2007-12-28

Balanço esportivo da crítica de marcas em 2007

Artigo comentando as atuais tendências de design de logos - lá fora.

É interessante por mostrar de forma organizada a variedade de conceitos visuais que estão virando moda lá fora. No Brasil, em comparação, a pobreza criativa dos modismos em vigor tem sido espantosa. Além de tudo o que já foi dito neste blog, temos agora novas atrocidades para reforçar mais ainda o meu argumento, como se ainda fosse necessário.

No entanto, há uma coisa extrordinariamente em comum entre nós cá e eles lá, que é algo que escrevi aqui mesmo, há algum tempo: todo brasileiro já se julgava técnico de futebol, então é natural que todo brasileiro passasse a se julgar também designer/crítico de marcas. Tá lá, no texto do LogoLounge, o seguinte trecho:

It is also becoming disturbingly clear that logo design has become a public sport. As the public controls their own media more and more–Tivo-ing this, blogging that, YouTube-ing and Googling everything else–people are no longer satisfied to simply consume what is placed before them: They have opinions they want to share. So when a large corporation reveals its new identity, there are hundreds of internet sites flinging their opinions back at it. Even when the village board of Remote votes on a new logo for its two police cars, citizens take to the streets waving pitchforks and copies of their own designs. Committeecide seems to be rampant.


Analogamente ao fato de que "saudade" existe, SIM, em outras línguas - ao contrário do que diz o mito ufanóide propagado por ignorantes preguiçosos - o fenômeno do "técnico de futebol e crítico de marcas" não é exclusividade nossa no mundo. A única exclusividade nossa é a obsessão monomaníaca por "aparas de unhas cortadas" - tendência surgida no "primeiro mundo", porém já morta e enterrada lá - e "cores da bandeira nacional". Temperados aqui e lá com um degradezinho básico e alguma menção a "coração"... Eis, aliás, a mais nova modalidade do esporte da análise de marcas: encontre o coração escondido no logo! (Na falta do coração, uma esfera rende meio ponto.)

Os gringos já estão viajando num outro mundo, povoado por padrões de pontinhos, estrelas radiantes, duplas hélices de DNA etc., tudo devidamente multicoloridinho para a Web e animável em Flash. Mas não precisamos sair copiando isso tudo já. Não há pressa para esgotar um modismo. Afinal, se um brasileiro pedir um design original para um gringo, bastará ele dar uma fuçada na gaveta dos projetos rejeitados de alguns anos atrás e reciclar qualquer design obsoleto com "unhas cortadas". Se não tiver mais, é só pegar um de "coração". E taca-lhe verde e amarelo - trocável por laranja no caso de se usar fundo branco. Mas e se o designer for brasileiro? A chance é cada vez maior de ele trabalhar na arte de uma agência de propaganda, não num escritório especializado no assunto, e ter que parir um design em dois dias, sob pressão insana de 15 executivos palpiteiros, ignorantes e prepotentes, cada qual contradizendo o outro. A outra possibilidade é que a nova marca seja escolhida via concurso público - caso que invariavel e paradoxalmente dá resultados horríveis, apesar da nossa recém-descoberta vocação de críticos.

Que venha mais um ano de grandes empresas nacionais pagando fortunas injustificáveis por designs picaretas concebidos a partir de idéias requentadas em escritórios - para adicionar insulto à injúria - estrangeiros, e "implementados" às pressas e porcamente dentro das agências.

PS - Quem me chamou a atenção pro post do LogoLounge foi o Cris.

2007-12-26

Carros, Parte 3: "Crash" e a psicologia do SUV

Passei na casa da Tuta e ela me deu para ler uma tradução de "Crash", de J G Ballard.
Pra quem está por fora, esse é um dos livros que encapsulam mais perfeitamente o espírito do século passado, no que ele tem de extremo e perturbador. Perversão e paranóia. O prefácio do autor demonstra que ele tinha toda a consciência disso ao escrevê-lo. O livro soa como advertência sobre um pesadelo inevitável, ao misturar fantasia e realidade e descrever a ligação psicológica entre acidentes de carro e erotismo na cabeça do protagonista. Não é apenas a sexualização da máquina, mas a sexualização da morte envolvendo máquinas.
Se ele tivesse escrito o romance hoje, talvez preferisse falar sobre a erotização da Internet. Manteria o título "Crash", pois ele se aplica perfeitamente a computadores, além de carros. O autor disse, numa entrevista recente - e eu a citei aqui -, que a Internet é o invento mais perigoso de todos. A rede altera nossas vidas de maneira tão abrangente e insidiosa que mal notamos a mudança no paradigma de nossos relacionamentos.
Mas a analogia pára aqui; Internet é tema para outros posts. Vou continuar falando de carros.
A intenção, porém, não é falar mal dos carros nem dos motoristas, e sim apontar o extremo mau uso, a idiotização cultural, as armadilhas emocionais e desumanização generalizada que são associados à cultura do automóvel numa grande cidade.
"Crash" foi originalmente publicado às vésperas da primeira grande crise do petróleo. Parecia então que o mundo motorizado cairia na real. Trinta anos depois, torrar combustível está mais na moda do que nunca. Toda a gente ao meu redor "veste" automóveis como se fossem peças de roupa. Não conseguem sair à rua sem eles, da mesma maneira como não conseguiriam sair à rua sem calças e camisetas. Numa cidade suficientemente grande, isso é a receita para uma convivência fraturada. Você nem precisa conhecer seu vizinho de prédio; também pode esquecer que quem dirige o carro preso no trânsito na sua frente é outro ser humano, com sentimentos e problemas em comum com os seus. Daí a ficar paranóico, prepotente, estressado e até violento com os demais, é um passo mais curto que a volta de uma roda de liga leve.

Hora de se manifestar
No meu flickr eu postei um manifesto com pensamentos sobre os aspectos mais feios da minha cidade. Começou como uma modesta legenda em inglês para as fotos, mas aos poucos virou um longo e furioso ensaio. Não me contive. Tinha algo urgente a dizer. Que se resume ao seguinte: as ruas estão tomadas por uma massa de gente insensibilizada, egoísta e covarde, que se arrasta bovinamente nos monstruosos engarrafamentos a bordo de 500 novos veículos a cada dia. O transporte público é cada vez mais ineficaz e existe animosidade entre os cidadãos de quatro rodas e os de duas rodas.
Mais ainda... Quanto mais gente morre em desastres causados por motoristas alcoolizados, muitos outros mais bebem, dirigem e se matam, dando a impressão de que é inútil alertá-los. Será que a educação não resolve nada e leis mais rigorosas e repressão pesada seriam a única solução?
A editora Conrad lançou há aguns anos uma valiosa coleção de ensaios contestadores chamada "Apocalipse Motorizado: A Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído". O livro me pareceu panfletário, pois abre de cara com um ensaio embasado num marxismo datado, que reduz o problema da sociedade motorizada a mais uma faceta da luta de classes. Essa abordagem para mim não funciona no Brasil. A imposição social do carro não é apenas algo particular do capitalismo, se é que um dia de fato o foi; vai muito além das ideologias. O debate precisaria ser apolítico.
Como posso, porém, reagir ante às novas associações que se estão formando entre ciclistas e o anarquismo - essa velha fera que vinha adormecida e ressurge no vácuo da falência final da esquerda? Ciclistas em número crescente perderam a paciência e começaram a fazer ativismo em tons políticos, a fim de recuperar um espaço urbano que nunca chegaram a ter.

Imposição social
A bordo de um carro novo, o cidadão sente-se psicologicamente impositivo, financeiramente ostentatório e funcionalmente mais capaz frente ao trânsito insano. Claro que os outros motoristas não se importam com nada disso, já que é apenas mais um anônimo, outra gota no mar de carros, incapaz de andar mais depressa do que com seu modelo antigo.
As falácias de status social e velocidade são vendidas pela volumosamente persistente e criativamente negligível propaganda da indústria automobilística. Nos anúncios de TV e revistas, ou as ruas aparecem desertas ou a presença do carro anunciado remove todos os demais magicamente. Ênfase crescente é dada ao design estético, em detrimento da exaltação das virtudes mecânicas, que têm cada vez menos oportunidade de demonstração no caos urbano. Sintomaticamente, os anúncios de automóveis estão tão numerosos na mídia que superaram todas as outras categorias de consumo, dominando o mercado publicitário.
Amigos de ourtas cidades e do interior me dizem que o aspecto do status social e da ostentação material é mais forte ainda fora da capital, presumivelmente porque as pessoas são menos anônimas. Um carrão em SP diz assim: "não mexa comigo", enquanto o mesmo carro em uma cidade pequena diria: "sou eu mesmo, e estou vivendo melhor que você". Tive oportunidade de observar em cidades pequenas que uma pessoa emancipada da família simplesmente não quer ser vista de bicicleta ou moto, porque esses são "veículos de pobre". Componha esse preconceito intenso com a propaganda massificada e temos um cenário de obsessão neurótica, na qual a pessoa precisa do carro para se encaixar nos valores alheios e não ser visto como "fracassado" na vida. É isso a que se chama imposição social do automóvel.

SUV - causa ou sintoma da doença?
A minha opinião começou a mudar quando, nas minhas saídas de bicicleta, comecei a ter mais dificuldade para trafegar como uma moto entre as faixas tomadas de carros. A razão disso é que uma proporção crescente deles são SUVs - largos demais para deixarem espaço lateral livre para motos e bikes.
A predileção crescente por essa categoria de veículo já diz algo sobre a disfuncionalidade do nosso tráfego. SUVs são uma espécie de jipe, adaptado para andar na rua, porém nunca deixando o asfalto. Um pouco à maneira de uma fera selvagem na qual puseram coleira e guia para fazê-la passear na rua como um cão. É claro que isso não pode dar muito certo.
Compreendo a atual mania dos SUVs como uma curiosa psicopatia social. O motorista não precisa de um veículo de RS 200 mil que pesa 3 toneladas, mas fica mais satisfeito a bordo de um. Tem ilusões de poder e controle sobre o ambiente hostil ao redor.
Também não podemos esquecer a ilusão de que a estrutura excessiva do veículo salvará a vida do motorista inepto num eventual acidente - numa época em que os acidentes de carro são cada vez mais comuns, no mínimo pela simples abundância maior de outros carros para colidir.
Já vi parado no trânsito em plena Paulista um Hummer, jipe militar americano, mais largo que um caminhão. Precisar, não precisa. No horário em que esse monstro era conduzido pela avenida, uma pessoa a pé chegaria ao seu final muito antes, sem precisar apertar o passo.
Então, se o motorista não se importa com o nada irrelevante fato de não conseguir se deslocar mais depressa que um pedestre, o que liga? Terá o veículo virado seu novo lar, sua sala de estar? Qual é a relação emocional em curso? O que é que transforma o carro de útil conveniência em absoluta dependência, como num vício em droga?

Pessimismo
Ao buscar respostas, começo a observar a exaltação positiva dos aspectos negativos da relação entre a máquina e os humanos, exatamente como em "Crash".
O motorista reclama do trânsito, mas reclama com prazer. Se demorou duas horas para dirigir do aeroporto até o shopping, sente-se orgulhoso como um herói de guerra. E não importa que perca uma grande parte de sua vida preso atrás do volante. Antes preferirá morrer num acidente gratuito e imbecil a abrir mão do seu "conforto". Dependurar-se do reles balaústre de um lento e incompetente ônibus jamais seria uma opção. Nem pensar, então, em pedalar uma bicicleta - "brinquedo de criança", "condução de pobre" - e ter de trocar toda a roupa antes de entrar no escritório! (Idem para as motocicletas em dias de chuva.)
Sim, há tons de divisão social permeando esses pensamentos. Mas eu não inventei nada disso, são coisas que ouço quando o assunto surge nas conversas informais, e não necessariamente entre pessoas ricas.
Enquanto isso, a obsessão com os acidentes de carro é um fato universal. Após uma batida fatal, o trânsito piora menos pelo afunilamento da pista e mais pela curiosidade dos motoristas em reter dentro dos seus olhos o máximo possível de detalhes dos ferros retorcidos. Com alguma sorte, vislumbrar as fatias sangrentas de cadáveres espetacularmente despedaçados e queimados. Imaginar em câmera lenta cada volta que o veículo deu no ar em sua capotagem, analisando seus valores cinéticos e estéticos, como um cinegrafista de filme de ação. E a partir dessa visão, angariar fonte de assunto para todas as conversas casuais nos dias seguintes.
O interesse mórbido se fundamenta na alienação. Ao ver outros seres humanos vitimados, cada sobrevivente do trânsito se destaca psicologicamente do desastre com uma falsa premissa: "Isso nunca aconteceria comigo". Por isso, nada aprende a partir da experiência e se sujeita a morrer de forma igualmente idiota em outra ocasião.
E qualquer rádio noticiosa, o que se ouve é sempre algo assim: "Acidente na Marginal causa 17 km de congestionamento". A perda de vidas humanas é um detalhe dispensável. O que empolga e seduz o ouvinte é tão somente a extensão do engarrafamento.
Um dos primeiros spams de Internet que recebi na minha vida, em 1996, linkava para uma série de fotografias mostrando os destroços de metal e retalhos de carne caprichosamente espalhados no asfalto, resultantes do impacto de uma Ferrari numa avenida de alguma cidade qualquer, cujo nome não foi julgado importante mencionar.
E, se pensar melhor, verei que tem tudo a ver este ensaio estar sendo publicado em plena época de Natal e Ano Novo, quando teremos novos recordes de acidentes, gordos números, generosas estatísticas de mortes absurdas nas ruas e estradas.
Ballard é o profeta de um mundo distópico em que o bom senso definitivamente falhou e toda perversão humana encontra meio de se expressão justificável. As máquinas são perigosas, mas o ser humano livre para fazer o que quiser por aí é muito mais perigoso ainda.

2007-12-16

Sem Photoshop!



O Photoshop é a muleta do design da nossa época...

"Faz com essa luz mesmo e arruma no Photoshop depois, não temos mais tempo..."

"Pega essas fotos que vieram dentro do Word e amplia no Photoshop..."

"Essa foto que veio por engano em 72, tem jeito de dar uma roubadinha no Photoshop?..."

"Deu pau de PDF de novo? Abre no Photoshop, exporta em TIFF e um abraço, ninguém vai perceber diferença..."

"Meu retrato poser ficou com uma papada enorme, e esse olho vermelho... já pro Photoshop!..."


Algo tem de ser feito para reverter esse lastimável estado de coisas no mundo do design e da fotografia.

O movimento SEM PHOTOSHOP! visa conscientizar os artistas visuais para que comecem seu trabalho direito, em vez de fazer tudo de qualquer maneira e tentar salvar no final usando um software.

Faça como os mestres da fotografia faziam: ZERO de retoques no laboratório de revelação. Eles simplesmente não precisavam. Gastavam meses ajustando o enquadramento e a exposição de suas obras-primas.

Faça como Picasso: os rabiscos dele saíam perfeitos e valendo milhões. Mesmo quando totalmente toscos e feitos com materiais ordinários.

Repita em voz alta o mantra dos designers gráficos da era da fotocomposição, da litografia e do paste-up: "a repetição leva à perfeição".

Encha o peito e proclame orgulhosamente para seus colegas e concorrentes: SEM PHOTOSHOP!

Mais uma vez: SEM PHOTOSHOP!


(Imagem obtida num scanner Umax UC840 podre de 15 anos de idade)

2007-12-11

Apple + Gizmodo

Impressionante o anúncio da Apple especial para a home page do Gizmodo. Impressionante mesmo.

2007-12-09

Unhas cortadas

Disclaimer: Este post alterna trechos sérios e bem-intencionados com ironia pesada e sátira corrosiva. Se você se irritar, por favor, saia para tomar um ar e um gole de água gelada antes de começar a digitar diatribes truculentas nos comentários. Tenha um bom dia. ;-)

Tudo começou com este aqui...




Brincadeira. Símbolos metidos a futuristas usando elipsóides esvoaçantes existem desde o começo do século. Mas eles demoraram bastante até virar a atual praga que assola o design mundial.

Cada época tem seus exageros. Nos anos 70 reinavam os padrões geométricos e ângulos secos - era o auge do modernismo tardio. Nos anos 80 surgiu a tendência de incluir mais cores, brilhos e sombras e misturas malucas de fontes. Nos anos 90, o desenho vetorial computadorizado mudou tudo. De repente, ficou fácil demais desenhar uma elipse ou parábola e preencher tudo com degradês gratuitos.

Muitos designers atuais cansaram dos degradês e sombras; voltaram a pensar em formas geométricas puras e sem enfeites. Mas a mania das curvas segue cada vez mais forte, sem indício de exaustão. Olhe para estes exemplos de marcas, famosas e obscuras, brasileiras e estrangeiras, todas realizadas preguiçosamente com as Malditas Curvas do Inferno®:


Agora, vejamos alguns exemplos de marcas famosas que recentemente foram redesenhadas com "unhas cortadas" - parábolas e elipses Bézier:



O caso da Nestlé é um pouco mais sofisticado, pois em vez da curva simples e porca, há uma onda no estilo da Coca-Cola. Mas perceba a moldura exterior e os efeitos de brilho e sombra. É tudo tão datado que já parecia envelhecido quando foi solto no mercado. Por sua vez, a Embratel precisava mostrar que tinha mudado tudo, mas foi direto do logo frio e técnico para o popularesco e desarmônico.

As criações influenciam umas às outras. Parece até que os clientes dos escritórios de design já chegam com ordens de enrolar o logotipo numa elipse igual à de outra empresa qualquer, não necessariamente do ramo... Mas neste caso minha intuição sugere que o culpado é, mais provavelmente, o designer e não o cliente. O cliente apenas "compra" o conceito da curva com facilidade.



A tendência é mundial, mas no Brasil isso virou uma gigantesca epidemia da falta de imaginação. É um fenômeno que já tomou proporções alarmantes. Alguém precisa levantar a voz contra esse estado de coisas. Parece que todo micreiro metido a designer que reside no território nacional assumiu que a curva faz parte da própria definição de logotipo. E, lamentavelmente, a epidemia também contagiou designers profissionais, incluindo alguns dos que fazem sua parte metendo o pau nas criações alheias via internet.

Desse jeito, dá para ficar paranóico. O designer que trabalha do seu lado na agência, o seu concorrente, o Manoel da padaria, a cadela da vizinha, todo e qualquer indivíduo pensante pode estar engendrando mais uma marca baseada em "unhas cortadas", bem coloridinha e arrematada com uma sombrinha e um brilhinho.

E, se sobrar espaço, pode incluir uma ou mais daquelas famigeradas "pessoinhas pictográficas", tão ao gosto de 11 entre 10 departamentos de universidades, gestores de RH e associações de voluntariado:



Se você é um designer que está no processo de design ou redesign de uma marca usando os elementos aqui mencionados, peço que pare agora e repense os seus atos! Ignore o pedido canhestro do cliente. Ignore a pressão de terminar o projeto o quanto antes. Lute contra a própria falta de idéias originais. Resista à tentação fácil de usar a marca da ****** como "referência". Esforce-se apenas um pouquinho mais. Faça qualquer coisa que estiver ao alcance para não poluir mais ainda o nosso mundo com essa solução visual inutilizada pelo uso excessivo e vagabundo.


Já que é pra esculachar...

Todavia, se com tudo isto que foi exposto, o sentido deste artigo ainda não ficou suficientemente claro, vou dar alguns exemplos (imaginários, pelo amor de Deus!) do tipo de coisa que poderemos muito bem estar enfrentando a qualquer instante no futuro. São todos ridículos, mas os textos que os acompanham fazem com que pareçam sérios. Cuidado!


BRIEFING: Modernizar a marca eliminando as linhas retas da moldura, que são muito duras e machucam os olhos. Explorar e estender a harmonia das áreas sólidas com as hastes das letras. Atualizar a palavra-slogan. As curvas suaves devem sugerir aconchego, humanismo, proteção, sofisticação e apoio. Usar somente tipografia genérica e banal, que não chame a atenção para si mesma.



BRIEFING: Sem perder a forma do símbolo atual, vazá-lo para que a impressão consuma menos recursos materiais, preservando o meio ambiente. O degradê em tons terroso-avermelhados representará a casca da maçã da qual o nome da companhia é derivado, evocando uma conexão com o compromisso ecológico, a responsabilidade ambiental, o desenvolvimento sustentável e qualquer outro valor politicamente correto que seja inventado nos próximos 25 anos. Retornar com o nome escrito por extenso, como era a marca original dos anos 70; afinal, ninguém deve ser obrigado a se lembrar de quem é a marca apenas olhando para o simbolo!



DEFESA: A marca, inteiramente construída com curvas elípticas, traz a idéia de humanismo; a marca original era excessivamente cheia de ângulos retos e abruptos, que ferem a vista. O logotipo, numa fonte inclinada que remete aos conceitos-chave de velocidade, precisão e eficiência, é totalmente integrado e inseparável do conjunto. A nova fonte escolhida, genérica e banal, pode sofrer uma troca acidental por Arial sem aparentar nenhuma diferença.



DEFESA: Este redesign visa eliminar algumas deficiências da marca redesenhada em 2007. A área verde, agora vazada, elimina qualquer possibilidade de similaridade acidental com outras marcas. O coração atende melhor à ligação emocional evocada pelo presidente da companhia e a cor vermelha forma uma conexão sutil com a atual administração federal. A redução do nome para "VL" é a simples reaplicação lógica do mote publicitário "todo brasileiro gosta de dar um apelido", dirigido às camadas mais jovens e progressistas da população, já acostumadas a abreviar os nomes de tudo (conceito explorado, por exemplo, em RBK para Reebok). Os internautas lerão a marca assim: "(Eu) amo a Vale".

2007-12-08

Essa me incomoda todo santo dia

Na discussão sobre a marca da Vale, o que mais se repetiu foi a percebida semelhança excessiva do novo símbolo com o anteriormente criado pelos mesmos autores (o consórcio Cauduro Martino/Linpicott&Margulies) para o banco ABN-AMRO/Real.

Existe mais um exemplo, e esse eu lembro toda vez que vejo a marca derivativa. Ou seja, todo dia, pois ela está por toda parte na minha cidade, e na sua também. Você muito provavelmente a carrega no bolso da calça.

Compare:



Saturn (divisão de carros de luxo da General Motors dos EUA)
Criação: Landor
1987



Bradesco
Criação: Landor
1997
Custo (estimado): US$ 3 milhões

O símbolo do Bradesco, aos meus olhos, já possui uma série de falhas em si mesmo, do ponto de vista puramente técnico da execução do desenho. Não ajudou em nada a recente adição de uma foto da Terra no meio para criar o Banco do Planeta - um crime visual praticado por, preste atenção, uma agência de propaganda (nota um padrão repetitivo aqui?). Já a marca Saturn peca apenas pela tipografia datada e por ter sido uma das primeiras marcas tops baseadas em "unhas cortadas" (muito mais sobre essa praga do design num próximo post - não perca, ative seu feed!).

Ninguém está livre de escorregar. Nem mesmo uma megacompanhia com obras-primas no currículo como Coca-Cola, Univeler e tantas outras marcas bem pensadas e bem cuidadas.

Como já se viu recentemente nos casos da Vale, Porto Seguro e Varig, por trás de toda marca chutada há uma explicação exagerada que parece bolada a posteriori para agradar o cliente. A defesa de marca do Bradesco está aqui e, convenhamos, chega ao delírio surreal em vários pontos. Mas o que me pega mais é a descrição do desenho geométrico como sendo uma "árvore". Uma árvore sem estrutura, sem qualquer sugestão de folhas, sem galhos, mas com dois troncos...? Se a intenção dos designers fosse mesmo retratar figurativamente uma árvore, com um bom número de elementos para serem associados aos valores da companhia, o resultado bem poderia ser algo mais deste jeito...

2007-12-07

Copiar é viver



Versão adaptada aos tempos atuais de um famoso quadro de Roy Lichtenstein.

2007-12-05

Chat surreal 2

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eduguedes says:
tá começando na globo aquele filme q te falei.. Closer.. com Clive Owen, Natalie Portman, Julia Roberts e mais um outro.. só q é dublado.. rss

eu não tenho TV! vou comprar o DVD...

mas sem tv vai ver onde? rsss
eu tbm to sem tv.. a minha tá pifada.. e o dvd foi roubado no assalto à minha casa em abril
:P


vou ver na tela do meu Mac.
ah, se eu ganhar na Mega Sena vc ganha uma Sony Bravia.


rsss.. opa.. gostei da ideia.. rsssss
se eu ganhar te dou uma stumpjumper fsr de carbono


aceito a bike...
tenho outro amigo que se ganhar já me prometeu 100 mil doletas de presente.
é uma espécie de "corrente do bem" na qual ninguém ganha porra nenhuma, mesmo, mas todo mundo fica sonhando contente.


hahahhahha

Chat surreal 1

Chat with Julia Cleto

Oie!

opa

como vai_
*ue teclado horrivel, deus meu!(
nunca vi um teclado assim...
caramba..cade a interrogaçao


aqui, toma: ????
copie do meu texto acima. tem quatro aí, quando precisar de mais avise...


Haha! merci! o shift nao funciona como shift...
*vou substituir a interrogaçao pelo numero 7, ok7


não. nada de numeral. eu exijo que voce escreva INTERROGAÇÃO por extenso e em maiúsculas!
e tem que pedir permissão antes de fazer uma pergunta!
precisa perguntar se pode perguntar!


HAHAHAHA!
Humm...
Nao


tá bom. mas eu só sei dar respostas!!!
interrogação em Unicode no Windows é U+0021F. Não sei como se usa isso, mas que fique registrado.


Ack
hehe
obrigada.


este chat está sendo gravado para publicação no meu blog sub a rubrica "chats surreais".
agora, pode proceder à sua INTERROGAÇÃO.


Hehehe
eu vou ficar lisonjeada
Vc quer que eu comente coisas surreais7


as coisas surreais ganham existência conforme são pensadas.
tudo que pode ser imaginado existe.


Ah, sim...concordo. Mesmo.

por exemplo, o que é uma coisa surreal7 ?
existe surreal6, surreal5, surreal(pi) ?


e surreal-i
que e`o surreal complexo


eu gosto do surreal(phi). é todo dourado

eu tambem! Hahaha

5urr3@1 também é um bombom

e um bombom deveras gostoso

deveria ser chamado bombombom

bombombooooom

booooooM. explodiu. uma bomba de chocolate

NHAC!

calma que assim vai estourar na sua barriga, não é bom.

hahaha! nem...pra chocolate sempre tem espaço!

infelizmente sim..
mas eu estou na dieta da alface...
tudo MENOS alface!


HAHAHA!
Cuidado, hein7


hein8

hein9

hein-ju
(ju=10 em nihongo)


awwnnn

sumiu?

nao...estou checando coisinhas

chocando galinhas?

mais ou menos!
estou atrás de ovos!


mas a galinha pode vir antes.

nao a que poe ovos de ouro!

hm, sei, aqueles ovos cuja razão entre os eixos transversal e longitudinal é igual a phi.

nao..nao...aquela da teoria das supercordas...

supercodornas?

HAHAHAHAHAAH!
>_<
vc é um barato


não. Já me mandaram embora de um emprego porque eu era "um funcionário CARO para a empresa".
está precisando de ponto final, também? toma: .


obrigada!
caro pode querer dizer =querido=


hm, quando ouvi nesse sentido em geral era com ironia:
"você errou feio, querido."


vixe

oxi!

né&

& seria o que, nesse seu teclado dadaísta?

nao sei..ia digitar 7 mas saiu isso..
foi por livre e espontanea intervençao do teclado


então o seu & é um 7 maiúsculo, que pretendia ser um ?

talvez..
olhe, vou mudar de micro, ok& 7
já venho!


certo+$!

hehe

...troquei de micro, mas vou precisar sair da biblioteca...
?????????????????????????
(as interrogações são só pra satisfazer a carência prévia)


certo. nao se deve passar vontade, cria lombriga.

sim!

2007-12-04

Comemorando...

foto Camilo Ramos

Detalhe irônico é que o meu dia é também o Dia Mundial da Propaganda.

2007-12-03

Sim, nossa vida não tem nenhum glamour

Do blog da Prix:

...criativos - pessoas assim chamadas por trabalharem nas funções em que todo cliente acredita que pode dar pitaco no seu trabalho pq a opinião dele veio do "conhecimento" e a sua brotou como uma bolha de sabão...

2007-12-02

Vale tudo

ou: Criticar novas marcas já virou esporte nacional

(Advertência aos incautos: post inteiramente escrito com senso de ironia)

Assim que abaixou um pouco a fervura política em torno da privatização da Companhia Vale do Rio Doce, a empresa fez uma faxina na imagem. Simplificou seu nome para Vale e aproveitou para trocar a marca também.
Esta semana, designers gráficos, publicitários e desocupados do país inteiro correram a escrever críticas à nova marca. Claro... afinal foi tão gostoso malhar a da Varig, não é? Redesigns de marcas tornaram-se iguais a jogos de futebol: todo mundo comenta como se fosse técnico.
Mas eu me espanto como os críticos atacam com unanimidade certos pontos e ignoram outros que podem até ser mais importantes, do ponto de vista dos donos da marca.
Esta é a marca antiga da Vale. Complicada, rígida e com um efeito óptico totalmente datado. Helvetica em logo, que horror! Ninguém usa mais isso, hoje em dia. O povo pode confundir com Arial! Quem podia já mudou suas fontes corporativas para Frutiger ou Myriad - vide Itaú, Bradesco etc.



Eis então a nova marca. (Ao contrário do que os críticos de plantão estão assumindo, não é sempre que se usa o degradê no símbolo.)



A fonte é sem serifa (e muito sem graça), light, espacejada, na cor cinza e com uns cantinhos das letras alterados de maneira bem gratuita, talvez para dar a impressão de que fazer isso deu muito trabalho - embora tenham se esquecido de acertar o espacejamento para evitar o desequilíbrio nas áreas brancas entre as quatro letras.
As associações de forma que foram evocadas pelos porta-vozes da empresa são viagem total, como é praxe nessas apresentações de marcas (vide o péssimo exemplo da Porto Seguro, já comentado aqui). O formato de funil remete à mineração. Ponto final! Não precisam inventar moda. Podem parar de falar em infinito, coração e na bandeira de Minas. Isso só queima o filme.

Os críticos de marcas de primeira hora gritaram em coro: "BANCO REAL!!!"



Só que, numa comparação direta, a similaridade de forma com o símbolo do banco ABN AMRO (que atende por Real entre nós) é muito mais forte em relação ao antigo da Vale, não o novo. A semelhança maior com o novo está nas cores. No símbolo, elas são (surpresa!) as mesmas da bandeira nacional. O ABN AMRO usa verde e amarelo por algum outro motivo, já que é uma empresa com sede na Holanda e não no Brasil. O símbolo antigo da Vale já ecoava a bandeira nacional, mas na forma e não na cor.
Ainda falando em cores, a tipografia do Real e da Vale é cinzenta - será que essa mania ainda vai pegar tanto quando as malditas e ubíquas "aparas de unha" (elipsóides esvoaçantes)?



Estendendo a comparação, podemos ver como é possível achar pêlos em ovos até cozidos e descascados, sempre que estivermos bem dispostos a isso. Vire de lado a marca do HSBC e descubra que ele também "copiou" o ABN AMRO! Nem o C do Carrefour, muito mais antigo, escapa de virar "referência". Haverá alguma conspiração envolvendo a Massey Ferguson (fábrica de máquinas agrícolas)? Será que o degradê da Vale foi inspirado pelo faux 3D da Vicunha? Será que a ViaOeste (mantenedora de estradas paulistas) também mudou sua marca para deixá-la menos semelhante às demais? E que dizer da Petrobras, que também teve a "falta de imaginação" de adotar as cores da nossa bandeira? Como é que tantas marcas importantes têm a ousadia de se repetirem umas às outras desse jeito? Por onde andará a criatividade no design???



E no meio de tanta pegação no pé, descobrimos outro cochilo dos críticos.
A marca nova da Vale tem muito mais a ver com a atual da Votorantim, outra grande empresa que atua em áreas paralelas às da Vale. Se eu fosse me preocupar com o potencial de confusão visual, seria com a Votorantim e não com o Real - especialmente ao pensar nos executivos estrangeiros que vão negociar com brasileiros.



Cá para mim, porém, isso tudo é papo furado. Está óbvio, evidente e claro que a verdadeira inspiração da nova marca da Vale é o coador de café Melitta!





Update - A sugestão acima do coador acabou aparecendo na coluna "blogs" da Revista da Semana da Abril (edição da capa com Hugo Chávez).

Bikes, Parte 35: a bela sorridente

Eu iria cumprir a programação rotineira do domingo. As principais bikes estavam de folga. Então, saí de casa com minha clássica Stumpjumper vermelha.
O trecho final de subida da Rebouças é sempre tão chato quanto aquela última tarefa inesperada que você precisa cumprir antes de sair do emprego para passear numa sexta-feira à noite. O negócio é relaxar a cabeça, reduzir a marcha e girar.
No trecho mais inclinado e travado, alcancei uma moça jovem com uma mochila que pedalava uma KHS nova. Esse tipo de visão tem sido bem frequente na minha cidade: cada vez mais paulistanos descobrem que bike não é só brinquedo de criança nem condução de pobre. Uma revolução silenciosa está tomando a cidade aos poucos. Ciclistas com capacetes e bikes novas por toda parte e a qualquer hora.
Fazia muito calor e a ciclista ia com paciência para não se cansar. Como eu sempre cumprimento bikers na rua, diminuí o ritmo e passei fazendo uma mesura, levantando o dedão da mão esquerda.
O que foi inesperado foi o inacreditável sorriso que ganhei de volta.
Eu estava prestes a bater o tempo da minha casa até a Paulista x Consolação com a Stumpjumper. Vinha de olho no cronômetro, mente ocupada com pensamentos pessoais irrelevantes. Demorou um tempo fatal para eu perceber como isso não era importante. 100 metros após passar pela ciclista, parei e esperei que a desconhecida emparelhasse comigo de volta. Puxaria papo, perguntaria de onde vinha, para onde ia etc. Mas ela já tinha entrado na alameda Jaú e desaparecido de vista.