Érico foi trabalhar na Florestal meio a contragosto. Ele adorava seu trabalho na Mandrágora Produções, mas as coisas na empresa tinham ficado incrivelmente barra-pesada e ele preferira pedir as contas para não precisar testemunhar o melancólico apagar das luzes.
Na Florestal, ele não foi bem informado do que iria encontrar. Houve todo aquele papo de "vender" a companhia ao futuro funcionário na entrevista: "estamos crescendo", "duplicamos os produtos", "compramos uma batelada de novos PCs", "acabamos de vir para esta nova sede com bebedouros de água gelada e potes cheios de biscoitos frescos". Era uma lógica invertida: ele ia à entrevista de emprego para agradar o empregador, e era o empregador quem acabava fazendo de tudo para convencê-lo de que o lugar era agradável. Ebolácio era ingênuo e não tinha suficiente experiência com contratações para perceber que a mesma armadilha rolava em todas as empresas.
Quanto tempo se necessita para descobrir que se entrou numa imensa roubada? Menos se você é amigo de alguém que já trabalha lá dentro e conhece todos os meandros e desvios da companhia. Eclético conhecia um amigo lá e viera a convite dele. Mas o amigo o tinha chamado como quem pede socorro num desastre, e ele entendera mal isso. O seu posto estava reservado para um salvador da pátria, e a cadeira não chegava a esquentar. Nos três meses anteriores a equipe tinha sido drasticamente mexida três vezes. Os produtos sofriam com as mudanças; perdiam qualidade, perdiam consumidores e perdiam os prazos de lançamento. A situação já estava para além de um milagre resolver.
E nosso amigo Ewaldo entrou no meio disso achando que era só sentar na sua cadeira, abrir os programas e pilotá-los com a proficiência de costume. Isso era desesperadoramente necessário, é verdade: seus dois auxiliares estavam trabalhando 14 horas por dia, sem ganhar horas extras apenas para dar conta do cronograma desumano.
O problema era de natureza política. E a habilidade de Evolinton com as ferramentas digitais era inversa à sua capacidade política.
Ele devia ter desconfiado que não daria certo um trabalho onde ele fora posto como subordinado de um funcionário júnior com metade de sua idade e protegido de um dos donos da empresa. O sujeito usava Mac numa empresa que era 100% PC e tinha sua própria sala com ar condicionado, frigobar e fliperama, enquanto todos os demais se apinhavam num salão dividido em baias, apelidado não muito carinhosamente de "Granja". É claro que o pequeno príncipe da companhia não quis se envolver com um potencial concorrente aos seus planos de carreira. Abandonou-o com os pepinos.
O amigo que atraíra nosso infeliz companheiro para lá e servira de guia nos primeiros dias não fez por menos: saiu da empresa quando não tinham passado nem 10 dias desde a admissão, e Emeraldo nem tinha ainda tomado consciência do tamanho da encrenca.
A agonia acabou sendo breve. Ecólito foi mandado para a rua com poucas semanas de trabalho, sem ter podido mudar nem implementar nenhum de seus planos. A razão oficial foi uma falha técnica dos auxiliares, cometida quando eles estavam tirando o atraso do serviço às três da manhã de uma sexta para sábado.
Na Florestal, ele não foi bem informado do que iria encontrar. Houve todo aquele papo de "vender" a companhia ao futuro funcionário na entrevista: "estamos crescendo", "duplicamos os produtos", "compramos uma batelada de novos PCs", "acabamos de vir para esta nova sede com bebedouros de água gelada e potes cheios de biscoitos frescos". Era uma lógica invertida: ele ia à entrevista de emprego para agradar o empregador, e era o empregador quem acabava fazendo de tudo para convencê-lo de que o lugar era agradável. Ebolácio era ingênuo e não tinha suficiente experiência com contratações para perceber que a mesma armadilha rolava em todas as empresas.
Quanto tempo se necessita para descobrir que se entrou numa imensa roubada? Menos se você é amigo de alguém que já trabalha lá dentro e conhece todos os meandros e desvios da companhia. Eclético conhecia um amigo lá e viera a convite dele. Mas o amigo o tinha chamado como quem pede socorro num desastre, e ele entendera mal isso. O seu posto estava reservado para um salvador da pátria, e a cadeira não chegava a esquentar. Nos três meses anteriores a equipe tinha sido drasticamente mexida três vezes. Os produtos sofriam com as mudanças; perdiam qualidade, perdiam consumidores e perdiam os prazos de lançamento. A situação já estava para além de um milagre resolver.
E nosso amigo Ewaldo entrou no meio disso achando que era só sentar na sua cadeira, abrir os programas e pilotá-los com a proficiência de costume. Isso era desesperadoramente necessário, é verdade: seus dois auxiliares estavam trabalhando 14 horas por dia, sem ganhar horas extras apenas para dar conta do cronograma desumano.
O problema era de natureza política. E a habilidade de Evolinton com as ferramentas digitais era inversa à sua capacidade política.
Ele devia ter desconfiado que não daria certo um trabalho onde ele fora posto como subordinado de um funcionário júnior com metade de sua idade e protegido de um dos donos da empresa. O sujeito usava Mac numa empresa que era 100% PC e tinha sua própria sala com ar condicionado, frigobar e fliperama, enquanto todos os demais se apinhavam num salão dividido em baias, apelidado não muito carinhosamente de "Granja". É claro que o pequeno príncipe da companhia não quis se envolver com um potencial concorrente aos seus planos de carreira. Abandonou-o com os pepinos.
O amigo que atraíra nosso infeliz companheiro para lá e servira de guia nos primeiros dias não fez por menos: saiu da empresa quando não tinham passado nem 10 dias desde a admissão, e Emeraldo nem tinha ainda tomado consciência do tamanho da encrenca.
A agonia acabou sendo breve. Ecólito foi mandado para a rua com poucas semanas de trabalho, sem ter podido mudar nem implementar nenhum de seus planos. A razão oficial foi uma falha técnica dos auxiliares, cometida quando eles estavam tirando o atraso do serviço às três da manhã de uma sexta para sábado.

