2007-09-30

Arial Não - Parte 8

 
Perguntas sem resposta

Manifesto dirigido aos designers gráficos
(Escrito em 2004)

Comecei o projeto "Arial Não!" pensando em criar apenas um folheto, sem prever a dimensão e riqueza que o tema assumiria conforme o material de pesquisa foi aparecendo. Desde o começo soube que não saberia fornecer respostas. Mas o que realmente importa neste momento é fazer perguntas.

Vivemos mais um momento tumultuado da história do design gráfico, em que se consolida um conjunto de transformações econômicas e tecnológicas que têm nos distraído do fato de que o bom ofício tipográfico é essencialmente independente da técnica. Nossa moderna tecnologia, com tudo o que nos oferece de opções e recursos, nada realiza por si mesma. Sempre serão necessárias a sensibilidade, o olho e a experiência do ser humano que opera o equipamento.

A excelência não depende da tecnologia; a tecnologia não garante a excelência.

Com efeito, designers instruídos consideram insuperáveis, por exemplo, os livros impressos por Aldus Manutius em 1499. A admiração do exemplo do passado, dos valores clássicos, de paradigmas perenes, não é uma divagação idílica ou utópica. Nela pode estar implícita uma atitude crítica em relação ao panorama atual.

Testemunhamos hoje um empobrecimento geral da expressão estética - a “banalização do design”. Os critérios industriais preponderantes da máxima velocidade e do mínimo custo dificultaram a expressão genuína da criação e até passaram a tratá-la como essencialmente desnecessária. Acostumados a esse cenário desestimulante, alguns designers a quem apresentei o projeto - pessoas visualmente instruídas e com apuro estético - simplesmente não o entenderam. “Bem” - disseram eles - “qual é o problema se todo mundo usa Arial? É legível, é limpa, é funcional, é acessível, não é mesmo?”

É exatamente esse o problema.

Estão admitindo, com estranha naturalidade, que não pensaram no fato também estranho de que milhões de pessoas a cada dia, por sua vez, apenas seguem o rebanho e fazem o que todo mundo faz, sem qualquer reflexão sobre o que estão fazendo.

A tecnologia se espalhou, mas a cultura visual associada a ela, não. A complexa e obscura tecnologia tipográfica, disseminada pela computação, tornou-se acessível a qualquer um. O know-how do design tipográfico, porém, ficou para trás, confinado à academia. E ouço falar que há cursos de design de faculdades abandonando o estudo da tipografia.

Assim como as falsificações em massa de produtos de consumo satisfazem multidões de consumidores irreflexivos, uma imitação genérica de fonte monopoliza o espaço visual coletivo - avisos, folhetos, placas, painéis, anúncios, publicações, marcas, legendas de TV, luminosos, embalagens - em infinitas aplicações que têm em comum, além da fonte em si, a sua inadequação para esses usos.

Quando os criadores visuais versados na arte tipográfica não se importam, não questionam, limitam-se a sobreviver sem olhar o panorama de mediocridade ao redor, é mais do que chegada a hora de alguém disparar-lhes algumas perguntas incômodas.

2007-09-28

Arial Não - Parte 7

O desenvolvimento dos dois pesos básicos, Regular e Black, passou a ser feito em paralelo. O peso Bold será adicionado na etapa seguinte.

O nome foi mudado para Aerial, o que faz as fontes aparecerem antes de Arial no menu de seleção.



Mas ainda tem chão pela frente. É mais difícil do que parece eliminar algumas inconsistências que são próprias do design original da fonte. A mais notável delas é a largura de alguns caracteres em relação a outros. Por exemplo, a letra M é estreita demais e a G, muito larga. (Compare com Univers para entender melhor.) A fonte Black inteira é exageradamente estendida. Mas o pré-requisito fundamental nesse remix de Arial é que a métrica não mude. Assim, é preciso usar truques ópticos no desenho das letras para compensar.

Outro defeito é a largura acanhada do numeral 1, que em outras fontes modernas é compensada com uma serifa no pé. Mas a idéia até aqui é mudar somente detalhes de acabamento do tipo, não a estrutura, por isso não adicionarei elementos anatômicos que não fazem parte da concepção dos glifos. Assim, o 1 foi alargado, mas não ganhou um pé parecido com o da Franklin.

Update - Aerial já existe? Sem problema. O nome passa a ser Ariel. Fica valendo esse, até que se descubra que também já foi usado, então muda-se novamente, e assim por diante, até chegarmos no definitivo.

2007-09-27

Arial Não - Parte 6

O assunto hoje ainda é remix de fontes.

Quando eu trabalhava na redação da Conrad, desenhei diversas fontes para as revistas. Algumas delas eram completamente originais e outras eram remixes. Todas eram para uso exclusivo da editora e nunca saíram de dentro dela.

Apareceu então uma necessidade de criar um texto em Leetspeak, aquela maneira de escrever com letras trocadas. (Não confundir com o "miguxês", que é um fenômeno mais recente e não-nerd na origem.) Logo descobri que não existia fonte pronta para escrever em Leetspeak sem esforço! Que lacuna lamentável no repertório de inutilidades engraçadas da Internet!

Mãos à obra...

O resultado foi um infame remix de Helvetica, apelidado h4cK3®, nos pesos regular e bold. Extrapolei o briefing, criando caracteres absurdamente acentuados, como por exemplo 4 e @ com acentos e til substituindo á à â ä ã, e outras barbaridades do gênero.

Abaixo, uma amostra do resultado, feita em outubro de 2004, em duas variantes: só caixa baixa e só caixa alta. Espantosamente legível, ao se levar em conta o grau de modificação brutal sofrido pela fonte.



Esta fonte nunca foi distribuída publicamente.

2007-09-22

Arial Não - Parte 5

Supus que estava suficientemente claro, mas cabe repetir, para evitar polêmicas vazias. O nome "Arial Corrected" é uma provocação, acima de qualquer coisa. Evidentemente, funciona. Já está gerando buxixo, muito antes do que eu esperava. Mas fique claro: é um nome provisório, que só será usado na etapa de desenvolvimento e na divulgação da iniciativa. A fonte final não poderá ser chamada assim. É embaraçosamente óbvio que não dá para utilizar o nome Arial numa fonte derivada dela, seja de quem for que não atenda pelo nome AGFA Monotype.

Quanto ao direito de uso do design, as fontes finais não serão um clone direto de Arial, e sim um design novo, no qual nenhum caractere terá o mesmo desenho da Arial. De forma similar ao parentesco entre Arial e Helvetica. Ou entre Helvetica e as dezenas de outras fontes comerciais que você pode conhecer clicando no link de "similares" que fica no pé da página da Helvetica no Myfonts.com.

A quem vier com receios ou críticas, digo: atreva-se também, escolha uma fonte de que não gosta e ponha mãos à obra; aperfeiçoe, acrescente valor. Não se limite a usar a sua criatividade na marca daquele cliente ignorante que não compreende o valor do seu esforço. Faça algo que acrescente algo ao próprio portfólio pessoal, também. E espalhe para os outros usarem. Quebre a terrível tirania das fontes padrão do Windows. A beleza claudicante do mundo agradece.

Até dou uma sugestão para começar: Comic Sans. É seguro dizer que a maioria dos designers a acha horrível. Mas ela é extremamente popular. Ela deu origem a um clone melhorado da Apple, chamado Chalkboard, também muito ruim. É fácil imaginar maneiras de melhorar as duas. Basta pensar que os seus nomes são mentirosos. A primeira não lembra letra de gibi e a segunda não lembra escrita em quadro negro.

Taí o desafio. Topa?

Arial Não - Parte 4

A fonte regular da família Arial é a segunda mais usada na comunicação informal de massa - cartazes e avisos de parede, faixas de rua. A principal fonte usada é a Black. A razão disso parece ser uma percepção generalizada de que a Black é mais efetiva para chamar a atenção e preencher o espaço da página.

Assim, comecei a mexer na Arial a partir do peso Black. A fonte regular é mais fácil de editar, por exigir decisões mais simples a respeito da localização precisa dos chanfros nas hastes das letras.



O espécime acima ilustra os princípios gerais empregados na Arial Corrected. O primeiro princípio é a mudança geral nos chanfros nas hastes. Os chanfros da Arial são inclinados em diversos ângulos, buscando imitar os de tipos muito mais antigos que a Helvetica, como Akzidenz Grotesk e Franklin Gothic. Como Arial é originalmente um plágio de Helvetica, os chanfros inclinados servem para distinguir entre ambas. Normalmente passam despercebidos por leigos, mas estão lá para dar personalidade ao tipo.

Porém, Arial foi desenvolvida originalmente para funcionar em impressoras laser de 300dpi em corpos pequenos. Para compensar as condições desfavoráveis de impressão, ela ganhou chanfros muito inclinados, bem como compensações ópticas exageradas, que são bem visíveis nos cotovelos dos caracteres A M N R V W X Y e na parte oblíqua do numeral 1. A presença desses excessos é agravada na prática porque o uso leigo atual de Arial envolve, na imensa maioria dos casos, alguma deformação: as letras são violentamente esticadas e comprimidas, tendo como único critério o volume ocupado no layout pela linha de texto.

Então, uma versão revisada da Arial poderia abolir completamente os chanfros e ir um pouco além eliminando todas as compensações ópticas, que perdem sua função original e ainda ganham uma aparência horrível quando a letra é ampliada eletronicamente.

No caractere a baixo, o chanfro horizontal é alinhado aproximadamente com a porção média do original inclinado. Isso não vale como regra para toda a fonte, pois há letras como C e S, onde a proporção manda que o chanfro fique numa localização diferente, acima ou abaixo da original.

Uma compensação óptica exagerada no a baixo é a curva na base da haste vertical. Na fonte Corrected Black ela foi geometricamente simplificada. Estudo a possibilidade de eliminá-la completamente no peso regular (como é na Franklin Gothic).
A volta superior do olho também foi redesenhada. Na fonte original, ela não se une à haste vertical numa curva graciosa, como em Helvetica, nem em ângulo reto como em Univers. Fica num meio-termo indeciso, vago, parecendo torta nos corpos maiores. A solução que incorpora o mínimo possível de alteração é fazer a volta terminar em reta inclinada, como na Akzidenz Grotesk.

Abaixo, temos capturas da janela de métrica do Fontographer, mostrando o que acontece na fonte quando essas mudanças são aplicadas de maneira global. O r baixo foi completamente redesenhado, ficando com menor extensão para corrigir a tendência original de trombar na letra à sua direita. O t baixo passou a ter o chanfro vertical e ligeiramente rebaixado como em Helvetica.




Nas caixas altas, a mudança mais visível é o R reequilibrado com a perna reta, no estilo da Franklin Gothic. A perna original tem vários problemas: exagero na compensação óptica na junção com a volta superior; começa em curva e vira reta, com aspecto rústico demais em corpos grandes; é esteticamente incoerente com o restante da fonte; o ângulo da inclinação é exagerado; tende a grudar no A à sua direita. A perna reta resolve todas essas questões. A proporção resultante sugere a possibilidade de colocá-la um pouco mais para dentro do caractere.




Fora isso, o rabo em curva do Q foi substituído por outro similar ao da Helvetica. O K original é outro caractere com compensação óptica exagerada (junção das diagonais muito distante da haste vertical). O G original tem um problema de proporção na curva inferior e no posicionamento do gancho interno.

2007-09-20

Arial Não - Parte 3

O Cava (autor do Coxa Creme) me perguntou como é esse tal de projeto Arial Não. Como muitos outros, ele já sabia que esse nome é um bordão bem-humorado lançado em 1999 pelo Gustavo Piqueira, da Rex Design. Muitos outros vêm me perguntar sobre o assunto já meio atravessados, como se esperassem ouvir que eu roubei a idéia ou que não sei de nada. Pelo contrário, logo no começo do projeto eu o apresentei ao Gustavo, e ele não só endossou a idéia como forneceu materiais que serão integrados aos que estou preparando. O Cava não veio me perguntar atravessado porque me conhece bem e também conhece o Gustavo bem.

É um estudo em múltiplos meios simultâneos sobre a banalização da tipografia.

Tudo começou com o protesto bem-humorado das canecas e camisetas Arial Não da Rex. Quando resolvi escrever a tese sobre o assunto, não lembrei de imediato da Rex, mas lembrei o bordão.

O meu trabalho vai além de um protesto ou crítica. Conta como a tecnologia tornou a tipografia acessível a milhões e pessoas sem nenhuma formação em artes gráficas, uma atividade que antes era restrita a especialistas. Comenta os prós e contras dessa democratização do processo de criação gráfica. Descreve o imenso impacto que isso teve na comunicação de massa. Contém uma análise crítica detalhada da fonte Arial, a mais popular de todas. Faz uma análise da forma como Arial é usada na comunicação de rua e especula sobre as razões sua ubiquidade muito próxima do monopólio. Traz um ensaio fotográfico extenso documentando o uso cotidiano da fonte no ambiente urbano. Comenta a assimilação progressiva da Arial por designers profissionais. Expõe a analogia da popularização da Arial no Brasil com a do software de ilustração CorelDraw.

O alvo da tese pode parecer bem restrito: designers e estudantes de design. Mas o escopo foi ampliado para que possa se atrever a tentar ampliar a consciência tipográfica do público leigo. Pergunta frequente dos designers: como demonstrar de forma simples para um leigo que a rejeição de Arial em trabalhos profissionais tem embasamento funcional e estético, e não um simples capricho do diretor de arte? E mais: nas situações em que usar Arial é inevitável, como compor a fonte de maneira que ela fique mais aceitável ou diferente do usual?

A novidade no projeto é a Arial Corrected, a versão modificada com "aperfeiçoamentos" no design dos caracteres. O resultado lembra mais as concorrentes, como Helvetica e Univers, mas sem perder a alma da fonte original, já que as curvas das letras e o espaçamento permanecem os mesmos.

Arial Corrected é só um nome provisório. É provocativo e bacana, mas envolve uma marca comercial, portanto não poderá ser usado na versão final. Então, pensei em pedir sugestões de nomes para a criatura. Só que tem algumas exigências mínimas:

  • Tem que começar com "Ari" para ficar junto à Arial na lista alfabética de fontes.
  • Precisa ser curto.
  • Não valem palhaçadas básicas como "AriToledo" etc. Não precisa ser engraçadinho.
  • O nome tem de ser internacional. Esse troço vai correr mundo e é bom que seja fácil de ler ao menos em inglês.
  • Não pode ser similar a outras marcas comerciais. "Arisco", por exemplo, não serve.

    Depois de um tempo pesquisando, pensando e debatendo no chat, pensei no nome Ariana, do impressionante poema de Vinícius de Moraes:

    Foi então que eu compreendi que só em mim havia morte e que tudo estava profundamente vivo


    Opine.

    Update - Não sei como fui esquecer. O Tony de Marco já criou uma fonte chamada Ariana, e isso há mais de 10 anos.


    Assim, o nome final provisório escolhido passa a ser Aerial, sugestão do Helvécio (que não deixa de ser um nome bem a propósito também).
  • Ilustração



    Baseada numa idéia de 1997 do Tom B.

    Visite também o meu Flickr. Tem coisas lá que não coloco no blog nem no portfólio.

    Arial Não - Parte 2



    Prometido e cumprido. Eis as primeiras provas da Arial Corrected!

    Abaixo, um comparativo entre amostras das duas fontes:





    O que está diferente?
    Basicamente, alterei os detalhes mais desarmônicos do desenho vetorial dos caracteres, sem mexer na métrica da fonte para permitir a livre substituição de uma pela outra.
    Lista parcial das mudanças:
  • R com perna reta!
  • r não tende mais a trombar na letra à sua direita!
  • Todos os terminais das letras passam a ter chanfros rigidamente verticais ou horizontais, como em Helvetica, em vez de inclinados em ângulos variados.
  • Melhoria nas proporções internas de a, f, G, M, 5.
  • Eliminação da compensação óptica exagerada em caracteres com ângulos internos fechados, como A, N e Z.
  • Q com rabo reto.
  • 1 com diagonal reta.
  • X e x com menos contraste interno.
  • Ligaturas e melhoradas.
  • Mudança especifica na fonte Black: integração com o restante da família Arial Corrected (a Arial Black original fica de fora da família no menu de fontes).

    Update - Conforme der tempo, as mudanças serão repetidas nas Arial regular, itálica e bold, e depois a família será revisada em conjunto. O resultado final será um design completamente novo, não um mero retoque da Arial, e assim ganhará autonomia própria e denominação própria. Ao final do projeto, ficará disponível para download gratuito, assim como o arquivo fonte .fog, sob licença Creative Commons. Ou seja, se você for outro tipógrafo e estiver disposto a "melhorar" mais a fonte, fique à vontade.
    Arial Corrected é apenas um experimento público de design, sem fins lucrativos, e não tem absolutamente nenhuma pretensão de competir comercialmente com Arial, muito menos de ganhar versões OpenType com milhares de glifos, variação cirílica, grega etc.
  • 2007-09-19

    :-)

    Para fotógrafos (que usam Windows)

    PTLens, software que corrige as falhas comuns causadas pela lente: convergência, vinhetamento e aberração cromática.
    Pró: é grátis.
    Contra: não existe para Mac.

    2007-09-18

    A responsabilidade é sua

    As cores mutantes do metrô de SP

    O Rainer me mandou o link para um artigo de Joe Clark, jornalista e designer especializado em sinalização.
    O texto é um desabafo detalhado – e, em certos pontos, francamente raivoso – sobre a qualidade péssima da sinalização do metrô de Toronto, no Canadá. O sistema foi inaugurado nos anos 50 e a sinalização nunca foi consistente nem padronizada. A própria companhia de transportes deixou de lado o fato relevante de ter sido criada uma fonte tipográfica exclusiva para a sinalização original. Hoje, segundo o artigo, o metrô de Toronto exibe múltiplas sinalizações em linguagens visuais conflitantes e utilizando diversas fontes sem nenhum critério.

    Logo pensei num paralelo com o nosso jovem metrô paulistano, que não tem um problema de identidade visual tão acentuado, mas exibe sinais preocupantes. Toda vez que é inaugurada uma expansão de linha, você pode se preparar para descobrir uma nova idéia bizarra na sinalização. E se irritar com a falta de atualização na sinalização existente, também.


    Triste decadência de um belo logo

    O caso começa pelo próprio logo da companhia. Na minha opinião, o símbolo original do Metrô de São Paulo é um dos símbolos de transportes mais bonitos que há, ganhando de todos os outros que já vi (com exceção talvez apenas dos de Londres e Paris). O desenho faz um uso elegante do espaço negativo interno, de uma maneira que lembra um pouco a marca do Carrefour, que ora pode ser vista como um "c" ou como um par de setas. O símbolo do Metrô contém a essência do design moderno e é perfeitamente adequado à arquitetura despojada de concreto aparente que sempre caracterizou o sistema.

    Quando a empresa começou a operar, em 1968, a marca era formada do símbolo em azul acompanhado do nome (sem acento) em uma fonte clone de Helvetica Bold, preto, sobre fundo branco. Ou então, o símbolo branco sobre fundo azul. A primeira opção é a imagem da sobrecapa dos livros documentando o projeto original feito pelo consórcio HMD (Hochtief-Montreal-Deconsult). Os primeiros carros a prestar serviço, que ainda hoje circulam, trazem o símbolo na posição horizontal e na cor celeste.



    A bagunça começou com a inauguração do primeiro trecho da linha Leste Oeste (atual 3-Vermelha), em 1979. O símbolo começou a ser cada vez mais inserido em branco num quadrado azul, ou numa faixa horizontal azul, a exemplo das frentes dos novos carros dessa linha. Atualmente, existe uma versão adicional com o contorno externo vazado. Tenho visto aplicações informais dessa marca com um segundo contorno escuro por fora de tudo, obviamente um exagero. A contenção da seta dentro de um quadrado, embora já fosse prevista como opção no design original de 1968, dilui e empobrece a força original do símbolo.




    Cores das linhas: como simplificar complicando

    Pelos planos originais de 1968, cada linha teria uma cor característica: Jabaquara-Santana em azul, Vila Maria-Sé-Casa Verde em vermelho, a linha da Paulista em verde e a linha Sacomã-Luz-Butantã em amarelo. Descontando as mudanças de trajetórias nas linhas mais novas, as mesmas cores valem até hoje.
    A linha azul, nomeada inicialmente de Norte-Sul, abriu ao público em setembro de 1974. O primeiro trecho, Jabaquara-Vila Mariana, trazia uma sinalização em painéis de aço esmaltado nas plataformas e caixas backlit de acrílico nas outras áreas, formando faixas contínuas longas, sempre em duas camadas de cor: azul em cima e celeste embaixo, com a divisão na proporção de um terço da altura e o texto centralizado na camada de baixo pela altura de X da caixa baixa. Simples, elegante, moderno e engenhoso.



    Em 1978 foi inaugurada a estação Sé, que já tinha prontas as plataformas para a futura Linha Leste Oeste (note a inconsistência entre essa grafia com o uso do til no nome Norte-Sul). As plataformas das duas linhas traziam sinais feitos em um novo material: placa de fórmica durável, de acabamento semifosco, com discreta moldura em perfil de alumínio anodizado preto. A linha futura tinha faixas vermelhas em cima e laranja embaixo, formando uma harmonia visual com a primeira linha. A área neutra da estação, o mezanino, usava uma cor azul escura sólida, mais densa que o azul da linha.
    As primeiras estações da segunda linha mantiveram o padrão de material e cor. Mas algo de novo aconteceu entre as inaugurações de Bresser e Belém (1979 e 1981): passou a existir um fio branco divisório entre as duas cores da faixa. Embora fosse inconsistente com o resto do sistema, me pareceu que esse detalhe reforçava positivamente o visual das faixas.



    As estações da linha Leste Oeste construídas a partir daí mantiveram esse padrão, bem como as primeiras do chamado Ramal Paulista, depois Linha Paulista, finalmente Linha 2 - Verde. (Ué? Mas a linha 2 não deveria ser a segunda a ter sido construída, no caso, a Leste Oeste? Não, esta foi chamada de Linha 3 - Vermelha. Quinze anos depois, ainda não entendi essa mudança de ordem numérica. Mas alguma lógica há de existir. A Linha 5 - Lilás foi inaugurada antes da Linha 4 - Amarela, que está em construção.)
    Nos anos 90, as estações da Linha 1 - Azul, antiga Norte-Sul, tiveram a sinalização de plataforma repintada. As letras originais estavam encardidas e gastas, e as cores dos painéis, desbotadas. Curiosamente, usou-se uma fonte diferente da Helvetica Bold padrão. Não, não era Arial; é muito mais similar. A maior diferença está no olho da letra "a" minúscula, ou seja, praticamente nada.
    A maior mudança nas faixas foi o fundo sólido de apenas uma cor, mantendo o fio branco. Anunciava-se uma migração para um novo esquema de cores, no qual cada linha não seria mais representada pelo par de cores harmônicas, como azul/celeste e vermelho/laranja. Cada linha teria uma cor única, empobrecendo o visual, mas ficando coerente com os mapas e denominações oficiais. E abrindo oportunidades para colorir linhas futuras.



    Teria sido uma ótima idéia, se o Metrô tivesse trocado toda a sinalização de uma vez. Em vez disso, o que já estava feito na maioria das demais estações ficou igual até o dia de hoje. Na estação Sé foi colocada a sinalização mais moderna; na Linha 2 entre Paraíso e Clínicas e toda a parte oeste da Linha 3, persiste a de duas cores com faixa branca; na Bresser (recentemente renomeada Bresser-Mooca) há um exemplar desbotado pelo sol da versão original de duas cores sem o fio branco. Não dá para chamar de confuso, mas dá um ar de descaso.
    Mesmo o acabamento dos painéis varia: as novas estações da linha 2 apresentam as faixas dentro de suportes com grossas molduras de perfil de alumínio polido, que perturbam o visual. E a a linha 5 - Lilás tem painéis de superfície curva e refletiva, sem similar no resto do sistema.



    A simplificação do esquema de cores permitiu estender o sistema visual do Metrô às linhas da CPTM. A linha C (Marginal Pinheiros) ganhou uma sinalização idêntica à do Metrô, na cor celeste (exceto nas estações entre Pinheiros e Osasco, onde ainda há materiais nas cores originais da Fepasa: vermelho e preto). As linhas A e D (Luz-Jundiaí e Luz-Rio Grande da Serra, respectivamente) são marrom e bege. A linha B (Jandira, Carapicuíba etc.) é cinza. A cor laranja foi para a linha expressa da Zona Leste. A variante que passa por São Miguel e USP Leste recebeu um azul escuro, de tonalidade mais intensa que a da linha 1, mas difícil de distinguir. Nem sempre a tipografia foi bem executada: as estações de trens no ABC usam a Helvetica errada, a rara versão Medium em vez da normal Bold.
    Além da mistura de cores, surgiu uma bagunça tipográfica. Primeiramente, as estações novas da linha 1, entre Jardim São Paulo e Tucuruvi, bem como as da Linha 2 de Sumaré em diante, receberam o logo "Metropolitano" por cima do nome da estação. Um elemento estranho e mal situado. A adição desse logo foi claramente por marketing político. Tanto que não aparece nas estações mais novas.



    Igualmente por razões políticas foram as renomeações de estações, confundindo os usuários com novos nomes adicionados à frente dos antigos. Como exemplo eloquente, ao renomear-se a estação Tietê para Portuguesa-Tietê, somente os painéis estreitos que originalmente portavam as letras do nome Tietê foram alterados. Para que coubesse, o nome novo foi composto em fonte muito menor. O resultado é pouco legível e destoa de todo o resto da rede. Em termos de design, é um crime. Como se não bastasse o estádio da Portuguesa estar longe demais da estação.



    Falta conferir se os mesmos problemas de comunicação se repetem em Palmeiras-Barra Funda. Em tempo, o estádio Palestra Itália também fica a uma distância enorme da estação; é mais próximo da estação Água Branca da CPTM. E no entorno da estação Corinthians-Itaquera não há nada do Corinthians, exceto sonhos vagos de um estádio que já teve 30 anos para não ser construído.
    Mas a renomeação mais absurda há de ser a da estação Sumaré, à qual o ex-governador Alckmin (pelo que me consta, também responsável pelas homenagens a clubes de futebol) anexou "Santuário Nossa Sra. de Fátima". É irônica a impropriedade da alteração tipográfica, com o acréscimo em letra miúda e abreviado, como se o encarregado de mexer na sinalização sabotasse a mudança sutilmente. Os metroviários desconsideram o adendo na prática, também. E tome mais ironia: o ponto de referência geográfico mais próximo à estação não é a igreja católica, mas sim o Centro da Cultura Judaica.



    Meu prognóstico para a evolução da sinalização no Metrô e CPTM é pessimista. Mudanças perturbadoras, desnecessárias e cada vez mais frequentes convivem com a sinalização velha, que precisaria ser urgentemente atualizada em muitos pontos. Não apenas faixas coloridas de plataforma, mas os próprios mapas das linhas, que em alguns lugares são ainda os mesmos de 25 anos atrás. Conforme muda o governo estadual, novas bobagens são inventadas e implementadas de qualquer maneira, aparentemente por tecnocratas sem normas, planejamento nem assistência de designers. A história pregressa indica que o caos aumentará e ainda chegaremos a escrever manifestos irados como o do Joe Clark acerca de nosso próprio Metrô.

    Em tempo, eis a aparência de uma faixa da Linha Lilás.
    Difícil imaginar essa cor na estação Capão Redondo, mas é isso mesmo.



    2009 - Este artigo sofreu modificações, conforme algumas informações foram sendo checadas com maior precisão, particularmente o layout e cores exatos da sinalização. Em 2008 o governo, agora na mão de José Serra, mais uma vez mexeu nas convenções da CPTM e mudou a cor das linhas. Ficou assim:

  • Luz-Francisco Morato/Jundiaí = A-Marrom = 7-Rubi
  • Júlio Prestes-Amador Bueno/Itapevi = B-Cinza = 8-Diamante
  • Osasco-Grajaú = C-Celeste = 9-Esmeralda
  • Luz-Rio Grande da Serra = D-Bege = 10-Turquesa
  • Luz-Guaianazes/Estudantes = E-Laranja = 11-Coral
  • Brás-Calmon Viana = F-Azul = 12-Safira

    Agora não há mais linhas de Metrô e CPTM com cores repetidas. As linhas que seguem predominantemente entre norte e sul têm cores frias, e as que seguem predominantemente entre leste e oeste têm cores quentes. A numeração junta as linhas da CPTM e as do Metrô numa sequência unificada.
    No plano das obras, tudo parece ir bem. Além da construção da importantíssima linha 4-Amarela do Metrô, as linhas 12 e 9 tiveram sérias ampliações e modernizações. Falta agora atualizar a sinalização na CPTM, que tem linhas muito mais extensas que as do Metrô, particularmente as linhas 7, 8, 10 e 11, que ainda estão com os esquemas de cores antigos. Tenho vontade de poder confiar na competência dos responsáveis para executar essa tarefa clara e óbvia, mas está difícil. Se a troca da sinalização não for suficientemente rápida, o engenhoso novo esquema não ajudará em nada, só criará mais confusão.
    E alguns desvios da norma já apareceram, com Arial entrando no lugar de Helvetica.
  • 2007-09-16

    Arial Não! - Parte 1

    O projeto multimídia "Arial Não", que começou em 2004 e estava parado desde meu tempo na Conrad, voltou a andar.
    Este post foi enviado de um antigo Mac G3 com OS 9, que tem o Macromedia Fontographer instalado e rodando.
    O nome da fonte em desenvolvimento é Arial Corrected.
    Imagine o que isso significa...

    2007-09-14

    Um blog sobre design de jornais

    Só de olhar as figuras você aprende muito.

    Bikes, Parte 31: Dicionário do Montanhês

    Texto original por Jimmy Mac, da revista Mountain Bike Action.


     
    Dicionário do montanhês
    Ou o verdadeiro significado das expressões usadas pelos mountain bikers


    A pedalada começa às oito da manhã.
    Na verdade, deveria começar às 8:30, mas estou falando 8:00 para que você apareça às 8:15, conserte o vazamento do seu pneu e regule o seu freio dianteiro. A pedalada mesmo começa às 8:45.

    É um passeio de uma hora.
    Aos 45 minutos, ainda não vamos ter chegado à metade do percurso. Como até ali foi quase tudo descida, pode botar na conta mais umas duas horas de pedal.

    Tem uma subidinha.
    Tomara que você tenha um cassete com pinhão de 34 dentes. E se prepare, porque vai implorar por misericórdia antes da metade da escalada.

    Só mais uma subida.
    Pela sua expressão facial e respiração, posso ver que você está destruído. "Só mais uma subida" é para animá-lo a prosseguir lutando, mas ainda tem muitas subidas pela frente.

    Não é uma trilha técnica.
    Não vai precisar carregar a bike nas costas, mas se prepare para drops apavorantes,
    jardins de pedras superafiadas e pelo menos três travessias de rios com a água batendo no central.

    A trilha é ligeiramente técnica.
    Vá de caneleira e joelheira, leve o cartão do seguro-saúde na bolsa de hidratação, e use sapatilhas que sejam boas pra caminhar, porque com certeza você vai carregar a bike nas costas por um bom trecho.

    Esta parte não é difícil se você não abusar dos freios.
    Deixe que eu vá na frente, assim posso assistir à 'yard sale' (tradução: capote no qual as peças da bike, o ciclista e os acessórios se esparramam ao longo da trilha).

    As trilhas não estão bem demarcadas.
    Leve um kit de sobrevivência, porque a gente pode acabar passando a noite no mato, ou pelo menos até a equipe de resgate nos encontrar.

    Vamos voltar antes do sol se pôr.
    Avise a sua esposa e seus pais que não precisam esperar você para o jantar. Se a Lua não estiver na fase cheia, não esqueça de levar uma bateria carregada para o farol da bike.

    Vai ser um passeio divertido em grupo.
    Vai ser um passeio divertido em grupo até chegar no começo da subida, quando o líder vai dar aquela olhadinha pra trás e começar a socar os pedais em pé.

    Estamos quase chegando.
    Não estamos quase chegando de jeito nenhum, mas se eu contar a verdade, você vai parar, jogar a bike no chão e se recusar a falar comigo durante um mês.

    Vamos na trilha secreta que eu descobri.
    Grave o número do telefone do seu advogado no celular, porque podemos ser flagrados invadindo propriedade particular.

    Verifique a sua bike antes da gente sair.
    Na última vez que pegou essa trilha, o grupo sofreu três pneus furados, uma roda empenada e um quadro rachado.

    Você estreou bem nessa trilha.
    Eu me segurei pra não estourar de rir na hora que você rodou naquela parte técnica e também quando levou um tombo na travessia do córrego.

    Temos que repetir isso logo.
    Você foi um ótimo companheiro de pedal, a trilha foi maravilhosa e a gente precisa mesmo repetir isso o quanto antes.

    2007-09-12

    L´shanah tovah!

    2007-09-11

    Telas comédia - 2



    O espantoso é que os dois paus similares, de Windows e de Mac, ocorreram no mesmo dia.

    Telas comédia - 1

    Um blog de wallpapers

    Blogwaw

    Eduf

    Manda bem.

    2007-09-10

    Chegou o Zumo

    Novo site sobre gadgets, gizmos e tchotchkies, por Henrique Martin, Rafael Rigues e Mário Nagano.
    Confira.

    2007-09-07

    Apple: marketing cada vez mais ousado

    Na quarta-feira, como todo mundo que acessa este blog deve saber detalhadamente :-) a Apple renovou toda a linha de iPods, lançou o tão esperado modelo Touch e... derrubou brutalmente o preço do iPhone. O preço original do modelo top era de US$ 599; ele vinha sendo oferecido no Brasil (desbloqueado!) por algo em torno de R$ 2500.

    Agora, a Apple cortou o preço do produto em um terço da noite para o dia. O mesmo iPhone de antes custa US$ 399. Algo sem precedente, ainda mais em relação a um produto bem-sucedido, que deve vender mais de um milhão de unidades até o fim deste ano.

    O jornal USA Today perguntou a Jobs o que diria aos que acabaram de comprar um iPhone pelo preço antigo, e ele respondeu de forma insensível: "a vida no mundo da tecnologia é assim mesmo, paciência pra quem não teve sorte".

    Começou uma gritaria nos sites sobre o mundo das maçãs, e o fórum de consumidores do próprio site da Apple foi inundado de reclamações. A coisa ficou feia. Todo mundo revoltado com a redução de preço drástica, pedindo reembolso.

    Passa-se apenas mais um dia e Steve Jobs em pessoa publica no site da Apple o seguinte comunicado:

    A todos os compradores do iPhone

    Eu recebi centenas de emails de usuários do iPhone que ficaram irritados porque a Apple baixou o preço do iPhone em US$ 200 dois meses após ele ter sido colocado à venda. Depois de ler cada um desses emails, eu tenho algumas observações e conclusões.

    Primeiramente, eu tenho certeza de que tomamos a decisão correta ao baixar o preço do iPhone de 8GB de US$ 599 para US$ 399, e este é o momento certo para fazer isso. O iPhone é um produto inovador e temos a chance de ir com tudo neste fim de ano. O iPhone está muito adiante da concorrência e agora vai ser acessível para ainda mais consumidores. Reunir o máximo possível de consumidores sob a "tenda" do iPhone beneficia a Apple e também cada outro usuário do iPhone. Acreditamos firmemente que o preço de US$ 399 vai nos ajudar a conseguir exatamente isso no final do ano.

    Em segundo lugar, por trabalhar com tecnologia há mais de 30 anos eu posso atestar o fato de que a estrada da tecnologia é acidentada. Sempre há mudança e aperfeiçoamento, e sempre há alguém que compra um produto na véspera de uma redução de preço e perde o preço novo do sistema operacional ou seja o que for. Assim é a vida no caminho da tecnologia. Se você sempre esperar pelo próximo corte de preço ou pelo novo modelo, nunca vai comprar nenhum produto de tecnologia, porque sempre há algo melhor e mais barato no horizonte. A boa notícia é que se você comprar produtos de empresas que dão bom suporte, como a Apple tenta fazer, obterá anos de serviço útil e satisfatório à medida que modelos novos são lançados.

    Terceiro: mesmo que tomemos a decisão certa de baixar o preço do iPhone, e mesmo sendo o caminho da tecnologia acidentado, precisamos fazer um trabalho melhor para cuidar de nossos primeiros consumidores do iPhone ao mesmo tempo que vamos agressivamente buscar outros novos com um preço menor. Nossos clientes iniciais confiaram em nós, e nós devemos fazer jus a essa confiança em momentos como este.

    Assim sendo, nós decidimos oferecer a cada pessoa que adquiriu um iPhone da Apple ou da AT&T, e que não foi sujeita a nenhum desconto ou promoção, um crédito de US$ 100 na compra de qualquer produto em uma loja Apple de rua ou pela Internet. Os detalhes ainda estão sendo acertados e serão divulgados no site da Apple na semana que vem. Fique ligado.

    Queremos fazer a coisa certa para nossos valiosos compradores do iPhone. Pedimos desculpas por desapontar alguns de vocês e estamos fazendo o melhor possível para corresponder às suas elevadas expectativas da Apple.

    Steve Jobs
    CEO, Apple


    Pense comigo.

    Primeiro, a Apple lança o produto com um hype fabuloso e um preço salgado, mas que os entusiastas de primeira hora topam pagar. É um sucesso, mesmo sendo uma versão inicial e relativamente incompleta em recursos.

    Segundo, a Apple refresca a linha de iPods com um lindo modelo com tela de toque e Wi-Fi, que faz quase tudo que o iPhone faz, exceto chamadas telefônicas. Parece ser especialmente dirigido a quem não abre mão do seu N95.

    Terceiro: mata-se o iPhone com menos memória, que já não vendia tão bem quanto o top, e reduz-se brutalmente o preço do top.

    Vai me dizer que Steve Jobs, um dos caras mais inteligentes do mundo tecnológico, gênio do design e do marketing, não tinha previsto a possibilidade de revolta em massa dos consumidores do iPhone?

    A oferta dele para apaziguar as pessoas foi quase unanimente aprovada e aplaudida, pelo que verifiquei nos fóruns. A Apple não vai fazer reembolso nenhum. Pelo contrário, dará um crédito para compra de mais produtos Apple. Ou seja, a empresa se sai bem de qualquer jeito. As pessoas que antes estavam revoltadas agora ficam felizes, porque têm a sensação de que foram ouvidas!

    Um usuário de fórum nos EUA descreveu a situação de forma bem-humorada:

    Apple se sai dessa "ouvindo os clientes reclamões, digo, mal-acostumados". Grande jogada de relações públicas. Desmonta a retórica.

    E eles dão um crédito de US$ 100 para usar na loja. Ou seja, você leva o equivalente a US$ 50 de produtos que eles obtiveram por US$ 10. Boa jogada financeira.

    Daí, eles cobram as taxas de manuseio e envio sobre a sua aquisição de US$ 100 que não foi comprada na Target nem na Best Buy. Jogada financira melhor ainda. Lucro puro.

    Agora, você corre para comprar um SEGUNDO iPhone por US$ 400, porque isso abaixa ainda mais o preço total de dois telefones. Você dá o iPhone que já tinha para a sua mulher, que em primeiro lugar nunca perdoou você por ter abandonado o trabalho e feito fila durante três dias para pagar US$ 600 num telefone estúpido. (Afinal, ela tem um celular de US$ 29 que ela usa o tempo todo para contar a todo mundo como você é loser.) Ela enche o iPhone dela com fotos e vídeos de você desmaiado bêbado no chão do apartamento, com sobrancelhas falsas pintadas com canetinha pelos seus amigos losers.

    Todo mundo ganha. :-D :-D :-D


    Outro forista complementa em seguida:

    wow... BOOM!

    E para muitos compradores do iPhone: olá, iPod nano de US$ 49...


    Conclusão: a audácia marketeira de Jobs só aumenta.
    Quase me dá medo. Quase...


    Milagre no Brasil

    Ao mesmo tempo que acontecem essas coisas nos EUA, a Apple finalmente derruba os preços de vários produtos no Brasil. Agora temos iMacs (do modelo novo!) e MacBooks vendidos oficialmente por R$ 4 mil. Os cortes são capazes de matar o lucro dos tradicionais "muambeiros". A diretoria da filial local da Apple afirma que vai se dedicar mais ao usuário pessoa física.

    Isso, sim, é incrível.

    2007-09-04

    Blogs em evidência - Parte 2

    Foi surpreendentemente interessante a primeira voltinha pelo Bloglog, a coleção de blogs de celebridades da Globo.
    Várias personalidades ainda não sabem bem no que estão entrando, mas outros já chegaram bem à vontade, como se sempre tivessem escrito direto para o público na rede. Outros não parecem com pique para escrever uma coluna na Internet e talvez caiam fora. Vamos ver quem persevera com o tempo.
    O formato enxuto, sempre com um nome-logo e um bom retrato da pessoa no topo à esquerda, tem um quê de MySpace ou Orkut - ou seria isso piração minha?
    Eis uma sugestão legal para a Globo melhorar a apresentação dos blogs. Publicar cada post junto com a primeira meia dúzia de comentários. Isso já é bem comum por aí e ajuda a manter o blog com um aspecto "quente" durante os inevitáveis períodos em que o dono não vier postar nada.
    Outra observação é que os blogs não ficam bem em monitores grandes, pois o texto tende a ser miúdo e a coluna de texto espirra para baixo quando você pede para aumentar as fontes no Firefox. Nada que uma mexidinha no CSS não resolva.
    Também faltam permalinks e um sistema de busca embutido, mas isso também se pode arrumar com o tempo.

    PS - Não errei as contas. A parte 1 deste post é o texto logo abaixo que comenta o debate Estadão x blogueiros. Uma coisa que faltou comentar ali é o assunto do momento entre os blogueiros dedicados, a remuneração. Assim que estiver dentro do AdSense também, dou meu pitaco. ;-)

    2007-09-03

    Pássaros

    Peixes

    Falem mal, mas falem - Parte 2

    Hoje vi no Link do Estadão e em alguns blogs a maneira como o jornal cooptou e controlou totalmente o rumo da polêmica, promovendo um "debate" de cartas marcadíssimas.

    Numa manobra clássica, estreitou o campo de discussão até que só restassem como tema o próprio jornal, a controvérsia sobre a campanha do jornal, a relação entre os blogs e o jornal... enfim, unicamente o que interessava ao jornal, não aos blogs.

    Os blogueiros se prejudicaram por estar excessivamente preocupados em defender o próprio status público, tendo vestido a carapuça grosseira das propagandas e se sentindo desafiados a provar seu valor. Colocados na defensiva dessa maneira, entraram no debate previamente derrotados, sem iniciativa para argumentar e provocar.

    Alguns até tentaram ir armados para o confronto, mas não conseguiram atirar. Incrivelmente, saíram achando que foram "vitoriosos", iludidos pela impressão superficial de que (note as aspas) "forçaram" o jornal a "reconhecer" o "poder" dos blogs e que "convenceram" a agência de propaganda a "rever" o seu "erro"...

    Santa ingenuidade.

    Na verdade, o jornal fez apenas e exatamente o que pretendia fazer desde o princípio da iniciativa de marketing, e a turma da agência deve estar dando gargalhadas até agora pela ingenuidade dos blogueiros que se prestaram alegremente a auxiliar essa manobra.