Este aconteceu comigo mesmo e
foi postado em outro site há muito tempo. O texto original se perdeu. Detalhes foram modificados para proteger identidades.
A história se passa em pleno estouro da bolha da Web. Final de 2000, começo de 2001, por aí. É aquele momento em que alguém precisava ser ingênuo ou mal informado para fazer mais um megainvestimento em site na Internet.
Recebo do nada uma ligação de um fulano que não vejo há cinco anos e jamais conheci de perto. O cara tinha trabalhado numa ex-empresa minha, parece que agora virou um empreendedor de Web. Arranjou meu contato com um amigo em comum e quer me convidar para reformular o projeto visual de um site que já está no ar. Diz que é um portal segmentado. Estou disponível para conversar. Ele me fala para ir a determinada cafeteria numa esquina da Av. Paulista.
Antes da reunião, eu peço a opinião de quanto devo cobrar ao
Tom B, que está fazendo o design de um cassino online. Ele me dá uma fórmula de cálculo e alguns conselhos. O principal deles é:
"Faz o design e some, não fica de bobeira por perto porque senão vira roubada, vão te pegar pra ficar dando manutenção de graça". Guardo a numeralha e o conselho na cabeça.
Chego à cafeteria na hora marcada e ninguém aparece durante mais de meia hora. Estou quase indo embora quando o cliente me liga no celular, avisando que alguém irá me buscar lá. Surge atravessando a rua um dos caras, que não é o propriamente dito, mas um dos sócios dele. Apresenta-se a mim e diz que a turma mudou de idéia e resolveu se encontrar em outro lugar ali perto, um restaurante caro. Eu penso: "Ainda bem que não comi nada aqui, vou degustar um rango de nível junto com esses caras".
A turma é composta de quatro pessoas: o empreendedor e os três sócios. O sócio que vai cuidar da programação de conteúdo é contido e polido, e o sócio da implementação técnica quase só ouve. O outro sócio, que fará o papel de atendimento é falastrão, claramente mentiroso e monopoliza a maior parte da conversa com sua voz alta e gestos amplos.
O chefe é discreto e fala baixinho, como se ocultasse algum segredo vergonhoso que corre enorme risco de ser descoberto. Ele descreve o projeto. Evidentemente, é muito mais ambicioso do que aquilo que ele disse na ligação. Quer que eu ajude a bolar uma estrutura lógica e invente um sistema visual completo com código pronto, incluindo estilos, tipos, ilustrações e variações específicas para todas as sub-seções do site, além de espaço para expansões futuras. Seções que eles ainda não sabem exatamente quais serão, pois dependerão do que o patrocinador quiser vender através delas - ou outra explicação estapafúrdia mais ou menos nesse sentido.
Inocente e lerdo que sou, a essa altura é que começo a perceber que eles não têm um plano de conteúdo. O parceiro, isto é, o patrocinador, vai magicamente dar tudo pronto na mão deles. Tá bom.
Eu sugiro criar e cancelar algumas páginas do esquema em árvore e eles topam todas as sugestões.
Estranho.
Detestam o que está no ar e querem quebrar tudo para construir de novo. Todavia, não existe um sistema de publicação automática, é preciso criar dezenas de páginas estáticas e templates que o cara técnico se encarregará de atualizar na mão.
Ops.
O site que eles querem fazer é muito maior que o original. Tem público e receita para isso? Sim, dizem eles, assim que a entidade que está patrocinando o site atual for imitada pelas concorrentes dela, que certamente também se interessarão. Essa teoria eu nunca tinha ouvido na vida. Dizem que basta gerar tráfego e mostrar o sucesso para os outros possíveis clientes. Existe plano de marketing para gerar tráfego? Não, eles contam apenas com o boca-a-boca.
O sócio falastrão acrescenta: "Ampliaremos o site com o primeiro aporte de capital, que deverá chegar em alguns meses." A expressão
"aporte de capital" já estava podre e carcomida em finais de 2000. Traduzi mentalmente para: "Esses caras provavelmente não têm um puto no bolso e vão me fazer trabalhar na fé, contando com uma fonte de grana da qual eles não têm nenhuma garantia."
A conversa segue e o falastrão conta fantásticas lorotas heróicas do seu ilustre passado. Minha paciência com ele está se esgotando. Imagino como será a paciência dos clientes.
O chefe tem uma idéia realmente estranha, de eu ir trabalhar de meio período no escritório dos três, pois eles têm pressa e querem um site apresentável aos clientes com cerca de 200 páginas funcionando em, vejamos, três semanas. Rebato dizendo que não é possível eu fazer nada quanto ao meu horário no emprego fixo, mas que é possível implementar o projeto em duas etapas, a básica e a completa, para obtermos os primeiros resultados mais rapidamente. Então, cai mais uma bomba: o tal aporte de capital depende de o cliente ver o novo site funcionando.
Epa!
Eles me perguntam o preço do trabalho. Pego a taxa do Tom B, multiplico mentalmente pelas páginas, dou um desconto pelo serviço repetido e ainda resta uma margem para pechinchar até uns 30 por cento. Declaro o valor total a eles. Eles fazem um brevíssimo silêncio e não discutem, não tentam pechinchar, nada. Retornam à conversa animada de antes.
Já vão quase duas horas de reunião e a noite avança do lado de fora do restaurante chique. Minha barriga reclama. E então, finalmente, percebo de súbito, com horror e espanto: eles não pediram nada para comer, nem sequer tomaram uma xícara de café! Eles REALMENTE não têm UM PUTO no bolso!!
Cada minuto que passar a partir dali será desperdício do meu tempo. Misericordiosamente, a reunião acaba minutos depois de eu dar meu preço. Eles trocam palavras amistosas comigo e se dispersam numa esquina próxima. Vão embora a pé.
O chefe fica de dar uma resposta pelo celular. Jamais liga, nem mesmo para dizer não, e nunca mais vejo nenhum dos três patetas. Nem o tal site reformulado.
Maio de 2009: Conforme comentado, a versão original do post foi reencontrada e restaurada no blog. É o link no primeiro parágrafo do texto.