dancando PSY ee FUNK no meiooo da salaaa a unicáa ee mee faaz eu viveer. c num teeem nocaoooo duu tentoo que EUTEAMO meeo c é tudoo páa miim minhaaa melhoor sempree ♥ é noiiiz sempreee meeo. maninhaaaas gemeeiaa deesse meniinooo aii eeem baixoooo SACAAS ? See é amoor eu sintoo pra valee, maais poor vooc eu dou a caara praa batee =•)



Tiopês
Tiopês (na Wikipédia)
Tiopês (na Desciclopédia)
Tiopês (principal comunidade no orkut, com cerca de 8 mil pessoas)
Conversor automático


O nome vem de "tiop", maneira de digitar "tipo" com dois caracteres trocados. Aparente resultado de dislexia ou de um digitador apressado ou desleixado, tornou-se uma variante estética autônoma, com regras próprias.

O tiopês, a despeito de ser considerado a última moda na Internet e até ter sido já proclamado como o legítimo sucessor do miguxês, tem uma origem muito mais antiga: os hackers - aqui tomados no sentido original autêntico de "geeks especialistas" e incluindo os programadores que ajudaram a criar a Internet - sempre usaram trocas de letras de maneira bem-humorada, ora ingênua, ora sarcástica, para pontuar o discurso. Essas trocas inicialmente referenciavam os comuns erros acidentais cometidos no teclado. Alguns exemplos da primeira leva, mostrados no Jargon File, ironizam o próprio conteúdo que comunicam:

this sentence no verb
too repetetetive
bad speling
incorrectspa cing


As trocas acabaram sendo adotadas como detalhe expressivo e encontraram uso tanto nos websites quanto nos chats, fóruns e SMS. Com o tempo e o uso, alguns dos erros viraram "gags" consensuais entre os internautas, figurando proeminentemente também entre as gírias do dialeto 1337:

pwned (owned)
pr0n (porn)


O mecanismo deturpador da ordem das letras no tiopês pode ser de três tipos: posicional dentro da palavra, entre caracteres foneticamente próximos ou entre letras próximas entre si no teclado QWERTY que podem ser digitadas por engano na pressa.

Como variante dessa brincadeira, ou intermediária entre o tiopês e o miguxês, podemos considerar a língua dos Lolcats, fotos de gatos com legendas humorísticas escritas num dialeto pseudoinfantil, que explodiram como "meme" em 2006:

u is my favrite flavur
moar littul kittehs!
am i doin it rite or rong?
u cud haz at least shard ur cheezburger wif me.
srsly... halp!


Algumas das palavras acabaram transpondo o ambiente das fotos gracinhas e ganhando uso generalizado:

O RLY ?
MOAR


A frase mais famosa do tiopês brasileiro, célebre no orkut e também no Twitter, reúne impressionantes singeleza e poder de síntese:

como fas/


Com o declínio da popularidade do miguxês, o tiopês virou alvo de um surto de criatividade ao longo de 2008. Eis alguns exemplos reais:

tiop asim, coom fas////
iso mudol minia vida
faalr tdo oa conratrio
vose fas o meu stilo
q peiot boniots
mesheu com vose mesheu comigo
qqseasha
secso
meninë
menian
estol apaishonada
vol si joga
gzuz
fikdik
nenli;
pofavo
vosse tadi brinks
iso naom he cerio


Mais uma vez, o que pode escapar aos puristas do idioma é o caráter intensamente sarcástico e satírico dessas frases. Há nessa linguagem uma crítica explícita contra o analfabetismo funcional dos (sempre eles) n00b5 da Internet, e num fenômeno autorreferente, também uma crítica contra a maneira como esses maneirismos acabam sendo imitados cegamente pelos n00b5. É fácil distinguir alguém que domina o português e escreve em tiopês deliberado de outra pessoa que genuinamente se perde com as palavras, como é o caso das que criaram os erros de português listados neste meu post anterior.

Aos que, a despeito de todos os esclarecimentos, deixaram de compreender o sentido dessa brincadeira linguística, resta-me tolerar a sua raiva exasperada e redirecioná-los para um site que esteja de acordo com as suas ideias sobre como o idioma deve ser tratado: Eu Sei Escrever. Note, porém, que a campanha está paralisada; o último post desse site já tem três anos e meio.



Nota: Este artigo de 16 mil toques é um lipograma; foi inteiramente escrito sem nenhum emprego das letras ç, ã e õ. Aguarde mais sobre este assunto em posts futuros.

Bônus:eis aqui uma prova experimental de que a linguagem dos Lolcats fica arruinada quando transposta para tiopês vernacular. O conceito linguístico dos Lolcats inclui dois elementos a mais: linguagem infantil em vez de meros "erros" de grafia e um texto genuinamente cômico, que se sustente como piada por conta própria em vez de apenas comentar a foto. Quem fará autênticos Lolcats em português?

2008-11-25

Fugindo do Vista

Fui à inauguração de um soberbo showroom da Sony no Shopping Villa-Lobos em São Paulo, onde deu para brincar com uns 20 modelos diferentes de computadores VAIO, quase todos notebooks. E sabe de uma coisa? Eles vêm com softwares da própria Sony para as funções de mídia e entretenimento e até um gerenciador de ambientes operacionais.

Daí, volto para casa e a primeira coisa que leio é um artigo da Business Week contando sobre os esforços da HP para substituir alguns recursos originais do Windows Vista por outros desenvolvidos dentro de seus laboratórios.

Software exclusivo sendo oferecido como bundle pré-instalado nos PCs novos não é novidade nenhuma: sempre existiu e vai continuar existindo. A diferença é que a indústria agora está tentando diferenciar o software da mesma maneira como já diferencia o hardware, de uma forma mais ousada e mais variada. Além disso, as empresas que produzem hardware estão sentindo o peso e o perigo de continuarem sendo meras licenciadas de uma companhia única que fornece um sistema operacional genérico para 90% dos computadores. Isso só é bom quando o sistema não tem a reputação queimada como o Vista.

O discurso oficial das empresas de PC é de que eles estão apenas "inovando sobre o Vista". Mas se alguma delas lançar uma versão própria de Linux, bem amarrada e completa, equipada de todos os acessórios que os consumidores esperam usar, a concorrência não deve resistir a engrossar essa rebelião histórica com mais e mais modelos livres da "taxa Microsoft". Já houve a rebelião contra a data limite de obsolescência do XP, insuflada pelos próprios clientes. Foi um precedente notável. Há 10 anos, ninguém tinha coragem sequer de resmungar no seu ouvido uma crítica contra a toda-poderosa do software que esmagava um concorrente por dia como se pisasse num tapete de cascas de amendoim, ao mesmo tempo que aliciava a indústria de hardware com contratos de licenciamento dignos de um traficante de droga.

No começo da conturbada história do Vista, achei até que o mimimi coletivo dos colunistas de informática contra o novo sistema não repercutiria, porque isso nunca fora o padrão histórico. Mas à quebra da tendência somou-se o apego das pessoas ao Windows XP, mesmo o sistema tendo conhecidos problemas de segurança e estabilidade. Em boa parte isso aconteceu porque essa gente cresceu usando o XP e seus programas, sentindo-se confortável neles como ao calçar um par de tênis velhos. Não havia um clima receptivo a novidades, nem a sensação de necessidade de reaprender a usar um sistema bem conhecido. A martelada final no prego do caixão foram as múltiplas fontes avisando que a versão nova é mais complicada, mais lenta e traz problemas novos. Tenho o Vista aqui e não o acho esse horror todo, mas para muita gente ficar do contra bastou o poder da sugestão, enquanto para outros bastaram alguns benchmarks.

De modo que agora pode-se dizer que o Vista é uma elegia (e o futuro Windows 7, um epitáfio) ao velho jeito Microsoft de ser. Se não mudar de atitude e metodologia com convicção genuína, a companhia estará revivendo o pesadelo da Apple de 1997. Minha opinião pessoal? Só boto a mão no fogo após a aposentadoria de Ballmer.

Quanto à rebelião da indústria de PC, máquinas com Linux pré-instalado sempre dão as caras, mas elas ainda não conquistaram a imaginação do público. Falta uma virada, e ela terá de partir de uma dessas empresas grandes.

2008-11-24

Notas musicais

Depois de seis semanas paralisado na minha lista de downloads, alguma boa alma deu "seed" e finalmente conseguir baixar até o fim o "Answer - Reply - Respond", primeiro e quase desconhecido álbum do Siblings of Grandchildren, aquela promessa de grandeza nunca realizada da banda de neo-prog-funk acústico. Havia rumores de que a gravadora lançaria uma edição especial dos 20 anos, numa caixa rígida preenchida de glitter, com livreto impresso em plástico transparente e um CD bônus furta-cor. Mas a iniciativa ficou na promessa, devido talvez ao desinteresse do público, ocupado demais em acompanhar sequiosamente cada lance sórdido da vida patética de sevícias fúteis de alguma cantorinha drogada num boteco imundo de alguma esquina mal-iluminada.

Em lugar do relançamento do Siblings, a Square Records veio apresentar com algum estardalhaço imerecido (na minha opinião) o "A Street of Fools" dos Fucked-Up Jesuses, que muita gente por aí andou exagerando ao afirmar que representam o futuro do rock. É engraçado como o "futuro do rock" é sempre re(a)presentado por uma banda totalmente diferente a cada semana, apenas para que a banda salvadora da semana anterior afunde de volta no infinito mar do esquecimento, após algumas cópias a mais vendidas do seu último single insípido - mas abstenhamo-nos por ora de citar nomes de críticos incompetentes e vaidosos, pois eles gostam de ganhar menções até quando são negativas. Basta notar que os Fucked-Up Jesuses estão péssimos como nunca com esses arranjos inteiramente construídos com irritantes samples óbvios - onde foi parar aquele tão falado virtuosismo heterodoxo? E essas letras rebuscadas e xaropetas remetendo a uma realidade social que nem sequer como ficção existe mais? Hei, bando de músicos de mullets: preciso informá-los de que a Web já foi inventada. Criem um perfil do MySpace e reencontrem a felicidade da infância, OK?

Tem dias que acho que o rumo da música popular se perdeu de maneira tão miserável que desisto do iPod e me refugio num velho vinil contendo um trabalho de de Wolfgang Friedmann: "Gesundheit und Spass: Overture", op. 96b, gravação em mono de 1962 da Filarmônica de Taschkhent, regido por Emmanuel Zilbersteijn, com um púbere e inseguro Frans Glock ao piano. Ganhei essa raridade absoluta do meu pai, que adorava fuçar sebos, quando eu ainda era criança. O som está arranhado, o disco empoeirado, a capa descascada, a impressão borrada; a execução é desleixada, a mixagem fanha, a partitura desinspirada, a gravação abafada, a prensagem desastrada e a apresentação relapsa. Pior ainda: somente após alguns anos de audições periódicas percebi que o texto na contracapa refere-se erroneamente a uma obra posterior do mesmo compositor. Mas todas essas pequenas faltas são perdoáveis. Esse disco pertence a uma época em que um punhado de anônimos honestos devotava-se a preservar a cultura auditiva de uma época mais civilizada. Eles merecem todo o louvor e reconhecimento que puderem ter. A esta altura, já devem estar todos mortos. Mas farei minha parte pela preservação dos clássicos: ainda esta semana, subo sem falta para o BitTorrent os arquivos MP3 desse disco.

2008-11-19

Comofas?



Foi só começar a falar no Twitter sobre erros de português epidêmicos na Web e começou um desabafo em massa de outras pessoas.

Eis mais algum material autêntico, captado ao longo de meses lendo sites, para nossa discursão... discução... discussão!

a pouco tempo...
acessoria
vou adiquiri...
ancioso
apreenção
capassete
cerumano
comofas...
como fasso...
conceteza
concerteza
conseteza
concilhar
conhecidências

debiomental
decição
derrepente
descançar
descente
encomodo
então-se...
eslaide-chou
esquisotéricos
estrovertida
excessão
exeção
expontâneamente
exposa
extinsão
faser
fassa um pedido...
forão 2 anos...
graçinha
inoscência
internaltas
maxista
maxuca
mesmo q a verdade doua...
ninguen
ocorrece
se ele perdece...
pesso desculpas...
Portifolio
Precione
repercurssão
rizada
se fize-se...
sensura
sinico
sinturinha
timides
uma assumidade
vale à pena...
vendem-se...
vida crueu
virce-versa
voçe


Embora a turma do Twitter pegue no pé do "comofas", a expressão "com certeza" (um chavão feio, desnecessário e velho, aliás) é o único com três variantes na lista e um dos que têm aparecido cada vez mais em tempos rescentes, digo, recentes. Virou uma praga. Seus propagadores precisam ser informados e corrigidos a cada oportunidade.

Também ofereço uma lista especial de nomes, que ainda deve crecer crescer bastante:

Angelina Jullie
Hobin Wood
Maurício de Souza (tem DOIS erros nesse)
Sarggent Peppers


Se você chegou aqui por uma busca do Google, dou um alerta: o que você digitou está vergonhosamente errado. Pare de escrever a palavra assim. Se não o fizer, vou atrás para encher o seu saco, pois o meu contador de visitas deda as buscas que chegam à minha página. Faça direito!

Bom exemplo vindo de fora

Deu na Folha: milhões de fotos de arquivo da revista Life estão sendo digitalizadas e colocadas numa coleção organizada dentro do Google, para benefício de todos os conectados (ou, dizendo melhor, todos os que não residam no Irã).

A ironia é que a Folha, que deu essa notícia aqui, insiste em fechar a principal parte do seu conteúdo para os assinantes, prática inalterada desde que o UOL começou em 1996. Vou insistir nessa tecla até que abandonem a lógica de escassez aplicada a meio de informação, que tinha motivação prática nos tempos de Compuserve, AOL e Prodigy, mas hoje em dia não é só absurda, é nada menos do que ridícula.

Não confundir choro com ranger de dentes

Artigo selecionado pelo

Acordei muito bem nesta manhã de primavera gelada e nublada em São Paulo, mas assim que toquei no meu Mac, recebi um link para para ler este artigo sobre o impacto do crash econômico no mercado editorial e de publicidade. O autor é um excelente fotógrafo novaiorquino, um dos principais caras do NYT, tem trabalhos salpicados pelas grandes publicações americanas.

Resumindo os mais de 8 mil caracteres dessa página, o ambiente é de pânico em massa nas maiores redações dos EUA; várias revistas contemplam a transição total para o digital como única solução para a sobrevivência; um publicação de nome não revelado, mas do primeiro time do jornalismo, simplesmente ainda não tem nenhum anúncio contratado para 2009; muitas empresas, ao menor sinal de problemas de caixa, cortaram a publicidade antes de tudo; estúdios e agências já puseram gente na rua ou congelaram as contratações; empresas recém-fundadas enfrentam a extinção antes mesmo de terem uma chance de sucesso; até os melhores e mais famosos fotógrafos gringos estão aceitando jobs com remuneração reduzida para não perderem os bons clientes.

Quase ao mesmo tempo, minha "informante" dentro de uma redação importante avisa pelo chat: "Estadão vai fazer um plano de demissão voluntária em janeiro... Folha e Band já demitiram... Clima de horror na revista X..."

Mal digeri essas informações e me caiu na tela mais um artigo avisando que os preços do varejo nos EUA já tiveram deflação recorde de 1% no mês de outubro.

A gota d'água (mas não o motivo de escrever este post, que já estava quase pronto) foi a notícia fresquinha de que A PC Magazine não terá mais edição impressa, porque mais de 70% da receita já vem da Web. A Ziff-Davis, que conseguiu driblar a falência, concluiu que a trabalheira de imprimir e distribuir a revista impressa não compensa mais.


Apocalipse auto-decretado?

Aqui no Brasil, ainda não dá para o cidadão banal sentir um reflexo direto da crise, fora o aumento do dólar que atrapalha o ocasional "importabando" de fim de ano, e com uma parte da mídia e do sistema empresarial ainda comemorando a fusão entre Itaú e Unibanco como se fosse a inauguração de uma nova era de ouro.

Em outros setores, porém, já está todo mundo enterrando a cabeça na areia, num extraordinário ato coletivo de covardia. Até há dois meses vínhamos numa prosperidade e otimismo contínuos, sem precedente na história suja e torta do país (repita essa para variar o clichê, sr. presidente).

Tanto lá como cá, os cortes de pessoal e investimento refletem o medo da recessão futura, automaticamente tornando-a real. A profecia autocumprida. É tão irracional, desonesto e injusto que me exaspera.

Uma manada de burocratas e gerentes de departamento faz cortes de pessoal e arriscam arruinar a relação com frilas e fornecedores, por puro medo, logo após um extenso período de prosperidade que eles podiam ter aproveitado para se estruturar melhor, otimizar processos, acumular assets e fazer planejamento de estratégias de longo prazo. Mas na real, todo mundo sempre trabalhou no limite, na louca, de maneira aventureira, nas coxas, sem previdência, sem cuidado, como se não houvesse amanhã. À primeira nuvem negra que se forma no céu, o reflexo automático é de botar na rua quem efetivamente produz as coisas que são a base do negócio, e a começar a limpa exatamente pelos mais produtivos. Administradores, afinal, vocês são o quê: Gananciosos? Cegos? Idiotas? Retardados? Ou tudo isso junto?

Não dá vontade de se encasular apavorado para suportar a recessão. Dá vontade de ir atrás e apertar pescocinhos. Há momentos em que a primal vontade de esganar supera a racionalidade e a capacidade dialética. Depois, passa o instinto, mas não passa a vontade de enviar os administradores à merda, e de carona com eles também os analistas e economistas, e garantir que permaneçam lá, afundados até o pescoço, até que se mesclem inseparavelmente à massa imunda ou iluminem a mente sobre a extensão da mistéria humana que os seus atos impensados causam.

Update - A propósito deste tema, leia o indignado artigo de José Saramago, aquele homem que esnobou Paulo Coelho.

2008-11-17

Material para a campanha



O símbolo do olho está sendo requisitado por algumas pessoas para uso em avatares, banners e outras peças.
Para facilitar e incentivar o uso, acima está uma versão em tamanho grande, fácil de editar.
Clique nela para baixar um PDF em vetor, também editável.

Mais cartazes. Clique para baixar qualquer um deles em PDF editável.









O direito de uso e modificação dos cartazes é livre.

Quanto a banners para a campanha, as miniaturas acima já são praticamente seus próprios banners.

Além disso, existem outros temas que me foram sugeridos para explorar em peças futuras. Dois deles: "Não deixe a Internet no Brasil ser fechada como no Irã ou na China" e "Não vote nos deputados que apoiarem o PL Azeredo". Opine nos comentários.

Protesto na Paulista


Foto: Andréa Câmara - Atentos

Artigo selecionado pelo

Aqui está o meu relato favorito, sucinto e claro, sobre a audiência pública na qual o enviesado projeto de lei de cibercrimes do senador Azeredo finalmente encontrou uma oposição vigorosa, ágil e esclarecida.

Na sexta-feira foi a vez do flash mob. (Fiz fotos, mas devido a restrições de tempo, só poderei subi-las no Flickr mais tarde.) Apesar da chuva e do trânsito, consegui chegar lá no momento exato em que as pessoas atravessavam juntas a avenida entre o canteiro central e a calçada da Cásper Líbero. Creio que o flash mob foi marcado cedo demais para o ritmo paulistano. Às 18 horas em ponto, numa sexta-feira chuvosa? Pense melhor. Quantos manifestantes a mais teriam podido aparecer se o evento fosse às 19 horas? Fica a sugestão para quando for marcada a próxima manifestação. Sim, próxima, porque conto com a continuação e expansão do movimento de resistência cívica. Com apenas "50 pessoas" (números da mídia) na manifestação e apenas 122 mil assinaturas registradas na petição contra o projeto, a chance de não dar resultado ainda é enorme. E resta muito pouco tempo para o jogo virar.

Como muita gente chegou após o horário marcado, o protesto foi repetido, acomodando os retardatários. Encontrei Edney, Sergio Amadeu, Ladybug, Pedro Markun, Fugita e vários outros que figuram proeminentemente nas fotos.

Ao protesto seguiu-se um fim de semana de blogagem política, no qual o pessoal engajado se manifestou por ensaios escritos. O link logo acima é do Xô Censura e contém a lista dos blogueiros que participaram. O post mais recente desse blog investiga as motivações e interesses por trás do texto do projeto de lei. O blog do Maurício Tuffani contém explicações claras sobre os pontos exatos em que o projeto de lei escapa do seu propósito declarado, ferindo o bom senso e também outras leis já existentes. Outra pessoa que caçou todos os buracos na lei foi a Lu Monte, que lembrou que a primeira versão do projeto de lei era simplesmente fascista, propondo um controle total dos internautas. Pouca gente acreditou que o texto passaria daquele jeito.

O problema é que após a revisão ainda ficou muita coisa vaga ou errada. Surgiu agora gente acusando o movimento contra o projeto de ser extremista e mai-informado. Mas com que cara eles podem defender um artigo final redundante falando em "regulações futuras" para coisas já reguladas, escancarando uma porta para que venham novos sistemas de controle institucionalizado do cidadão? Demonstra desconhecimento dada tecnologia ao mandar, em dois lugares diferentes, que se estenda a pena contra um condenado quando ele usa nickname. E a presente redação torna inviável usar de forma legal uma rede sem fio aberta, já que ela exige o rastreamento de IPs de acesso pelo provedor. Por fim, o texto não é específico em relação a computadores: cobre qualquer aparelho eletrônico de transmissão de informações. Acho válida a preocupação em reprimir os pedófilos e spammers, mas ao que me conste, já existe legislação para isso. E não há como pintar de decência a intenção de obrigar os provedores a servirem de polícia. Ainda dá para esticar a interpretação até conseguir enquadrar um usuário da rede por ter um PC que propaga adwares, ou seja, a enorme maioria dos usuários de PCs com Windows que têm o problema e não sabem. Fala sério!

Não custa lembrar que o senador mineiro que criou o projeto de lei também sugeriu recentemente a implantação de algum tipo de autocensura na imprensa, no que ecoa uma vontade que o próprio governo federal teve no começo do primeiro mandato do PT. Ao mesmo tempo, há quem ligue o nome do senador à gênese do esquema de corrupção eleitoral de Marcos Valério. E em outro link acima, você ficará sabendo que uma empresa de segurança ligada a um dos maiores bancos privados do país foi um dos seus principais financiadores de campanha.

Se a lei for aprovada no Congresso, irá para o veto presidencial. Pessoalmente, não deposito fé nesta etapa do processo. Afinal, o presidente está em débito moral com sua caneta. Já assinou até medida provisória que anistia entidades filantrópicas de araque que tinham sido flagradas mamando em verbas do governo. Espero mesmo, enfim, que a lei Azeredo seja barrada agora ou nunca.

Estamos de olho!

Vamos acabar com os sites que só funcionam no Explorer

Esta semana, um dos assuntos entre os geeks foi a descoberta de que o site da Vivo "não suporta HTML". Não, é sério, apareceu isso por engano numa resposta da empresa via email a um consumidor revoltado. A reclamação dele era contra a empresa insistir oficialmente em suportar somente o Internet Explorer e deixar de fora Firefox, Safari, Opera e Chrome.

Imagine isso. Insistir num portal só para Internet Explorer em pleno ano de 2008, com os padrões técnicos da Web claramente definidos, os demais navegadores alcançando mais de 20 por cento do total de usuários e a irreconciliável ausência do Internet Explorer nas plataformas Mac e Linux, que estão em crescimento constante.

Neste site outras pessoas foram chegando e relatando más experiências envolvendo o suporte à Web da Vivo. Emergiu um padrão de hipocrisia na comunicação externa da companhia. A cada email respondido, após a explicação de que o consumidor não tem nenhuma alternativa a abrir o site no Internet Explorer, segue-se uma frase destas, contradizendo o recém-dito (citações literais):

Esteja certo que nosso maior compromisso é a sua satisfação.

Expressamos nossa intenção de esclarecer que a Vivo preocupada em atender a necessidade diferenciada de cada cliente, realiza pesquisas e busca dados que são imprescindíveis para adequar cada vez mais seus produtos e serviços ao perfil de seus consumidores.


Não é o único caso de empresa de serviços grande que defende com coragem temerária uma escolha tecnológica errada. A Claro também, para começar. A Vivo, todavia, é quem está fazendo uma promoção maciça para vender a preços leoninos o iPhone, um celular que acessa a Web através do navegador Safari, totalmente compatível com os padrões abertos da Web, mas que não roda o site da própria Vivo. O pessoal lá dentro precisa conversar mais uns com os outros sobre estratégias comerciais, sobre estratégias de comunicação, e sobretudo recriar para ontem a base tecnológica de Web com padrões abertos. Desculpinhas oficiais do tipo "o Explorer é majoritário" ou "use o navegador que veio instalado no seu computador" não colam, são inaceitáveis.

Como os não-usuários do Internet Explorer são, em geral, gente que escolheu alternativas por deliberação, eles constituem um público mais crítico, mais vocal e com maior poder de influência. A Vivo só tem a perder mantendo uma postura teimosa e burra de não-relacionamento com esse público. Nem a própria Microsoft faz mais isso. Encerrar os emails mentindo que se preocupa por essas pessoas apenas sublinha o descaso e reforça as motivações dos críticos.

Escreva nos comentários o nome de qualquer outra empresa que já prejudicou você com restrições indefensáveis. Em tempo, que tal começarmos uma lista negra de empresas para fazer uma campanha de pressão? Topa?

Atualização (29 de janeiro) - A Vivo se mexeu e anunciou a compatibilidade com Firefox e Safari inclusive no iPhone. Eu poderia emendar perguntando por que permitiram-se a erosão da imagem mediante porradas violentas e constantes de consumidores na Web ao longo de dois meses. Mas provavelmente a resposta é mesmo a falta de coordenação interna. Vai ser melhor da próxima vez, porém; progresso é progresso, mesmo tardio.

Quanto à Claro, sem novidades até agora.

Dicas de Twitter

Um artigo verdadeiramente útil e bem-intencionado, cheio de dados e informações, por Guy Kawasaki, ex-guru de marketing da Apple que participou do lançamento do primeiro Macintosh e hoje é um capitalista empreendedor.

Um artigo sardônico, crítico e que vai ofender eguinhos suscetíveis (um pouco como o meu próprio blog): Guia para parecer moderno e descolado no Twitter, da revista Pix, por Bia Granja.

2008-11-13

Fique de olho!

Artigo selecionado pelo



Baixar o cartaz acima em PDF para imprimir.

Para quem chegou agora, uma explicacão rápida. O projeto pretende definir as práticas criminosas na Internet. já saiu do Senado e vai a votação na Câmara na semana que vem. A redação dele, porém, é desastrada. Por excesso de generalização, ela acaba atingindo os direitosindividuais dos cidadãos de maneira totalmente inaceitável, amarrando as mãos e tapando a boca do cliente de serviços de Internet no Brasil. De acordo com o texto, práticas absolutamente triviais como carregar o seu iPod com músicas, acessar a Web de uma rede Wi-Fi aberta, transferir arquivos via email, até mesmo usar um telefone celular emprestado, passam a ser considerados a priori como crimes. Os cidadãos poderiam ser espionados livremente pela polícia, porque a lei forçaria os provedores a manter registros de todas as atividades online de todos os usuários. Os bancos deixam de ser responsáveis pela implantação de sistemas de home banking seguros. Muita coisa que se discute livremente hoje teria de ser censurada, sob pena de cadeia. Enfim, caso a lei fosse aprovada, você, que está lendo isto, seria automaticamente ontrolado pelo poder público em atividades de rede pessoais que não dizem respeito a mais ninguém. Em termos de liberdades civis, o Brasil passaria a se alinhar aos padrões de Irã, Índia e China, de um dia para o outro. Esse é o nível de absurdo que a lei do senador Azeredo propõe.

DIGA NÃO ao totalitarismo. DIGA NÃO ao vigilantismo. DIGA NÃO à censura.

Assine o Manifesto em defesa da liberdade e do progresso do conhecimento na Internet Brasileira.

HOJE, sexta-feira, 14 de novembro, às 18 horas: Protesto de rua.
Apareça e participe do primeiro flash mob pela liberdade na Internet.

Em São Paulo: na Avenida Paulista, canteiro central, altura do número 900 (em frente ao Objetivo).

No Rio de Janeiro: na Cinelândia, em frente à Câmara Municipal.

Leve sua câmera, filmadora, celular, notebook, não importa o quê; mas registre e espalhe.
Pode ser apenas a primeira batalha de uma nova guerra pela liberdade de informação no país.

Update 1 - Pequenas melhorias cosméticas no símbolo. Enquanto isso, está chovendo forte em São Paulo e isso pode estragar o protesto em SP. Mas vou assim mesmo!

Update 2 - Este artigo foi repercutido pelo Nick Ellis no Yahoo! Posts.

2008-11-11

12 vícios das galerias de fotos na Web

Artigo selecionado pelo

Este artigo é inspirado no formato de "Os 12 Pecados do Fotografo Amador", um texto de sucesso que acaba de virar (com melhoramentos e fotos de exemplo) uma matéria na revista Mac+. Isto não é para ser levado a sério demais: pessoas sem senso de humor ou que se ofendem por qualquer motivo não terão sua vida facilitada nos comentários. Posto isso, à diversão, pois!


1. Postar uma galeria inteira só de retratos coletivos de festas, reunindo dezenas de amigos, com todo mundo reduzido a um bolo de cabecinhas sorridentes ou a uma fileira de corpinhos de pé, todos na mesma pose e ângulo. Entendo que o momento dessa captura é especial, mas vá por mim, esse tipo de fotografia só tem sentido nos seguintes casos: como pôster de time de futebol, em cenografia de filme de máfia ou em jornal interno de fábrica. Câmeras digitais deveriam automaticamente recusar-se a produzir fotos desse gênero, porque a possibilidade de elas saírem horríveis é imensa. Pior ainda: se você tirar a foto grupal com o flash da sua compacta ativado, avermelhando os olhos e empastelando as feições de todo mundo, a sua passagem para o inferno das boas intenções fotográficas vai custar só meia.

2. Procedimento popular no Fotolog: colocar um auto-retrato verdadeiramente bonito e na legenda dar uma desculpa do tipo "falsa humilde", como: "vai essa foto velha porque não tinha outra", "estou gorda mas paciência", "não repare no cabelo", "momento de tédio", "apesar de tudo eu gostei". Tudo isso é código para "eu me acho a última Coca-cola do pacote" ou "sou a última bolacha do deserto". Nada contra a vaidade em si mesma, pois ela só é problema para seus(uas) rivais. Mas por que não exercitar a atitude blasé através do silêncio, que ficaria muito mais elegante?

3. Postar auto-retratos que foram originalmente feitos junto com um(a) ex-namorado(a), mas cortando fora a companhia. Sempre dá para perceber a cabeça inclinada para o lado, encostando na pessoa que foi excluída do corte. Dela ainda permanece a mão segurando o seu ombro pelo outro lado. Desculpe se choca a minha veemência, mas esse tipo de edição é porco. Inaceitável. Não faça isso, mesmo que a alternativa seja apelar para aquela 3x4 antiga e com cabelo ridículo que consta do seu RG.

4. Postar no orkut ou MySpace retratos de webcam, feitos com uma lente imunda, cheios de ruído, sem foco, com cores erradas, fundo poluído, sem luz adequada, enfim, nada que se aproveite. Não estamos mais em 1998. Câmeras de celular já tiram fotos muito melhores. Esforce-se um pouco. Respeite a própria imagem. Aos que fotografam com filme: postar scans de fotos em papel com as cores completamente podres não passa automaticamente por "arte"; aprenda a controlar a exposição e também a tratar o scan!

5. Montar no Photoshop um imenso mosaico de fotos com todas as suas amizades, jogar o resultado no orkut e esperar que as amizades se reconheçam em cabecinhas borradas com 20 pixels de altura. Algumas dessas montagens são positivamente enfurecedoras quando incorporam deformações acidentais na razão de aspecto, efeitos descontrolados de alto-contraste, bordas decoradas com margens, recolorizações sem sentido, poemas digitados em fontes grunge e sombras artificiais. (Se não sabe o que é razão de aspecto, honestamente, não era para você ter botado a mão no Photoshop em primeiro lugar!)

6. Apresentar-se no perfil como "Fulano Fotógrafo". Isso é mais comum no orkut do que no Flickr, mas existe em ambos. É compreensível a sua vontade de capitalizar com o glamour que os leigos enxergam na atividade (mesmo que seja um charme falso no dia-a-dia, já que fotógrafo profissional trabalha muito mais e se diverte muito menos do que o povo pensa). Também tem tudo a ver a pessoa ser apaixonada pela profissão, pois como fusão entre arte e técnica, a fotografia é maravilhosamente complexa e absorvente. Por fim, você pode ter interesse em divulgar sua atividade para obter novos clientes. Mas pense bem: colocar "Fotógrafo" como seu sobrenome num site de rede social é tosco! Pronto, falei. Desculpe. (Adendo: colocar "Fotógrafo Profissional" deixa o seu nome ainda mais jeca! "Fotógrafo Designer", então, deveria ser proibido por lei. Separar o nome da profissão com um sinal gráfico é atenuante.)

7. Exagerar nos elogios às fotos dos outros. Vá, fale sério, não é possível que você achou mesmo uma obra-prima aquele auto-retrato de espelho de banheiro, acidentalmente silhuetado, subexposto, imundo, tremido e depois colorido de roxo no Photoshop e trespassado por uma assinatura em tipo manuscrito. Tem certeza mesmo? Ou você é amigo da pessoa e quer escrever qualquer bobagem só para dar um oi? Está sexualmente interessado na pessoa e deseja deixar um sinal de que pensou nela? Ou, confesse, sua cultura visual ainda é pobre e rafereita de referências? Pode naturalmente ser o último caso, mas a Internet é o melhor meio já inventado para aprender sobre os variados estilos de fotografia. Analise as fotos de pessoas reputadas que não conhece. Separe méritos de amizades na hora de fazer julgamentos estéticos. Quem sabe você não ganha o coração da moça, dando uma dica para ela melhorar os auto-retratos de banheiro, ou até oferecendo-se para fazer as fotos dela.

8. Ficar viciado nos elogios às suas fotos. Não duvido que todos esses elogios e medalhinhas virtuais sejam sinceros, mas como falei acima, o bom senso das pessoas pode ser embotado por laços de amizade ou interesses sentimentais. Assim sendo, nunca fique dependente dos elogios. Se você quer evoluir na fotografia, aprenderá muito mais rapidamente recebendo críticas honestas quando cabível. Dê atenção especial aos contatos que sabem fazê-las.

9. Publicar a imagem mantendo o nome de arquivo original como título: coisas como IMG_1937.CR2, P1260522.JPG, Imagem 017.JPG, 00192198.NEF ou DSC01525.ARW. Isso indica que você não tem suficiente cuidado com o seu trabalho e só quer saber de obter visitantes rapidamente. Além disso, distrai os olhos de quem vê a imagem.

10. Postar dezenas de fotos redundantes de uma mesma sessão, sem fazer edição nenhuma. É raro no Flickr (e nunca acontece no orkut), mas alguns descarregam o cartão de memória da câmera diretamente no site e o photostream vira uma tediosa sequência de imagens quase iguais, como fotogramas de um vídeo. Só que o tempo dos visitantes é limitado. A capacidade de selecionar o melhor e descartar o pior é tão importante quanto tirar bem as fotos; é uma habilidade essencial para um fotógrafo. Já desisti de visitar os sites de pessoas que postam fotos por atacado, desvalorizando-as. Este problema pode vir combinado ao anterior, o das fotos intituladas pelo nome de arquivo.

11. Postar muitas fotos de cada vez. Analise as suas estatísticas de acesso e perceba que quase todo mundo só clica para ver de perto a última foto que foi carregada no site. Não importa o quanto o seu ensaio for interessante e suas fotos variadas; as pessoas na Internet têm uma atenção muito curta. As demais fotos do set elas contemplam por cima, pelas miniaturas na sua página principal, no melhor caso. A única pessoa que abre absolutamente todas as suas fotos é a sua mãe. Mantenha aceso o interesse dos visitantes, postando os ensaios a conta-gotas: apenas uma foto por dia.

12. Comentários em linguagem técnica e artística mal empregados ou sem sentido. A banalização e a diluição dos termos fotográficos já chegaram com tudo à Internet. Previna-se. Exemplos:
  • "Boa luz" - A foto tem um fundo desfocado e uma luz do sol lamacenta, filtrada por uma janela acortinada. O contraste foi bombado no Photoshop. Alguém já aparece proclamando: "boa luz". Menos, menos.
  • "Bom DOF" - É bom esclarecer que "DOF" há mais de século tem nome próprio em bom português, "profundidade de campo", e não existe nenhum motivo razoável para adotar uma sigla recém-importada, fora o pedantismo.
  • "Lindo bokeh" - Essa palavra em japonês significa simplesmente "desfoque". É o mesmo caso de "DOF": só serve para demonstrar que você andou lendo os sites gringos de fotografia.
  • "Adorei o movimento" - A imagem em questão é completamente estática; o que ela tem são algumas linhas e ângulos marcantes. Mas a isso não se chama "movimento", e sim "grafismo" ou "geometria".
  • "Boa composição" - muitas vezes fala-se isso de uma foto que contém um elemento isolado, por exemplo, um retrato em close com um corte fechado e um pedaço de parede lisa para o lado, e em vez de "bom enquadramento" o panga fala em "boa composição". É uma confusão similar à de "movimento" com "grafismo".
  • "Bonito tom" - Aqui a palavra "tom" pode estar sendo empregada erroneamente para descrever o matiz: vermelho, amarelo, verde, azul etc. Em fotografia, tom significa brilho, intensidade da luz numa escala que vai do branco ao preto. Cor é o resultado da combinação entre matiz e tom.
  • "Belas cores" - Curiosamente usado para elogiar fotos dessaturadas no Photoshop. Quem entende?
  • Mais uma trilogia

    Grande notícia para os fãs de Kristoph Kieszlowski, autor da célebre trilogia de filmes - "A Liberdade É Azul", "A Igualdade É Branca" e "A Fraternidade É Vermelha". Aparentemente rolou o sinal verde definitivo que faltava para concluir a montagem e a edição de "A Esperança É Verde", este que é um dos filmes inacabados mais aguardados de todos os tempos, especialmente devido ao extenso uso de locações e atores brasileiros. Do sucesso dessa nova empreitada dependerão as chances de se produzir os filmes seguintes da nova trilogia, "A Riqueza É Amarela" e "A Raça É Negra", cujos roteirista, produtor, estúdio, diretor, elenco, figurinista, diretor de fotografia, trilha sonora e distribuidora ainda não foram definidos.

    2008-11-10

    Calvin & Jobs

    Artigo selecionado pelo



    Depois de ter visto as tiras da revista Mad americana baseadas em Calvin & Hobbes, colocando Jobs no lugar de Hobbes, separei um tempo para traduzir essas tiras por minha conta. Depois de aprontar a primeira das oito é que eu descobri que alguém já tinha feito o serviço. Apesar de algumas discordâncias pessoais quanto à tradução, acho melhor apontar para lá do que refazer todo o trabalho teimosamente. Além disso, o Calvin autêntico está lá.

    A minha vontade não se limitava a traduzir as tiras, todavia, mas sim fazer um comentário sobre o teor das piadas. Cada uma traz uma crítica brutal, destrutiva, corrosiva, visando demolir o mito em torno da personalidade de Jobs e afirmar que nem mesmo os seus produtos são tão especiais assim. Um autêntico "chute no saco", como define o Gizmodo.

    Evidentemente, tudo começou pelo inteligente trocadilho no título, que praticamente implorava pela criação de alguma paródia. Mas cada uma das tiras explora um dos aspectos controversos e nunca totalmente comprovados da figura de Jobs. A tese da dupla personalidade, pela qual ele pode ser dividido em "Jobs bonzinho" e "Jobs malvado", foi apresentada por uma biografia não-oficial e sensacionalista que saiu há uns dez anos. Mas cadê alguém com coragem de descrever como as coisas realmente são no dia-a-dia?

    O texto de Calvin & Jobs não é relativamente benevolente como o do Fake Steve Jobs ou o do Joy of Tech. Os dois fazem muita gozação, mas sempre com uma sutil condescendência em relação a essas facetas menos polidas da figura do CEO da Apple. Confrontadas às tiras da Mad, essas outras piadas de Jobs quase parecem um escudo de proteção para o mito.

    A quem interessaria, porém, defender ou atacar Jobs? A principal empresa dele, a Apple, está melhor do que nunca, com faturamento equivalente a dois terços da rival Microsoft, metade do lucro total e oito vezes o crescimento anual. (Quando Steve Ballmer responde aos críticos dizendo que a Apple detém uma fração do mercado de PC, alguém deveria responder-lhe com esses números à queima-roupa em vez de piadinhas embaraçosas como o Kawasaki fez, só para ver se ele vacila na resposta; mas isso já é assunto para outro post.) A outra empresa de Jobs, Pixar, simplesmente virou um pedaço da Disney, com Jobs entronizado na cadeira de principal acionista individual. Essas conquistas podem ser largamente atribuídas a méritos reais e não a simples práticas destruidoras de concorrência - embora elas não estejam completamente ausentes do currículo de Jobs.

    Por falar em Microsoft, por que sempre e somente ela? Nos comentários das tiras no site do Calvin, várias pessoas citaram espontaneamente o recém-aposentado Bill Gates e o macaco no comando Ballmer como rivais naturais de Jobs. Estaremos esquecendo algum nome? Não restará na indústria de informática mais ninguém suficientemente digno de ser criticado em charges? O problema parece ser que os chefões da Microsoft já estão decididamente vivendo o ocaso de suas biografias. Outras figuras controversas e interessantes do passado, como Stallman, McNealy, Kurzweil, Joy, Kay, Torvalds não têm um apelo de massa comparável. Woz, o primeiro herói da computação pessoal, é tratado exatamente como tal e jamais criticado. É o único dentre todos eles que, ainda em vida, ascendeu ao Nirvana dos tecnologistas. Justo ou injusto? Opine.

    2008-11-06

    A salvação do pop, salvando novamente

    Super Money
    Super Flirt

    2008

    Nota: esta é a versão integral sem cortes do artigo. A que saiu publicada teve removidos os três primeiros parágrafos - aqui separados do restante do texto por uma linha em branco.

    Quando sai um disco novo do Super Money, você nunca sabe o que vem por aí. Existem fãs que odeiam isso: ficam apegados a determinada fase da banda e recusam-se a acompanhar sua evolução. A esses, quando começam a reclamar do presente, digo: tem o passado registrado para consolar você. Eu quero o novo tanto quanto os músicos querem.
    Ninguém hoje tem como o Super Money uma percepção tão refinada do nosso tempo, uma consciência tão madura da sua importância dentro do cenário e uma exposição tão clara das suas relações estéticas. Tudo o que dizem através da sua música é relevante, se você tem os ouvidos afinados e uma certa disposição pessoal de embarcar como participante do conceito.
    A audição de cada álbum novo desta banda precisa ser como era nos tempos do vinil: separar uma horinha e meia de tranquilidade no seu lar, sentar na sua poltrona de estimação, apagar as luzes, deixar o som rolar com a atenção de uma esponja, absorvendo cada nota. Eventualmente, repetir tudo desde o começo e captar novas nuances. Ler as letras no encarte à medida que cada faixa toca nos falantes. Decorar as melodias para assobiá-las alegremente nas semanas subsequentes.
    A ironia é que essa banda, por ser jovem e recente, desconheceu completamente os tempos em que esse ritual de audição atenta era básico e natural.
    Em deferência à sua arte superior, ao menos não estreei a sua nova obra-prima nos foninhos vagabundos de um tocador de MP3 durante uma sessão de esteira na academia. Foi no corretamente equalizado som do meu carro, sozinho, durante um interminável engarrafamento que teria me enlouquecido se eu nada mais tivesse a fazer. Mantive as janelas hermeticamente fechadas e viajei. Essa audição, por permanecer fisicamente imóvel naquela esquina tumultuada, revelou-se um ambiente adequado para desvelar as novas idéias do grupo.
    Chegando à minha casa, apaguei as luzes da sala, sentei-me na minha poltrona de estimação e ouvi tudo de novo, repetindo o ritual, mas desta vez anotando minhas impressões iniciais, faixa por faixa, no meu notebook no escuro.


    O disco começa onde terminou o anterior, com uma espécie de prefácio sonoro chamado "Super Flirt", repetindo os ecos pastorais dos acordes finais de "Social Multitasking", a estranha peça de encerramento de "Apparatus And Method", o EP intermediário que serviu de ponte entre o segundo álbum e este terceiro.
    A faixa abertura propriamente é intitulada "Moral Blind Sport" e já entra arrebentando, propondo uma fusão sem concessões entre as distorções secas e entrecortadas de guitarras descarnadas e batidas sampleadas sobre acordes longos que se dissolvem numa intenção quase sinfônica. Os vocais se misturam aos efeitos; o seu efeito é pictórico e quase impressionista; fica impossível discernir o idioma em que são cantados e recitados, e no fundo isso não importa. Sons eletrônicos são aplicados de uma maneira abstrata, completando o rico arranjo. Fiquei pensando: "se tivesse uma letra de verdade, essa música poderia ser um tremendo hit, um single de sucesso... Pena que o vanguardismo deles às vezes fala mais alto do que o conceito expresso de brincadeira no nome da banda".
    Como já denota ser um tipo de padrão nos trabalhos da banda, a faixa dois, "Periphrastic Innuendo", é muito mais tranquila, pausada, um interlúdio relaxante após o sprint inicial. O ritmo da percussão em 7/4 torna as coisas ligeiramente mais desafiadoras. Mais ainda quando entra o solo de baixo em polirritmia a 13/4 e logo adiante soma-se a guitarra em 5/4, testando a capacidade de discernimento do ouvinte.
    Esse virtuosismo exibicionista dura pouco, porém, conduzindo sem interrupção à melodia otimista e calorosa de "Following Is For Cattle", canção brilhante que tem vocais gostosos e um instrumental bastante convencional, sem maiores pretensões, evocando o passado remoto da banda. Assim que você se sente perfeitamente confortável com essa canção cheia de reminiscências, a banda corta para mais um estilo diferente.
    "Truth or Consequences" parece no início uma batucada tribal, com uma batida seca e surda de percussão acústica, na qual Marko demonstra uma fração das suas vastas capacidades com as baquetas. Logo se soma à brincadeira um tonitruante didjeridoo em polirritmos e grunhidos, com Admsyer no comando. E então, surpresa! Acordes de didgeridoo... e um didgeridoo-trombone! Esse originalíssimo conjunto entoa a mais imprevisível das marchas, de forma ao mesmo tempo burlesca e sublime, rústica e pomposa. A melodia é reapresentada, e a cada repetição algumas partes do arranjo vão sendo sucessivamente substituídas por tons eletrônicos inefáveis. Ao cabo de três minutos, a composição está totalmente mudada, como se fosse um carro ao qual se trocasse as peças em pleno movimento.
    A faixa seguinte, "Iconoclastic Buildup", é um novo interlúdio suave e tem um fundo monótono, com efeitos misteriosos que ora parecem sons aquáticos afogados em reverberação, ora murmúrios de monges rezando. A música tem uma longa duração mas o efeito não é cansativo, antes funciona como uma espécie de atalho temporal que marca o centro exato do disco, formando um núcleo destacado em conjunto com faixa seguinte.
    Finalmente emerge uma nova melodia luminosa, alegre e confiante, que leva o título de "The Sugared And The Profane". Graças a mais um toque de experimentalismo na produção, os vocais se dissolvem em nuvens de timbres que por alguns momentos ficam quase irreconhecíveis, sem concessões à acessibilidade da composição. Mas esse mistério por trás de algumas das decisões sonoras da banda é justamente o que impele a curiosidade continuada do ouvinte. É algo que só as bandas progressivas dos anos de outrora faziam com deliberação. Porém, nada aqui soa antigo ou reciclado.
    Depois de um autêntico festival aural que inclui improváveis samples de bandas sinfônicas e de jazz fundidos a sons afinados da frição de pneus de carros no asfalto sobre uma edulcorada base de órgão Rhodes e o indefectível coro feminino, a música se dissolve numa cacofonia de explosões totalmente súbitas e inexplicáveis, como se tivéssemos sido atirados no meio de um bombardeio junto com as bombas.
    Após o breve e intimidador silêncio que se segue, somos trazidos de volta a um terreno sonoro familiar. E, de fato, "Sun Water Sports" é uma recriação da faixa de abertura, agora em cintilante roupagem pop, exatamente como eu tinha imaginado que poderia ser. Quase me vieram as lágrimas! Porém, logo você nota que a música soa tão convencional que até parece uma paródia de outras bandas menos imaginativas. E provavelmente é isso mesmo. Destacam-se apenas duas idiossincrasias: os solos inspirados de Admsyer, que invadem de surpresa alguns momentos improváveis da canção, e as brincadeiras guturais de Kohen ao fundo.
    As qualidades narrativas, que fazem muitos trabalhos do Super Money parecerem trilhas de cinema, retornam na faixa seguinte, "Fond of Medicine", uma instrumental nervosa que novamente introduz uma instrumentação inusitada, com um vibrafone pontuando o ritmo, e mais adiante aparece, inicialmente como quem não quer nada, um solo de guitarra ectópico, amorfo e desesperado. O som vai se transformando num lamento amargo e capaz de congelar o sangue. Então, marteladas pesadas de piano sobrepõem-se selvagemente ao vocal sem palavras toda vez que este tenta emergir no mix, perseguindo suas doces notas com clusters desarmônicos.
    Como em outras composições, a agitação recede aos poucos e o arranjo retorna a um formato clássico de rock, fluindo para a faixa de despedida, "Wanton Priests of Throbbing Lubricity", que novamente combina uma letra perturbadora a uma melodia alegre e descompromissada. Ao final dela, ouvimos novamente os ecos de fragmentos de "Apparatus And Method" e então mergulhamos naquele silêncio perturbador de um sonho que fora interrompido antes que começasse a virar pesadelo.
    Claro que o final do CD não é o final verdadeiro: sempre há uma faixa bônus em todos os trabalhos da banda. Mas deixo para você a surpresa de descobrir do que se trata.
    Enfim, o novo trabalho é sólido, vai além das expectativas do conhecedor, já nasce clássico e mais uma vez deixa os concorrentes sem condição de fazer nada similar que não deixe de soar como uma cópia pobre e fraca de entendimento. Ignore os imitadores; não há nada como o original. Mesmo que nos faça esperar um pouco.