2008-10-16

Microsoft de birra com Apple, Parte 2

Esqueça todo o blablablá anterior sobre o atual marketing do Windows. É possível resumir a minha tese a apenas três parágrafos curtos.

O insight veio quando fui ler esta análise do Lucas Mendes na BBC sobre o último debate dos candidatos presidenciais americanos. Chega uma hora em que ele fala:

A última pesquisa do Times/CBS, que coloca Obama com 14 % na frente de McCain, e outras, mostram que a campanha negativa machuca mais o atacante do que o atacado.

A situação é muito parecida. McCain/Microsoft parte para cima do rival Obama/Apple, mas os golpes dão no seu próprio rosto, e por uma razão simplíssima: a campanha negativa funciona ao contrário quando não há consenso entre os consumidores do seu produto (Windows Vista) sobre a qualidade dele mesmo, mas há sobre a do rival.

Claro que os números são diferentes, mas eles não contam toda a história. O Mac está arrebanhando usuários do Windows em massa, mas a plataforma Windows ainda é muito maior no mercado. Não se justifica tão evidente preocupação com o concorrente, menos ainda ataques mal-humorados que chegam a fazer uso de pura mentira ("taxa Apple").

Quanto mais atenção a Microsoft der ao Mac e não ao Windows em sua própria campanha, mais os usuários do Windows que são o público alvo serão lembrados da sua opção. E a questionarão. E isso poderá acelerar ainda mais a migração em massa para o Mac.

Quem está percebendo isso não é um executivo que responde por milhares de funcionários numa das maiores companhias do planeta. Apenas um dos - na opinião dele - deslumbrados e desinformados consumidores. A quem ele deveria estar dirigindo uma mensagem positiva.

Agora posso me calar sobre o assunto até depois do lançamento do Snow Leopard e do Windows 7... e conferir a evolução da conjuntura.

2008-10-14

Microsoft de birra com Apple, Parte 1

Artigo selecionado pelo

Eu twittei, depois o Bánffy soou o alarme também. O vice-presidente de marketing de consumo de produtos Windows da Microsoft deu uma longa entrevista com Ina Fried, da Cnet, basicamente para malhar a Apple. Como o sujeito não consegue ser conciso e coerente, costurei aqui um resumão dos pontos mais, aham, interessantes:

Brad Brooks: ...Estamos olhando para as coisas diferentes que o consumidor pode ter com o Windows e compreendendo o que se relaciona ao que chamamos de "taxa Apple". Há uma taxa para as pessoas que estão avaliando suas opções para esta estação de compras de fim de ano... Uma taxa de escolha...
...Se você quer comprar uma máquina que não seja branca, preta ou prateada, e que venha em múltiplas configurações e preços, você pagará uma taxa ao escolher ir pelo caminho da Apple...
...Também há uma taxa de aplicativos, caso você deseje opções de aplicativos ou se quiser ter a mesma experiência de uso no Mac que tem no Windows; vai comprar um monte de software e não vai ter a mesma experiência...


É interessante que você fale de uma taxa relacionada a aplicativos... A compatibilidade da Apple nunca foi tão boa, levando em conta o Parallels e e VMware Fusion [que permitem rodar o Windows junto com o Mac OS]. A vantagem de vocês não diminuiu desde que a Apple adotou processadores Intel?

Brad Brooks: ...Se as pessoas querem uma experiência com o Windows, que comecem com uma máquina que foi construída para a experiência com o Windows...

Se se trata uma taxa, parece ser uma taxa que mais e mais pessoas estão dispostas a pagar.

Brad Brooks: Bom ponto. Mas a questão é: os consumidores realmente sabem no que estão enveredando?... Os consumidores entenderão as coisas das quais estão abrindo mão em termos de escolha, de compatibilidade, de usabilidade...? O quanto terão de pagar em custos adicionais para obter... a mesma funcionalidade que existe usando Windows e Windows Live juntos?

Por outro lado, quando você compra um PC com Windows, precisa de um programa antivírus, algo que historicamente o usuário de Mac nunca necessitou. Não há coisas do lado da Apple que empatam a equação financeira?

Brad Brooks: É uma falácia achar que Macs são invulneráveis... E você tem 60% menos de chance de pegar vírus com o Vista em vez do XP SP2... o Windows Vista operando junto com o Internet Explorer 7 efetivamente gera segurança para nossos consumidores.

OK, mas como isso se compara com os vírus no Mac?

Brad Brooks: É difícil fazer uma comparação direta. Eu quero ser muito específico em qualquer tipo de dados ou informação que eu lhe fornecer... O melhor jeito é olhar do ponto de vista dos serviços de Internet e o que tem acontecido neles em termos de phishing e scams...

Essa longa conversa sobre a Apple parece refletir uma mudança no pensamento da Microsoft, de que a Apple está mais ameaçadora no campo do PC. Como vocês vêem a Apple em termos de ameaça competitiva no desktop?

Brad Brooks: ...Estamos traçando uma linha na areia. Há duas coisas acontecendo. Primeiro, estamos cansados de não definirmos os nossos próprios produtos e a experiência de uso diária de literalmente bilhões de usuários... É hora de contar a nossa história... O que trazemos às pessoas em termos de um mundo sem muros, uma vida sem muros... E também do que elas deixarão de ter se escolherem uma direção que não seja o Windows, e mostraremos os custos disso, particularmente dessa taxa da Apple...

Estou confuso... O market share da Apple cresceu consideravelmente nos últimos anos e a satisfação dos consumidores é elevadíssima. Quer dizer: o seu argumento, basicamente, é de que as pessoas simplesmente não entendem o que estão adquirindo e por alguma razão pensam estarem contentes com um Mac?

Brad Brooks: Não. A pergunta é sobre o verdadeiro valor do Windows e as escolhas que elas fazem todos os dias... É sobre o que o Windows é... É inquestionável que Apple virá dizer algo diferente... Mas se vierem com um produto mais barato, ainda estarão "tirando pedaços de um iceberg para fazer uma raspadinha"... O custo para o consumidor é muito maior. Não é uma questão sobre as pessoas estarem ou não satisfeitas com a experiência, mas sobre saberem o que obterão ao optar por embarcar por esse caminho. Ao seguirem a jornada e perceberem o custo...

Não há um perigo de a sua mensagem publicitária soar como: "você, consumidor, não entende nada"?

Brad Brooks: Isso está longe do que pretendo comunicar... O que eu quero que fique definido em relação ao WIndows é que há muita coisa que você não está sabendo, porque não lhe foi apresentado... As pessoas não entendem a taxa Apple porque ela não lhes foi apresentada...

Você usou a frase "entenda os fatos" algumas vezes. Isso significa que quer fazer algo similar ao que fizeram contra o Linux?

Brad Brooks: O público é diferente, mas a abordagem é a mesma... Não temos medo da verdade. E não achamos que a verdade tenha sido dita...


Quem lê este blog sabe que na hora de criticar algo eu sempre procuro chegar com todos os fatos à mão e procuro não falar um adjetivo a mais do que o necessário. Mas neste caso, não há muito a dizer. O cara se afunda sozinho. E é um dos executivos mais importantes da companhia, veja bem.

O discurso defensivo, acuado, não condiz com a importância da plataforma Windows. A "politização" da disputa de mercado reflete um medo da parte da Microsoft que ela não deveria sentir, menos ainda admitir. O líder de mercado agir como se estivesse tomando uma surra do segundo lugar distante transmite uma mensagem muito pior para os consumidores e aliados do que simplesmente continuar sendo arrogante e ignorar o resto do mundo.

A "taxa Apple" é a teoria mais fantasiosa que vi em muito tempo no mundo informático. Uma parcela do preço do PC representa a taxa de licenciamento do Windows para o fabricante, não sabe? E a esta altura, começar a admitir (numa parte da entrevista que cortei) que a versão para Mac do Office é um produto de segunda categoria, que faz a versão Windows parecer melhor, é admissão de histórica insinceridade e má fé.

Se essa pequenez intelectual representa o pensamento prevalente na gerência da Microsoft, a empresa está escolhendo um péssimo caminho, não os alegres e "desinformados" consumidores da Apple. Quanto a estes, os seus motivos para abandonar o Windows são postos de lado propositalmente na entrevista, mesmo quando perguntado diretamente e seguidamente sobre eles. Quer falar a verdade? Comece respondendo de frente a perguntas sobre segurança, confiabilidade, desempenho, DRM, custo total de propriedade. Não quer? Todo o seu marketing vai direto para a minha lata de lixo.

Você, consumidor, não colabore para intensificar esse obscurantismo programático. Sempre repito: a briga é das empresas, não nossa. Cada consumidor deve usar o equipamento que o satisfaz e fim de papo.

Update - Olha de onde vem o mau exemplo. Steve Ballmer veio a São Paulo para promover um programa de implantação de produtos Microsoft nas escolas, que foi promovido pelo governador Serra como se tratasse de filantropia digital. Isso em si já não é exatamente bonito. Daí, na primeira pergunta da entrevista à Info Exame, o cara solta o verbo. Vai engolir as palavras no futuro.


Update - Tirei um pouco de contexto uma tira do Savage Chickens para ilustrar a posição da Microsoft em relação ao Windows através de uma metáfora óbvia, bem ao gosto do consumidor de produtos Apple segundo a companhia de Redmond.

Update - Oh, o Boing Boing acaba de fazer a melhor paródia de todos os tempos de um Windows que nem foi ainda lançado...

Update - A Apple lançou um anúncio da campanha Get A Mac que vai exatamente na linha dos Savage Chickens. Incrível! A peça em questão se chama "Bean Counter".

Abril de 2009 - É claro que a Microsoft estava forçando a mão. Leia isto.

2008-10-08

PinFotos - Repercussão na Abril

Apenas duas horas após eu colocar o assunto em pauta, a Abril publicou uma versão reescrita e refinada dos Termos de Uso do PinFotos. Diz que foi por pura coincidência e não como resposta aos meus questionamentos, mas o importante é que temos uma revisão e clarificação do texto legal, que agora está assim:

13. Propriedade Intelectual
O website PinFotos, incluindo marcas, logotipos, produtos, sistemas, denominações de serviços, programas de computador, bancos de dados, imagens, arquivos de qualquer tipo, ou qualquer outro material contratualmente autorizado é de propriedade intelectual da Abril Digital, seus fornecedores e/ou controladoras, controladas ou coligadas, conforme o caso. O Usuário reconhece e se obriga a não violar, contestar ou questionar tais direitos a qualquer tempo.
O Usuário detém a propriedade de qualquer conteúdo original produzido por ele durante a utilização da ferramenta, incluindo todos os textos, dados, informações, imagens, fotografias, músicas, sons, vídeos ou qualquer outro material que o Usuário possa publicar ("upload"), transmitir ou armazenar enquanto usa o Serviço.
Ao enviar qualquer conteúdo, inclusive por meio da participação em fóruns de discussão ou blogs relacionados ao PinFotos, o Usuário concede à Abril Digital uma licença na forma e condições previstas no item CONTEÚDO COLABORATIVO, abaixo.
O PinFotos poderá permitir, a seu exclusivo critério, a exibição em suas páginas ou nos anúncios de seus Usuários, links para outros sites da rede, o que não significa que esses sites sejam de propriedade ou operados pelo PinFotos (incluindo a Abril Digital). Não possuindo controle sobre esses sites, o PinFotos não será responsável pelos conteúdos, práticas e serviços ofertados nos mesmos. A presença de links para outros sites não implica relação de sociedade, de supervisão, de cumplicidade, solidariedade ou recomendação do PinFotos para com esses sites e seus conteúdos.
Desde que citada a fonte (inclusive o nome do autor, quando possível e aplicável) e dentro das condições e limites previstos em lei, notadamente a lei de direitos autorais (lei n.º 9.610/98), o Usuário pode reproduzir, publicar, apresentar, oferecer ou expor qualquer cópia de qualquer conteúdo pertencente à Abril Digital sem o consentimento da Abril Digital ou, no caso de conteúdo de autoria de terceiros, desde que constante de álbuns definidos como “públicos”, sem o consentimento do autor ou autora, em qualquer caso, desde que sem finalidade comercial.
O Usuário se compromete a cumprir todas as leis nacionais e internacionais referentes aos Direitos de Propriedade Intelectual.

14. Conteúdo Colaborativo
Ao enviar qualquer contribuição para o PinFotos (incluindo a sua participação em fóruns de discussão e o envio textos, fotografias, ilustrações, vídeos, arquivos de áudio e outros materiais), o Usuário autoriza a Abril Digital a utilizar tal conteúdo, de forma gratuita e não exclusiva, por qualquer modalidade, para publicação, reprodução, transmissão, retransmissão, distribuição, comunicação ao público, edição, adaptação e outras transformações, tradução para qualquer idioma, inclusão em quaisquer outras obras, representação, execução, uso por radiodifusão e outros meios de comunicação, mediante o emprego de qualquer tecnologia, exposição, inclusão em base de dados e quaisquer outras modalidades de utilização existentes ou que venham a ser inventadas, em quaisquer suportes existentes ou que venham a ser inventados, autorizando também a criação de obras derivadas e o sublicenciamento do material para uso em outras plataformas de comunicação da Abril Digital, incluindo suas empresas afiliadas e parceiras, sem limite de território e por todo o prazo de proteção das obras enviadas, com o objetivo de promover o PinFotos. Qualquer eventual omissão não implicará limitação de uso do material pela Abril Digital. Se o Usuário não concorda em autorizar a Abril Digital a utilizar sua contribuição conforme acima, o Usuário então não deverá submeter qualquer material para o PinFotos.
As contribuições e participações do Usuário não deverão conter violação de direitos autorais ou de personalidade de terceiros, nem ressaltar condutas abusivas, ofensivas, contrárias aos bons costumes, à lei e à ordem pública.
Qualquer dos Usuários poderá comentar qualquer contribuição feita por outro Usuário. Assim, o Usuário permanece ciente de que a postura dos Usuários colaboradores do PinFotos não é e não reflete a postura da Abril Digital, uma vez que as contribuições serão publicadas como disponibilizadas por terceiros, não pela Abril Digital.
É expressamente proibido o envio de material publicitário, de propaganda ou promocional, bem como de esquemas, correntes, pirâmide ou a divulgação de atividades semelhantes e que possam prejudicar a imagem e o funcionamento do PinFotos.
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O Usuário declara que o material enviado é de sua exclusiva criação, não constituindo violação de direitos autorais, marcas, segredos, direitos de personalidade, incluindo honra, intimidade, vida privada e a imagem das pessoas, direitos patrimoniais e quaisquer outros direitos de terceiros.
O Usuário indenizará a Abril Digital por quaisquer prejuízos que ela venha a sofrer em razão de quaisquer das garantias acima serem falsas ou quaisquer termos deste Termo serem violados pelo Usuário.
As disposições deste item CONTEÚDO COLABORATIVO aplicam-se, no que couber, a todos os demais itens e disposições destes Termos e Condições de Uso.


A parte nova que fala de conteúdo colaborativo diz que as eventuais reproduções de conteúdos de usuários em materiais da Abril são para promoção do próprio site. É o mesmo modelo de relacionamento usado pelo Flickr, do Yahoo, que possui um agente jurídico encarregado de resolver questões relacionadas a cópia indevida de conteúdos dos usuários. Por contraste, a atual licença do Google, que vale para o orkut, está assim:

11. Licença de conteúdo do usuário
11.1 O usuário retém direitos autorais e quaisquer outros direitos que já tiver posse em relação ao Conteúdo que enviar, publicar ou exibir nos Serviços ou através deles. Ao enviar, publicar ou exibir conteúdo, o usuário concede ao Google uma licença irrevogável, perpétua, mundial, isenta de royalties e não exclusiva de reproduzir, adaptar, modificar, traduzir, publicar, distribuir publicamente, exibir publicamente e distribuir qualquer Conteúdo que o usuário enviar, publicar ou exibir nos Serviços ou através deles. Essa licença tem como único objetivo permitir ao Google apresentar, distribuir e promover os Serviços e pode ser revogada para certos Serviços, conforme definido nos Termos Adicionais desses Serviços.
11.2 O usuário concorda que essa licença inclui o direito do Google de disponibilizar esse Conteúdo a outras empresas, organizações ou indivíduos com quem o Google tenha relações para o fornecimento de serviços licenciados e para o uso desse Conteúdo relacionado ao fornecimento desses serviços.
11.3 O usuário compreende que o Google, ao efetuar as etapas técnicas necessárias para fornecer os Serviços aos nossos usuários, pode (a) transmitir ou distribuir o seu Conteúdo por várias redes públicas e em várias mídias de dados; e (b) efetuar as alterações necessárias ao Conteúdo do usuário para ajustar e adaptar esse Conteúdo aos requisitos técnicos de conexão de redes, dispositivos, serviços ou mídia. O usuário concorda que essa licença permitirá ao Google realizar tais ações.
11.4 O usuário confirma e garante ao Google que tem todos os direitos, poderes e autoridade necessários para outorgar a licença citada anteriormente.


Podemos considerar a alteração nos termos de uso da Abril uma pequena vitória, ou ainda há algum detalhe capcioso escapando?

Abril aprontando mais uma vez?

Alguém já deve ter visto que a Abril criou um serviço de hospedagem de fotos chamado PinFotos. Reminiscente do Flickr e do MySpace, tem uma organização por álbuns, uma orientação social e um visual bem agradável.

Como não faz muito tempo que a Abril causou uma polêmica desnecessária envolvendo direito de autoria na sua iniciativa de blogs convidados, a primeira coisa que fiz foi conferir os termos de uso desse novo site. A parte que me interessa do texto está copiada a seguir:

9. Direitos autorais
O Usuário não pode reproduzir, publicar, apresentar, alugar, oferecer ou expor qualquer cópia de qualquer conteúdo pertencente à Abril sem o consentimento da Empresa ou, no caso de conteúdo de autoria de terceiros, sem o consentimento do autor ou autora. O mesmo se aplica a conteúdo de outras Empresas e/ou que estejam submetidos a leis de direitos autorais (copyright).
O Usuário se compromete a cumprir todas as leis nacionais e internacionais referentes aos Direitos de Propriedade Intelectual.
O Usuário detém a propriedade de qualquer conteúdo original produzido por ele durante a utilização da ferramenta de álbuns da Abril, incluindo todos os textos, dados, informações, imagens, fotografias, músicas, sons, vídeos ou qualquer outro material que o Usuário possa publicar ("upload"), transmitir ou armazenar enquanto usa o serviço.
A Abril é proprietária de todas as compilações, trabalhos coletivos ou derivados criados pela Empresa, e que podem, eventualmente, incorporar o conteúdo dos álbuns criados pelos Usuários.
O Usuário concede licença de uso irrevogável, perpétua, global e livre de royalty para uso, exposição pública, publicação, exibição pública, reprodução, distribuição, transmissão, adaptação, alteração e promoção de seu conteúdo publicado nos álbuns em qualquer mídia da Abril.


É uma contradição flagrante dizer que o usuário retém a propriedade dos conteúdos, mas logo adiante explicitar que a editora pode utilizá-los comercialmente de forma automática. Na condição de diretor de arte de revista de longa data, eu poderia perfeitamente pensar da seguinte forma, imaginando-me no papel de um editor da Abril:

"Estou livre para considerar o PinFotos como um serviço de Free Stock Photos a meu dispor para uso comercial. Os usuários têm o ônus e o trabalho de produzir as suas imagens. Nós, da editora, simplesmente nos apropriamos delas como se o site fosse uma torneira mágica de fotos. Escolho qualquer coisa que me agrade e a publico numa das minhas revistas, do jeito que eu quiser. Vale tudo: foto original intocada, montagem, alteração, deformação, ilustração ou até refazer o conceito da foto. E tudo fica tão simples! Não preciso pagar um centavo! Não preciso contatar o autor da foto para pedir autorização! Não preciso escrever aqueles contratinhos chatos! Não preciso mais pautar um fotógrafo profissional! É uma mina de ouro! É o paraíso!"


Já como criador de imagens profissional, não posso ficar nem um pouquinho contente com isso.

Postei o texto acima em dois lugares: na lista de discussão Webees, do Google Groups, e na comunidade orkut do PinFotos, onde a discussão segue com pessoas da própria Abril.

Tanto na lista como no orkut, até este momento os resultados foram desanimadores. Na lista prevaleceu a pose cínica e insensível de "trouxa tem que se ferrar" e "bem feito pra quem é newbie". Discordo totalmente. Quem nunca foi um inocente newbie na Internet que atire o primeiro mouse! Quem está melhor informado e consciente das questões éticas na Internet precisa ajudar os outros. Sempre. Por mim, é um imperativo irrefutável.

Alguém na lista também perguntou se o certo não seria postar conteúdos no site da Abril e processá-la depois no caso da apropriação. Não, isso não é o certo. Postar uma foto no site deles implica aceitar o contrato como ele é e ponto final. Não vale alegar depois que não leu ou não entendeu.

Até nos eventuais projetos voluntários, em que eu não ganho nada e abdico totalmente da minha posse sobre o trabalho, sempre leio e assino um contrato. O certo no caso da Abril é redigir o contrato corretamente em primeiro lugar.

Opine aqui e no orkut e, se você concorda comigo, ajude a pressionar a Abril e os demais grupos de mídia para desistirem de dar uma de espertinhos explorando linguagem ambígua em termos de uso de websites. Todo mundo ganha.