2008-08-20

Em terra de cego, quem tem um olho deve fechá-lo

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Aquele que não se atreve a ofender não pode ser honesto. - Thomas Paine




Esta tira do Arnaldo Branco foi derrubada pelo G1 porque parecia promover a contravenção. Uma ligeira mudança no texto do último quadrinho talvez tivesse resolvido, mas o próprio Arnaldo admite que os editores tinham motivos para vetar o tema completamente.
Chamou a minha atenção porque, coincidentemente, comprei um livro chamado Killed Cartoons, que reúne uma centena de charges derrubadas sem dó pelos editores de diversos jornais norte-americanos, sempre com a desculpa de temerem "ofender os leitores". Cada charge é acompanhada de um texto explicando como foi que rolou a censura, incluindo o depoimento do artista.
Tem ali algumas coisas realmente extremas e de mau gosto em qualquer contexto - como um Cristo carregando uma cadeira elétrica em vez da cruz, imagine isso! - e outras nem tanto, que num jornal brasileiro passariam sem stress - por exemplo, uma Estátua da Liberdade gorda.
Aqui a coisa é diferente; quantas charges do Angeli publicadas na Folha já não chamaram aberamente os políticos de canalhas, mentirosos, cínicos e ladrões sem que ele fosse processado por difamação? E as milhares de tiras do Glauco falando de drogas, as do Adão Iturrusgarai sobre sexo e as do Laerte personificando Deus?
Por outro lado, o livro denuncia que a onda do "politicamente correto" nos EUA atingiu brutalmente os cartuns nos últimos 20 anos. A maioria das charges derrubadas é muito recente. Uma geração de cartunistas simplesmente perdeu o emprego e o tradicional espaço na página dois, porque os jornais desistiram de se arriscar com a publicação de conteúdos com carga de opinião mais forte. A regra tácita é tesourar qualquer peça que cheire a controvérsia ou contraponto, mesmo que seja humorística e inteligente. Todas as controvérsias permitidas na redação são fabricadas e inócuas.
O mundo sempre precisa muito de "bobos da corte" que tenham a prerrogativa de peitar os poderosos e dizer livremente as verdades que os "sérios" são comprometidos demais para expressar, mas que também pensam. Num mundo politicamente correto não existe humor. Nem fui eu que disse esta última frase: foi Jim Davis, criador do Garfield.
Será que a censura prévia do humorismo é outro item na lista de péssimas manias norte-americanas a serem copiadas por estes lados? Opine.

(Post inspirado por outro sobre o mesmo tema, escrito pela Lívia, do blog Go To Heaven)

2008-08-14

Tupigrafia 8

Dois eventos de lançamento da revista de artes visuais mais legal do Brasil. Com direito a reencontro de velhos amigos, como os valentes editores Tony de Marco e Claudio Rocha, além de Shima, Priscila Farias, Orlando e muitos outros que ficarão mortalmente ofendidos por não terem sido citados. E ainda vi ao vivo gente que admiro pela Internet. Tem um encontro final na terça-feira. Eu vou!

2008-08-11

Brasil, um país de bundas

O que acontece quando você pede por "Brazil Photo" no Google? Fiz essa pesquisa no ano retrasado, repeti no ano passado, refiz ontem e o resultado continua sempre e invariavelmente o mesmo:





Onde foram parar as bundas que estavam aqui?
O número crescente de buscas no Google que conduziam às imagens originais acima (fotos de formosas nádegas femininas) me deixou desconfiado de que alguma coisa não muito limpinha e idônea estava em curso. Resolvi, então, borrar as imagens. Quer se excitar vendo fotos de bundas brasileiras? Na banca de jornal mais próxima tem várias. No meu blog, não.


Os três primeiros lugares que a busca retorna são: 1) uma bunda anônima na praia com um carimbo fotoxopado no pior estilo "exploitation"; 2) um grupo de modelos brasileiras posando de biquíni na praia; 3) dançarinas no Carnaval carioca. A partir daí, temos imagens do Rio, mais Carnaval, alguns mapas, Carnaval de novo, mais mulheres seminuas, mais Rio, mais Carnaval e mais mulheres. Quanta variedade!

Ironicamente, isso dá razão aos designers medíocres que, toda vez que pegam o briefing para criar um logo com tema nacional brasileiro, socam preguiçosamente um Cristo Redentor ou um Pão de Açúcar na arte. Poderiam de forma mais sincera representar-nos por uma bonita, torneada, bronzeada e apelativa bunda. Até já pensei aqui numa proposta de logo para a Copa de 2014 baseada nesse tema. Aguarde-me.

Fora isso, a conclusão é clara: em termos de imagem, eu, você, sua mãe, o cachorro do vizinho, Sebastião Salgado, Machado de Assis, Betinho, Paulo Maluf, Pelé, Mauricio de Sousa, Daniel Dantas, Profeta Gentileza, Jade Barbosa, Emilio Médici, Tom Jobim e o presidente Lula somos todos resumidos no ícone fundamental das bundas carnavalescas desfilando num playground mundial do sexo à beira-mar.

Nada de desculpas... Somos aquilo que desejamos ou permitimos mostrar de nós.

Update - Mais uma!

2008-08-10

Porque não creio mais em estatísticas - Parte 1

Artigo selecionado pelo

Ouvi na rádio CBN a notícia sobre a pesquisa da FGV que alardeava uma notável expansão da classe média no Brasil e já senti um cheiro suspeito, porque embora a condição social do país efetivamente esteja melhorando aos poucos, o que vejo ao meu redor não confirma as conclusões tiradas a partir dos critérios de classificação usados na pesquisa.

Achei que o assunto iria ser prontamente ignorado, mas a Folha de S. Paulo foi atrás e deu hoje algumas matérias críticas sobre o assunto (disponíveis apenas para assinantes do UOL, portanto citadas aqui sem link):

Famílias com renda superior a R$ 1.064 não aceitam classificação da FGV
Para moradores de bairro da periferia do Rio, qualidade de vida deveria ser levada em conta tanto quanto a renda para definir padrão
Por Elvira Lobato

Poucas notícias provocaram mais reação em Vila Kennedy -bairro de 200 mil habitantes, na zona oeste do Rio- do que a pesquisa da Fundação Getulio Vargas que classificou como classe média as famílias com renda mensal a partir de R$ 1.064. Até moradores com rendimento acima desse patamar se vêem como pobres e rejeitam serem chamados de classe média.
"É uma baixaria. Fiquei revoltado quando vi a notícia na TV. A classificação é vazia e mentirosa", reagiu o aposentado João Galdino de Melo, presidente da Associação dos Moradores de Vila Progresso. Pai de três filhos, que estudam e trabalham, Galdino diz não ter dúvida de que sua família é pobre, embora a renda familiar atinja R$ 2.400.
Mara Martins, 32, cinco filhos, tem renda familiar mensal de R$ 1.800, somando a pensão de R$ 200 que recebe do pai de um dos filhos; o salário do filho mais velho (vendedor em um shopping na zona oeste) e o que ela fatura com uma barraca de doces, pizza e bebidas e com outra de roupas. A primeira barraca funciona à noite, e a de roupas, durante o dia. Ainda recebe ajuda financeira de uma irmã que mora no Maranhão.
Ela diz que ficou "doente" ao saber da notícia sobre a classe média, da qual, agora, seria parte. "A única roupa que comprei para mim neste ano foi um vestido, de R$ 10. Nunca fui a um cinema. Trabalho todos os dias e não tenho lazer. Classe média, para mim, tem de ter lazer." [...]


Para especialista, definição de classe média "é arbitrária"
Por Antônio Gois

[...] Autor do estudo que, na semana passada, destacou o crescimento da classe média brasileira, o economista Marcelo Neri, da FGV, diz que o tamanho dessa classe ou a forma como ela é definida é o menos importante em seu estudo. "O limite que define as faixas de cada classe eu concordo que é arbitrário, é uma simplificação. O que mostramos de mais importante é que está havendo um crescimento dela e que, mesmo com as crises internacionais, esse movimento continuou em 2008."

Neri afirma que, em seu levantamento, optou por classificar de classe média os domicílios com renda total entre R$ 1.064 e R$ 4.591 porque é essa faixa de renda que distingue quem não está entre os 10% mais ricos nem entre os 50% mais pobres da população. A partir desse recorte, o mais importante, segundo ele, foi verificar a evolução.

"O que eu queria chamar a atenção é que essa classe cresceu. Mesmo se você considerar como média apenas quem está na classe A ou B [renda domiciliar superior a R$ 4.591], também houve aumento", diz.

Para ele, no entanto, na hora de definir o que é a classe média brasileira, não se deve "importar" a imagem que se tem em países ricos. "Nos Estados Unidos, classe média é quem tem dois carros e um projeto para construir uma piscina. Mas isso é no país mais rico do mundo", afirma o economista. Neri diz que há outras formas de definir o que seria a classe média e que uma delas está sendo trabalhada pela FGV e será divulgada brevemente, levando em conta não a renda, mas a expectativa das pessoas em relação a seu futuro. [...]


Falta de classe
Melhoria econômica discreta suscita exageros eufóricos e fantasias estatísticas sobre um Brasil de "classe média"
Por Vinicius Torres Freire

[...] o que é uma classe? Para o economista padrão, classe média é uma categoria estatística de renda: o que não está nos extremos de uma distribuição: nem na faixa mais baixa nem na mais alta (quem passa a ganhar "x" centavos a mais pula de "classe"). Para o economista, há só indivíduos que interagem em mercados. "Classe" é um meio de agregá-los "ad hoc", segundo o "nível de capital humano", renda etc. Tanto faz se tenham socialmente algo em comum que não seja seu lugar na distribuição estatística.
[...] Mas a definição de "classe" não diz respeito apenas à identidade social ou cultural percebida por um indivíduo. Para sociólogos, essa classe em extinção, classe era outra coisa, e não se trata de distinção indiferente para o destino econômico das pessoas.
Há mais. Valores e relações de poder determinam e legitimam o modo pelo qual o trabalho de cada um será vendido no mercado, o acesso (ou veto) a esferas do mercado, para não falar do acesso à propriedade.
Tais fatores definem "classes". E ainda quão transitória ou auspiciosa, para cada grupo social, serão alterações registradas em indicadores de renda. A mudança econômica persistente também altera identidades e perspectivas das "classes", decerto. Mas é um fator entre outros. A "classe média" dessas estatísticas recentes é apenas isso: abstração estatística. Multidões não "mudam de classe" devido apenas a efeitos de um ciclo econômico, passageiro por definição, por melhor e mais bem-vinda que seja a redução da miséria.


Desculpe, Tuta, mas quando um instituto com reputação séria divulga conclusões de pesquisa que afrontam o senso comum e se prestam perfeitamente, tanto em teor como em timing, para propaganda política de um governo populista em pleno ano de eleições, eu sou compelido inevitavelmente a achar que a atividade da pesquisa social está escapando pelo mesmo ralo por onde foi o design gráfico.

Para mim, a FGV acaba de resvalar para a vala comum da credibilidade mercantilizada. E é um caminho sem volta. Nunca mais vou crer nos relatórios dela como cria antes. Se as pessoas realmente conseguirem enxergar através das manipulações, daqui em diante Neri vai ter que dar muitas explicações como essa que deu ao jornal e foi prontamente refutada por um articulista e uma repórter.

Os números em si até podem não mentir. A interpretação é que faz toda a diferença. Um manipulador de informação hábil pode usar qualquer conjunto de números para "provar" uma tese contrária ao que a realidade sensível sugere. Já dei aqui o exemplo de um gráfico publicado na imprensa em 1995 cujo título dizia "Chileno não crê na democracia", sendo que a proporção numérica entre os que criam e os que não criam na pesquisa era um empate técnico e nunca poderia sugerir a conclusão dada no título do gráfico. É um exemplo simplório, mas manipulações muito maiores criadas pelo mesmo mecanismo da "interpretação engajada" acontecem na nossa cara o tempo todo.

2008-08-04

Yahoo! Posts

Pronto.
Está criado o post que conterá informação sobre o Yahoo! Posts assim que entrar em operação.

Novidade - Explicação completa e clara do Ian Black sobre o projeto.

Passei alguns dias pensando numa resposta digna ao povo que começou a falar mal sem analisar e compreender a proposta do Y!Posts, dando o vexame público de um acesso de dor de cotovelo por não estarem dentro do projeto. Mas não consigo ser sério com os wannabes.
Os disparates que li incluíam uma afirmação de que a existência de uma lista de blogs recomendados equivalia a censurar todos os demais. Uma idiotice desse porte deve ficar sem resposta!
À turma das uvas verdes, sugiro uma receita de sucesso muito simples. Trabalhe para merecer o reconhecimento que deseja. Mas não descuide do que faz para pagar as contas, porque "reconhecimento" é relativo, passageiro e não alimenta. Que seja gentil e receptivo às pessoas que vêm trocar ideias, sem sectarismos, radicalismos nem fanatismos. Que diga algo original, não se contente em apenas repetir o que os outros estão dizendo ou "desenterrar" coisas de outros lugares.
Eu sei que isso de cara desqualifica uma pá de sites de "tecnologia", que é como se intitulam genericamente os infinitos punhetódromos virtuais de micreiros que decalcam manchetes dos verdadeiros sites jornalísticos sobre informática.
Mas é isso mesmo: se não consegue falar sobre nada além de informática, saia da frente do PC, vá estudar humanas, viaje, adquira cultura, namore, areje a cabeça.
Pronto, falei. Não gostou? O Y!Posts é a melhor porta de saída.

Trabalho e não tenho invej