Primeiro, vamos ao background histórico para você ver por onde quero chegar a essa tese.
Aqui está uma linha do tempo detalhada de falsificações famosas de imagens jornalísticas. Talvez você se surpreenda ao descobrir que a prática do "fotoxopismo" existe quase desde o princípio da tecnologia fotográfica na primeira metade do século 19. Mais exemplos modernos aqui.
Um exemplo bem recente: algumas semanas atrás, alguém falsificou grosseiramente uma foto de um lançamento de mísseis iranianos. A farsa foi detectada imediatamente, já que qualquer PC doméstico conta com a tecnologia necessária para fazer a verificação, bastando que se saiba o que procurar - no caso, padrões de textura repetidos e descontinuidades de tom indicando emendas na imagem. Não é preciso sensacionalizar o fato buscando o veredito de um "expert mundial" em imagens falsificadas, como fez a Scientific American. Eu e você podemos fazer a prova com o Adobe Photoshop. Mesma ferramenta que o falsificador iraniano usou em um PC ordinário para fazer seu retoque tosco.
Um fotoxopista competente pode fazer sumir as evidências da manipulação, mas a imagem original intocada cedo ou tarde aparece, como no caso exemplar da capa de O. J. Simpson na Time em junho de 1994. Esse caso foi importante porque os editores da revista foram pegos de surpresa por uma violenta reação crítica que surgiu dentro do próprio meio jornalístico. O que não evitou que outros casos de edições mal-intencionadas do mesmo tipo pipocassem desde então. Algumas das grandes revistas brasileiras usam livremente o expediente da Time de tornar mais sinistra a imagem de um personagem negativo do momento, porém é muito mais usual o embelezamento artificioso.
A adulteração da imagem aproveita-se da falta de rigidez no critério jornalístico para discernir entre ilustração, montagem, fotografia, fotoilustração e ilustração pura. A diferença é que aparentemente no Brasil ninguém de peso se preocupa em reclamar.
A falta de rigidez emerge de uma postura passiva e inocente do público, deixando-se enganar até em casos de óbvias montagens criadas para fins satíricos. Quem ainda lembra o Tourist Guy? Foi levado profundamente a sério por um monte de gente de coração mole que ainda está por aí na rede e preferiria não ser nomeada agora, anos depois do vexame esquecido.
O assunto do momento relacionado a falsificação de imagem é a série de controvérsias envolvendo a abertura da Olimpíada na China. Parece que a cada dia surge uma revelação ruim. Primeiro, soubemos que os fogos de artifício em forma de pegadas foram previamente gerados em computador e mixados à transmissão ao vivo pela TV. Agora, sabe-se também que a menina que cantou o hino patriótico estava dublando sobre a gravação da voz de outra menina, que deveria cantar ao vivo mas fora posta de lado na última hora por ter os dentes tortos.
Aqui temos dois tipos de farsa: a falsificação de imagens sequenciais em vídeo e a falsificação de identidade. Nenhuma delas é novidade, tanto quanto não o são as fotos sensacionalizadas. São fatos da vida que se repetirão daqui em diante para sempre. O que não implica que devamos conviver com elas passivamente, sem atitude crítica.
Sou um profissional de imagem com muitas fotos editadas no currículo. Muitas delas para capas de revistas. Para mim, o limiar ético nunca foi confuso nem nebuloso. Acho que a fantasia fotoxopista tem lugar apropriado quando a imagem é apresentada num contexto suficientemente claro e amplo, que pode ser de alegoria, fantasia, paródia, sátira, caricatura ou simples efeito visual. Cem por cento da fotografia publicitária atual é de algum desses tipos, comumente de vários combinados. Mas fazer passar por jornalística uma imagem que foi construída artificialmente através de montagem ou manipulação localizada é errado, ponto. Por sua vez, o fotojornalista pode forjar o contexto da foto intencionalmente, através de um enquadramento esperto. Errado também. Há um exemplo recente de uma foto de um soldado na guerra do Iraque que, dependendo unicamente do corte empregado, pode parecer que está auxiliando ou agredindo alguém.
Uma pesquisa recente aponta que uma das causas do crescente desinteresse por revistas femininas nos EUA é a percepção generalizada pelo público alvo de que as imagens são adulteradas digitalmente a um extremo tão absurdo que deixaram de ser referência de beleza para o mundo real e, portanto, perderam a relevância e a autoridade que tinham antes da era digital.
Aqui em Pindorama só se vê alguma atitude cética com a peladas da Playboy, que até o carroceiro da esquina sabe que são ilustrações digitais tentando sem empenho sincero passar por fotografias. A revista é pioneira no retoque das celebridades nuas, tendo começado há 20 anos com um sistema proprietário Scitex. Todas as revistas masculinas concorrentes fazem a mesma coisa há mais de uma década, e me informaram que as alterações são terceirizadas para gente especializada que retoca sob encomenda.
Como um ensaio de fotos sensuais de uma celebridade não tem caráter de documento, pode-se fazer intervenções cada vez mais extremas nas fotos sem trombar em problemas éticos. Eventualmente surgiram imagens excessivamente retocadas, com "acidentes" como sexo apagado, mamilos e umbigos misteriosamente desaparecidos. As pessoas vêem o erro, divertem-se por um momento e seguem suas vidas.
No meu olhar chato e mal-humorado de especialista atento, as mudanças nas fotos sensuais são quase sempre muito grosseiras, fáceis de identificar, nada disfarçadas pela impressão. Cada linha de braço reconstruída e cada barriga passada a ferro é claramente evidente.
Por isso, não tenho interesse em conferir as revistas masculinas. Ilustração por ilustração, havendo o interesse eu poderia combinar tecnologia e know-how para montar um corpo de uma gostosa idealizada com pedaços de fotos de mulheres anônimas e então carimbar a cara de uma celebridade do momento por cima. É exatamente o que certas revistas gringas, masculinas ou femininas, têm feito com frequência. E me dou o direito de presumir que algumas nacionais fazem igual.
Só que isso em essência não faz sentido nenhum. Não sou apenas eu que está achando que apreciar imagens escancaradamente falsificadas é perda de tempo. De tempos em tempos ensaia-se um contraponto estético, mas a verdadeira mudança virá com os consumidores da mídia dando-lhes as costas ao sentirem que as imagens de que ela é feita são fantasias de ficção totalmente divorciadas do mundo factual, mero entretenimento vazio vendido como informação.
O pessoal que se decepcionou com os fogos de artifício falsificados de Beijing é minoria, porque atualmente a maioria ainda preza mais o valor de entretenimento do evento, deseja ver a imagem espetacular acima de qualquer outra coisa. Mas os críticos foram surpreendentemente vocais desta vez, inclusive dentro da China.
A coisa pode estar prestes a virar, e não só para as revistas femininas gringas e seu festival de mentiras. Termino com mais uma citação do mesmo site (tradução minha):
Num mundo em que a mentira, o logro e a manipulação de fatos tornaram-se endêmicos em tudo, chegando aos mais altos escalões do governo, esse é apenas mais um exemplo de uma fraude perpetrada ante o público... E o público, em sua maior parte, ainda não percebeu a piada. Retoques em revistas podem não ser mentiras do mesmo nível de digamos, "O Iraque possui armas de destruição em massa". Mas um mundo no qual meninas de oito anos de idade fazem a dieta de South Beach; garotas adolescentes ganham implantes de silicone nos seios como presente de formatura; mulheres profissionais são praticamente obrigadas a tratar bolsas como fetiches; e todas gastam tempo demais tentando posar de uma forma que fique tão boa quanto aquela amiga com uma página superpopular no MySpace... it's fucking wrong. Que bom que você concorda.
Volte aos gregos e vai achar falsificação, ou povos antes ou depois. Obviamente que não é uma coisa nova. Mas atualmente a China é campeã na falsificação de produtos, conferindo-lhe um status de destaque. :)
ResponderExcluirCompletamente verdadeiro, sensacional e real o comentário, a indignação, o pensamento, as referências e o futuro próximo...
ResponderExcluirDá pra imaginar que pelo menos por um instante a humanidade pode estar evoluindo de alguma forma que não só tecnologicamente...
O que me corta o coração é que a abertura da Olimpíada de Beijing tem vários momentos genuinamente impressionantes, de tirar o fôlego, apesar da considerável breguice estética e da obsessão militaresca com precisão e quantidade, que já eram de se esperar.
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