Olha que fofo, gente, a Chevrolet criou um site para
Sinalizando os novos tempos, esta é a perturbadora motivação oficial da companhia para criar o site:
Oferecer e pegar carona é um jeito de reinventar caminhos e resgatar o prazer de dirigir. Pensando e agindo assim, a gente passa menos tempo no trânsito e consegue chegar pontualmente nos lugares. Desse jeito, sobra mais tempo livre para aproveitar e o carro volta a ser um meio gostoso para se locomover.
Confissão de fracasso, não? Para os leitores apressados e de compreensão pedestre, vou traduzir:
um jeito de reinventar caminhos = Reconhecimento da saturação do mercado. Existe tanto carro novo na rua que eles simplesmente não conseguem mais trafegar pelos caminhos consagrados, simples e lógicos. Os motoristas devem se virar e descobrir vias alternativas. Invadem vias de acesso residencial e industrial, não planejadas para suportar o tráfego pesado. Num segundo momento, a cidade inteira vira um imenso Alto da Lapa, com incontáveis esquinas residenciais bloqueadas para conter o inferno. Esta sugestão visa ganhar tempo, talvez alguns anos a mais de venda descontrolada de veículos.
resgatar o prazer de dirigir = Admissão de que dirigir na cidade ficou incômodo a ponto de pesar na declinante venda de automóveis.
Pensando e agindo assim, a gente passa menos tempo no trânsito / sobra mais tempo livre para aproveitar = Os carros nas propagandas dão a impressão de reproduzirem o conforto do lar. De fato, o cidadão passa uma parte cada vez maior do seu dia dentro do carro. Mas chegamos a um limite: não dá para substituir mais ainda a sala de estar pelo habitáculo.
e consegue chegar pontualmente nos lugares = Os engarrafamentos são a perdição para quem tem compromissos com hora marcada. A iniciativa de solidariedade visa gente que precisa de agilidade e também pessoas que não topam usar transporte público ou alternativo, por não serem adequados - ou mais simplesmente, elitistas sociais preconceituosos, que também existem.
o carro volta a ser um meio gostoso para se locomover = Sugestão de que o carro não é o único meio possível, mas implica que as alternativas não prestam.
Como NÃO fazer um site promocional
Mas olha que coincidência, pessoal: pouco antes da Chevrolet, a Renault também fez uma ação publicitária promovendo a carona! Como é que as duas marcas tiveram a mesma ideia quase ao mesmo tempo? Até parece que combinaram...
Aqui, o resultado é um insulto à inteligência. Deve ser o site mais fake criado em toda a história da Web desde o Gatinho Bonsai. Fajuto até mesmo considerando a assumida intenção de propaganda. Alguns posts inaugurais no Twitter falando em um "movimento" - afinal, tudo na Internet pode ser transformado em movimento - abriram caminho para um blog escrito por quatro abnegados cidadãos de bem que descobriram algo maravilhoso, mágico e reluzente que os fez "redescobrir a cidade". Oh!
O superproduzido blog inclui vídeos gravados em estúdio e textos escritos por redatores. Tudo pasteurizado e fantasioso. Não convenceria nem o mais bitolado leitor do site do Baboo. É igual a aquelas amostras de comida de plástico de vitrines de restaurantes japoneses: até parece com um blog... Mas os textos são rasos, desconexos da realidade, repetindo toscamente o nome do carro promovido ao final de cada post. É um exemplo rico e abundante de como não se deve fazer um site promocional. Eu só consigo carimbar um enorme FAIL nele.
Não sou contra nenhum site publicitário (desde que não seja obrigado a ver). Nem sou contra a apropriação do formato de blog (pois sempre dá para perceber quando é propaganda). Não sou contra comprar um carro novo (desde que com critério). Sou contra o desperdício de talento, conexão e tempo com produções anódinas, constrangedoras, até desastrosas, partindo de um tema que no fundo é muito sério: a degradação da convivência urbana pelo trânsito caótico.
Ademais, há um problema na temática. "Cansei da Cidade" não traz a bonomia aparente de "Carona Chevrolet", onde até se admite que os carros viraram um problema. Neste, a cidade é o vilão. A cidade malvada está fazendo os pobres carrinhos se suicidarem, por Deus, tadinhos deles!
Quem faz uma ação assim merece perder vendas, não ganhar. A outra marca se saiu melhor com sua tentativa, mas também não merece ganhar vendas - a iniciativa, embora bem cultivada, ainda tem um arzinho hipócrita que incomoda.
Poder para os Monzas e Chevettes solidários!
Mas então, #comofas/ ?
A quem depende totalmente do carro para viver na cidade, quase me dá pena. Mas só quase. A dependência cultural e estrutural do carro é uma cova que todos nós cavamos ao longo das últimas décadas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o problema não era a falta de espaço para os carros circularem. Era a falta de combustível. Mas os publicitários da época tinham muito mais coragem e menos pudores bobos que os de hoje para transmitir suas mensagens.

Na nossa atual época, em que a Internet facilita ao indivíduo comprar confrontos e colecionar inimigos, quem a indústria pode apontar como vilão? Vimos que apontar "o trânsito" é um tiro no próprio pé, e apontar "a cidade" é simplesmente imbecil.
Aos executivos da indústria: querem só fazer cara de bonzinhos e desentupir-se dos carros novos acumulados nos pátios das fábricas, ou desejam sinceramente que as campanhas pela carona dêem resultado? Deixem esses sites definharem para o esquecimento e tentem de novo. Desta vez, em primeiro lugar, contratem profissionais de propaganda que estejam a fim de fazer o seu serviço honestamente em vez de embromar.
Aos marketeiros: como estratégia, adotem o exemplo do cartaz de Hitler. Instilem medo. Coloquem como argumento principal que a rua é mais segura para quem não dirige sozinho. Joguem no site algumas estatísticas e números sobre assaltos. Pronto! Sucesso!
Grande Mário Amaya. Grande, sensacional, bem-escrita, maravilhosa e ainda por cima com a resposta na ponta da língua.
ResponderExcluirParabéns.
Hmm, talvez pra aterrorizar a galera de hoje seja melhor essa propaganda aqui… :)
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