Meu álbum de infância contém várias fotos em preto e branco de formato quadrado, frequentemente copiadas num papel cortado em 12 por 9 centímetros, deixando uma margem branca e lembrando uma Polaroid tirada de lado. Nas fotos, há um bebê que sempre sorri e uma mãe de vestido comprido à moda hippie dos anos 70 numa casa revestida de cacos de ladrilho vermelho na periferia da Zona Norte de São Paulo.
Algumas das minhas primeiras fotos coloridas vieram do laboratório CURT ou Fotoptica com os cantos cortados numa acentuada curva arredondada, que sempre detestei profundamente, e a cor desbotou até sobrar quase só o vermelho e um pouco de azul. Todas têm o foco pouco nítido, como se fossem feitas por uma pinhole. E de fato, a câmera usada na nossa viagem de Fusca ao Uruguai, Argentina e Paraguai em maio de 1977 era uma elegante porém primitiva
Kodak Pocket Instamatic 200, alimentada com filme 110 e unidades de flash MagiCube, que depois de queimadas viravam maravilhosos brinquedos. Foi a primeira câmera fotográfica da qual tive consciência, e até fiz uns cliques com ela. A sensação rude de mola metálica do tranco do botão de disparo no meu dedo me assombrava e assustava.
As fotos que o meu pai fazia nas nossas viagens de férias não me interessavam, porque até um guri como eu percebia que ele fotografava muito mal, insistindo em fazer apenas fotos estilo cartão postal com enquadramentos inimaginativos e frequentemente fora de prumo. A cabeça da minha mãe era enfiada como um elemento intruso no meio do enquadramento, fazendo caretas de protesto ou caras de não estou aí por ser fotografada contra a vontade.
Curiosamente, quando cheguei à adolescência as fotos de família melhoraram subitamente. Na época, a câmera usada era uma point-and-shoot de plástico preto e aspecto barato, cujo nome não consigo lembrar, possivelmente Yashica. O que lembro é que certo dia a máquina deu algum defeito bobo e meu pai, que já vinha na intenção declarada de comprar outra mais moderna, espatifou-a no chão sem cerimônia e depois ficou se divertindo em analisar os componentes eletrônicos. Se você se chocou com essa descrição de falta de reverência pela tecnologia, eu me choquei muito mais na época, pois sempre soube que meu pai era um fã de gadgets eletrônicos. Por exemplo, ele tinha gasto uma fortuna num pioneiro relógio digital com mostrador de LEDs da Fairchild, ou então uma TV Sharp que era o primeiro modelo com controle remoto sem fio e número do canal sintonizado mostrado na tela, ou um revolucionário fone de ouvido da Aiwa com rádio FM integrado, entre vários outros aparelhos avançados e exóticos que eram os iPhones de suas épocas. Um tanto do tecnologista que hoje tenho em mim brotou dessas autocontraditórias influências paternas.
A câmera paterna seguinte já foi uma moderna autofocus: a
Canon Sure Shot ACE de 1988, primeiro modelo da história com controle remoto infavermelho (compatível com as SLRs EOS), além de ter um inteligente viewfinder duplo com visor por cima que permitia enquadrar com a câmera na altura da cintura, como se fosse uma Rolleiflex. O design era inspirado e ergonômico, cheio de toques inteligentes, como um pezinho embutido rotativo para posicionar a câmera para as fotos com o remoto sem necessidade de tripé. Até o botão de disparo emborrachado era agradável de usar. O ciúme do meu pai pela câmera, somado à minha trágica facilidade para mutilar equipamentos eletrônicos acidentalmente, impediu-me de mexer nela o quanto desejaria.
A liberdade veio quando comprei para uso pessoal uma Vivitar de 35mm numa loja do supermercado Paes Mendonça em 1992. Era ridiculamente barata, algo como 75 reais em dinheiro de hoje. Pesava menos do que um pãozinho de padaria e era completamente operada à mão. Sendo 100% feita de plástico, incluindo a pequenina lente fixa de 35mm que gerava psicodélicos efeitos de aberração cromática e coma, e por eu já vir mal acostumado pelos recursos modernos da Canon, eu não consegui amá-la da maneira como amaria uma Holga nos dias atuais. Usei essa câmera para registrar alguns locais que visitava em meus passeios de bicicleta. Mas vivia com medo de ser roubado na rua, mesmo que a câmera fosse praticamente descartável, e não a apreciei como poderia. Não fiz nenhuma foto das pioneiras e históricas saídas de grupos de mountain bikers em Mairiporã nos anos 90, e lamento isso profundamente.
Não sei o que aconteceu com a Canon nem com a Vivitar. Poucos anos depois, eu tive uma minúscula Mitsuca que usava o novo padrão de filme APS e permitia fazer interessantes fotos em corte panorâmico. Foi um presente de meu pai, que comprou outra câmera idêntica para ele. A simplicidade de uso do sistema o conquistou, e a mim também. Retribuí comprando um par de Palm Pilots e dando um a ele em 1997.
Quando eu estava pegando gosto pela camerinha APS, novamente fiquei mimado, mas desta vez foi pelas digitais. Eu trabalhava com Photoshop e depois virei editor na revista Macmania, que cobria a vanguarda da tecnologia. Assim, tive acesso muito precoce e privilegiado a câmeras digitais de todo tipo, incluindo a pioneiríssima QuickTake da Apple/Kodak e a futurista
Polaroid PDC-2000. Profissionais da fotografia que colaboravam com a revista, como Clicio e J.C. França, tiveram uma correta visão do futuro digital e recebiam a nova tecnologia com entusiasmo.
Mas os modelos de consumo, além de caríssimos, tinham uma qualidade de imagem lamacenta que eu julgava inaceitável, mesmo em comparação com as fotos analógicas da minha câmera APS. E as pilhas e baterias das digitais não duravam nada! Eu as considerava como brinquedos, divertidíssimos de usar, mas impossíveis de levar a sério. Assim, para fins pessoais fiquei firmemente preso ao filme por mais alguns anos.
Não cheguei a considerar uma SLR na época, embora visse os profissionais usando-as, especialmente Clicio com uma Asahi Pentax de médio formato que era empregada nas nossas capas de revistas e virou uma espécie de fetiche para mim, com todo aquele elaborado e fascinante ritual de conferir a fotometria em múltiplos pontos da cena, clicar apenas 10 vezes e gritar "filme!" para que um assistente trouxesse correndo um rolo novo diretamente da geladeira.
Minha câmera seguinte, de 1997, foi mais uma point-and-shoot, mas desta vez transbordando de estilo: a
Olympus Stylus Epic. Não era exatamente a versão do link, mas uma de segunda geração que era dotada de uma lente zoom telescópica. Sua programação de exposição automática, privilegiando aberturas largas que produziam belos efeitos de desfoque de fundo e altas velocidades graças à lente luminosa, era simplesmente a minha cara.
(Esse estilo de foto foi abandonado nas câmeras atuais, projetadas para serem usadas por idiotas. As atuais buscam profundidade de campo a todo custo, usando aberturas fechadas para garantir o foco; preferem velocidades perigosamente lentas, empregam lentes zoom muito escuras e sensores digitais pouco sensíveis com excesso de megapixels, e compensam o ruído digital na imagem com algoritmos matemáticos que borram completamente os detalhes. Eu não sabia disso tudo na época, só fui saber ao estudar as SLRsm alguns anos depois. Mas estou me adiantando na história.)
A Stylus Epic era consistente em produzir imagens sensacionais quase sem esforço; nunca uma foto era perdida por erro de fotometria. Além disso, havia o design lindo, com aquele painel de correr na frente que foi muitas vezes repetido pela Olympus em suas digitais e mais recentemente inspirou a Sony em sua série T de ultracompactas.
Infelizmente a minha querida Olympus, usada de forma extremamente intensa ao longo de três anos, estava fadada a morrer por desgaste. Mas isso ocorreu em duas etapas. Primeiro, numa viagem de férias em Iguape, uma mola minúscula saltou da porta de correr e desapareceu no ar, na saída da travessia de balsa. Ainda deu para continuar usando a máquina, com a porta meio bamba e mole. Por fim, no dia 31 de dezembro de 1999 ela deu um pau elétrico e nunca mais voltou a ligar. Sua última imagem foi um bonito pôr do sol na praia de Maresias.
Em memória a seus bons serviços, em vez de jogá-la fora guardei respeitosamente seu corpo inerte entre os meus apetrechos eletrônicos.
Finalmente, fiquei pronto para evoluir em habilidades e exigências fotográficas. Minha próxima câmera seria inevitavelmente uma SLR...
(Continua...)