2008-03-26

Uma fábula - Parte 12

Érico foi trabalhar na Florestal meio a contragosto. Ele adorava seu trabalho na Mandrágora Produções, mas as coisas na empresa tinham ficado incrivelmente barra-pesada e ele preferira pedir as contas para não precisar testemunhar o melancólico apagar das luzes.
Na Florestal, ele não foi bem informado do que iria encontrar. Houve todo aquele papo de "vender" a companhia ao futuro funcionário na entrevista: "estamos crescendo", "duplicamos os produtos", "compramos uma batelada de novos PCs", "acabamos de vir para esta nova sede com bebedouros de água gelada e potes cheios de biscoitos frescos". Era uma lógica invertida: ele ia à entrevista de emprego para agradar o empregador, e era o empregador quem acabava fazendo de tudo para convencê-lo de que o lugar era agradável. Ebolácio era ingênuo e não tinha suficiente experiência com contratações para perceber que a mesma armadilha rolava em todas as empresas.
Quanto tempo se necessita para descobrir que se entrou numa imensa roubada? Menos se você é amigo de alguém que já trabalha lá dentro e conhece todos os meandros e desvios da companhia. Eclético conhecia um amigo lá e viera a convite dele. Mas o amigo o tinha chamado como quem pede socorro num desastre, e ele entendera mal isso. O seu posto estava reservado para um salvador da pátria, e a cadeira não chegava a esquentar. Nos três meses anteriores a equipe tinha sido drasticamente mexida três vezes. Os produtos sofriam com as mudanças; perdiam qualidade, perdiam consumidores e perdiam os prazos de lançamento. A situação já estava para além de um milagre resolver.
E nosso amigo Ewaldo entrou no meio disso achando que era só sentar na sua cadeira, abrir os programas e pilotá-los com a proficiência de costume. Isso era desesperadoramente necessário, é verdade: seus dois auxiliares estavam trabalhando 14 horas por dia, sem ganhar horas extras apenas para dar conta do cronograma desumano.
O problema era de natureza política. E a habilidade de Evolinton com as ferramentas digitais era inversa à sua capacidade política.
Ele devia ter desconfiado que não daria certo um trabalho onde ele fora posto como subordinado de um funcionário júnior com metade de sua idade e protegido de um dos donos da empresa. O sujeito usava Mac numa empresa que era 100% PC e tinha sua própria sala com ar condicionado, frigobar e fliperama, enquanto todos os demais se apinhavam num salão dividido em baias, apelidado não muito carinhosamente de "Granja". É claro que o pequeno príncipe da companhia não quis se envolver com um potencial concorrente aos seus planos de carreira. Abandonou-o com os pepinos.
O amigo que atraíra nosso infeliz companheiro para lá e servira de guia nos primeiros dias não fez por menos: saiu da empresa quando não tinham passado nem 10 dias desde a admissão, e Emeraldo nem tinha ainda tomado consciência do tamanho da encrenca.
A agonia acabou sendo breve. Ecólito foi mandado para a rua com poucas semanas de trabalho, sem ter podido mudar nem implementar nenhum de seus planos. A razão oficial foi uma falha técnica dos auxiliares, cometida quando eles estavam tirando o atraso do serviço às três da manhã de uma sexta para sábado.

Uma fábula - Parte 11

Estrovaldo achava que tinha visto todo tipo de aberração no mundo ao tratar com leitores de publicações de banca, mas estava enganado. Faltava-lhe tratar diretamente com um cliente corporativo.
Na verdade, como frila ele já fizera isso, mas sempre de maneira harmoniosa, sem nenhum incidente ou confusão. Talvez porque ele soubesse escolher bem os clientes. Ele sabia que mais importante do que ter uma boa carteira de clientes era ter os clientes que combinassem com seu estilo de trabalho, garantindo serviço de qualidade, satisfatório e bem pago.
A diferença agora seria tratar em triângulo: ele, o cliente e o chefe. Foi um surpreentente desfile de contradições. Eterogildo funcionaria como seu próprio atendimento, respondendo diretamente ao cliente, e o papel do chefe seria supervisionar a relação de longe para garantir que funcionasse. Parecia razoável para agilizar o serviço. Mas Erói não tinha chance de descobrir as coisas por si só, era interrompido pelos palpites do chefe. "Eles gostam disso." "Eles não gostam disso." "Assim vamos perder o cliente!" "Vamos recuperar a moral com o cliente!"
O próprio chefe não era um super-herói, não entendia tão bem assim as demandas do cliente. Este, por sua vez, tampouco sabia com exatidão o que queria.
Chefe inseguro, cliente indeciso: combinação explosiva e potencialmente catastrófica.
Certamente o cliente não queria a mesma cor do concorrente no layout, mas todo o resto era um exercício de adivinhação e checagem, que demorava muito mais do que a execução do trabalho em si mesma. Por vezes o cliente ligava para o escritório puto com Enervaldo, mas era porque o chefe tinha entendido uma coisa diferente do que o cliente queria e passara adiante instruções erradas.
O cronograma era outro pepino. As diversas instâncias dentro da organização do cliente precisavam de tempo para analisar o material e corrigir as falhas de informação. Era um momento crítico, em que páginas inteiras podiam cair na última hora por causa de um detalhinho no texto que só mesmo o cliente perceberia, ou por uma foto onde aparecia um funcionário que acabara de ser demitido. E não era raro parar o serviço na gráfica para trocar cadernos ou até mandar a tiragem de impressão para o lixo e refazer tudo por conta de uma palavra mal revisada. Isso depois de meses esperando paciente e ociosamente pelos textos e fotos para então executar os layouts na correria, de um dia para o outro.
Errático até aprendeu a nunca nomear a última versão do seu layout como "final" - esse fatalmente acabava sendo refeito e ganhando versões "final 1", "final mesmo", "final vale", "final final", "final final vale mesmo" etc., para confusão e desespero da gráfica.
Na reunião pós-fechamento, a tônica tinha ido mais para o lado de "listar os erros e apontar os respectivos culpados" do que o tradicional "elogiar a equipe pela qualidade e presteza do serviço". O clima estava ficando mais estranho a cada trabalho concluído. Os trabalhos eram cada vez mais complexos e avançados, o cliente parecia feliz e o chefe achava tudo ruim.
No meio disso, Erúptico teve a coragem de abrir a boca para fazer uma sugestão.
Nos empregos anteriores, ele sempre trabalhara com rígidos cronogramas de texto, layout, checagem e gráfica, cada qual separado por alguns dias, a fim de que um departamento não encavalasse no outro. Funcionava para fechar sete revistas por mês, por que não daria para um catálogo de produto ou newsletter bimestral?
Ernabástico ficou aturdido com a resposta: "Mas o cronograma vem pronto do cliente!"

2008-03-24

Uma fábula - Parte 10

Ernaldo pensava, ao fazer a faculdade de design, que estava se preparando para virar um profissional criativo, de virtudes únicas a serem exploradas em produtos inovadores, integrado a uma equipe determinada a fazer história.
Na prática, logo que ele entrou em uma equipe tarimbada, esta conquistou um prêmio interno anual da corporação. Ele ficou de fora da premiação e do oba-oba, mesmo tendo participado do trabalho campeão. Todo mundo ganhou diplominha, foto e biografia na newsletter da empresa. Unicamente Erístocles ficou de fora. Como podia ser?
Seu chefe, aquele sujeito cheio de pose cujo conceito de trabalho era ficar de piadinha com os passantes na redação e deixar os pés escandalosamente pousados sobre a escrivaninha, tinha esquecido de incluir o nome de Ergunçaldo na ficha de inscrição da equipe vencedora.
E qual foi a participação de Erenilson no projeto? Ele simplesmente tinha diagramado e ilustrado a capa. A capa!
O seu trabalho era impossível de ignorar. Mas foi.
Ele fora esquecido ou "esquecido"?
Depois de consultar, queixar-se e enviar cartas a vários escalões da companhia, sem nenhuma resposta, e vendo até o caderno especial ganhar edição em livro - novamente com sua ilustração de capa - e membros da equipe ganhando bolsas para estudar no exterior, sem que o seu caso particular avançasse um paica sequer, Erísio começou a se dar conta de que era uma batalha perdida desde o princípio. Ele se enganara quanto à própria natureza do trabalho.
Havia uma distância eloquente do manual de redação cheio de princípios éticos constantemente citados nos editoriais aos procedimentos cheios de gambiarras da gráfica e aos parentes de figurões empoleirados em cargos arranjados de alta responsabilidade para os quais eram irreparavalmente despreparados, ignorantes, incompetentes e ineficazes. Na prática, tudo era exatamente ao contrário dos padrões incessantemente propagandeados aos consumidores na publidade, em editoriais e em publieditoriais.
E se fosse para ter politicagem interna, aquele ramo de negócio era a verdadeira universidade do trambique.
Erubônio sentiu um calafrio ao pensar no poder efetivo que a corporação detinha sobre assuntos totalmente externos e alheios a sua existência.
E também começou a entender porque seu próprio nome mudava sem parar.
Era irrelevante.

Uma fábula - Parte 9

Os simpáticos funcionários de segundo escalão apresentaram a Ermengardo o portfólio da Pinduca, que não era excepcional mas tinha bom gosto. As revistas não tinham data na capa e não era possível saber sua periodicidade. Eratóstenes ignorou os sinais estranhos nos produtos. Viu que todo mundo usava PCs e notebooks novos. Interpretou isso como claro sinal de progresso acelerado. Resolveu apostar na Pinduca.
Deveria ter percebido que um escritório de design sem website no ar não pode ser sério.
Ermefrôncio (não era esse o nome do nosso protagonista)? nunca soube exatamente se o seu trabalho estava adequado à função, pois o chefe insistia que ele ainda teria que pastar muito até entender o gosto do cliente. Quando Ermanuel (ou seria este o nome?) fez um trabalho que considerava realmente bom, e que o cliente dava claros sinais de que tinha honestamente apreciado, o chefe surpreendentemente o demoliu numa reunião de pauta. E o motivo parecia ser o mais prosaico de todos: o chefe não tinha participado muito desse trabalho, por isso ele ficara com a "cara" de Ermano e não com a do chefe.
Mas o chefe não tinha dado todo o incentivo para Ermínio desenvolver seu estilo próprio dentro do escritório? Por que agora era o contrário, o diferente é que era ruim? Pergunta que ficou sem resposta.
Mas se não levasse aquilo mais a sério, o que continuar a fazer lá dentro?
Ereginaldo desanimou-se e nem tentou disfarçar. Percebeu a armadilha muito tarde, quando já não tinha um "plano B". Ele teria que botar a individualidade no bolso se quisesse "fazer parte" e "vestir a camisa".

Ninguém aprendeu nada com a experiência.
Exceto Ernesto, que começou a abrir o olho para o fato de que na sua profissão nenhum chefe, absolutamente nenhum, é razoável, e jamais é possível alinhar-se aos interesses da empresa sem um grande prejuízo pessoal que às vezes só se percebe depois de um tempo suficiente para o arrependimento não compensá-lo.
Se Eraldo quisesse ter um carreira de destaque, teria de perder a ingenuidade, parar de acreditar no discurso enlatado de RH e abandonar o círculo infernal dos seguidos empregos, perseguindo seus reais interesses numa carreira solo produtiva.

Uma fábula - Parte 8

A história da Pinduca, como todas as outras até agora, é completamente inventada, fictícia e imaginária. Mas não se espante no dia em que encontrar as coisas funcionando de maneira parecida no mundo real.

Pinduca Serviços de Informática e Comunicação Corporativa era o nome pomposo para uma operação cuja razão social era completamente diferente: Fedegoso Comércio e Exportação de Alimentos Ltda. Recém-saído da garagem do fundador, o escritório estava instalado num consultório de dentista reformado para ter um clima vagamente similar ao de uma agência de propaganda, mas sem chegar exatamente a ser, nem nos produtos nem nos serviços.
A vending machine de refrigerantes na entrada, por exemplo, era mera figuração para impressionar as visitas; nem sequer continha refrigerantes, nem estava ligada à tomada. Os melhores computadores eram os que os respectivos funcionários tinham trazido de suas casas. A biblioteca de livros de arte era um detalhe requintado, mas na prática ninguém parava para folheá-la, já que a referência estética provinha do que a concorrência estivesse fazendo no momento e de algumas revistas importadas.

Uma fábula - Parte 7

Quando um funcionário graduado precisava ser demitido, isso sempre era decidido pelo dono e fundador da Eletromania, mas executado pelo seu gerente administrativo, exatamente no momento em que o dono estava viajando para passear no exterior a título de cobrir algum evento. A perversa sincronicidade era a maneira perfeita de evitar que a sujeira moral respingasse no carismático semblante do líder máximo. E ainda aproveitava todos aqueles convites e passagens de avião!
O sistema de pagamento de salários tinha uma particularidade muito interessante, que era vir tudo em dobro. Existiam os papéis do governo e os papéis paralelos. Pelos papéis do governo, o funcionário graduado recebia um salário correspondente a um terço do real e a empresa praticamente não precisava pagar encargos trabalhistas. O restante que completava sua renda verdadeira era creditado através dos papéis paralelos. Dos quais, naturalmente, não ficava cópia nem recibo como prova em poder do funcionário depois de demitido.
Restava uma maneira de um ex-funcionário descontente se vingar: bastaria denunciar a empresa à ABES por uso de software pirata e depois ouvir dos colegas as notícias das multas milionárias. Por precaução, ninguém era "saído" sem receber a grana contadinha.
Ermengôncio foi demitido de surpresa após retornar das férias. Nenhum motivo foi declarado além de "contenção de despesas". Ele sabia que era financeiramente compensador para a empresa colocar no seu lugar até quatro estagiários ingênuos e absolutamente descartáveis. Além disso, ele dera sinais inevitáveis de que entendia melhor dos produtos que o dono sem noção e, embora nunca tivesse tido com ele nenhum atrito direto, era evidente pelas suas ações que não cumpriria cem por cento das suas ordens, quando estivesse convencido de que eram idéias cretinas que ajudariam a destruir os produtos. Pois bem: o pior pecado que um membro de uma organização pode cometer é deixar claro que é mais hábil que o chefe.
Ao terminar seu seguro-desemprego, Enésio tentou uma nova empreitada. No novo lugar, explicaram que ele cumpriria um período de experiência de três meses e a seguir seria contratado na carteira com um salário maior que a renda desse período inicial. Ele topou o risco, deu certo na organização, mas passou um tempo trabalhando como informal sem registro, para então ser mandado embora quando a empresa "não atingiu as metas" de crescimento, por motivo de "contenção de despesas". E ainda avisaram que parcelariam o pagamento de seus direitos. Ele saiu se sentindo como um idiota que investiu esse tempo e talento para coisa alguma.
Ninguém, aliás, aprendeu nada com a experiência.

Uma fábula - Parte 6

A Eletromania Comunicação & Promoções Ltda. tinha um estacionamento próprio que comportava um terço dos carros dos funcionários. Era o número exato para acomodar os carros de todos os diretores e gerentes; o resto do pessoal que se virasse arriscando-se a estacionar na rua.
Como é fato em rigorosamente todas as empresas do ramo de até 50 funcionários, o novo edifício da empresa tinha sido escolhido por ficar nas proximidades da casa do dono. Ele podia ir trabalhar a pé. O fato de estar demasiado longe de qualquer estacionamento era um inconveniente que tinha sido ignorado pela diretoria.
Numa fria e nevoenta tarde de maio, chegou para trabalhar o novo editor da "Mega Calhambeques Review", uma pioneira revista de automóveis antigos. Veio com seu precioso Maverick vermelho de seis cilindros perfeitamente restaurado. E, logicamente, não havia vaga para ele no estacionamento, já que todas as vagas eram reservadas aos diretores e gerentes. Editor é peão.
Mas o coordenador editorial - nome pomposo para um tipo de gerente que não pode decidir nada por conta própria, já que o dono microgerenciador se intromete e distribui ordens a todos, passando por cima de todos os escalões na redação e não permitindo que ninguém faça seu trabalho à sua maneira - enfim, retomando –, o coordenador editorial não tinha carro. E naturalmente ele ofereceu sua vaga de estacionamento na empresa para o novo colega.
A gerência da gerência operacional não aprovou o empréstimo da vaga. A regra era clara: um não-gerente não pode usar vaga, e pronto. Se houvesse um precedente, brigas começariam. Melhor deixar a vaga completamente vazia, de preferência com um sinal móvel de "reservado para pessoas portadoras de deficiência ambulatória", aproveitando para fazer uma média politicamente correta.
Assim, um argumento lógico foi usado para manter uma discriminação ilógica.
Mas se ficasse somente na discussão, o problema não seria tão dramático. O dramático é que, após algumas semanas estacionado sempre no mesmo lugar numa travessa atrás da empresa, o Maverick vermelho não estava lá quando seu dono saiu do trabalho no meio da madrugada.
Ninguém se sentiu responsável por nada dentro da empresa.
Ninguém aprendeu nada com a experiência.

Uma fábula - Parte 5

Um editor da concorrência foi recrutado para ser o editor da "Washing World". A despeito das dificuldades de adaptação, ele estava conseguindo criar uma revista cheia de conteúdo original, com matérias interessantes e nunca antes imaginadas: hacks para modificar lavadoras fora da garantia, passo-a-passo para turbinar uma Continental para funcionar igual a uma Electrolux e várias outras inovações.
O prêmio que ele recebeu por ser mais criativo que os veteranos da empresa foi a demissão sumária e sem motivo imediato, somente com a desculpa vagabunda da "contenção de despesas".
Os membros remanescentes da equipe trataram avidamente de ocupar o vácuo de poder e aproveitaram para "lavar a roupa suja"- metaforicamente, não com as máquinas lavar de teste da redação - imediatamente após a defenestração, listando laboriosamente as justificações e críticas para a puxada de tapete, numa reunião a portas fechadas com o dono.
A maledicência, as intrigas e os rumores já tinham corroído a convivência interna muito antes desse triste fim. A mesma pessoa que tratava o ex-editor cordialmente em voz alta na companhia a destruía através de chats na Internet.
A principal das justificações para a saída do ex-editor era que ele tinha um timing ruim e fazia a redação trabalhar aos fins de semana para não perder os prazos de fechamento. Porém, após ele ter sido enxotado da redação, todo mundo persistiu trabalhando incessantemente fins de semana adentro, da mesma forma que antes, como um bando de viciados. Ou seja, não era problema pessoal do ex-editor, mas do processo em si.
Ninguém aprendeu nada com a experiência.

Uma fábula - Parte 4

A teimosia do dono da Eletromania, somada à sua mania temerária de achar que tinha dentro da própria cabeça todas as respostas prontas e que ele jamais precisava da opinião de ninguém, levou-o a matar ou colocar em perigo os produtos bem estabelecidos da companhia.
O caso mais interessante foi da revista "Lip & Stick", sobre maquiagem, de modesto sucesso em bancas. O dono insistia que a publicação deveria mudar de público alvo, abandonando as mulheres jovens e visando as mulheres de meia-idade, que formam um público mais numeroso e mais ávido por novidades no campo da ocultação da idade por vias cosméticas. Sem falar no motivo verdadeiro por trás de tudo: tentar seduzir anunciantes de fora do nicho original da revista.
Algumas pessoas achavam que o certo seria fundar uma nova revista sobre cirurgia plástica e não mexer na outra, que não era nenhuma obra-prima, mas pagava as contas. Só que o dono persistiu até ter a sua visão implantada. Ela foi tocada de má vontade pela editora e fundadora da "Lip & Stick" original, um monstro do mau humor que parecia sofrer de TPM permanente e governava seu feudo pessoal dentro da empresa como se fosse um sádico carrasco de masmorra, à base de indiscriminada e constante intimidação psicológica sobre os seus funcionários – mas que jamais tivera a coragem de dizer um não para as idéias mais idiotas do dono.
A situação não era estável. Membros da equipe editorial da "Lip & Stick" revoltaram-se com as pressões e debandaram em massa para a concorrência, bem no meio da implantação do novo projeto.
Por sua vez, as leitoras odiaram a mudança brusca na publicação; as vendas caíram e se estabilizaram em 40% dos números de antigamente. Para coroar o fracasso da iniciativa, o plantel de anunciantes não foi expandido.
Logo, Ermóstenes, de sua precária posição de mero observador impotente dos fatos, percebeu que a dança das cadeiras se repetia em outras equipes que nada tinham a ver com revistas femininas - inclusive a sua própria.
Uma revista de computador, "Bit ou Byte", fora praticamente deixada para morrer de lenta inanição após um lançamento que fora exagerado na pretensiosidade e tímido na execução. A concorrência no ramo de revistas de eletrodomésticos engrossava perigosamente com a adesão de bons profissionais da Eletromania.
Ninguém aprendeu nada com a experiência.

Uma fábula - Parte 3

A Eletromania e todas as outras editoras tinham em comum websites medíocres.
As revistas sabiam que estavam perdendo leitores para a Internet, mas não sabiam proteger seu espaço com sites que funcionassem em conjunto com as revistas. Os sites tinham conteúdo raso e aparência de enganação. O pessoal que trabalhava nas revistas não sabia editar nada na Internet, e a empresa se recusava a fazer qualquer investimento específico na Web, sonhando vagamente em simplesmente "ordenhar" os sites sem nenhum esforço.
Numa bela tarde de fim de inverno, de termômetros marcando 18 graus e sem nuvens no céu, o dono da Eletromania juntou todos os funcionários numa reunião e informou-os, totalmente de surpresa, de que eles estavam "prestes a criar o melhor e maior site de máquinas de lavar do continente". O dono queria que cada editor e cada redator de revista também trabalhasse na Web. Exatamente o que eles não sabiam fazer, nem tinham tempo para tal.
O ceticismo dentro da equipe quanto ao projeto foi a reação natural, mas ninguém teve a audácia de dizer não ao dono.
Um site novo foi projetado para comportar o material extra. Foi um fracasso total. Além de não ter sido reconhecida a necessidade de um editor exclusivo, não foi percebido que seria preciso também um departamento comercial para os sites, apoiado por um modelo de negócio de Web que fosse auto-sustentado e não parasitasse as operações lucrativas da empresa.
Os editores de revistas, naturalmente, continuaram a só cuidar das revistas.
Ninguém aprendeu nada com a experiência.

Uma fábula - Parte 2

Havia editoras concorrentes no segmento, mas a rival que todos na Eletromania adoravam odiar era a Lunatix, que fazia revistas como "Turn It On", "Video Player" e "Wash & Dry".
O troca-troca de funcionários entre as concorrentes era contradito por uma rixa que corria nos fóruns de Internet, com acusações e insultos diretos, bem como nas indiretas razoavelmente diretas nas seções de cartas e nos próprios editoriais das publicações. Quando alguma coisa dava errado numa das editoras, as outras faziam festa. O clima era quase de briga de torcidas de futebol.
Quando alguém era contratado da concorrência, formava-se uma resistência invisível na panelinha dos veteranos, que sempre tendiam a fazer tudo de maneira a recuperar o status superior que desfrutavam anos atrás. O resultado foi que os novos membros não conseguiam esquentar cadeira no novo emprego, pois a rede de intrigas, a central interna de boatos e as constantes esfaqueaduras pelas costas os desestabilizavam e deixavam desconfortáveis por quanto tempo eles conseguissem suportar.
Talentos foram continuamente desperdiçados e oportunidades seguidas foram perdidas.
Ninguém aprendeu nada com a experiência.

Uma fábula - Parte 1

A seguinte série de historinhas, desencontradas e fora de uma cronologia específica, refere-se à vida fictícia e imaginosa de Ertáfio Atroaldo dos Prazeres, um designer anônimo e mutante cujo nome muda constantemente a fim de proteger pessoas reais de ligações imaginárias com coisas que evidentemente não existem. Tudo que você irá ler é fruto de uma delirante imaginação e não encontra o mais remoto paralelo no mundo real. Este ponto não está em discussão. Certo?

A pequena editora Eletromania fazia revistas sobre eletrodomésticos.
O sucesso da primeira publicação, "Washing World", sobre máquinas de lavar e secadoras, estimulou os donos a ampliar a equipe e iniciar outras revistas, como "TV Tips", sobre televisores e programação de TV, e "Mix It", sobre batedeiras e estúdios de gravação.
A equipe da redação era divertida e animada, e talvez seu único defeito fosse não ter ambição profissional, já que cada um era pago para fazer o que mais gostava - lavar e secar roupas, bater massas de tortas e bolos e assistir à TV sem parar.
Cada qual desejava alcançar o prestigioso posto de editor-chefe; porém, uma vez no cargo, eles pasavam a viver infelizes devido ao excesso de pressões, prazos e tarefas. Não sobraria mais um minuto de tempo para lavar uma cueca sequer. O cargo de editor era estruturado de tal maneira que era impossível alguém sobreviver a ele com a mente sadia. Era necessário abdicar da vida privada, deixar de lado a esposa, abandonar os filhos e se encastelar na redação para enfrentar constantes fechamentos madrugada adentro.
Seria possível estruturar e organizar o trabalho para evitar a praga dos fechamentos, mas, pela própria natureza da atividade, ninguém na redação levava o processo a sério o bastante para consertá-lo. Se a situação chegasse aos ouvidos do dono, era fácil para ele encontrar um culpado e fazer uma "reestruturação", que consistia numa troca de cadeiras básica e uma ou outra medida linha-dura, como controle de borderô ou de horários, para dar uma impressão falsa de progresso.
Ninguém aprendeu nada com a experiência.

2008-03-01

Espero que seja meu último post...

...sobre essa rixa imbecil que alguns blogueiros andam movendo contra jornalistas, briguinha movida a marketismo pessoal rasteiro e sede de clique$.

Pensando em quem também se cansou, vou resumir o post a apenas mais uma palavra:

OWNED!!!