2008-06-17

Estou no Microonderia

Chega e dá uma olhada. Este site foi um dos escolhidos como tema para serem representados num concurso paralelo da Microonderia, uma iniciativa bolada entre a Brastemp e a Camiseteria para criar adesivos customizados para portas de fornos de microondas.
Achei original e completamente inesperado que blogs sejam tema de uma eleição de artes de adesivos para microondas. E esperto também, já que estamos aqui falando sobre o assunto.
Adoro microondas. Para mim, eles são a segunda maior invenção da civilização ocidental. Não querendo fazer graça com a marca patrocinadora, mas ainda assim digno de registro, meu aparelho em casa é um Samsung com 19 anos de idade, daqueles enormes com lateral de madeira falsa e bege por dentro. Apesar de usado todo dia na potência máxima e com pouca coisa dentro, ele se recusa totalmente a dar qualquer problema. No altamente improvável evento de eu ganhar um forno novo por conta da ação, ele ficará empilhado sobre o atual, numa bizarra competição de durabilidade. Não será muito diferente da simbiose entre o meu novo Mac mini e o G3 torre que funciona como servidor de arquivo e queimador de DVD.

PS - Não bolei o layout do "meu" adesivo, dei um palpite. Mas quando a competição chegar a ser entre motos e carros customizados com adesivos, entro de cabeça :-)

Nowadays Flickr is my real Blogger

 
Paulista

O Google não tem culpa nenhuma pelo título acima. Mas aqui não tem acontecido muita coisa porque nos últimos meses eu me concentrei muito mais na fotografia. Tenho publicado no Flickr todo o meu trabalho visual não-comercial (assim como algumas coisas que eu gostaria que virassem comerciais, se houvesse demanda por elas).
Divirta-se vendo e comentando.

Notícia não relacionada - Enquanto isso, os textos mais antigos do blog estão sendo restaurados aos poucos, com as datas e horas originais de publicação. Muitos textos ganharam informações adicionais e atualizações. Eis os primeiros posts de novembro de 2000. O material a ser restaurado vai até agosto de 2003.

Pedalar pelado é furada?

Antes que perguntem, não participei nem fotografei. Mas acompanhei a repercussão da Naked Bike Ride de São Paulo.
Duas frases que resumem a controvérsia:

...havia muita mídia e muitos curiosos. Sabia que também havia a parte podre que só quer saber de confusão, aqueles que quanto pior melhor, mas esse era um risco calculado.
- Ciclo BR

Em São Paulo, prevaleceu o falso moralismo hipócrita. Bundas na televisão às 3 da tarde, erotização de crianças de manhã e churrascos de domingo regados à “danças do créu” pode. Usar o corpo para expressar liberdade, não pode.
- Apocalipse Motorizado

A Naked Bike Ride terminou em confusão com a polícia, com a prisão temporária de um manifestante (o autor da primeira frase citada acima). O evento também sofreu com a previsível abordagem sensacionalistóide por parte da mídia, que confunde deliberadamente entretenimento com jornalismo. Graças a esses dois fatores, muita gente que nunca dirigiu um carro pela região da avenida Paulista foi informada do ocorrido.

Assim, ao voltar para casa na segunda-feira dentro de um ônibus, o assunto da passeata de ciclistas nus surge espontaneamente entre os passageiros. Estico a orelha para acompanhar; ouço exatamente o que eu receava e não queria ouvir. Resumindo a conversa que rolou dentro do coletivo lotado entre os pontos da Oscar Freire e Faria Lima, temos o seguinte raciocínio circular: 1) pessoas que andam na rua peladas são palhaças; 2) algumas pessoas são fanáticas por bicicletas; 3) as pessoas que gostam muito de bicicletas são malucas; 4) eu não sou maluco nem palhaço; não saio na rua pelado (nem ando de bicicleta).

No dia seguinte, outro não-ciclista típico me pergunta, sem dúvida para me chatear, mas revelando seus sentimentos honestos sobre o assunto: "Você foi um daqueles palhaços malucos que pedalaram pelados no sábado, não é?"

Usando apenas critérios e elementos de análise de comunicação de massas e marketing básico, o ato foi um fracasso para uma imensidão de pessoas. Em termos de exposição pura, de atingir globos oculares e orelhas, o evento foi um sucesso. Mas não se confunda e ache automaticamente o mesmo quanto à promoção da causa, que é a razão disso tudo. Uma coisa é o veículo, outra é a mensagem. O veículo - o protesto - teve alcance inédito. A mensagem - a promoção do transporte urbano sem carro - acredito honestamente que não, e acho até que foi um tiro no pé, queimando até o ciclista que não se engajou.

Não confunda esta minha conclusão com qualquer moralismo vagabundo. Pessoalmente, eu apoiaria protestos de natureza política muito mais chocantes do que desfilar pacificamente seminu pela rua. Às vezes, minha vontade é de participar de um confronto, porque está demonstrado historicamente que a insensibilidade institucional dos poderosos para anseios da massa só pode mesmo ser rompida na base da porrada. Uma tensão imediata, um desequilíbrio súbito; eis os fatores para uma mudança ampla, real e rápida. Não vivemos nada disso aqui. Tensão e desequilíbrio não bastam; veja a situação da segurança pública. As pessoas "levam" a situação "como podem" em lugar de se mobilizar.

A nudez no protesto para mim não é o ponto essencial. O ponto essencial é que a massa, o povão que deveria ser mais prontamente sensibilizado pela mensagem da passeata, não só não se identifica como a despreza, porque a vê simplesmente como algo vulgar e ridículo, um factóide humorístico do qual por vontade própria não faria parte, exceto como farsa carnavalesca. Não é isso o que penso, é o que leio nos pensamentos do pessoal de fora.

Claro que os ciclistas pelados têm uma opinião muito diferente sobre o movimento. Enxergam nele nobreza, por buscar o resgate da convivência humana e fraterna na cidade. Isso não está errado. Apenas não foi adequadamente comunicado a quem tem um ponto de vista e um modo de percepção muito diferentes.

Pensar e agir diferente do comum, do normal, do medíocre, da massa, do gado - eis algo que em todas as épocas foi coisa de maluco, de palhaço. Nenhuma novidade aqui. Mas andar de bicicleta na cidade, em si, nada tem de "maluco". Embora as nossas ruas sejam efetivamente despreparadas para a bike, o maior problema é cultural. E o preconceito contra a bicicleta não é uniforme, varia conforme o local. Enquanto os livre-pensantes nos grandes centros tentam resgatar a bike como expressão de cidadania, nas ricas cidades do interior ela é trocada em massa pela motocicleta e pelo carro, pois nesses lugares quem pedala é "pobre". Enquanto fazemos a Bicicletada nas capiteis, o que está sendo feito para reparar o status social da bicicleta em milhares de pequenas e médias cidades?

Quanto a criar identidade entre o tipo de público que mais atrapalha a vida dos ciclistas, que são os motoristas de SUVs que ocultam sua face humana por trás de vidros escurecidos - será que a bici-passeata pelada consegue de fato mudar a rotina de apenas um desses que seja? Tenho minhas dúvidas. Hostilidade vaga, ódio generalizado, brutalidade fácil - essa é a efetiva língua franca das ruas. Uma bicicleta na sua frente causa stress, mesmo que ela tenha absolutamente todo o direito de estar ali. Um dos principais slogans do cicloativismo é "também somos trânsito". E o Código de Trânsito vigente neste país assegura a preferência na via aos não-motorizados, por mais que o anônimo prepotente atrás do volante faça questão de ignorar sua memória da auto-escola. Pegue a bike, entre numa movimentada avenida paulistana e saia da sua linha instável de tênue segurança por um centímetro apenas; veja como reage contra você o prepotente condutor do importado blindado, o motociclista impaciente, o taxista cansado, o caminhoneiro embrutecido e o motorista de ônibus que não enxerga bem ao redor do veículo. Gentileza existe, mas se destaca por ser a exceção.

Falando em leis, é muito claro pela lei vigente que não se pode passear pela rua pelado. Andar só de fio dental, até pode. Mas exibir a genitália, não. Por mais que pessoalmente se ache isso normal e inofensivo, a lei manda que não e ponto. E quem ignorar a lei está sujeito a ser preso e multado. Quer desobedecer a lei, vá em frente, mas assumindo completamente as possíveis consequências.

O caminho é longo para o resgate das ruas do pesadelo motorizado. Os primeiros passos foram dados. Só não estou certo quanto a cada um deles.


Para quem ainda não entendeu...

São Paulo e várias outras cidades brasileiras possuem ativistas pró-bike e anticarro, reunidos numa organização chamada Bicicletada. Ela foi criada por inspiração de outras entidades similares em várias localidades do mundo, chamadas "Critical Mass" - nome alusivo à esperança de que um dia as bicicletas formem uma "massa crítica" capaz de obliterar a cultura do carro particular.

Uma Naked Bike Ride é uma passeata de bicicleta feita na região central da cidade do mundo por pessoas em diversos níveis de desnudamento, visando contestar a cultura do carro individual e promover os meios de transporte coletivos e alternativos.

Sou totalmente a favor de chamar a atenção contra o fenômeno de motorização sem limite que está transformando a cidade num caos permanente de engarrafamentos, poluição, desumanização e stress. Mas sei que a situação deve custar muito a mudar, já que o setor automobilístico é - para gastar algumas metáforas gratuitas e de mau gosto - o principal "motor" do mercado publicitário e "peça" central da indústria nacional, além de enorme geradora de impostos e justificadora de obras viárias faraônicas de grande visibilidade, como viadutos e túneis, que atraem o voto fácil dos politicamente analfabetos e propiciam a corrupção ilimitada e impune dos governantes e empresas associadas.
Além disso, a monomania coletiva do carro gera um inferno autoalimentado: quanto maiores os congestionamentos e mais lento o trânsito em geral, mais os motoristas exigem viadutos e túneis, na vã ilusão de escapar. É uma situação perversamente conveniente para todos os que lucram com o negócio.
Para assegurar a perpetuidade do sistema, basta que a população jamais perceba que uma revolução no transporte coletivo, além de ser possível, até sairia mais barata para os governos. A população não percebe nem tem iniciativa de exigir isso porque, condicionada pela propaganda maciça desde criancinha e acostumada a submeter-se a um transporte coletivo péssimo, sonha em ter carro próprio acima de tudo.

Update - Postei uma versão resumida desta opinião no fórum do Pedal.com.br, onde a discussão continua.

Março de 2009 - Depois de testemunhar e participar de alguns acontecimentos decisivos, eu mudei de ideia e resolvi participar da segunda WNBR, arriscando-me à incompreensão de uns poucos para conquistar a compreensão de muitos. Deu certo. Nem a exploração da mídia nem a repressão policial foram os obstáculos que foram na primeira versão do evento. Há, sim, uma mudança de cultura em curso. Vale a pena trabalhar por ela.Confira aqui.

Mais sobre a VW

No mesmo instante em que propagandas da Volkswagen ganham Leões em Cannes, a revista Caros Amigos está nas bancas com uma reportagem apresentada assim:

Havia uma guilhotina no carro e a mídia grande fez que não viu
Um carro decepa dedos quando a pessoa tenta afastar o banco traseiro, e a mídia grande faz de conta que não é com ela. Os casos de mutilação causados pelo VW Fox mostram que os meios de comunicação e o “mercado” dão mais importância a manuais do que a pessoas.
Por Moriti Neto

Leia matéria da revista Época aprofundando o caso. E o anúncio definitivo do recall, de 3 de junho.