2008-01-28

Motos, Parte 1: Vejinha declara guerra

Que a Veja evoca a imagem mental de uma balança cujos pesos são o panfletarismo de ultradireita e o consumerismo comprometido, é consenso entre os tantos pensantes que conheço. Ninguém ao meu redor defende a publicação mais lida pela classe média do país. Muitos evitam ler. Mas eu tenho acesso fácil à revista, e tudo que me cai na mão eu leio, por curiosidade e por interesse que faz parte da profissão.

Ao criticismo engajado da revista sempre se contrapôs um elemento redentor, que é o suplemento regional. Sempre cobrindo pautas de interesse pontual para a cidade e com reportagens bem produzidas, a Vejinha SP também é um ótimo guia de restaurantes, eventos etc. (Em 1997 eu contribuí com dois infográficos para uma matéria de capa.)

Enfim, eu não tinha nada contra a Vejinha - até semana passada. Tive uma má surpresa no domingo, ao ler a reportagem de capa sobre o problema das motos na cidade.

É de um viés tão grosseiro que já pela capa, adornada com uma imagem do Motoqueiro Fantasma, sabe-se que não pode ser uma peça destinada a estimular o debate produtivo, nem mera expressão de opinião ponderada, menos ainda uma análise honesta. Em vez disso, é um panfleto que faz a campanha do contra e não cumpre a promessa de apontar soluções.

Não conheço o redator e o editor, mas dão a impressão de serem motoristas neuróticos e frustradinhos por viverem presos em engarrafamentos em seus SUVs enquanto as motos cortam (ilegalmente) entre as faixas e escapam do enrosco. A neurose se declara ao leitor pelas palavras destrutivas de sarcasmo - linguagem básica usada pela matriz para desqualificar tudo com o que não concorda - e a forma estereotipada como retratam os motociclistas. O fogo é mirado nos motoboys, mas o tom geral do texto é de uma implicação mais ampla.

Eis dois exemplos de técnicas de antijornalismo praticadas nesta matéria:

  • Não fazer uma discussão sadia da idéia infeliz de proibir os passageiros de garupas. A motivação para a medida é de que os ladrões de moto atuam em duplas de piloto e garupa. Pois a própria PM tinha dito recentemente, num programa de rádio que ouvi ao vivo, que os ladrões vêm atuando em motos individuais, especialmente nas marginais. Separados, ficam totalmente impossíveis de distinguir no trânsito das pessoas de bem. Serei eu, mero espectador passivo, tão melhor informado que o redator, ou...? Há ainda mais um ponto, que encerra o bate-boca antes mesmo que comece: a proibição colidiria com várias leis, a começar pela Constituição.

  • Montar uma mesa-redonda de motoboys, estimulá-los à catarse inconsequente e deles extrair os desabafos mais exaltados e irracionais para reproduzi-los com destaque num box, acentuando a tipificação dos motoboys como casta de delinquentes urbanos. Até os erros de gramática das declarações são mantidos, a fim de caracterizá-los como deficientes em educação. Manipulações assim já renderam ações vencedoras contra veículos de comunicação, por parte de pessoas aptas a se defenderem judicialmente. Como terão os motoboys entrevistados se reconhecido na revista?

    Abusos no trânsito são cometidos por ambas as partes: os que andam sobre duas rodas e os que andam sobre quatro. Mas nenhum dos dois grupos pode ser categorizado genericamente como causador ou culpado, da forma como foi. Independentemente do alarmismo sensacionalistóide da declaração de "guerra", há os fatos sólidos e indiscutíveis de uma moto custar menos, ocupar menos espaço e poluir menos que um automóvel. Esses fatos desequilibram a argumentação contra as motos. Você sabia que, a cada dia que passa, 800 novos automóveis se somam ao trânsito da cidade? Quantas motos cabem no espaço de 800 carros? Esse é o confronto de valores que deveria ser feito antes.

    Outro confronto de valores necessário envolve cultura e educação. A promoção de uma cultura responsável em relação ao transporte individual, em lugar do cenário marketóide em que se vende falaciosamente o carro individual como item indispensável à sobrevivência social. Educação no trânsito genuína, que relembre às pessoas que os outros ao redor no trânsito também são seres humanos. E, por fim, senso ético dos jornalistas, se já não for pedir demais.

    Para terminar, ao fazer uma comparação de velocidade entre os vários métodos de despachar um pacote em São Paulo, a revista se esqueceu dos bike couriers. Uma experiência pública recente e bem conhecida mostrou que a bicicleta chega em segundo lugar no horário de pico, atrás apenas da moto.

    Mas espero mesmo que nunca chegue a hora de a Vejinha SP comprar briga também com os ciclistas. Porque aí o tempo vai fechar de verdade.
  • 13 comentários:

    1. só um adendo, li que as motos poluem sete vezes mais que os carros. pelo menos em sp. o resto concordo em tudo. certeza q alguem da matriz empurrou a pauta.

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    2. Tá, e por acaso lembra qual o critério de poluição empregado? Você pode obter números comparativos extremamente diferentes se confrontar, por exemplo, as emissões por:
      - kg de massa transportada
      - km rodado (variando com a velocidade média)
      - litro de combustível queimado (variando conforme o combustível)

      Nunca esqueça: estatística consiste num método científico usado para dar apoio numérico ao que você deseja demonstrar, mantendo uma falsa aparência de dados concretos. A partir dos dados concretos, pode-se construir um conjunto de estatísticas que provem uma tese ou a sua tese contária, dependendo do interesse do contratante da pesquisa.

      (Eu imagino, Tuta, que você está esperneando a esta altura, mas é assim que muitos jornalistas vêem a instituição da pesquisa; apenas não o dizem em voz alta para não furarem a consistência da hipocrisia institucional.)

      Para mim, 800 veículos novos na rua a cada dia é um dado claro e que não deixa dúvidas. Haja poluição de moto para confrontar isso, não?

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    3. Como é, tenho pouca fé na grande imprensa?
      Imagine. Eu declaro aqui toda a extensão da confiança que deposito nela. Embasado pelo fato de ter trabalhado dentro dela por alguns anos e te visto como funciona por dentro.
      Mais sobre isso num post futuro. Dando nomes aos bois.

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    4. Aqui tem um bom artigo de poluição de carros vs motos com algumas estatísticas, é interessante observar a poluição de motos merdas e sem fiscalização, algo que, baseado somente na minha intuição e observação, parece ser a regra em SP:

      http://www.worldcarfree.net/resources/freesources/motorcy.htm

      São 600 carros e 200 motos lacrados por dia em SP.

      E aí, quem polui mais em SP, carro ou moto? E isso é uma pergunta, não uma provocação.

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    5. Copiado do site da cetesb:

      Motos

      Levantamentos da CETESB apontam que a frota de motocicletas constitui uma fonte importante de emissão de poluentes. O problema agravou-se com a expansão da frota que passou de 375 mil em julho de 1997 para 634 mil em julho último. São veículos que, por causa de sua tecnologia de produção, emitem cerca de 13 gramas de monóxido de carbono por quilômetro rodado contra cerca 0,5 gramas de um carro novo, ou aproximadamente 25 vezes mais.

      Daí, a importância do início do controle da emissão das motos fabricadas desde janeiro de 2003, por meio do PROMOT – Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares, que estabeleceu, nesta primeira etapa, a emissão de 6,0 g/km de monóxido de carbono, para as motos de até 50 cilindradas, e de 13,0 g/km para os acima de 50 cilindradas.

      Outra contribuição importante para a melhoria de qualidade do ar, segundo o presidente da CETESB, será o Programa de Inspeção Veicular (PIV). De acordo com Lara, que tem participado de reuniões em Brasília, a expectativa é de que em até um ano o programa já esteja sendo efetivado.

      Informou, ainda, que a CETESB está preparada para implantar o programa no Estado de São Paulo, apenas dependendo das decisões finais que estão sendo conduzidas pelo Ministério das Cidades e o DENATRAN, e frisou que a posição da agência ambiental paulista é de que a inspeção contemplem a verificação conjunta das emissões e dos itens de segurança dos veículos.

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    6. Como foram apurados os números da emissão de carbono? É um valor dos veículos novos ou uma média geral?

      O artigo menciona números do crescimento do número de motos, mas não o de carros, o que impede avaliar a proporção dos dois grupos no total da poluição. É preciso garimpar mais para descobrir.

      Inspeções veiculares e normas claras são a solução para a poluição. Acho a limitação da idade uma coisa exagerada e irrealística.

      O maior problema de todos, contudo, é de espaço físico. O aumento das motos e carros sem a infra-estrutura para acomodar a todos juntos. Veículos parados em congestionamentos poluem sem cumprir sua tarefa de deslocamento.

      A situação só piora, e uma matéria agressiva contra motos na mídia - pesadamente financiada pelas montadoras de carros - não vai ajudar a melhorar em nada a convivência.

      Curiosidade: qual é o seu veículo principal de locomoção, Edson?

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    7. Existe uma guerra em curso contra os motociclistas. Ela já é de anos, mas agora estão vindo com tudo. Isso não é paranóia.

      Fato 1: O aumento de 38% no DPVAT, seguro obrigatório, que com isso vai pra R$ 254,16, está sendo contestado na justiça e pela justiça. O de carro não subiu e é R$ 84,55. O de motos subiu 191% desde 2003. Alguém que tenha uma moto barata, a maioria, acaba pagando de IPVA, licenciamento e DPVAT, mais de 30% do valor da moto.

      Fato 2: Simultaneamente, em SP e no Rio, a administração pública surge com projetos que limitam a circulação e uso das motocicletas.

      Fato 3: Entra em vigor as normas que regulamentam como o capacete deve ser para ser utilizado.

      Aí é só deixar a mídia-infantaria fazer seu papel, replicando um ódio contra motos que tem traços de ódio social (em geral, quem tem um carro de rico, tipo Corolla, odeia moto, leia-se pobre, e quem tem um carro popular replica o comportamento da casta superior).

      Exemplo: motoboys protestam em São Paulo contra os fatos acima. O caso do DPVAT é um absurdo, mas o quê a Globo noticia? "Prefeitura toma medidas para salvar e proteger a vida dos motoboys, mas eles são contra."

      Não entendo como o setor, leia-se Honda e rivais, ainda não revidaram.

      E não entendo porque eu, aqui no interior do Paraná, tenho que pagar R$254,16 por causa de um bando de burguês frustrado que tem medinho de moto em São Paulo.

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    8. A Honda é a única empresa de peso no ramo de motos no Brasil que também fatura muito com carros. Anúncios da Honda financiam as maiores revistas e jornais, junto com os das outras montadoras.

      A posição da mídia é de fato política. Como já disse o Edson lá no começo, tem cara de encomenda da redação matriz, ainda mais porque o tom pesado e as manipulações de informação têm tudo a ver com o estilo normal da Veja, mas não com o da Vejinha.

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    9. É, eu peguei a revista hoje e dei uma lida. Realmente é típico de Veja, eles nem tentam esconder mais, lançando "sequencias lógicas e incontestáveis" criadas por eles mesmos para firmar uma idéia.

      Aqui em SP eu ando mesmo é de buso. Felizmente eu moro e trabalho no melhor bairro do mundo, a Vila Madalena, então a maior parte das coisas eu faço a pé. Mas minha situação é covardia. Eu tenho um celtinha na garagem pra ir pro sítio no final de semana qdo dá. Nunca andei de moto e tenho realmente um pouco de receio de motoboys.

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    10. O grande problemas de todo debate no Brasil é ser pautado pela imprensa. Nenhuma proposta a que falte a chancela da grande mídia vai adiante, nem mesmo numa discussão familiar, e a prova disso é o tema do transporte público e de uma urgente política de estímulo ao não transporte, ou seja, a que as pessoas recebam incentivos para morar perto de suas necessidades. No Brasil inteiro é assim. O problema não existe no horizonte dos jornalistas, que hoje em dia são todos classe média, e por isso ninguém vai parar para discutir isso. Aqui em Porto Alegre, quando a prefeitura exigia (não vou dizer o partido para não politizar o debate) a contratação de funcionários majoritariamente moradores dos arredores para grandes empreendimentos, era vista pela mídia como exorbitante, como usurpadora do papel da iniciativa privada, e só. Que merda! A gente tinha tudo para dar um passo à frente, mas o imaginário do brasileiro tem sido mais e mais achatado pela imbecilidade. Desculpa a divagação, Mario, mas é bem isso.
      Abs!

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    11. Não li a matéria. Mas para alavancar mais a discussão e mostrar que o problema tem se agravado, e os motivos pelos quais ele se agravou, recomendo o documentário sobre motoboys (http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/filmes/motoboys/motoboys.asp)
      que assisti na semana passada.
      É toda uma situação social, que envolve motos ilegais, falta de condições e educação para trabalhar, pressa para fechar negócios, má educação no trânsito (de motoristas em geral...). Vale a pena.

      Se eu pudesse só andaria de bicicleta.

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    12. Fala Mário,

      fazendo um self-jabá e tentando contribuir para a discussão, levantamos esse tema no Jornal de Debates na época do lançamento do filme '12 trabalhos'.

      Como sugestão, ficam os depoimentos que fomos buscar na rua, justamente pela noção de que o ponto de vista 'motorista-burguês' que predomina na web não explicava a totalidade da coisa:

      http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?cnt_id=15&art_id=6950

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    13. O amigo Mario argumenta bem sobre o assunto. Basta fazer a seguinte relação. Se um bom carro desloca 15 KM com um litro de gasolina e uma boa moto desloca até 30 Km com o mesmo litro podemos concluir que ela consome menos já ajudando a questão do meio ambiente. E se o carro consome mais gasolina ha de se esperar que consuma mais ar (Oxigênio) como comburente o que acaba por lançar no ar mais Monoxido de carbbono. SE algum cientista conseguir provar o contrario..... abraços

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