Passei na casa da Tuta e ela me deu para ler uma tradução de "Crash", de J G Ballard.
Pra quem está por fora, esse é um dos livros que encapsulam mais perfeitamente o espírito do século passado, no que ele tem de extremo e perturbador. Perversão e paranóia. O prefácio do autor demonstra que ele tinha toda a consciência disso ao escrevê-lo. O livro soa como advertência sobre um pesadelo inevitável, ao misturar fantasia e realidade e descrever a ligação psicológica entre acidentes de carro e erotismo na cabeça do protagonista. Não é apenas a sexualização da máquina, mas a sexualização da morte envolvendo máquinas.
Se ele tivesse escrito o romance hoje, talvez preferisse falar sobre a erotização da Internet. Manteria o título "Crash", pois ele se aplica perfeitamente a computadores, além de carros. O autor disse, numa entrevista recente -
e eu a citei aqui -, que a Internet é o invento mais perigoso de todos. A rede altera nossas vidas de maneira tão abrangente e insidiosa que mal notamos a mudança no paradigma de nossos relacionamentos.
Mas a analogia pára aqui; Internet é tema para outros posts. Vou continuar falando de carros.
A intenção, porém, não é falar mal dos carros nem dos motoristas, e sim apontar o extremo mau uso, a idiotização cultural, as armadilhas emocionais e desumanização generalizada que são associados à cultura do automóvel numa grande cidade.
"Crash" foi originalmente publicado às vésperas da primeira grande crise do petróleo. Parecia então que o mundo motorizado cairia na real. Trinta anos depois, torrar combustível está mais na moda do que nunca. Toda a gente ao meu redor "veste" automóveis como se fossem peças de roupa. Não conseguem sair à rua sem eles, da mesma maneira como não conseguiriam sair à rua sem calças e camisetas. Numa cidade suficientemente grande, isso é a receita para uma convivência fraturada. Você nem precisa conhecer seu vizinho de prédio; também pode esquecer que quem dirige o carro preso no trânsito na sua frente é outro ser humano, com sentimentos e problemas em comum com os seus. Daí a ficar paranóico, prepotente, estressado e até violento com os demais, é um passo mais curto que a volta de uma roda de liga leve.
Hora de se manifestarNo meu flickr eu postei
um manifesto com pensamentos sobre os aspectos mais feios da minha cidade. Começou como uma modesta legenda em inglês para as fotos, mas aos poucos virou um longo e furioso ensaio. Não me contive. Tinha algo urgente a dizer. Que se resume ao seguinte: as ruas estão tomadas por uma massa de gente insensibilizada, egoísta e covarde, que se arrasta bovinamente nos monstruosos engarrafamentos a bordo de 500 novos veículos a cada dia. O transporte público é cada vez mais ineficaz e existe animosidade entre os cidadãos de quatro rodas e os de duas rodas.
Mais ainda... Quanto mais gente morre em desastres causados por motoristas alcoolizados, muitos outros mais bebem, dirigem e se matam, dando a impressão de que é inútil alertá-los. Será que a educação não resolve nada e leis mais rigorosas e repressão pesada seriam a única solução?
A editora Conrad lançou há aguns anos uma valiosa coleção de ensaios contestadores chamada
"Apocalipse Motorizado: A Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído". O livro me pareceu panfletário, pois abre de cara com um ensaio embasado num marxismo datado, que reduz o problema da sociedade motorizada a mais uma faceta da luta de classes. Essa abordagem para mim não funciona no Brasil. A imposição social do carro não é apenas algo particular do capitalismo, se é que um dia de fato o foi; vai muito além das ideologias. O debate precisaria ser apolítico.
Como posso, porém, reagir ante às novas associações que se estão formando entre ciclistas e o anarquismo - essa velha fera que vinha adormecida e ressurge no vácuo da falência final da esquerda? Ciclistas em número crescente perderam a paciência e começaram a fazer ativismo em tons políticos, a fim de recuperar um espaço urbano que nunca chegaram a ter.
Imposição socialA bordo de um carro novo, o cidadão sente-se psicologicamente impositivo, financeiramente ostentatório e funcionalmente mais capaz frente ao trânsito insano. Claro que os outros motoristas não se importam com nada disso, já que é apenas mais um anônimo, outra gota no mar de carros, incapaz de andar mais depressa do que com seu modelo antigo.
As falácias de status social e velocidade são vendidas pela volumosamente persistente e criativamente negligível propaganda da indústria automobilística. Nos anúncios de TV e revistas, ou as ruas aparecem desertas ou a presença do carro anunciado remove todos os demais magicamente. Ênfase crescente é dada ao design estético, em detrimento da exaltação das virtudes mecânicas, que têm cada vez menos oportunidade de demonstração no caos urbano. Sintomaticamente, os anúncios de automóveis estão tão numerosos na mídia que superaram todas as outras categorias de consumo, dominando o mercado publicitário.
Amigos de ourtas cidades e do interior me dizem que o aspecto do status social e da ostentação material é mais forte ainda fora da capital, presumivelmente porque as pessoas são menos anônimas. Um carrão em SP diz assim: "não mexa comigo", enquanto o mesmo carro em uma cidade pequena diria: "sou eu mesmo, e estou vivendo melhor que você". Tive oportunidade de observar em cidades pequenas que uma pessoa emancipada da família simplesmente não quer ser vista de bicicleta ou moto, porque esses são "veículos de pobre". Componha esse preconceito intenso com a propaganda massificada e temos um cenário de obsessão neurótica, na qual a pessoa precisa do carro para se encaixar nos valores alheios e não ser visto como "fracassado" na vida. É isso a que se chama imposição social do automóvel.
SUV - causa ou sintoma da doença?A minha opinião começou a mudar quando, nas minhas saídas de bicicleta, comecei a ter mais dificuldade para trafegar como uma moto entre as faixas tomadas de carros. A razão disso é que uma proporção crescente deles são SUVs - largos demais para deixarem espaço lateral livre para motos e bikes.
A predileção crescente por essa categoria de veículo já diz algo sobre a disfuncionalidade do nosso tráfego. SUVs são uma espécie de jipe, adaptado para andar na rua, porém nunca deixando o asfalto. Um pouco à maneira de uma fera selvagem na qual puseram coleira e guia para fazê-la passear na rua como um cão. É claro que isso não pode dar muito certo.
Compreendo a atual mania dos SUVs como uma curiosa psicopatia social. O motorista não precisa de um veículo de RS 200 mil que pesa 3 toneladas, mas fica mais satisfeito a bordo de um. Tem ilusões de poder e controle sobre o ambiente hostil ao redor.
Também não podemos esquecer a ilusão de que a estrutura excessiva do veículo salvará a vida do motorista inepto num eventual acidente - numa época em que os acidentes de carro são cada vez mais comuns, no mínimo pela simples abundância maior de outros carros para colidir.
Já vi parado no trânsito em plena Paulista um Hummer, jipe militar americano, mais largo que um caminhão. Precisar, não precisa. No horário em que esse monstro era conduzido pela avenida, uma pessoa a pé chegaria ao seu final muito antes, sem precisar apertar o passo.
Então, se o motorista não se importa com o nada irrelevante fato de não conseguir se deslocar mais depressa que um pedestre, o que liga? Terá o veículo virado seu novo lar, sua sala de estar? Qual é a relação emocional em curso? O que é que transforma o carro de útil conveniência em absoluta dependência, como num vício em droga?
PessimismoAo buscar respostas, começo a observar a exaltação positiva dos aspectos negativos da relação entre a máquina e os humanos, exatamente como em "Crash".
O motorista reclama do trânsito, mas reclama com prazer. Se demorou duas horas para dirigir do aeroporto até o shopping, sente-se orgulhoso como um herói de guerra. E não importa que perca uma grande parte de sua vida preso atrás do volante. Antes preferirá morrer num acidente gratuito e imbecil a abrir mão do seu "conforto". Dependurar-se do reles balaústre de um lento e incompetente ônibus jamais seria uma opção. Nem pensar, então, em pedalar uma bicicleta - "brinquedo de criança", "condução de pobre" - e ter de trocar toda a roupa antes de entrar no escritório! (Idem para as motocicletas em dias de chuva.)
Sim, há tons de divisão social permeando esses pensamentos. Mas eu não inventei nada disso, são coisas que ouço quando o assunto surge nas conversas informais, e não necessariamente entre pessoas ricas.
Enquanto isso, a obsessão com os acidentes de carro é um fato universal. Após uma batida fatal, o trânsito piora menos pelo afunilamento da pista e mais pela curiosidade dos motoristas em reter dentro dos seus olhos o máximo possível de detalhes dos ferros retorcidos. Com alguma sorte, vislumbrar as fatias sangrentas de cadáveres espetacularmente despedaçados e queimados. Imaginar em câmera lenta cada volta que o veículo deu no ar em sua capotagem, analisando seus valores cinéticos e estéticos, como um cinegrafista de filme de ação. E a partir dessa visão, angariar fonte de assunto para todas as conversas casuais nos dias seguintes.
O interesse mórbido se fundamenta na alienação. Ao ver outros seres humanos vitimados, cada sobrevivente do trânsito se destaca psicologicamente do desastre com uma falsa premissa: "Isso nunca aconteceria comigo". Por isso, nada aprende a partir da experiência e se sujeita a morrer de forma igualmente idiota em outra ocasião.
E qualquer rádio noticiosa, o que se ouve é sempre algo assim: "Acidente na Marginal causa 17 km de congestionamento". A perda de vidas humanas é um detalhe dispensável. O que empolga e seduz o ouvinte é tão somente a extensão do engarrafamento.
Um dos primeiros spams de Internet que recebi na minha vida, em 1996, linkava para uma série de fotografias mostrando os destroços de metal e retalhos de carne caprichosamente espalhados no asfalto, resultantes do impacto de uma Ferrari numa avenida de alguma cidade qualquer, cujo nome não foi julgado importante mencionar.
E, se pensar melhor, verei que tem tudo a ver este ensaio estar sendo publicado em plena época de Natal e Ano Novo, quando teremos novos recordes de acidentes, gordos números, generosas estatísticas de mortes absurdas nas ruas e estradas.
Ballard é o profeta de um mundo distópico em que o bom senso definitivamente falhou e toda perversão humana encontra meio de se expressão justificável. As máquinas são perigosas, mas o ser humano livre para fazer o que quiser por aí é muito mais perigoso ainda.