2008-08-27

Os 12 pecados capitais do fotógrafo amador

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A minha nova atividade editorial, que se reflete neste blog, é escrever artigos sobre fotografia para revistas que não são sobre fotografia, o que me direciona naturalmente a falar de foto amadora para fotógrafos casuais. As pessoas adoram ler artigos com dicas de fotografia. Mas como é que você fica sabendo depois se a sua técnica evoluiu?

Sem chance no Flickr e Fotolog, pois eles são em essência redes sociais e não sites de portfólio. Assim, o comadrio é a norma natural. Nunca se vê alguém apontando falhas nas fotos dos outros. Mesmo quando pessoas pedem esse tipo de orientação, a crítica bem-intencionada parece inadequada, rude, fora do lugar. Aspirantes a artistas da luz perdem suas ambições e acabam viciados no elogio fácil e nas medalhinhas imaginárias.

Daí explica-se o meu prazer e fascinação ao ler o FotoGlobo, blog dos fotógrafos do jornal O Globo. Eles convidam os leitores a enviarem suas fotos para serem criticadas. E baixam a lenha sem nenhuma dó e sem receio de ofender ou humilhar. Está bem assim, porque todas as críticas deles são construtivas. Quem aspira a artista precisa às vezes ouvir o que não quer, senão não cresce.

O mais fascinante é que ao analisar as fotos junto com o blog, você detecta alguns erros recorrentes nas fotos amadoras. Esses erros podem até ser classificados num conjunto restrito de problemas fundamentais da fotografia, que eu chamei de 12 Pecados. Leia, reflita e depois conte-me o que achou.


Os 12 pecados, um por um

1. Enquadramento centralizado no assunto, esquecendo de compor a cena


É o que chamo de "visão de túnel": na excitação de capturar o momento, a pessoa só enxerga a área central do campo de imagem e esquece o resto, enquadrando cenas bonitas de forma desarmônica e desleixada. Todo mundo, inclusive eu e você, já fez alguma dessas fotos em que a namorada está parada como um poste no centro da foto, dividindo o quadro simetricamente em duas massas confusas de poluição visual que não comunicam nada. Solução: aprenda a compor de maneira descentralizada e a enquadrar na vertical.

2. Objetos estranhos interferindo com o assunto principal


Esse erro é uma extensão do primeiro. Fundos que distraem, fundos sem contraste, fundos com luz melhor que a do assunto da foto, objetos que poderiam perfeitamente ficar fora da composição, pedaços de dedos na frente da lente. Quase sempre dá para achar um novo ângulo que resulte num fundo mais limpo. Ou então, se a lente permitir, forçar o desfoque do fundo com uma abertura generosa.

3. Horizonte desnivelado


A maioria das pessoas que enviou suas fotos para o FotoGlobo não tem a mais rudimentar noção de prumo. A quantidade de imagens com a câmera torta é tão absurda que ficou clara para mim a necessidade de a indústria fotográfica dar um passo além das perfumarias do momento e incluir nas câmeras amadoras uma função verdadeiramente útil: autonivelamento do sensor. Ou isso, ou as pessoas passam a prestar atenção num problema óbvio.

4. Captura precipitada


A pessoa vê uma cena estática e tranquila, como uma paisagem, e clica afobadamente a partir de onde está, sem caminhar um pouquinho que seja para achar o melhor ângulo. Em fotos tiradas de ônibus turístico, ainda se compreende e perdoa. Num passeio a pé, não.

5. Luz do dia ruim


Se tiver ao alcance um programa de edição de imagem (e vamos admitir, todo mundo tem, mesmo que pirata), faça uma curva de contraste para ressuscitar os brilhos esmaecidos pelo céu nublado. Ou recuperar as sombras duras projetadas pelo sol forte. Mas o melhor jeito mesmo é escolher um horário de luz bonita para fazer a foto. Ou então, carregar um rebatedor e unidade de flash externo. Opa, aí já não sei se continua sendo fotografia amadora.

6. Objetos desnecessariamente distantes


Chegue perto do assunto. Se não der, use o zoom. Hoje em dia todas as câmeras compactas têm um senhor zoom. Não tem mais desculpa continuar fazendo aquelas fotos que eram típicas das point & shoots antigas de lente fixa de 35mm, que consistiam em vastos campos salpicados de detalhinhos minúsculos.

7. Pessoas com mãos, pés ou cabeça cortados


Se é para ser retrato de corpo inteiro, que seja - literalmente. Se é para ser um plano parcial, isso tem que estar bem definido. Se tem braço inteiro, precisa ter mão. Ah, é que a pessoa está tão lindinha nessa foto que você torce para ninguém reparar na mancada? Refaça o corte mais fechado. Não rolou? Resigne-se, tire a foto do álbum e tenha mais cuidado na próxima oportunidade.

8. Flash disparado sem necessidade


Profundamente irritante, mais ainda se ele pegou numa superfície refletiva no fundo e carimbou um clarão totalmente gratuito na contraluz. Calculo que uns 80% das fotos amadoras feitas com flash ficariam muito melhores sem ele.

9. Foto de cartão postal com ângulo manjado


Não importa que a imagem é tecnicamente correta. Continua sendo banal e redundante. Como essa foto do local turístico já existe na forma de cartão postal, vá à lojinha de souvenirs e compre-o. A seguir, use a sua câmera para tentar algo diferente e personalizado.

10. Assinatura horrível num canto


Não adianta nada. Se algum maluco quiser roubar sua foto pela Internet, a assinatura não o impedirá: basta cropar o seu nominho fora. Além de o texto distrair o olho do assunto da foto, a imensa maioria das pessoas não tem bom gosto tipográfico. Pronto, falei.

11. Lusco-fusco e crepúsculo entulhados


Objetos silhuetados atrapalhando no primeiro plano: postes, fios elétricos, prédios etc. Esse descuido comum se deve a uma variante da "visão de túnel": o fotógrafo fascinado pela luz colorida do céu esquece de compor a cena. Inclua esses elementos no enquadramento de alguma maneira coerente ou deixe-os de fora.

12. Assunto de mau gosto


Aí não tem dica que ajude.


Abril de 2009 - O texto original deste post deu origem a um outro, com a parte inicial sobre o FotoGlobo separada em um box, na revista Mac+, onde tenho uma coluna mensal sobre foto digital. Acabou sendo um dos meus artigos mais populares na revista.
Mais recentemente, o texto andou sendo copiado para várias comunidades sobre fotografia do orkut, gerando discussões. É um pouco triste e por vezes constrangedor ver as reações hostis, defensivas e agressivas de uns poucos fotógrafos inseguros, que não toleram a mais vaga sugestão de que eles possam aprender algo novo a partir de uma fonte externa à própria experiência. Vestem a carapuça gratuitamente e revoltam-se contra o que julgam ser cagação de regra, quando é apenas bom senso prático para quem está iniciando ou se desenvolvendo na fotografia e precisa de toda a informação que puder até dominar os elementos técnicos.
Os grandes artistas sempre souberam que, para que o ato de quebrar as regras formais faça sentido, é preciso antes conhecê-las. A atitude de "vale tudo" é exatamente um dos fatores fundamentais da produção fotográfica banal de muita gente.
Por fim, humor e humildade têm algo mais em comum do que a letra H no começo.
Para deixar o artigo mais descontraído, estou ilustrando a versão Web com as mesmas fotos que foram usadas na revista. Todas com problemas, e todas minhas.

2008-08-25

Acabaram os Jogos

Isto é uma amostra do que time de fotógrafos da Newsweek teve a dizer ao final de sua cobertura da Olimpíada:

First and foremost, Simon Barnett, Newsweek’s director of photography, and the magazine’s decision to have the three of us blog daily has been the deciding factor in making these game more fulfilling for me than ones prior. Becoming part of the blogosphere has proven to be one of the most interesting and rewarding things I’ve done as a journalist.
...And while some may not yet see the significance of that—or agree with it—to me it’s crystal clear that this kind of two-way exchange with our audience that we need more of in our industry, we need more personal and behind the scenes accounts—and a goal of making unique images that adhere to our own personal visions as opposed to the size of the page or hole we need to fill in a layout is the future of journalism. ~Vincent Laforet

Personally I am quite happy with my photo take from here, although I am very disappointed with the performance, or lack thereof, of some of my Canon gear. The fact that many integral moments and photos were missed entirely because of camera malfunctions, has made me really reconsider, as many of the sportsshooters in the industry, if I should make the switch to black lenses. ~Donald Miralle

...All sport should be like the Beach Volleyball Olympic finals. Here’s the recipe for success. Loud music, the “Beach Girls” and Brazilians in the stands. I don’t care if there are Brazilians in the sport—you should just give some tickets to Brazilian fans each time there’s an event. ~Mike Powell


Muitos textos e montes de fotos magníficas nesse site. Fotos que não encontrariam espaço para publicação dentro dos jornais e revistas e relatos pessoais dos repórteres fotográficos que dão ideia precisa da rotina de correria e aventura que eles passam num evento desse porte. Medalha de ouro para a Newsweek.

2008-08-21

Não pense, apenas fotografe

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Eu estava lendo um review da nova ultracompacta DCS-T700 da Sony, que substitui a T300, a qual por sua vez tinha entrado no lugar da T200 há apenas um ano.
Contemplando esses códigos de produto em sucessão numérica, imaginei uma piada: "Dentro de mais um ano teremos a T1000, e ela será capaz de perseguir, como um robô implacável, as pessoas que não gostam de ser fotografadas".
Então, vi que a T700 oferece detecção de sorriso. OK, não é novidade, a concorrência também tem. Mas a detecção de sorriso da T700 pode ser calibrada para disparar em um dentre três níveis diferentes de sorriso. E ainda oferece um controle de prioridade de sorriso: adulto ou criança!
Já não bastava o espanto que foi apontar uma Canon G9 para uma multidão e ver a câmera reconhecer e seguir na telinha as cabeças de múltiplas pessoas em movimento, ajustando e indicando a zona de foco em tempo real.
Você começa a pensar que tecnologias desse tipo são produto de magia negra, entidades imateriais incorporadas dentro dos chips. Mas isso não é um desvirtuamento da fotografia. É um avanço inexorável.
Yoshihisa Maitani, que inventou várias máquinas revolucionárias para a Olympus e já citei aqui como um ídolo do mundo fotográfico, sempre falou de suas criações em termos filosoficamente destacados do seu tempo e local. Seus pensamentos eram surpreendentemente pouco ligados às questões concretas da mecânica e da eletrônica do dia-a-dia. Ele sempre concebeu a câmera como um "aparelho de memória", o que é uma definição muito flexível. Pode ser um futuro implante cerebral que grave as imagens que o olho enxerga, por exemplo. Ou a combinação entre still e filmadora que já vemos em muitas digitais modernas.
Os avanços mais radicais da eletrônica não se referem a sensores ou lentes, mas a novas maneiras de processar digitalmente a imagem. O que o sensor gera é apenas uma informação numérica da cena, um banco de dados sem substância própria. Esses dados podem ser recalculados, reformatados, massageados e maquiados de muitas maneiras, até obter-se um resultado que corresponda a expectativas estéticas previamente estabelecidas pelo fabricante e selecionadas pelo usuário. Quem já mexeu no Camera Raw conhece bem a sensação de "realidade flexível" que esse controle digital da imagem traz.
A meta definitiva dos projetistas japoneses é uma câmera que faça tudo sozinha. O consumidor deverá pensar o mínimo possível, dar férias ao cérebro e empenhar apenas seu olhar e emoção no ato da captura. Os avanços técnicos denotam a crença sincera dos fabricantes - concordemos ou não com ela, nós que criamos as imagens - de que a câmera chegará a pensar pelo fotógrafo em todas as situações. Ao ser humano restará compor a cena e apertar o disparador. É como se fosse uma caneta esferográfica: a gente aperta um botão para expor a ponta, apoia a caneta sobre o papel e escreve. Nada de regular fluxo de tinta, cor, espessura do traço ou outros parâmetros antes de poder começar o ato da escrita. Essa filosofia é tão aparente que a primeira grande criação de Maitani chamava-se, apropriadamente, Olympus Pen. Há 50 anos ele já tinha na cabeça o conceito de uma câmera tão simples de usar como uma caneta. E o contexto de "aparelho de memória" também reaparece por trás desse nome.
Mais um desenvolvimento dessa, digamos, ideologia, está presente na Sony T700. A traseira inteira é uma touchscreen. Apenas a tela, de ponta a ponta; nada de botões. O conceito é claro: além de tirar fotos, ela é um instrumento de visualização, concebido para você mostrar facilmente às pessoas as fotos que tirou.

Olhando por esse lado conceitual, parece que as câmeras reflex profissionais têm muito mais a ver com o século passado que com o atual. Os recursos mais mágicos das compactas não chegam às reflex, porque a filosofia de trabalho com estas é de construção da imagem. Algo muito mais deliberado do que capturar um retrato dos amigos na balada e esperar que ele já venha certinho e definitivo, com exposição, cor e contraste na medida. Quem constrói uma imagem não quer saber a opinião da câmera sobre ela, quer acesso direto aos controles para tomar todas as decisões sozinho.
As reflex "prosumer" como a popular Canon Rebel trazem características das compactas. Há um seletor de funções com todos os "modos idiotas" a que estamos acostumados, além de um modo totalmente automático, com resultados variavelmente passáveis. Parece que a presença dos "modos idiotas" é um pouco contraditória, já que se um amador com uma reflex quer um controle mais personalizado da imagem.
(Pessoalmente, uso os modos de prioridade de velocidade e de abertura, ajusto à mão o restante dos parâmetros, especialmente ISO e branco, e ignoro totalmente os "modos idiotas".)
Além disso, as câmeras estão começando a oferecer Live View. É uma oortunidade de operar a reflex como se fosse compacta ou uma compensação pelos viewfinders que qualidade óptica cada vez pior? O fato é que fotografar usando o LCD é uma técnica diferente. Quanto mais possibilidades técnicas melhor, desde que não entrem no caminho entre seu conceito do trabalho e o resultado.

Num próximo artigo sobre o assunto, quero fazer algumas especulações sobre o futuro da tecnologia fotográfica.

2008-08-20

Em terra de cego, quem tem um olho deve fechá-lo

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Aquele que não se atreve a ofender não pode ser honesto. - Thomas Paine




Esta tira do Arnaldo Branco foi derrubada pelo G1 porque parecia promover a contravenção. Uma ligeira mudança no texto do último quadrinho talvez tivesse resolvido, mas o próprio Arnaldo admite que os editores tinham motivos para vetar o tema completamente.
Chamou a minha atenção porque, coincidentemente, comprei um livro chamado Killed Cartoons, que reúne uma centena de charges derrubadas sem dó pelos editores de diversos jornais norte-americanos, sempre com a desculpa de temerem "ofender os leitores". Cada charge é acompanhada de um texto explicando como foi que rolou a censura, incluindo o depoimento do artista.
Tem ali algumas coisas realmente extremas e de mau gosto em qualquer contexto - como um Cristo carregando uma cadeira elétrica em vez da cruz, imagine isso! - e outras nem tanto, que num jornal brasileiro passariam sem stress - por exemplo, uma Estátua da Liberdade gorda.
Aqui a coisa é diferente; quantas charges do Angeli publicadas na Folha já não chamaram aberamente os políticos de canalhas, mentirosos, cínicos e ladrões sem que ele fosse processado por difamação? E as milhares de tiras do Glauco falando de drogas, as do Adão Iturrusgarai sobre sexo e as do Laerte personificando Deus?
Por outro lado, o livro denuncia que a onda do "politicamente correto" nos EUA atingiu brutalmente os cartuns nos últimos 20 anos. A maioria das charges derrubadas é muito recente. Uma geração de cartunistas simplesmente perdeu o emprego e o tradicional espaço na página dois, porque os jornais desistiram de se arriscar com a publicação de conteúdos com carga de opinião mais forte. A regra tácita é tesourar qualquer peça que cheire a controvérsia ou contraponto, mesmo que seja humorística e inteligente. Todas as controvérsias permitidas na redação são fabricadas e inócuas.
O mundo sempre precisa muito de "bobos da corte" que tenham a prerrogativa de peitar os poderosos e dizer livremente as verdades que os "sérios" são comprometidos demais para expressar, mas que também pensam. Num mundo politicamente correto não existe humor. Nem fui eu que disse esta última frase: foi Jim Davis, criador do Garfield.
Será que a censura prévia do humorismo é outro item na lista de péssimas manias norte-americanas a serem copiadas por estes lados? Opine.

(Post inspirado por outro sobre o mesmo tema, escrito pela Lívia, do blog Go To Heaven)

PhotoSushi

Esse é o blog de fotografias do Elvis Hoshida, um cidadão internacional que nasceu no Brasil e vive no Japão ha 10 anos. É um amigo que remonta aos bons velhos tempos da Macmania. Ontem ficamos conversando, depois de anos sem contato. Sem que eu pedisse, já foi comentando minhas fotos. Excelente crítico, do tipo que não se limita a dizer quando acha algo bom. Por isso, me encheu de ideias.
Uma delas foi a de filtrar mais rigorosamente as fotos no Flickr e deixar públicas somente as que se enquadrem em duas categorias: fotos originais com potencial comercial e fotos originais que reflitam uma aspiração estética. Abro uma concessão às fotos de eventos e retratos de amigos, mas enquanto conversava com ele já fui removendo o acesso livre para dúzias de imagens redundantes. Foi só ele falar no assunto que o critério de qualidade para aplicar na edição já me surgiu claramente na cabeça.
Falei que todas as fotos digitais dele remetem claramente à estética de filme, e ele ouviu isso como um grande elogio. De fato, suas fotos densas, contrastadas, me lembram cromo subexposto e puxado, que eu particularmente aprecio muito. Não tenho muitas fotos tratadas com esse tipo de acabamento, mas o número delas vem aumentando. Não por uma decisão deliberada, mas porque estou ainda tateando o caminho para uma estética própria. Fotografar para mim não é como desenhar, por exemplo; praticamente nasci desenhando e embora ilustre raramente, o caminho do desenho para mim não tem dúvidas ou hesitações. Já a fotografia só resolvi encarar um pouco mais ambiciosamente nos últimos tempos, depois de uma longuíssima fase formativa sendo tratador e embelezador de fotos alheias.
Elvis também disse que tinha deixado de acessar meu blog na época da série de textos sobre bicicletas. Bom, aposto que outras pessoas abandonaram agora o meu blog porque voltei a falar mais de foto e design gráfico e nada sobre bikes. Mas se há algo fazendo falta por aqui, é foco definido, então paciência.

2008-08-16

Canon ou Nikon?

Este post vem bem a propósito do comentário do Ig no post anterior sobre a PhotoImageBrazil e o fato de Canon e Nikon serem as únicas marcas de fotografia que atendem completamente aos profissionais, particularmente os que trabalham com fotojornalismo e esportes.
Olhe esta foto da Olimpíada e conte as câmeras pela marca da lente.
Esta outra é um panorama em 360 graus visto bem do meio da área de fotógrafos antes de uma prova de atletismo.

2008-08-14

Tupigrafia 8

Dois eventos de lançamento da revista de artes visuais mais legal do Brasil. Com direito a reencontro de velhos amigos, como os valentes editores Tony de Marco e Claudio Rocha, além de Shima, Priscila Farias, Orlando e muitos outros que ficarão mortalmente ofendidos por não terem sido citados. E ainda vi ao vivo gente que admiro pela Internet. Tem um encontro final na terça-feira. Eu vou!

PhotoImageBrazil 2008

Fui e gostei. Grande oportunidade de brincar de paparazzo enquadrando as promotoras bonitonas de um estande a 40 metros de distância através de uma monstruosa objetiva Canon de 800mm (isso mesmo, oitocentos milímetros) montada numa reluzente EOS-1 Mark III. Não preciso dizer que havia fila para subir ao mezanino da Canon e fazer o test drive.
Outras atrações: alucinantes impressoras HP de grande formato para todo lado, e exposições caprichadas da Sony e Panasonic com câmeras desmontadas para você ver como são por dentro.
E num estande pequenino no fundão, chineses que mal falam sequer inglês vendem grips auxiliares para uma boa variedade de câmeras por algo em torno de R$ 150. Imperdível! Um grip original pode custar R$ 900. Infelizmente não tinham para a Sony Alpha.
Altair Hoppe e Alexandre Keese dão demonstração de Photoshop para o público. O primeiro juntou uma multidão na hora em que passei. Há uma lista de pré-venda para o novo livro do Clicio Barroso.
Há palestras de gênios da fotografia, mas é preciso pagar uma salgada taxa à parte. Veja a programação no site do evento.
Certa hora, Jonas Chun (da Instan Color) passou correndo, cheio de equipamento nos ombros e sobre as mãos. O retrato dele que fiz ficou péssimo.
Pode fotografar o evento à vontade. Mas o único fotógrafo paramentado que vi no local, com o típico colete e máquina pendente do pescoço, era um sujeito que portava não uma, mas duas câmeras de filme dos anos 80.

Segunda visita (quinta-feira): Palestra do Clicio sobre Lightroom 2. Encontrei Marcos Kim, Camilo, Edu Lima e amigas, Jonas de novo (dessa vez a foto ficou boa) e os editores da Mac+.
Fiz um test drive rápido das Canon G9 (coisa linda) e S5, gravando no meu próprio cartão de memória, para poder analisar os resultados com calma em casa.

2008-08-12

Chega de falsificação de imagem

A provocação que postei no Twitter para o Slonik acerca da falsificação de imagem tem origem em um fato corrente. Como atualmente todo mundo possui recursos em casa para falsificar a própria imagem por meios eletrônicos, essa facilidade deve começar a causar um refluxo, uma rejeição, uma saturação entre as pessoas melhor informadas.

Primeiro, vamos ao background histórico para você ver por onde quero chegar a essa tese.

Aqui está uma linha do tempo detalhada de falsificações famosas de imagens jornalísticas. Talvez você se surpreenda ao descobrir que a prática do "fotoxopismo" existe quase desde o princípio da tecnologia fotográfica na primeira metade do século 19. Mais exemplos modernos aqui.
Um exemplo bem recente: algumas semanas atrás, alguém falsificou grosseiramente uma foto de um lançamento de mísseis iranianos. A farsa foi detectada imediatamente, já que qualquer PC doméstico conta com a tecnologia necessária para fazer a verificação, bastando que se saiba o que procurar - no caso, padrões de textura repetidos e descontinuidades de tom indicando emendas na imagem. Não é preciso sensacionalizar o fato buscando o veredito de um "expert mundial" em imagens falsificadas, como fez a Scientific American. Eu e você podemos fazer a prova com o Adobe Photoshop. Mesma ferramenta que o falsificador iraniano usou em um PC ordinário para fazer seu retoque tosco.

Um fotoxopista competente pode fazer sumir as evidências da manipulação, mas a imagem original intocada cedo ou tarde aparece, como no caso exemplar da capa de O. J. Simpson na Time em junho de 1994. Esse caso foi importante porque os editores da revista foram pegos de surpresa por uma violenta reação crítica que surgiu dentro do próprio meio jornalístico. O que não evitou que outros casos de edições mal-intencionadas do mesmo tipo pipocassem desde então. Algumas das grandes revistas brasileiras usam livremente o expediente da Time de tornar mais sinistra a imagem de um personagem negativo do momento, porém é muito mais usual o embelezamento artificioso.
A adulteração da imagem aproveita-se da falta de rigidez no critério jornalístico para discernir entre ilustração, montagem, fotografia, fotoilustração e ilustração pura. A diferença é que aparentemente no Brasil ninguém de peso se preocupa em reclamar.
A falta de rigidez emerge de uma postura passiva e inocente do público, deixando-se enganar até em casos de óbvias montagens criadas para fins satíricos. Quem ainda lembra o Tourist Guy? Foi levado profundamente a sério por um monte de gente de coração mole que ainda está por aí na rede e preferiria não ser nomeada agora, anos depois do vexame esquecido.

O assunto do momento relacionado a falsificação de imagem é a série de controvérsias envolvendo a abertura da Olimpíada na China. Parece que a cada dia surge uma revelação ruim. Primeiro, soubemos que os fogos de artifício em forma de pegadas foram previamente gerados em computador e mixados à transmissão ao vivo pela TV. Agora, sabe-se também que a menina que cantou o hino patriótico estava dublando sobre a gravação da voz de outra menina, que deveria cantar ao vivo mas fora posta de lado na última hora por ter os dentes tortos.
Aqui temos dois tipos de farsa: a falsificação de imagens sequenciais em vídeo e a falsificação de identidade. Nenhuma delas é novidade, tanto quanto não o são as fotos sensacionalizadas. São fatos da vida que se repetirão daqui em diante para sempre. O que não implica que devamos conviver com elas passivamente, sem atitude crítica.

Sou um profissional de imagem com muitas fotos editadas no currículo. Muitas delas para capas de revistas. Para mim, o limiar ético nunca foi confuso nem nebuloso. Acho que a fantasia fotoxopista tem lugar apropriado quando a imagem é apresentada num contexto suficientemente claro e amplo, que pode ser de alegoria, fantasia, paródia, sátira, caricatura ou simples efeito visual. Cem por cento da fotografia publicitária atual é de algum desses tipos, comumente de vários combinados. Mas fazer passar por jornalística uma imagem que foi construída artificialmente através de montagem ou manipulação localizada é errado, ponto. Por sua vez, o fotojornalista pode forjar o contexto da foto intencionalmente, através de um enquadramento esperto. Errado também. Há um exemplo recente de uma foto de um soldado na guerra do Iraque que, dependendo unicamente do corte empregado, pode parecer que está auxiliando ou agredindo alguém.

Uma pesquisa recente aponta que uma das causas do crescente desinteresse por revistas femininas nos EUA é a percepção generalizada pelo público alvo de que as imagens são adulteradas digitalmente a um extremo tão absurdo que deixaram de ser referência de beleza para o mundo real e, portanto, perderam a relevância e a autoridade que tinham antes da era digital.
Aqui em Pindorama só se vê alguma atitude cética com a peladas da Playboy, que até o carroceiro da esquina sabe que são ilustrações digitais tentando sem empenho sincero passar por fotografias. A revista é pioneira no retoque das celebridades nuas, tendo começado há 20 anos com um sistema proprietário Scitex. Todas as revistas masculinas concorrentes fazem a mesma coisa há mais de uma década, e me informaram que as alterações são terceirizadas para gente especializada que retoca sob encomenda.
Como um ensaio de fotos sensuais de uma celebridade não tem caráter de documento, pode-se fazer intervenções cada vez mais extremas nas fotos sem trombar em problemas éticos. Eventualmente surgiram imagens excessivamente retocadas, com "acidentes" como sexo apagado, mamilos e umbigos misteriosamente desaparecidos. As pessoas vêem o erro, divertem-se por um momento e seguem suas vidas.
No meu olhar chato e mal-humorado de especialista atento, as mudanças nas fotos sensuais são quase sempre muito grosseiras, fáceis de identificar, nada disfarçadas pela impressão. Cada linha de braço reconstruída e cada barriga passada a ferro é claramente evidente.
Por isso, não tenho interesse em conferir as revistas masculinas. Ilustração por ilustração, havendo o interesse eu poderia combinar tecnologia e know-how para montar um corpo de uma gostosa idealizada com pedaços de fotos de mulheres anônimas e então carimbar a cara de uma celebridade do momento por cima. É exatamente o que certas revistas gringas, masculinas ou femininas, têm feito com frequência. E me dou o direito de presumir que algumas nacionais fazem igual.

Só que isso em essência não faz sentido nenhum. Não sou apenas eu que está achando que apreciar imagens escancaradamente falsificadas é perda de tempo. De tempos em tempos ensaia-se um contraponto estético, mas a verdadeira mudança virá com os consumidores da mídia dando-lhes as costas ao sentirem que as imagens de que ela é feita são fantasias de ficção totalmente divorciadas do mundo factual, mero entretenimento vazio vendido como informação.
O pessoal que se decepcionou com os fogos de artifício falsificados de Beijing é minoria, porque atualmente a maioria ainda preza mais o valor de entretenimento do evento, deseja ver a imagem espetacular acima de qualquer outra coisa. Mas os críticos foram surpreendentemente vocais desta vez, inclusive dentro da China.
A coisa pode estar prestes a virar, e não só para as revistas femininas gringas e seu festival de mentiras. Termino com mais uma citação do mesmo site (tradução minha):

Num mundo em que a mentira, o logro e a manipulação de fatos tornaram-se endêmicos em tudo, chegando aos mais altos escalões do governo, esse é apenas mais um exemplo de uma fraude perpetrada ante o público... E o público, em sua maior parte, ainda não percebeu a piada. Retoques em revistas podem não ser mentiras do mesmo nível de digamos, "O Iraque possui armas de destruição em massa". Mas um mundo no qual meninas de oito anos de idade fazem a dieta de South Beach; garotas adolescentes ganham implantes de silicone nos seios como presente de formatura; mulheres profissionais são praticamente obrigadas a tratar bolsas como fetiches; e todas gastam tempo demais tentando posar de uma forma que fique tão boa quanto aquela amiga com uma página superpopular no MySpace... it's fucking wrong. Que bom que você concorda.

2008-08-11

Brasil, um país de bundas

O que acontece quando você pede por "Brazil Photo" no Google? Fiz essa pesquisa no ano retrasado, repeti no ano passado, refiz ontem e o resultado continua sempre e invariavelmente o mesmo:





Onde foram parar as bundas que estavam aqui?
O número crescente de buscas no Google que conduziam às imagens originais acima (fotos de formosas nádegas femininas) me deixou desconfiado de que alguma coisa não muito limpinha e idônea estava em curso. Resolvi, então, borrar as imagens. Quer se excitar vendo fotos de bundas brasileiras? Na banca de jornal mais próxima tem várias. No meu blog, não.


Os três primeiros lugares que a busca retorna são: 1) uma bunda anônima na praia com um carimbo fotoxopado no pior estilo "exploitation"; 2) um grupo de modelos brasileiras posando de biquíni na praia; 3) dançarinas no Carnaval carioca. A partir daí, temos imagens do Rio, mais Carnaval, alguns mapas, Carnaval de novo, mais mulheres seminuas, mais Rio, mais Carnaval e mais mulheres. Quanta variedade!

Ironicamente, isso dá razão aos designers medíocres que, toda vez que pegam o briefing para criar um logo com tema nacional brasileiro, socam preguiçosamente um Cristo Redentor ou um Pão de Açúcar na arte. Poderiam de forma mais sincera representar-nos por uma bonita, torneada, bronzeada e apelativa bunda. Até já pensei aqui numa proposta de logo para a Copa de 2014 baseada nesse tema. Aguarde-me.

Fora isso, a conclusão é clara: em termos de imagem, eu, você, sua mãe, o cachorro do vizinho, Sebastião Salgado, Machado de Assis, Betinho, Paulo Maluf, Pelé, Mauricio de Sousa, Daniel Dantas, Profeta Gentileza, Jade Barbosa, Emilio Médici, Tom Jobim e o presidente Lula somos todos resumidos no ícone fundamental das bundas carnavalescas desfilando num playground mundial do sexo à beira-mar.

Nada de desculpas... Somos aquilo que desejamos ou permitimos mostrar de nós.

Update - Mais uma!

2008-08-10

Porque não creio mais em estatísticas - Parte 1

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Ouvi na rádio CBN a notícia sobre a pesquisa da FGV que alardeava uma notável expansão da classe média no Brasil e já senti um cheiro suspeito, porque embora a condição social do país efetivamente esteja melhorando aos poucos, o que vejo ao meu redor não confirma as conclusões tiradas a partir dos critérios de classificação usados na pesquisa.

Achei que o assunto iria ser prontamente ignorado, mas a Folha de S. Paulo foi atrás e deu hoje algumas matérias críticas sobre o assunto (disponíveis apenas para assinantes do UOL, portanto citadas aqui sem link):

Famílias com renda superior a R$ 1.064 não aceitam classificação da FGV
Para moradores de bairro da periferia do Rio, qualidade de vida deveria ser levada em conta tanto quanto a renda para definir padrão
Por Elvira Lobato

Poucas notícias provocaram mais reação em Vila Kennedy -bairro de 200 mil habitantes, na zona oeste do Rio- do que a pesquisa da Fundação Getulio Vargas que classificou como classe média as famílias com renda mensal a partir de R$ 1.064. Até moradores com rendimento acima desse patamar se vêem como pobres e rejeitam serem chamados de classe média.
"É uma baixaria. Fiquei revoltado quando vi a notícia na TV. A classificação é vazia e mentirosa", reagiu o aposentado João Galdino de Melo, presidente da Associação dos Moradores de Vila Progresso. Pai de três filhos, que estudam e trabalham, Galdino diz não ter dúvida de que sua família é pobre, embora a renda familiar atinja R$ 2.400.
Mara Martins, 32, cinco filhos, tem renda familiar mensal de R$ 1.800, somando a pensão de R$ 200 que recebe do pai de um dos filhos; o salário do filho mais velho (vendedor em um shopping na zona oeste) e o que ela fatura com uma barraca de doces, pizza e bebidas e com outra de roupas. A primeira barraca funciona à noite, e a de roupas, durante o dia. Ainda recebe ajuda financeira de uma irmã que mora no Maranhão.
Ela diz que ficou "doente" ao saber da notícia sobre a classe média, da qual, agora, seria parte. "A única roupa que comprei para mim neste ano foi um vestido, de R$ 10. Nunca fui a um cinema. Trabalho todos os dias e não tenho lazer. Classe média, para mim, tem de ter lazer." [...]


Para especialista, definição de classe média "é arbitrária"
Por Antônio Gois

[...] Autor do estudo que, na semana passada, destacou o crescimento da classe média brasileira, o economista Marcelo Neri, da FGV, diz que o tamanho dessa classe ou a forma como ela é definida é o menos importante em seu estudo. "O limite que define as faixas de cada classe eu concordo que é arbitrário, é uma simplificação. O que mostramos de mais importante é que está havendo um crescimento dela e que, mesmo com as crises internacionais, esse movimento continuou em 2008."

Neri afirma que, em seu levantamento, optou por classificar de classe média os domicílios com renda total entre R$ 1.064 e R$ 4.591 porque é essa faixa de renda que distingue quem não está entre os 10% mais ricos nem entre os 50% mais pobres da população. A partir desse recorte, o mais importante, segundo ele, foi verificar a evolução.

"O que eu queria chamar a atenção é que essa classe cresceu. Mesmo se você considerar como média apenas quem está na classe A ou B [renda domiciliar superior a R$ 4.591], também houve aumento", diz.

Para ele, no entanto, na hora de definir o que é a classe média brasileira, não se deve "importar" a imagem que se tem em países ricos. "Nos Estados Unidos, classe média é quem tem dois carros e um projeto para construir uma piscina. Mas isso é no país mais rico do mundo", afirma o economista. Neri diz que há outras formas de definir o que seria a classe média e que uma delas está sendo trabalhada pela FGV e será divulgada brevemente, levando em conta não a renda, mas a expectativa das pessoas em relação a seu futuro. [...]


Falta de classe
Melhoria econômica discreta suscita exageros eufóricos e fantasias estatísticas sobre um Brasil de "classe média"
Por Vinicius Torres Freire

[...] o que é uma classe? Para o economista padrão, classe média é uma categoria estatística de renda: o que não está nos extremos de uma distribuição: nem na faixa mais baixa nem na mais alta (quem passa a ganhar "x" centavos a mais pula de "classe"). Para o economista, há só indivíduos que interagem em mercados. "Classe" é um meio de agregá-los "ad hoc", segundo o "nível de capital humano", renda etc. Tanto faz se tenham socialmente algo em comum que não seja seu lugar na distribuição estatística.
[...] Mas a definição de "classe" não diz respeito apenas à identidade social ou cultural percebida por um indivíduo. Para sociólogos, essa classe em extinção, classe era outra coisa, e não se trata de distinção indiferente para o destino econômico das pessoas.
Há mais. Valores e relações de poder determinam e legitimam o modo pelo qual o trabalho de cada um será vendido no mercado, o acesso (ou veto) a esferas do mercado, para não falar do acesso à propriedade.
Tais fatores definem "classes". E ainda quão transitória ou auspiciosa, para cada grupo social, serão alterações registradas em indicadores de renda. A mudança econômica persistente também altera identidades e perspectivas das "classes", decerto. Mas é um fator entre outros. A "classe média" dessas estatísticas recentes é apenas isso: abstração estatística. Multidões não "mudam de classe" devido apenas a efeitos de um ciclo econômico, passageiro por definição, por melhor e mais bem-vinda que seja a redução da miséria.


Desculpe, Tuta, mas quando um instituto com reputação séria divulga conclusões de pesquisa que afrontam o senso comum e se prestam perfeitamente, tanto em teor como em timing, para propaganda política de um governo populista em pleno ano de eleições, eu sou compelido inevitavelmente a achar que a atividade da pesquisa social está escapando pelo mesmo ralo por onde foi o design gráfico.

Para mim, a FGV acaba de resvalar para a vala comum da credibilidade mercantilizada. E é um caminho sem volta. Nunca mais vou crer nos relatórios dela como cria antes. Se as pessoas realmente conseguirem enxergar através das manipulações, daqui em diante Neri vai ter que dar muitas explicações como essa que deu ao jornal e foi prontamente refutada por um articulista e uma repórter.

Os números em si até podem não mentir. A interpretação é que faz toda a diferença. Um manipulador de informação hábil pode usar qualquer conjunto de números para "provar" uma tese contrária ao que a realidade sensível sugere. Já dei aqui o exemplo de um gráfico publicado na imprensa em 1995 cujo título dizia "Chileno não crê na democracia", sendo que a proporção numérica entre os que criam e os que não criam na pesquisa era um empate técnico e nunca poderia sugerir a conclusão dada no título do gráfico. É um exemplo simplório, mas manipulações muito maiores criadas pelo mesmo mecanismo da "interpretação engajada" acontecem na nossa cara o tempo todo.

2008-08-07

Câmeras - Parte 3

Tirar fotos virou o segundo passatempo mais popular do mundo a partir dos anos 70-80, quando a eletrônica possibilitou a fabricação em massa de câmeras amadoras totalmente automáticas. E a revolução continuou na última década, com a substituição quase total do filme pelo pixel.
Apesar do declínio dos laboratórios automáticos, é fato que o filme ainda vende bem. Não é todo mundo que aceita com naturalidade descarregar fotos para o computador, após décadas acostumado a levar rolos de filme para revelar, copiar e ampliar numa loja.
Por outro lado, o PC hoje é tão comum quanto as geladeiras e TVs. Combinada a ele, a câmera digital leva adiante a simplificação de uso. As mais modernas chegam ao disparate de terem detector computadorizado para só abrir o obturador no momento em que alguém sorri.
Há, porém, uma coisa que não se altera com as ondas tecnológicas. Todo mundo pode fazer fotos. Só alguns são fotógrafos.
Onde está o limiar que define o que é um mero clicador e o que é um artista da luz?
Seria o profissionalismo? Não necessariamente. Vi um vídeo de uma entrevista de 1977 de Clarice Lispector, possivelmente a maior escritora brasileira. Ela se declarava amadora, pois fazia questão da independência criativa e do timing exato. Profissional seria aquele que cria por uma obrigação interna ou externa.
Essa maneira de definir as coisas me botou para pensar. Lembrei de Kandinsky afirmando que a arte emerge de uma necessidade espiritual de expressão.
Mas como se encaixa a fotografia como ganha-pão? A foto comercial, que é pautada por um cliente e atende a requisitos técnicos estreitos?
Acontece cada vez mais de ouvirmos falar em péssimos profissionais e ótimos amadores, porque o fluxo de informação está minando o histórico conceito de reconhecer somente o profissional, independentemente de um mérito concreto.
Olhei para fotos que fiz na última década até o começo deste ano, quando finalmente passei a considerar a fotografia como uma alternativa preferencial de carreira. A imensa maioria é de imagens de estilo documental, que é justamente o que todo não-aficionado faz. As câmeras são otimizadas para esse tipo de foto. O usuário fotografa para registrar uma memória de um momento, uma pessoa ou um lugar. Considerações técnicas, artísticas e expressivas não entram. É sempre fulano e sicrana no local tal em certo dia. Abra o orkut e comprove.
Com a Olympus Stylus Zoom, em 1997, comecei a criar visualmente com fotos. Certa noite de céu sem nuvens e Lua cheia, parei na frente do Edifício Safra, em frente ao Conjunto Nacional na Av. Paulista. Há uma travessia de pedestres famosa e um daqueles totens verticais de sinalização que são exclusividade da avenida. Olhando para cima, quase perfeitamente alinhada com o prédio e o totem, estava a Lua no zênite do céu negro. Apoiei a Olympus em qualquer coisa e cliquei. O ângulo é parecido com este, só que sem o prédio à esquerda... A Lua alinhada com o totem parecia coisa do filme 2001:



Devo ter feito alguma outra foto "artística" antes, mas essa foi a que lembro emocionalmente como meu começo criativo. Um lento começo, porque não tinha ambições fotográficas, o que em retrospecto é algo particularmente estranho. Já mexia com imagem digital desde 1987, com Photoshop desde 1993 e fazia direção de arte junto a fotógrafos profissionais desde 1996, editando as fotos que eles produziam. Mas não tinha realização estética pessoal com fotos. Para mim, era normal achar que o que eu fazia era só registro documental e que não tinha nenhum talento ou aptidão técnica para a fotografia séria.
Com a abertura criativa veio junto a consciência da limitação técnica do equipamento. Quando comprei a Canon EOS 300 em 2000, saí fazendo montes de fotos "plásticas" e "conceituais", usando lente zoom, closeup, polarizador, várias velocidades de filme... Mas sabia que a digital seria necessária para aprender mais depressa, corrigir meus enganos na própria sessão de fotos em vez de me decepcionar no dia seguinte ao ver o resultado revelado. Felizmente, com o emprego na Macmania havia a facilidade para experimentar as digitais emprestadas para teste.
O resultado desse primeiro período formativo são algumas centenas de fotos em macro registrando detalhes de objetos cotidianos e imagens de cenas da rua.
Os retratos de pessoas eu ainda preferia fazer com filme. Desde o começo entendi a SLR de filme e as compactas digitais como linguagens visuais distintas, exigindo abordagens igualmente distintas. Ainda hoje é assim, mesmo sendo as digitais atuais o veículo profissional; quando pego a Pentax para fotografar com filme, não pretendo fazer a mesma foto que faria com a Alpha. O equipamento certamente não faz o fotógrafo, mas sua influência como condutor do olhar não é nada pequena.
A facilidade das compactas digitais me "corrompeu" e acabei passando os anos de 2002 a 2007 usando-as exclusivamente, sem tocar mais na minha SLR de filme. Não apenas isso: tive um caso intenso e prolongado com as ultracompactas de carregar no bolso, como as várias Pentax Optio e Casio Exilim, Sony U50 (comparada na foto a uma câmera de filme espiã Minox) e a Sony T7. As limitações técnicas dessas micromáquinas são enormes e a durabilidade relativamente baixa, mas eu não estava atento a isso. Minha ambição artística com fotos tinha acabado de novo.
Agora o mundo das câmeras amadoras está assistindo a um ressurgimento das SLRs em forma digital, depois de uma década de monopólio das compactazinhas. Na próxima parte da série conto o que descobri nesse novo mundo.

2008-08-04

Yahoo! Posts

Pronto.
Está criado o post que conterá informação sobre o Yahoo! Posts assim que entrar em operação.

Novidade - Explicação completa e clara do Ian Black sobre o projeto.

Passei alguns dias pensando numa resposta digna ao povo que começou a falar mal sem analisar e compreender a proposta do Y!Posts, dando o vexame público de um acesso de dor de cotovelo por não estarem dentro do projeto. Mas não consigo ser sério com os wannabes.
Os disparates que li incluíam uma afirmação de que a existência de uma lista de blogs recomendados equivalia a censurar todos os demais. Uma idiotice desse porte deve ficar sem resposta!
À turma das uvas verdes, sugiro uma receita de sucesso muito simples. Trabalhe para merecer o reconhecimento que deseja. Mas não descuide do que faz para pagar as contas, porque "reconhecimento" é relativo, passageiro e não alimenta. Que seja gentil e receptivo às pessoas que vêm trocar ideias, sem sectarismos, radicalismos nem fanatismos. Que diga algo original, não se contente em apenas repetir o que os outros estão dizendo ou "desenterrar" coisas de outros lugares.
Eu sei que isso de cara desqualifica uma pá de sites de "tecnologia", que é como se intitulam genericamente os infinitos punhetódromos virtuais de micreiros que decalcam manchetes dos verdadeiros sites jornalísticos sobre informática.
Mas é isso mesmo: se não consegue falar sobre nada além de informática, saia da frente do PC, vá estudar humanas, viaje, adquira cultura, namore, areje a cabeça.
Pronto, falei. Não gostou? O Y!Posts é a melhor porta de saída.

Trabalho e não tenho invej

2008-08-02

Mais um passo rumo ao fascismo

Agentes federais dos EUA podem reter laptops por tempo indeterminado - O Globo Online

E como aqui no Brasil temos o costume de copiar alegremente os americanos, mas sempre dando preferência especial às suas piores práticas, prepare-se.
Revistar o conteúdo de computadores é uma violação aos direitos individuais, e de uma clareza tão óbvia que dá tristeza e ódio de que seja invenção da autoproclamada terra da liberdade e da democracia.
Os EUA só me querem, como também a você, na condição de turista tolo disposto a deixar por lá nosso dinheirinho vagabundo terceiromundista. Como é fácil confundir a minha carinha morena hispânica e perfil de profissional independente com a cara emaciada de um miserável morto de fome que adoraria a chance de passar temporadas lavando privadas em Nova York, por via da dúvida é melhor que eu seja mantido seguramente afastado, chafurdando no quintal do mundo ao qual pertenço.
Entendi isso em 2005, quando paguei a abusiva taxa obrigatória de US$ 100 na moeda deles e me entretive durante os vários meses de espera para obter uma quantidade igualmente abusiva de documentos pessoais, somente para ter o visto recusado na minha cara após um julgamento sumário e irrecorrível que levou apenas meio minuto para fazerem ali mesmo na fila do consulado, sem qualquer esboço de explicação.
O curioso é que o meu passaporte estava carimbado com Schiphol, Holanda; Zürich, Suíça; e Barcelona, Espanha. Não fiquei largado em nenhum desses lugares. Mas lamento contrariar sua expectativa arrogante, Bushites: se eu desejasse de fato fugir das favelas de Piratininga para lavar privadas num país estrangeiro, teria mil vezes antes tentado a oportunidade de fazê-lo na Suíça, que oferece as enormes vantagens adicionais da vida mais elegante e a ausência de epidemias de obesidade, SUVs e demais idiotias coletivas.
Fiz então o voto de nunca pisar voluntariamente em terras norte-americanas, com exceção à região da Califórnia (vai que o Google ou a Apple me convida para fazer uma visita profissional... huahuahuahua!). Se nunca chegar a esse nível de interesse deles, não me importa: a Europa me aceita.
Mas não me tome por ingênuo. Eu não ponho a mão no fogo pela Europa, tampouco. Não intitulei este artigo como "Mais um passo rumo ao fascismo nos Estados Unidos" porque a Europa também dá sinais de copiar o que os americanos têm de pior. Não vou esquecer o brasileiro assassinado no metrô de Londres a título de combate ao terrorismo, nem a estudante brasileira estupidamente barrada na Espanha. Ainda tenho esperança de uma recepção civilizada na Holanda, de qualquer maneira.

Adendo - Para quem vem ridicularizar a minha posição individual sobre o assunto, deixo a palavra com a Cora Rónai.