
Acordei muito bem nesta manhã de primavera gelada e nublada em São Paulo, mas assim que toquei no meu Mac, recebi um link para para ler este artigo sobre o impacto do crash econômico no mercado editorial e de publicidade. O autor é um excelente fotógrafo novaiorquino, um dos principais caras do NYT, tem trabalhos salpicados pelas grandes publicações americanas.
Resumindo os mais de 8 mil caracteres dessa página, o ambiente é de pânico em massa nas maiores redações dos EUA; várias revistas contemplam a transição total para o digital como única solução para a sobrevivência; um publicação de nome não revelado, mas do primeiro time do jornalismo, simplesmente ainda não tem nenhum anúncio contratado para 2009; muitas empresas, ao menor sinal de problemas de caixa, cortaram a publicidade antes de tudo; estúdios e agências já puseram gente na rua ou congelaram as contratações; empresas recém-fundadas enfrentam a extinção antes mesmo de terem uma chance de sucesso; até os melhores e mais famosos fotógrafos gringos estão aceitando jobs com remuneração reduzida para não perderem os bons clientes.
Quase ao mesmo tempo, minha "informante" dentro de uma redação importante avisa pelo chat: "Estadão vai fazer um plano de demissão voluntária em janeiro... Folha e Band já demitiram... Clima de horror na revista X..."
Mal digeri essas informações e me caiu na tela mais um artigo avisando que os preços do varejo nos EUA já tiveram deflação recorde de 1% no mês de outubro.
A gota d'água (mas não o motivo de escrever este post, que já estava quase pronto) foi a notícia fresquinha de que A PC Magazine não terá mais edição impressa, porque mais de 70% da receita já vem da Web. A Ziff-Davis, que conseguiu driblar a falência, concluiu que a trabalheira de imprimir e distribuir a revista impressa não compensa mais.
Apocalipse auto-decretado?
Aqui no Brasil, ainda não dá para o cidadão banal sentir um reflexo direto da crise, fora o aumento do dólar que atrapalha o ocasional "importabando" de fim de ano, e com uma parte da mídia e do sistema empresarial ainda comemorando a fusão entre Itaú e Unibanco como se fosse a inauguração de uma nova era de ouro.
Em outros setores, porém, já está todo mundo enterrando a cabeça na areia, num extraordinário ato coletivo de covardia. Até há dois meses vínhamos numa prosperidade e otimismo contínuos, sem precedente na história suja e torta do país (repita essa para variar o clichê, sr. presidente).
Tanto lá como cá, os cortes de pessoal e investimento refletem o medo da recessão futura, automaticamente tornando-a real. A profecia autocumprida. É tão irracional, desonesto e injusto que me exaspera.
Uma manada de burocratas e gerentes de departamento faz cortes de pessoal e arriscam arruinar a relação com frilas e fornecedores, por puro medo, logo após um extenso período de prosperidade que eles podiam ter aproveitado para se estruturar melhor, otimizar processos, acumular assets e fazer planejamento de estratégias de longo prazo. Mas na real, todo mundo sempre trabalhou no limite, na louca, de maneira aventureira, nas coxas, sem previdência, sem cuidado, como se não houvesse amanhã. À primeira nuvem negra que se forma no céu, o reflexo automático é de botar na rua quem efetivamente produz as coisas que são a base do negócio, e a começar a limpa exatamente pelos mais produtivos. Administradores, afinal, vocês são o quê: Gananciosos? Cegos? Idiotas? Retardados? Ou tudo isso junto?
Não dá vontade de se encasular apavorado para suportar a recessão. Dá vontade de ir atrás e apertar pescocinhos. Há momentos em que a primal vontade de esganar supera a racionalidade e a capacidade dialética. Depois, passa o instinto, mas não passa a vontade de enviar os administradores à merda, e de carona com eles também os analistas e economistas, e garantir que permaneçam lá, afundados até o pescoço, até que se mesclem inseparavelmente à massa imunda ou iluminem a mente sobre a extensão da mistéria humana que os seus atos impensados causam.
Update - A propósito deste tema, leia o indignado artigo de José Saramago, aquele homem que esnobou Paulo Coelho.


6 comentários:
Perfeito!
É impressionante que ninguém fale disso.
As crises atuais são geradas pelo temor de que elas aconteçam.
Um cara lá do norte da India a uns 2500 anos já falava de coisas exatamente assim...
Abraços!
Muito bom esse post, Mario. De fato, essa crise do capitalismo estilo século XXI é curiosa: ela é gerada do medo de que a crise anunciada seja pior do que se espera. Após uma onda de milagre econômico e otimismo cego, uma crise gerada pela paranóia coletiva em torno... da crise. Eu diria que trata-se de um ótimo argumento para uma peça do chamado teatro do absurdo.
Mas o pior são as projeções, as políticas públicas, as ações administrativas, como você bem disse. Se a recessão é fato, as decisões absurdas nesse nível seriam imbecis se não fossem suicidas, cômicas se não fossem trágicas.
Alguém sempre ganha com as crises. Lado bom - menos árvores cortadas.
Falar que a crise é auto-gerada é tão real qto falar que a prosperidade tb era auto-gerada. Tudo ilusório. O que faz sentido, já que o dinheiro é a maior ilusão que existe. Afinal, cinquenta mangos são cinquenta mangos pq eu e vc e todos acreditam que são cinquenta mangos.
Mas na real, todo mundo sempre trabalhou no limite, na louca, de maneira aventureira, nas coxas, sem previdência, sem cuidado, como se não houvesse amanhã.
Bom, eu acho que no que se refere ao Brasil, acredito que essa “cultura empresarial” se originou das loucuras econômicas que aconteceram a partir de 1968 (o “Milagre Brasileiro”, a correção monetária, o arrocho do salário-mínimo) passando pela super-inflação e das trocas de moeda dos anos 70, 80 e 90, pelos pacotes econômicos dos anos 80 e 90, até a maxi-desvalorização do Real em 1999 -- o último grande choque econômico que aconteceu por aqui.
A Crise é Importada....devemos nos
preparar para o período de atenção,
alerta amarelo, até q o efeito radiativo da Bomba de Hidrogênio Financeira passem no nosso território e Países vizinhos de nosso continente.....
1929 deixaram acontecer pois achavam q os Mercados pudesse se regular.
Atual os Governantes passaram ao ataque e o Brasil fazendo os ataques pontuais a medida q os efeitos nocivos vão entrando no nosso País....injetando recursos escassos na economia...
Getúlio ficou em cima do muro 1929,
esperou para ver como é q faz para ver como é q fica, País agrícola da
época, o café virou produto desprezível, mais logo imitou os Americanos, onde comprou café para ser queimado bem como os cafezais, ijetando dinheiro na economia, bem como passou fazer obras de infra-estrutura e foi beneficiado com a II Grde Guerra....e o atual como vai agir por enqto é pouco se ñ atacar a nossa infra-estrutura e cortar gastos com a burocracia inchada, unir os Bcos Estatais para regar a economia, pois os privados estão aplicando nos Títulos do Tesouro ñ querem arriscar..ou sejam devolvendo o q o Governo deu para a economia girar
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