2008-12-29

Encyclopedia d'Imphormatica






Edição Extemporanea d’ "O Pensador Differente"
Janeiro de 1919


N'este seculo, em que a civilisação tem caminhado proggressivamente nas principaes nações, não podia esquecer por mais tempo o utilissimo estudo das entranhas d'uma machina de computação e outras assemelhadas creações modernas, as quaes encerram sobremaneira tôdo um mundo de curiozidades e assombros miraculosos, que estupefaceiam o engenho humano!



Hoje tomamos por garantida a facilidade de utillisação dessas trachitanas maravilhosas. Cada vêz e sempre mais lygeiros, os computadores são, por bem, digamol-o, um balsamo para o hommem moderno, pois mais e mais livral-o-ão das tarefas arduas, estafantes, repetititivas, paulatinamente poupando-o do enfado. E nos annos vindouros abrilhantarão a vossa productividade, supprindo e dando azo á toda uma nova era de avanços e triumphos sem fim. O futuro chegou; e V.S. faz parte d’êlle!





O vulgo difficilmente concebe em seu engenho a quantidade portentosa de technologia empenhada em garantir o vosso comphorto e satisfacção em tarefas corriqueiras, taes como enviar uma missiva por estafeta electronico!



Tudo commeça com os dados sendo introdusidos atravez do teclado, êsse adiantado instrummento fornido de sophisticada precisão mechanica...



Lettras e nummeros, vizualisados e confirmados na tella, são de pronto codificados seguindo uma tabela de instrucções interna e scriptos n’um indice especyfico no seu «disco rijo» - nóme creado á partir do Inglez «hard disk» (e tradusido em Portugal como «disco difficil»). Os signais são então communicados á Unidade Central de Processamento, que conteem um dynamico e miniaturisado systema de relés de elevado dezempenho que inter-conectam os componentes do systema.



A requisição vae então ao gestor de communicação externa, singular objecto que porta a alcunha popular de «Modem», contrahida a partir das pallavras Inglezas correspondentes aos têrmos «Motorisado» e «Demonstração», devido ao seu uso original como mechanismo de partida para auto-moveis electricos na Feira Mundial de 1900 de Paris, em França.

Por fim, a vossa preciosa mensagem, uma vez electronificada, adentra a proficua Super-Auto-Estrada da Informação, chegando ao seu destino em poucos dias!







Graças aos recentes avanços, as communicações digitaes nos são mais uteis e faceis de utilisar até do que uma simploria caixinha de rapé. Frente a um computador pessoal, o hommem sagaz não necessita desenvolver mais conhecimentos para utilisal-o do que o que se preciza para acender o vosso cachimbo.



A structura mundial de communicações entre apparelhos computatorios, idealisada e projectada para assegurar a communicação d’além-mar por occasião da recem-finda Grande Guerra, abriu-se para uso civel e foi baptisada de Entre-Rede. Ella compõe uma generoza variedade de serviços, desde o amanuense electronico até os sucedáneos de albums de photographias.



Mas o principal componnente da rede, sem a menor duvida, é a T.T.T. - abbreviação para o nome «Teia da Terra Toda», que comprehende todo o conteudo da Inter-Rede que é aprezentado na forma metaphoricamente cognominada de «páginas». E’ como se tratasse d’um tomo espesso no qual as fôlhas fôssem constantemente re-scriptas, sem a intervenção d’um editor.



Graças á sua peremptoria capacidade, a Entre-Rede offerece os prestimos de coffre collectivo, onde se póde garimpar preciozidades como os discursos dos polyticos, programmmação completa da radio de hondas curtas, bolletins financeiros, cultos religiosos e, não raro, divertidas audio-novellas. Contudo, alguns criticos da novedade postulam todavia que a ausencia d’um editor na T.T.T. explana a multitude de mediocridade e paginas espurias. Sem mencionar-se o palpavel inconvenniente dos gatunos e vandalos digitaes, os quaes occupam-se de copiar paginas alheias lettra por lettra. Outro problema é que jamais há leitores que cheguem para todos os authores a uma dada vêz, o que é summamente aggravado pelo facto de todos os leitores serem tambem authores. Esse estado de cousas occasiona queixumes d’uma classe de «entre-redeiros» inappelavelmente frustrados, que decidiram-se nomear pela alcunha em vóga de «bloggeurs».



De tão assemelhadas ao género humano, as nossas queridas machinas tambem ficam adoentadas. Com effeito, um dos correntes problemas das communicações digitaes é a innefavel presença dos assim apodados «microbeos» ou «germes electronicos» que propagam-se atravez da T.T.T. Os mais vulgares são os virus, pedaços de codigo tão diminutos que não pódem ser deslindados nem pelo mais potente micro-scopio. Há tambem os Cavallos de Troya, missivas malevolas disfarçadas de innocentes fabulas da mythologia Grega. Para combater esse género de ameaça fundou-se nos E.E.U.U. uma empreza de combate á praga sob a tutela do illustre Dr. P. Norton, eximio expoente dos medicos virtuaes.









E’ difficil crer, n’êstes dias hodiernos, que apenas três ou quatro lustros atraz, os nossos expeditos cerebros mechanicos não passavam de reles machinas frias, gygantescas e inamistosas, comprehendidas únicamente por technicos e creadas por scientistas apoz toda uma vida de studo e dedicada formação. Ficamos quasi parvos ao perceber como, de pronto, êstes thesouros artificiaes, verdadeiros génios manufacturados, imiscuhiram-se suavemente ao dia a dia quotidiano, assumindo um natural logar visinho á vossa lareira, perfeitamente á vontade junto á machina de coser da vossa senhora! Todos os hommens civilisados, uma vêz instruhidos n’as artes das lenguagens de programmação, pódem gosar dos variegados beneficios mentaes e physicos da vida electronica.



Todavia, o melhor está no porvir! Graças á uma nova geração de geringonças, a humanidade condusir-se-á aos pincaros da modernidade. Systemas multi-tarefa executarão innumeraveis tarefas em commum n’um mesmo applicativo, e infinitos applicativos egualmente executar-se-ão n’uma só machina.



O emprêgo do processamento parallelo é elucubrado como forma de incremmentar a actualmente já inconcebivel velocidade de nossas machinas. Que sórte de prodygios monnumentais ainda testemunharão os nossos nettos? Os annalystas mais saphos apostam na miniaturisação generalisada. As mais desvairadas phantasias dão conta de dispozitivos moveis combinando terminal de texto e telegrapho n’um só apparelho. Quem viver verá.



Enquanto não nos chegam essas revolucionarias technologias, temos o PDA («Portable Differential Assistant», epitheto em Inglez para «Adjutorio Portatil para Calculo Differencial e Integral»), um minnusculo cerebro plasmado por mão hummana, que póde ser levado na algibeira, até onde der na veneta!



E’ claro, outrossim, que portentosos equipamentos são ainda neccessarios de quando em vêz, no que concerne ao calculo mathematico mais intensivo, exigindo special tyrocinio e pertinacia, como por exemplo na determinação dos ordenados de empregados das firmas, jógos de simulação de tiro &c.






E Não Perca Tambem em Breve:
O Diccionario do Auto-movel!
Incluhindo os mais recentes proggressos d’esta vibrante industria:
Carburação Intelligente
Ammortecimento Regulado á Vapôr
Manivéla de Partida Automatica
Pneus de Couro
G.P.S. e M.P.III Integrados



Uma versão anterior deste artigo foi publicada no suplemento Macintóshico da revista Macmania número 34, de março de 1997, com contribuições de Heinar Maracy e Tony de Marco.

10 comentários:

  1. Essa volta ao tempo é sensacional.
    Beijos. Vou ler com carinho.

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  2. Clovis Jacob30/12/08 09:59

    Essa enciclopédia existiu mesmo??

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  3. Acho que foi o "Macintóshico" mais engraçado da história da Macmania. E olha que, pela data, você e o pessoal da Macmania estavam a antecipar o chamado "steampunk".

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  4. nos tempos de antanho as cousas eram assim... ósculos para as moçoilas, amplexos para os mancebos.
    que tour de force! ensinando sempre como sefas.

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  5. No Macintóshico, o "steampunk" foi antecipado muito antes ainda desta peça. A edição número 5, de abril de 1994, é uma paródia de uma revista Seleções do Reader's Digest dos anos 30. Depois desse vieram vários escritos por Tom B e MZK, sempre ambientados num futuro distópico, num mundo devastado pela guerra entre usuários de Mac e PC. São os meus favoritos.

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  6. lembro-me uma vez, em 93, entrei num bbs e baixei uma edição do macintóshico.. imprimi inteiro. devo ter ainda na minha coleção de gibis. era bárbaro

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  7. Ainda me lembro do “Macintoshix”, baseado no Asterix…:-)

    E daquele papagainho de papel-cartão para recortar e colar também.

    Ah! E teve também a impagável sátira do Folha Informática.

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  8. O Macintoshix foi feito fundindo pedaços de dois livros do Asterix e alterando os textos de maneira mais ou menos acidental conforme surgisse a chance de fazer piadas. A caligrafia do letrista das traduções da Cedibra (que nunca identificamos) inspiraram uma fonte específica para esse projeto, que depois virou a fonte oficial do site CyberComix.

    Quanto ao Macontóshico Folha, ele também continha imitações de páginas dos suplementos de informática de O Globo e Jornal do Brasil, mas não do Estadão. Daria para fazer um Macintóshico inteiro para cada jornal, mas nós gastávamos as piadas muito depressa.

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