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Por Mario Amaya
 

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    2008-05-06

    Temas do "Palavra na Tela 2008"

    Foto Joana Rocha

    Como exercício preliminar para o painel do Digestivo Cultural, tentei responder previamente às perguntas básicas colocadas no site como temas para a discussão. Durante a conversa, os assuntos foram para um monte de outras direções interessantes e até renderam inspiração para uns posts futuros.

    Como a grande mídia está se adaptando à internet?


    O modelo de infra-estrutura básica já se estabilizou há algum tempo. Sites dinâmicos com atualizações assíncronas por múltiplas fontes simultâneas são a receita dos grandes portais de notícias. O que falta é superar o modelo do portal fechado, o "walled garden" com senha de assinante para poder acessar as matérias, que é velho e ineficaz. Já está claro também que não basta transpor o material de outras mídias para a Web, é preciso recriá-lo na sua linguagem própria e aproveitando seus recursos específicos.

    Como é a transposição do papel para a tela (ou do rádio para a tela ou da TV para a tela de computador)?


    Em relação a mídia impressa, a tela ainda não é um meio confortável ou natural para leitura. O hardware evoluiu consistentemente na última década, com tipografia e representação de fotos e vídeos muito melhores. É possível projetar sites sem se preocupar tanto com distorções e perdas na tela dos clientes. E as telas LCD de alta resolução cansam menos os olhos.
    Ainda assim, não dá para comparar um aparelho eletrônico emissor de luz à pureza física do papel. Espero que a tinta eletrônica diminua essa distância. O Kindle da Amazon é um passo na direção certa, mas tem o jeito inevitável de um produto de primeira geração. Mas ele pode ser o primeiro aparelho eletrônico de leitura verdadeiramente bem-sucedido.
    A transposição direta da TV e do rádio é tentada desde o começo da Web, nos anos 90. De fato (e isso soará como crítica), muitos sites da primeira geração produziram versões online de seus conteúdos de entretenimento que eram simples mecanismos de audiência passiva, exatamente nos mesmos moldes da TV e do rádio, sem incorporar dinamismo nem interatividade. O marketing de interrupção, que na Web é representado pelos anúncios pop-up, também tem sua origem na TV e no rádio.
    A disponibilidade das tecnologias necessárias no browser, a emergência de um consenso universal de interface visual e a conexão de banda larga permitem colocar uma pequena TV dentro do site. Mas isso é só o começo. O público de Internet não espera ficar parado assistindo a alguma coisa passivamente. Ele quer rever, guardar o link, repassar, comentar, analisar, expandir, agregar ao seu site e até fazer um remix.
    Confronte isso com o portal de provedor, que é uma versão do antigo modelo broadcast. Vejo muita gente usando os portais como página inicial do browser, desde os velhos tempos do Netscape. Esses portais ocupam no espaço mental do usuário o mesmo lugar que antes era do jornal do dia. Conscientes desse fato, os sites são formatados como jornais. A ironia é que o modelo do portal é a concepção mais velha e atrasada que sobrevive na nossa Internet, herança direta dos provedores de acesso pioneiros que usavam tecnologias fechadas, como AOL e Compuserve.
    Reclama-se muito da baixa qualidade geral do conteúdo gerado pelos usuários, mas prefiro essa liberdade total de produção, em que cada qual se exercita, aprende e evolui, ao jeito como a comunicação de massa era antes da Web. Os obstáculos para a publicação individual de idéias eram tão grandes que talvez a nova geração não perceba isso muito bem.
    Estão acontecendo duas mudanças importantes, que trarão impacto para todo o cenário. O primeiro é a expansão do acesso à Internet a uma população muito mais ampla, para quem até hoje o principal meio de comunicação de massa tem sido a TV, como era para todos há 30 anos. Em segundo lugar, uma nova geração de celulares e outros aparelhos de bolso com acesso à Internet, conectados a redes de alta velocidade sem fio a um custo razoável.

    Quais as vantagens do formato blog (e quais as desvantagens)?


    Para quem tem como principal atividade na Web escrever textos, o benefício do blog é a praticidade para fazer um site com publicação periódica funcionar com o mínimo possível de esforço técnico do autor. Além disso, o conteúdo de um blog se auto-organiza. O autor se concentra em criar e publicar conteúdo e administrar a sua repercussão.
    Todavia, os blogs evoluíram de um simples ferramenta de publicação periódica de textos para um sistema de comunicação de mão dupla, em que a participação nos comentários acrescenta riqueza aos temas e gera conexões entre pessoas através do diálogo. Para mim, a adição dos comentários por volta de 2001-2002 foi um salto qualitativo enorme no blog e definiu muito melhor o seu propósito. Hoje, a característica participativa é tão essencial na experiência de uso da Web que é subentendida.
    Um site moderno consiste numa combinação de vários "módulos de mídia". Dessa forma, blog "puro" hoje é difícil de exemplificar. O normal é a mistura de muitos módulos. Blogs podem conter clipes de vídeo do YouTube ou imagens do Flickr. Fotolog e Flickr são sistemas de blogs em que o conteúdo básico é a imagem, não o texto. Sites de rede social como o Facebook e o MySpace já incorporaram ferramentas de blog. O orkut pode integrar o conteúdo de um blog mantido externamente, bem como fotos e vídeos, além de oferecer links para chat ao vivo e até dar o nome da música que o usuário está ouvindo em seu PC.
    É essencial o fato de que todo o conteúdo gerado pelo usuário pode ser comentado, vinculado e até copiado por outros usuários. Isso gera uma dinâmica de uso que é independente das ações dos administradores do site. O papel dos administradores é disponibilizar as ferramentas tecnológicas e garantir o funcionamento do sistema.
    É preciso também incluir nessas considerações o Twitter. Microblogging, que tem sua própria dinâmica e linguagem, é essencialmente diferente de blogging por ser um sistema para recados e anotações rápidas e curtas. Mas esse tipo de mensagem já era praticado incidentalmente desde o princípio dos blogs. Muita coisa que se escreve hoje no Twitter saía em blogs, mas dava mais trabalho para publicar e não tinha audiência dirigida.

    Todo jornalista, a partir de agora, tem de ser um pouco blogueiro?


    Isso é igual a perguntar se todo motorista deveria ser um pouco motoqueiro. A distinção contém um erro conceitual, que é supor que os blogueiros são uma categoria de mídia distinta e definida, quando não são. Blogs são tão diversos quanto as publicações impressas.
    O usuário de um sistema de blog não pertence a uma categoria social ou intelectual à parte. Tanto é assim que muitos dos melhores blogueiros em atividade são jornalistas de formação, que escrevem nos veículos tradicionais e nos blogs simultaneamente.
    Não existe efetivamente uma "blogosfera"; o que existe são "nuvens" ou "panelinhas" de blogs identificados entre si por afinidades temáticas.
    Se me apontarem que o assunto aqui é o cidadão que tira seu sustento de um blog, ainda não acho que ele seja essencialmente diferente de um colunista tradicional da mídia de papel.

    O que falta à blogosfera brasileira?


    No atual estágio, a Web sofre com muita discussão irrelevante e ruidosa criada por pessoas interessadas em experimentar o meio em si mesmo ou exercitar as suas faculdades sociais. Isso acontece porque para a maioria a Web é em primeiro lugar um meio de entretenimento interativo, não uma ferramenta de conhecimento. Não é errado preferir usar a rede de uma forma ou da outra, mas os diversos sites refletem essa diversidade em sua linguagem. Não perceber e não respeitar o enfoque próprio do site cria uma ruptura. É como um estranho chegar e interromper repetidamente a sua conversa aos berros.
    Como o afluxo de novas pessoas à rede em um dado instante é maior do que a quantidade de usuários experientes, nós vivemos num permanente estado de "deslumbramento da novidade" e de caos parcial. Seria bom os veteranos da rede incorporarem um papel civilizatório, como é necessário com toda e qualquer nova tecnologia. Não se trata de tutelar os novatos, mas apenas de contribuir pelo bom exemplo.
    Quanto aos autores de blogs, a Web brasileira ainda está muito cheia de sites que vivem apenas de repercutir o que acabou de aparecer escrito em outros sites. Mas o que as pessoas que usam a Web como ferramenta de conhecimento desejam encontrar é conteúdo original, seja uma informação totalmente inesperada ou uma opinião provocativa. Com o tempo, a audiência tende a se concentrar em torno desses autores. Quem se limitar a repetir os outros irá se cansar e sair de cena.

    05:23 

    3 Comments:

    Blogger geison89 said...

    Excelente post!
    Já faz 2 anos que tento criar um blog, mas tenho falhado por vários motivos entre eles, foco principal.
    Tenho aproveitado muito, opniões de pessoas como você para formar a minha própria...

    Gostei dessa sua iniciativa de seguir todas as pessoas que te seguem no twitter, não sei onde você quer chegar com isso (você sabe :P), mas gosto do seu jeito de pensar diferente.

    7/5/08 23:19  
    Blogger Mario said...

    É que existem muitas maneiras possíveis de utilizar o blog. No encontro da terça-feira, isso ficou claro.
    O Michel usa o blog como um veículo de publicação puro. O Luli começou o blog para desenvolver o texto de um livro e acabou descobrindo outras coisas pelo caminho.
    Eu comecei para ter um simples "megafone de reclamações" e também um portfólio dinâmico, anunciando meus projetos.. Hoje me interessa muito mais a interação com as pessoas, tanto que os posts são sempre escritos levando em conta o feedback nos comentários. E as duas funções originais persistem, mas o uso principal não é mais esse.
    Quanto ao Twitter, também é uma ferramenta fundamentalmente social, e por isso também é interessante. Se ela não promovesse a livre comunicação entre pessoas, eu deixaria passar.

    8/5/08 15:24  
    OpenID nomadismocelular said...

    Oi Mario AV, aqui é a Mari-Jô Zilveti, dos velhos tempos da Folha.
    Ainda me lembro quando vc pedalava pra ir pra redação da Barão de Limeira.
    Depois nos encontramos na primeira redação da macmania. No segundo endereço também, lá perto da estação Ana Rosa.
    Te achei pelo Digestivo Cultural e estou te ouvindo enquanto escrevo este post. Gostei do "Todo jornalista, a partir de agora, tem de ser um pouco blogueiro? Isso é igual a perguntar se todo motorista deveria ser um pouco motoqueiro."
    Ah, só pra vc saber, edito uma revista de telefonia móvel e sou co-autora do Nomadismo Celular http://nomadismocelular.wordpress.com

    Abraços digitais,

    Mari-Jô Zilveti
    http://nomadismocelular.wordpress.com

    9/5/08 00:22  

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